sexta-feira, 27 de maio de 2016

A cultura do Estupro

Por Ana Flávia de Melo

Sexta-feira, 20 de maio de 2016. Uma jovem de 16 anos vai a um baile se divertir com as amigas. Nessa mesma festa é sequestrada, e logo após estuprada coletivamente por 33 homens. O vídeo da violência foi postado no twitter, na conta de um dos criminosos. Nele, os violentadores tiravam sarro da garota desmaiada, mostravam-na completamente dopada, nua e machucada. "Engravidou de mais de 30", disse um deles no vídeo.

A postagem gerou uma comoção nacional na internet. Números, sites, emails, qualquer plataforma de denúncia foi utilizada para tentar divulgar o crime e denunciá-lo à polícia. Uma hashtag foi criada nas redes sociais para dar apoio (#QueroUmDiaSemEstupro). Ao mesmo tempo em que milhares de pessoas se viam chocadas e aterrorizadas diante de tanta monstruosidade, outros somente riam, tiravam onda, satirizavam e culpavam a garota pela violência cometida. Os próprios estupradores comentavam em suas redes sociais: "Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu kkk?"

Ontem, 26 de maio de 2016, a jovem foi levada ao hospital para fazer exames. Foi achada essa segunda-feira, 23, depois do crime, em Praça Seca, zona oeste do Rio de Janeiro. Alguns dos criminosos foram presos e estão sob custódia enquanto o resto das investigações ocorrem. Ontem, a Ouvidoria do RJ recebeu mais de 800 denúncias contra o caso. A família da vítima se declarou em choque. 

Por mais que o caso tenha sido horrendo e desumano, uma quantidade exuberante de pessoas agiu como se fosse algo rotineiro. Não há uma preocupação, não há uma mobilização significativa. Passa como se fosse mais uma notícia corriqueira. Quando não, vira motivo de piada. Isso nos traz ao ciclo da cultura do estupro — a vítima é atacada e violentada, então ela denuncia, é culpabilizada pelo ato e tudo volta ao normal até que aconteça novamente e ocorram as mesmas coisas. 

São os mesmos argumentos de sempre: "Olha a roupa que você vestia", "Por que você estava andando sozinha?", "Se não tivesse bebido...", "Foi dar cabimento, aí já viu", "Se você tivesse ficado em casa nada disso teria acontecido", "Ah, ela é uma prostitua, estava pedindo".  A vítima, a mulher, é humilhada, questionada e diminuída. Seus argumentos, sua dor, nada disso consegue convencer os outros. A culpa é dela, homens são animais irracionais e vivem por seus instintos, ponto final. 

Aqueles que enchem a boca e dizem que não são machistas, que não aceitam o machismo, dizem por aí que mulher não pode sair sozinha. Que isso ou aquilo não é "coisa de mulher". Perguntam se a amiga já foi "lavar a louça". Ou dizem coisas como: "Isso é falta de rola". Quando questionados ou repreendidos sobre suas "brincadeiras" soltam: "Você não sabe brincar".

Uma verdade para você, querido amigo(a) não-machista: você é machista sim, e suas brincadeiras mantêm esse ciclo vicioso que você tanto diz que não faz parte.

Os casos de violência contra a mulher são frequentes, muitos deles bizarros e chocantes, mas depois de um dia somem da mídia. Governantes, que tanto prometem dar "futuro" ao país, promovem projetos de lei que impedem e burocratizam cada vez mais o alcance das vítimas à justiça. Temos um desses projetos correndo pelo plenário, esperando pela votação, cujo objetivo é penalizar quem induzir qualquer mulher ao aborto, inclusive aquelas grávidas por causa de estupro. A clara desigualdade, o feminicídio, a violência e as questões de gênero são minimizadas e criminalizadas. Tá bom do jeito que está, não é?

Para aumentar ainda mais os casos de normatização e relativização, o nosso novo Ministro da Educação, Mendonça Filho, recebeu Alexandre Frota ontem, 25 de maio, para uma reunião onde discutiram medidas educativas. Alexandre Frota, que nada tem de educador ou qualquer coisa do tipo, assumiu um estupro a uma mãe de santo na TV um ano atrás. A plateia e riu e aplaudiu; o Ministério da Educação, pelo visto, também. 

