Por Ícaro Carvalho
Para qualquer torcedor de
futebol, há momentos em que não se esquece, ou situações as quais ficam
grudadas no coração apaixonado. Títulos conquistados com quebra de jejum,
vitória suada em cima do rival na luta pelo rebaixamento, aquele empate suado
com gol de cabeça aos 47 do segundo tempo. Sem dúvida, são ocasiões que marcam
qualquer amante do jogo com a bola nos pés.
Outra dessas ocasiões é
ganhar ou adquirir a camisa do clube do coração.
Em tempos de interatividade
cibernética, velocidade tecnológica, hoje se pode comprar camisas e acessórios
dos times A,B pela internet. Não esqueçamos as lojas físicas, que também dispõe
do material.
Um belo dia, um torcedor
desses fanáticos, daqueles que perde o aniversário da avó, mas não perde o jogo
do seu time, resolveu comprar a primeira camisa. Já pai de duas filhas,
sentiu-se no dever de compra-la, já que seu velho não pudera comprar em sua
meninice, visto infância bastante precária e pobre.
O homem, um mecânico desses
bem saudosistas, ainda não dominava as máquinas robóticas e cheias de botões e
cores. Seguiu o passo a passo e finalmente deu certo. Pagamento aprovado.
“Falta pouco para você curtir o seu esporte”, assim dizia o site.
Um manto. Uma armadura. Uma
vestimenta digna de Dom Pedro I, para os mais devotos. Estava orgulhoso. A
camisa ainda chegaria pelos correios. Demoraria mais do que aquele bendito jogo
de alguns anos atrás que teimava em não terminar, a qual estava sem ganhar o
título há mais de duas décadas.
Sonhara com a camisa
chegando no dia daquele jogão que valeria 3 pontos
decisivos, para vesti-la, fazer sua mandinga, tomar sua cerveja e esbravejar em
silêncio, para não acordar as pequenas nem a patroa, que quando brava, era pior
que crise financeira no clube.
A camisa não chegou no dia
marcado pelo site. “Tudo bem, um leve atraso”. Pensou. Sabe ele que a
velocidade em que a vida está correndo não pode ser aplicada como regra.
Empresas são falhas, como nós humanos. Ainda mais as firmas de entrega.
Mais dias se passaram. Suava
frio. A concentração no trabalho era pífia, de modo a errar consertos fáceis
para aquele mecânico com mais de 20 anos de experiência. Pensou em entrar em
contato com a empresa. Não tinha conhecimento para tal. Nem amigos que o ajudassem.
Após 10 dias, e 3 jogos
assistindo com o corpo nu (era como se sentia sem estar trajado a rigor),
desistiu. Nem pensou no dinheiro perdido, mas na traição que o destino o
causara. Suas vestes não tinham sido entregues ao dono.
Uma semana depois, já
totalmente deslembrado da camisa, partiu para a jornada diária. Precisava
consertar fusíveis, motores e um caminhão parado em frente à oficina. Na pausa
para o almoço, foi em casa. Ao chegar, ouviu a mulher falar “tem um pacote que
chegou aí pra você”. Era a camisa. Que emoção. Abriu o pacote com calma, para
não feri-la, como o feto é retirado da mãe com cuidado e carinho, aqui cabe a
analogia. Vestiu-a. O tamanho estava perfeito.
Mal almoçou. Engoliu a
comida. Levou a camisa para o trabalho, parecia como o diploma de uma filha,
uma dádiva conquistada por ele. E era de fato. Trabalhou naquele dia olhando
para ela. Cem por cento de atenção.
No final da noite, fora
dormir. Agora tinha a consciência tranquila, leve. O sono demorou. Não por
ansiedade, mas pelos sonhos que viveria com aquela camisa. Os títulos, as idas
aos barzinhos, agora uniformizado, as visitas ao estádio. No outro dia teria
jogo do seu time. Estaria pronto, como um soldado ou um espartano. Devidamente trajado,
com a cerveja na mão e o grito na garganta. A vitória nem precisaria vir. Seu
sonho estava realizado. Assim como um fiel sente-se purificado com a hóstia,
sentia-se limpo agora, ao ter as vestes do seu amor de coração. Aquele mesmo
que fazia raivas e trazia alegrias às segundas feiras.
Aquele homem era, acima de
tudo, um torcedor.
Link da imagem: http://alvinegrodoparque.tumblr.com/page/12
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Que texto lindo! Me emocionei com ele! Tão poético! Amei...
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