sábado, 21 de novembro de 2015

Temos homens, precisamos de humanidade


Por Ícaro César Carvalho

Não é de hoje que o mundo nos assusta com tragédias e barbáries. A humanidade sempre foi ambiciosa, intolerante e em muitos casos, cheia de ódio. Para piorar a situação, as naturalizações de tais atos tornam a muitos em pessoas indiferentes, caladas e frias.

Quem acompanha o noticiário ou está sempre ligado nas principais redes sociais viu que duas grandes tragédias comoveram o mundo nessa primeira quinzena de novembro: o rompimento das barragens em Mariana, Minas Gerais, causando mortes e crimes ambientais com danos gravíssimos, e o morticínio na França, onde  o Estado Islâmico, grupo radical extremista, aplicou mais um ato de terrorismo ao invadir uma boate em Paris, deixando mortos e feridos, e espalhando terror e apreensão não só entre os franceses mas em todo o mundo.

As lástimas como sempre, chegam instantaneamente às redes sociais, comovendo usuários e levantando opiniões de milhões. Após os atentados na França as redes sociais foram tomadas por pessoas alterando suas fotos com um fundo da bandeira francesa. Um simples ato, que não julgo a importância nem sua relevância socialmente; entretanto, é um pequeno meio para se mostrar que a tragédia comove os usuários das redes, por menor que seja (sim, existem pessoas que participam por modismo, e em muitos casos nem sabe o que está fazendo).

As críticas vieram como a lama em Minas: em enxurradas. “Paga pau pra gringo”, “Temos uma tragédia aqui também, coloquem a bandeira de Mariana, Minas e afins”. Também houve críticas relativas ao que ocorreu ao Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, onde foram acesas luzes nas cores azul, branco e vermelho em apoio à França, país que não se “importou” com o incêndio na boate Kiss, no sul do país, isto segundo os próprios usuários. Sim. É isso mesmo. Vemos aqui pessoas discutindo sobre qual tragédia é mais importante ou qual delas merece a devida atenção do usuário do Facebook, Twitter ou Whatsapp.

Mais uma vez o homem se preocupa com o pífio, e deixa o mais importante de lado. Para muitos, colocar o avatar cromático francês já é a prova de que se ajudou de alguma forma, ou que é possível mostrar que há um humano por trás daquele perfil do Facebook.

Já dizia Gonzaguinha: “Eu fico com a pureza da resposta das crianças”. Eu também prefiro. É preferível ajudar da maneira que pode com pequenas doações ou orações ao Deus que lhe rege, as entidades que o representam, do que ser discutir nas redes sociais sobre qual acontecimento é mais relevante ou não. Oremos, rezemos ou prestemos solidariedade a quem quer que seja. Vítimas de tragédia ou não. A humanidade mais do que tudo precisa do próprio nome que a rege: humanidade.

Imagens:<http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/11/16/acir-gurgacz-presta-solidariedade-a-franca-e-pede-punicao-a-poluidores-do-rio-doce>




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A força de Mama África

Um relato da resistência e luta do negro


Por Luiz Henrique Gomes

Hoje é dia de lembrar a resistência negra, forjada a sangue e a dor. Dia de lembrar seus heróis e heroínas, seus martírios, sua luta e o seu grito que, apesar de violentas tentativas, não conseguiram conter.

Retirados de sua terra, arrastados como bichos e transportados junto aos ratos e às pestes, os negros não esqueceram seus deuses, seus reinos e a antiga vida deixada na África. Escravizados no novo continente, a lembrança de outra vida sempre permaneceu na memória e foi o combustível necessário para lutar contra o chicote e a miséria.

As mulheres negras, antigas rainhas e guerreiras africanas, eram consideradas mulas na América. Como todo negro, eram vistas como propriedade do senhor de engenho, dono do cafezal ou do algodoeiro, mas contavam com um tormento específico e maior: eram mulheres e, portanto, os senhores também as tomavam para sexo. Eram forçadas e depois abandonadas com suas crias, crianças sem pai que eram odiadas por todos e vista como fruto do pecado.

Resistir às vontades dos senhores era cruel, sem eufemismos. Convém lembrar o que aconteceu com a negra Patsey, relatado no livro Doze anos de escravidão, de Solomon Northup, quando tentou fugir do seu senhor: amarrada a um tronco de árvore, nua, a negra teve seu corpo agredido até o chicote arrancar toda a pele de suas costas para ter, logo depois, sal grosso jogado sobre a carne viva. Tudo na frente dos outros escravos para que servisse de lição.

O ódio, assim, foi se misturando ao sonho da liberdade. As fugas daquele inferno eram vistas pelos senhores como doença crônica de uma gente preguiçosa. Havia quem acreditasse que era sinônimo de ingratidão: afinal, o pão mofado, a cachaça e a farinha eram um ato de bondade!

E, na formação dos quilombos, ficou claro que já não eram o mesmo povo do continente africano. Os negros haviam se reinventado para sobreviver tamanha fora a rigidez da escravidão. As religiões, as danças e os hábitos sincréticos eram o resultado de seus gestos ancestrais e da necessidade de enganar o branco para continuar pedindo forças a Iemanjá, Iansã e Exu, sem receber castigo.

Aos olhos dos escravos, fugitivos ou não, esses quilombos eram verdadeiras fortalezas e reinos. Contavam com seus reis e rainhas, guerreiros, guerreiras e alquimistas; contavam
com seus festivais e seus banquetes. Representavam a África, a liberdade e a vida. Por isso cravavam com tanto afinco suas raízes nesse espaço – para resistir às tentativas de destruição.

Com o fim da escravidão a luta e a resistência negra não acabaram. O ódio contra a pele negra persistia e, por isso, não jamais baixaram a guarda. Aos trancos e barrancos ocuparam as cidades e mostravam à força bruta sua capacidade de construção, deixando a marca da África no continente americano de cima a baixo.

E, que fique bem claro: até os dias atuais, o racismo continua a existir. Os casos da atriz Taís Araújo, do goleiro Aranha e da jornalista Maju são retratos disso, mas são os únicos que tiveram repercussão midiática no último ano. No entanto, o que aconteceu com a negra Patsey, por exemplo, persiste até os dias de hoje: basta olhar o mapa da violência divulgado recentemente para ver que, aqui no Rio Grande do Norte, a violência contra a mulher negra cresceu mais de 200%, nos últimos 10 anos.

Ainda são vistas como propriedades, como mulheres que só servem para a reprodução. Seus filhos continuam sem pai, continuam sendo fruto do pecado e odiado por todos; são os mais vulneráveis a morte, acusados de não terem mérito para conquistar alguma coisa.

Por isso, hoje, dia da consciência negra, é dia de saudar e lembrar toda a caminhada de vitórias e derrotas do povo negro para não esquecer que o sofrimento ainda está marcado na pele; que todo avanço foi fruto de muita luta e resistência, e não é tolerável retroceder um só passo.

O racismo precisa ser combatido até que a liberdade seja alcançada. E isso só será possível quando a consciência for negra todos os dias.


Resistência negra norte-americana. Fonte: arte.tv