Qualquer coisa que envolva a mulher é de menos importância, ninguém divulga, ninguém se preocupa em ir mais a fundo. Num país onde um filho bastardo de um jogado de futebol é mais importante do que a morte por esquartejamento de adolescentes após serem violentadas, acontecimentos como esse se tornam batidos e até mesmo sem graça. Se as feministas sem revoltam é manha, é frescura, é falta de "casa para arrumar". 

Temos de nos preocupar com isso. Centenas de mulheres todos os dias são violentadas e assediadas nas cidades brasileiras por pessoas estranhas, por conhecidos, por namorados, por amigos da família. Elas são alvo de barbaridades, violência psicológica e física. O trauma as carrega para onde elas vão. Muitas, novinhas, crianças com poucos anos de idade, não sabem nem que estão sendo assediadas sexualmente. No futuro, quando elas lembram, passam a entender e conviver com o choque do que as aconteceu.  Numa declaração anônima à hashtag levantada, uma vítima conta:

"Eu estava tomando banho de piscina, minha mãe a poucos metros, conversando com outras pessoas. Então esse “amigo” se aproximou de mim. Chegou e me tocou. De início, eu não entendi. Achei que ele estava querendo chamar minha atenção, que queria me dizer alguma coisa. Eu era inocente. 'O que é?!',  eu perguntava. 'Shhhh!', ele queria que eu ficasse quietinha. Então ele colocou a mão por dentro da minha roupa de banho. Começou a me estimular. Queria me masturbar. Eu não entendia o que era aquilo, mas senti vontade de chorar. Aquele era meu corpo, ninguém podia tocar ali."

Nós, mulheres, desde pequenas somos ensinadas a como nos comportar, o que vestir, como agir, o que dizer, o que não dizer. As mulheres são moldadas dentro de uma caixa de boneca  e se elas saírem são castigadas. Os castigos são violentos e aprovados pela sociedade. A mulher que decidir não pertencer a esse grupo de bonecas de plástico estará fadada à balburdia. 

Em contrapartida, os homens são ensinados a namorar, beijar, "pegar" quantas quiserem, dar apelidos "fofinhos" e "amigáveis" às mulheres, a beber, a coçar o saco e mandar a mãe fazer a comida. O respeito ao sexo oposto passa longe, e eles se vêem repetindo os atos dos pais, dos avós e dos tios na rua: gritam por mulheres nas calçadas, buzinam, falam coisas grotescas, passam a mão em partes íntimas. E eles sabem que jamais serão culpabilizados. A mulher ganhará a culpa, porque, na real, ele só estava sendo um homem, não é mesmo?


É por isso que os movimentos pró igualdade de gênero existem. Não queremos privilégios — queremos respeito. Queremos poder sair nas ruas sem ouvir coisas desagradáveis; queremos passar por lugares cheio de homens e não sermos seguidas por olhos famintos; queremos ter a liberdade de poder escolher fazer o que queremos, seja sendo dona de casa, seja trabalhando como striper, seja simplesmente não querendo seguir as regras impostas; queremos beijar quantos homens ou mulheres nos der vontade sem sermos taxadas de putas, vagabundas ou prostitutas. Queremos ser tão vivas e poder tanto quanto os homens. 

Não são privilégios, são direitos. 

Temos de parar de segregar a sociedade. Não existe isso de um sexo pode e outro não pode. Todos nós, independente do biológico, somos humanos. O respeito deve ser mútuo. Se o que mais nos diferencia dos outros animais é a nossa capacidade de raciocínio, por que não a usamos? Não há explicação racional para os atos. 

De fato, nós somos seres sexuais. Convivemos todos os dias com apologias, fotos, músicas, namoros, pessoas. A atração é algo do ser humano, mas a barbárie não. Independente de quantos hormônios estejam em ação por nossos corpos, nossas ações não são controladas por eles. Não são eles que nos fazem agir, é o nosso cérebro. O ato de assediar alguém não é instintivo, é proposital. Se faz porque quer, porque gosta de ver o desconforto, porque foi ensinado que agir assim é aceitável. 

Mas não é. E não podemos continuar relativizando. O feminismo é repudiado, mas não será calado. Enquanto houverem mulheres sofrendo violência, seja doméstica, moral ou sexual, nós não pararemos. Enquanto a desigualdade de gênero existir, nós estaremos lutando por nossos direitos. 

Só cabe a você escolher de qual lado vai ficar.




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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vietnã: A guerra pela sobrevivência na favela

Por Isabela Maia

Após anos a fio, o Vietnã conseguiu vencer a superpotência capitalista. Mas a guerra não acabou.

Milhares de quilômetros distante do sudeste asiático, onde ocorreu a histórica guerra, outro Vietnã trava uma luta contra o capitalismo e todos os seus valores e, contra todas as expectativas, seus soldados também estão vencendo. Isso porque, ao contrário da maioria dos indivíduos, eles conseguiram encontrar significado nas minúcias da vida, conseguiram ser felizes apesar de tudo.
Era uma manhã ensolarada, úmida, e o céu estava bem claro, mas para os mais experientes ele anunciava chuva. Alheia à qualquer condição climática, a favela do Vietnã erguia-se imponente por entre dunas e muita poeira. É tão pequenininha, que se você piscar ao passar por ela, ao abrir os olhos já estará longe. 
Favela é uma denominação forte, muitos dos próprios moradores se recusam a utilizá-la. No passado talvez tenha sido mesmo, naquele tempo remoto, quase 50 anos atrás, mais, menos, quem sabe? Só se sabe que as casas eram de palha e madeira roubada.
As casas se encontram apenas de um dos lados da estrada e vão subindo as dunas até onde a vista alcança. Do outro lado, cercas de arame delimitam uma área que não lhes pertence e da qual mantém a maior distância possível. É o primeiro sinal da segregação que separa aquela gente do resto do mundo.
Hoje, com a maioria das casas de alvenaria, talvez favela seja um nome inadequado para a pequena comunidade localizada na Estrada de Alcaçuz, ou Rua da Esperança. É o que seus moradores pensam, mas não as prefeituras e todos os demais. Não importa, eles gostam de morar lá de todo jeito. É um lugar calmo, tranquilo... Mas cheio de poeira!

A SINA DELA É VIGIAR

Dona Edilene, 35 anos, é, provavelmente, a mulher mais cidadã e consciente de suas responsabilidades que aquela comunidade já teve o prazer de conhecer. Ela é assim; determinada. Já trabalhou durante 11 anos como doméstica, mas está desempregada há dois meses e hoje é do lar. Dona de uma das primeiras casas de alvenaria do local, viveu lá sua vida toda. Lembra-se bem do passado: “Antes era tudo barraco. Fazia tudo de tábua e palha que a gente pegava por aí e não tinha energia não, a gente tinha que roubar, fazer gambiarra mesmo”. Ela está há 15 anos em sua casa de tijolos.
Sua pouca altura, cerca de 1,60, não a deixa se intimidar e está sempre disposta a denunciar todos os problemas que conseguir identificar em seu lar e nas proximidades. É como uma leoa, que cuida do seu bando acima de tudo, não deixando nenhuma hiena se aproximar para tirar proveito daquilo que já conquistou.
Ela veste uma blusa de algodão vermelha, com três botões vermelho-claros na gola V, um short jeans claro e está descalça. Enquanto fala, sua voz expressa o descontentamento que sente com a falta de medidas da prefeitura para com sua comunidade. “Eles fingem que a gente nem existe”. Para tudo, médicos, escola, transporte, precisam recorrer à prefeitura da cidade vizinha. Mas ela não deixa isso passar.
Como se para comprovar o seu poder de observação e a eficácia de seu trabalho de sentinela, logo começa a listar todos os problemas da comunidade e a dizer como já agiu para acabar com eles. O principal problema é a poeira. 
Muitas empresas de turismo realizam trilhas de quadricículo e passam bem por aquela rua, além de todos os outros carros e motos de pessoas que transitam pela região ou se dirigem para as lagoas próximas à favela. A poeira é insuportável! Ela e a família ficam gripados com frequência, pois não têm como se proteger. Mas isso não é o pior, nem de longe: o dinheiro para o asfaltamento da rua já foi liberado há muito tempo, entretanto, não se sabe mais dele. Assim, eles continuam sofrendo com a poeira e com as doenças respiratórias constantes. 
Contudo, a poeira não é a única responsável por esses problemas: “Tem um vizinho aqui que quase todo dia faz cavoeira, aí o cheiro de fumaça fica entrando em casa e não posso fazer nada”. Nesse caso, infelizmente, a única coisa que pode fazer é aguardar o cheiro passar, pois reclamar já não adianta. Esses momentos são de grande desespero, pois um de seus filhos nasceu com sopro cardíaco, e é o mais afetado pela qualidade inadequada do ar. Não há o que fazer.
Ela lamenta muito ser a única da comunidade com garra suficiente para enfrentar os empecilhos da vida. Quem sabe se eles se unissem mudanças significativas não seriam possíveis? Bom, até que este dia chegue, e não importa se não chegar, vai continuar cumprindo seu papel de cidadã, disposta a fazer de tudo pela melhoria de sua qualidade de vida. Tanto ela procura fazer, que muitas vezes já chegou a contatar empresas de televisão da cidade para contar o que se passava por lá. Não diz se já chegaram a apurar os fatos na comunidade, mas enfatiza que ligará quantas vezes for preciso para que todos fiquem cientes das injustiças que a acometem.
De repente, seus filhos começam a se aproximar. Ela tem cinco, mas apenas três deles estão à vista. Eles ficam por perto, observando a conversa e, de vez em quando, opinando. Aprenderam a denunciar com a mãe e com certeza carregarão sua mesma sina no futuro: vigiar. O mais velho, Luiz Fernando, já mostra claros sinais de que irá seguir os passos da mãe, pois diversas vezes interrompe, conta com suas palavras o que vê acontecendo por lá.
Edilene odeia ter que engolir sapos, mas há momentos em que é necessário, todavia, ainda há muitos outros problemas para denunciar. Sem se deter um instante, logo mudou de assunto e trouxe à tona um problema seríssimo que acomete a comunidade: a cidade de Parnamirim está usando aquele local como lixão! Ao que parece, o lixão da cidade foi fechado, e agora, de segunda a sexta, comitivas de até 30 caçambas passam pela ruazinha apertada e depositam os dejetos alheios ali mesmo. “Não pode construir nessa área, aí eles pegaram e transformaram em lixão”. O IBAMA visita o local todos os anos, contudo suas medidas, desconhecidas pela sentinela, ainda não trouxeram nenhum efeito significativo.
E essa não foi a primeira vez que a comunidade teve problemas com lixo. Certa vez, eles ficaram durante um ano sem serviço algum de coleta de lixo, sendo obrigados a depositar tudo no terreno do lado, um reino gigante, perto do qual a comunidade parecia insignificante; um reino que não tinha muros altos de pedra e uma ponte levadiça para protegê-lo, era só uma porteira. E mesmo assim, o limite é extremamente respeitado. Isso porque, hoje, ele pertence à prefeitura de Parnamirim.
Os paradoxos com os quais convivem os moradores da comunidade do Vietnã são, no mínimo, intrigantes. Apesar de grande parte de suas mazelas derivarem de injustiças cometidas contra eles pela prefeitura dessa cidade vizinha, ela também é responsável por lhes prover assistência, quando necessário, uma vez que sua própria cidade a renega. Eles não parecem existir para Edilene, mas seu filho Luiz dá sinais de perceber que algo nessa situação não está certo, pois para ele, qualquer menção à cidade vizinha gera uma cara de desgosto e o faz cruzar os braços com mais força.
O menino faz o sétimo ano em uma escola próxima. Apesar de os ônibus normais passarem apenas 3 vezes ao dia, o escolar passa com regularidade, ou quase: “Quando chove e a rua fica esburacada ele não vem”. Seguindo o exemplo da mãe, também começa a fazer suas próprias denúncias, e se mostra especialmente desgostoso com a proibição da prefeitura de Parnamirim de que entrem no terreno ao lado. Lá, ele e seus amigos costumavam jogar bola, correr, brincar, desfrutar de uma infância com aventuras inimagináveis para a maioria. Hoje, ainda podem correr às lagoas próximas para um pouco de diversão. Pegam caixas cheias de cupins e jogam na água, logo chegam montes de peixes para pegarem.


ALMAS COMEDIDAS

Marcilene, 40 anos, e Erika, 34, são o que se pode chamar de moradoras típicas da favela do Vietnã. São donas de casa, reservadas, envelhecidas pela poeira do tempo, que corre ligeira por ali. Na sociedade matriarcal que a comunidade se mostrou ser, elas são as chefes de seu antro familiar e, como todo líder de matilha, se mostram dispostas a defender com ferocidade o que lhes pertence. Ambas atenderam à porta de vestido de pano, estampado, acima dos joelhos, lá pelo meio das coxas, com expressão desconfiada. Mas possuem boas maneiras e sobriedade.
Dona Marcilene mora na comunidade há mais de vinte anos, é mãe de três filhos, mas apenas um deles frequenta a escola. Seus cabelos, outrora negros, apresentam-se salpicados pelas areias alvas da ampulheta suprema. Tem modos discretos e não parece disposta a se soltar. Seria um ultraje.
Mal fala, afinal. Reclama um pouco da segurança e dos correios. É preciso ir até Búzios para ter acesso à correspondência! Fora isso, o cotidiano é normal.
Em determinado momento um homem montado em uma motocicleta, acima dos 40 anos e também do peso ideal, para. Leva uma cesta na garupa de sua moto e oferece seu conteúdo à dona de casa: “Tapioca, peixe fresco, atum...”. Marcilene recusa.
Ao lado de sua casa há outra, bem grande em comparação com as demais. Ela é protegida por uma parede baixa e um portão com grades de ferro, que permitem ver o interior do local. Há um espaço para estacionamento e uma varanda larga. A frente da casa, uma varanda se encontra repleta de roupas secando no varal, diversas bermudas infantis se destacam. Um cachorro descansa próximo ao portão. Um balde transborda embaixo de uma torneira que jorra água sem parar. Não há ninguém em casa.
A dona de casa Erika teve sua juventude desgastada pelas dificuldades da vida, e hoje carrega como última penitência as marcas do que passou impressas em seu rosto. Como o membro alfa do grupo que chefia, afasta-se  da comoção que ocorre dentro de casa para atender a quem perturba a paz de seu lar.
Hoje é dia de receber visitas. Seus primos e os filhos deles vieram passar o final de semana em sua casa, está uma loucura. Mas geralmente são só ela, o marido e a filha. Ela mora na comunidade há 5 anos; antes era apenas um quartinho, mas então conseguiu comprar aquela casa. Adora morar naquele lugar. Adora! E o diz com tanto fervor que é capaz de contagiar o mais indiferente ser das redondezas. É um lugar tão bom, calmo, maravilhoso! E ainda é perto de lagoas e praias para o lazer de todos.

As crianças, quando não estão na rua brincando, só tem esses lugares para recorrer como espaços de diversão, e não poderia haver melhor. Com suas águas límpidas, as lagoas resplandecem à luz do sol. E a praia, quase deserta, pois poucos a conhecem, é o melhor lugar para passar uma tarde boa e muito tranquila.


Sua vida é dedicada à sua família, cuidar deles é a sua profissão. Enquanto explica com ternura suas responsabilidades de mãe, de líder, uma menina bem pequena, que chega tropeçando a cada pequeno intervalo de passos e tem uma chupeta azul bem presa entre seus lábios, começa a bater nas pernas de Erika com um controle remoto, utilizando, aparentemente, o máximo de força que detém. “Calma, já já mamãe vai lá colocar a sua Peppa”, ela responde com paciência.
Sem se perder em sua fala, continua, mas muda de assunto, quer fazer suas próprias denúncias agora. A segurança, em sua opinião, é o segundo pior problema, a poeira está sempre em primeiro lugar. “Morre um aqui e a polícia não chega”, enfatiza. O carro de polícia só passa uma vez por ano e o resto das rondas são privadas, para os donos de mercearia e amigos das redondezas. 
Também está ciente do lixão que Parnamirim fez do seu lar, e diz que isso já é de muito tempo, no entanto, infelizmente, não tem o que fazer para impedir que suas terras sejam invadidas pela sujeira de desconhecidos. “O jeito é pedir a Deus que use os políticos para melhorar”. Sua fé religiosa não é refletida na política. Não acredita que eles sejam capazes de mudar, de fazer o bem a população por si sós. Então pede a Deus.
Um cachorro sai de dentro da casa e se deita em um canto da varandinha, próximo a uma cadeira de balanço feita de cordões de plástico transparente e verde. Ela comenta que ele só fica aí dormindo, mas às vezes sai e vai passear pelas redondezas. Não se incomoda, sabe que ele vai voltar, além do mais, profetiza: “Melhor que tá preso. Ninguém quer tá preso”. O peso de suas palavras não foi medido, mas tem um significado pleno.
Pleno porque reflete a realidade: nenhuma pessoa quer ter detida sua liberdade. Mas é assim que muitos acreditam que devam viver os habitantes de favela, pois o preconceito que enfrentam é descomunal; apesar das casas de alvenaria.

UM CASTELO DE CONTO DE FADAS



Chegou a hora de subir o morro e conhecer as casas mais novas da comunidade do Vietnã. A ladeira é bem estreita e escondida entre duas esquinas; íngreme e toda arenosa. Não é um caminho fácil de trilhar, contudo, ao final de grandes jornadas há sempre grande recompensa. Havia muito mais do que isso acima daquela gigantesca duna.
Dona Maria Gabriela é uma senhora radiante e muito educada. Muito satisfeita com uma quebra em sua rotina, que a prende o dia inteiro sentada em uma cadeira de balanço na varanda, é a primeira pessoa que me convida para entrar. 
Ela coloca a cabeça para dentro do portal da casa e chama por sua filha Valdelúcia, que vem vestida em um pijama branco com moranguinhos bem vermelhos estampados. Por enquanto estão só as duas em casa.
Valdelúcia é morena, seus cabelos são castanhos, longos e desajeitados. Um piercing cintila na pontinha do nariz. Ela fica encostada na soleira da porta por um tempo, depois vai sentar no braço de um sofá do lado de dentro da casa. 
Sentamos, eu e dona Maria, em sua varandinha, onde há 4 cadeiras, cada uma mais diferente da outra. No pé da escadinha que leva à essa área há um pequeno caldeirão acima de uma lata de tinta grande e retangular, na base da qual estão depositados carvões em brasa. Ferve feijão branco dentro dela e a fumaça corre na direção de dona Maria. Eu a ajudo em sua mudança de lugar.
Essa senhora tão amistosa mora com suas duas filhas, Valdelúcia e Maria Lúcia, e três netos, Richardson, Igor e Luanderson. O cantinho custou apenas 3 mil reais, mas no começo era apenas um quartinho, um banheiro e a cozinha, ela quem ampliou e construiu todo o resto: mais quartos, uma área de serviço, quintal, varanda. 
Elas gostam muito de morar lá, é tranquilo, não há muito o que fazer, todavia, vive-se muito bem. Ou quase. Dona Maria é acometida por desgraças em sua saúde: tem diabetes e catarata, praticamente não enxerga. Ela não sabia que o SUS cobria os gastos da cirurgia da qual necessita.

A renda da família consiste basicamente na aposentadoria de dona Maria e na pensão que recebe da aposentadoria de seu falecido marido. Valdelúcia conta que só trabalha às vezes, na maioria dos dias também fica em casa o dia inteiro. 
Enquanto conversamos, ela ri, diverte-se, conta seus casos, misturando minhas perguntas com suas histórias. Em determinado momento, sua expressão fica séria e ela diz: “Mas eu quero saber mesmo é se você come mangaba!”. Acontece que essa senhorinha vende a mangaba que cresce em seu jardim. E não cresce só mangada, tem árvore de tudo o que é coisa naquele pedacinho de terra arenoso. Tem limão, tamarindo, manga.
De repente, ela deixa sua fala no ar e sussurra: “Vendiam droga aqui perto, mas bem quando a gente chegou a polícia prendeu”. E logo em seguida muda de assunto, começa a descrever como fez para transformar o pequeno quartinho na fortaleza que é hoje em dia. Anima-se: “Entre! Venha conhecer!”, e dispara porta a dentro, com inacreditável vigor. Peço licença à Valdelúcia, ainda sentada no braço do sofá, e acompanho dona Maria pela casa.
Logo na entrada há uma pequena sala de estar, com dois sofás cobertos com capas pretas estampadas com grandes flores vermelhas e franjas na parte dos pés. Bem atrás do que Valdelúcia estava sentada há um portal (logo percebi que quase não há portas naquela casa) que dá para um quartinho mobiliado com uma única cama de solteiro, forrada com um lençol rosa florido. No final da salinha há outro portal para outro quarto, dessa vez com uma cama de casal. O sofá que está de frente para a porta serve de divisória para a cozinha, repleta de armários verdes e brancos, muito organizados e perceptivelmente novos. Ao lado deles há uma pequena geladeira.
À esquerda da cozinha há uma porta, que dá para uma área de serviço, e também um portal, que dá para um banheiro. Seguimos na direção da área de serviço, repleta das mais variadas coisas: uma mesa de madeira rente à porta, onde estão empilhadas as mais diversas coisas, desde um pote de plástico transparente com biscoitos a panelas cobertas com panos, uma delas estava coberta com uma camisa infantil do Ben 10; de frente para a mesa, uma grade bancada cobria a parede. Na bancada havia tanta coisa que nem se conseguia registrar; embaixo, coberta por um pano, uma gaiola dentro da qual dois pintinhos piavam desesperados. 
Em uma das extremidades havia um amontoado de panelas, muitos panos caindo pelo teto, brinquedos, roupas. Na outra, uma pia, com bancada grande, abarrotada de louça por lavar e um armário ao seu lado, já repleto de louças de cima a baixo.
A área de serviço tinha um cheiro muito forte de mangaba e dejetos de galinha. Falando em mangaba, logo Dona Maria abriu um saco para nos mostrar a qualidade da mangaba que vendia e não hesitou ao enfiá-las bem debaixo de meu nariz para que eu pudesse comprovar como ela era boa.

Voltamos à varanda. Valdelúcia, que durante o tour pela casa havia sumido, trocara de roupa e agora vestia um short jeans escuro e uma camiseta branca, quase transparente, que permitia o vislumbre de seu sutiã manchado de preto com branco. Dona Maria voltou a contar suas histórias.
Ontem havia ido para a igrejinha das redondezas, localizada quase na beira da praia, para uma comemoração de Dia das Mães, na qual ganhou um estojo e um faqueiro. Até dançou forró! E todo mundo dançou: “Até as sapas foram dançar, e os sapo? Os sapo não, só as sapa porque era Dia das Mães!”.
O assunto, em seguida, fica sério, voltamo-nos aos problemas da comunidade. Enquanto na parte debaixo da favela o principal problema é a poeira trazida pela rua, lá em cima é a falta de energia e água, que chega só às vezes. A iluminação é muito ruim, praticamente não tem. “É tudo escuro”, diz dona Maria. Na verdade, lá em cima, só elas e o vizinho conseguem energia elétrica, os outros se viram como podem.
Em determinado momento entrou um gato no terreno e começou a perambular pelo local, como se fosse seu dono. Elas comentaram que não lhes pertencia. Desde que um primo tivera calazar, não se criava mais animais naquela casa, só as galinhas mesmo. Dona Maria, muito tristonha, revela que teve que dar um cachorro lindo que adorava.

E assim é a vida na Favela do Vietnã.
É difícil para quem não vive nessa realidade entender como eles conseguem ser felizes sem esbanjar dinheiro, sem moradia de qualidade, sem assistência. Mas são. Ou parecem ser. Diferente dos alicerces da sociedade, eles não mudariam de vida se tivessem a oportunidade, são satisfeitos de verdade com tudo o que conquistaram, com o lugar onde moram. Um sentimento que muitas pessoas ainda precisam aprender.
O dia a dia nessa ínfima comunidade é como o de todos. Não há nada de tão diferente em suas vivências, são apenas mais difíceis do que as de muitos, mas para eles são normais. Foi assim que todos os habitantes com quem tive o prazer de conversar me descreveram seu cotidiano: normal. O normal para eles pode ser diferente do nosso, mas é normal.

É natural para eles lutar pela sobrevivência todos os dias, agarrar na esperança de que vai ser possível lidar com todos os pagamentos do final do mês. Quando algo se repete com muita frequência, vira normal, e foi isso o que aconteceu na pacífica Rua da Esperança, onde uma batalha constante é travada para que a vida possa ser vivida, mas não é uma batalha, é a vida. É normal.

Imagens: Arquivo GRUPERT

sábado, 14 de maio de 2016

Ministério de Temer é a cara do golpe

Por Pedro Vinícius Dantas

A deposição de uma presidenta legal e democraticamente eleita por forças golpistas é, em si, praticamente inimaginável, repugnante. Olhando em retrospecto, para quando Dilma Rousseff, Aécio Neves, Luciana Genro e Marina Silva digladiavam-se nos púlpitos televisionados dos debates presidenciais, o cenário futuro parecia, senão claramente incerto, pelo menos pleitado na democracia. Ainda que as forças polarizadas demonstrassem que a partida se acirraria em algum momento (
era natural, diziam), a confiança no sistema político prosseguia como pilar, uma segura e inescapável base; quase como um alento, até. Dilma terá dificuldades para governar, pensou-se, mas os próximos quatro anos serão certamente conduzidas sobre sua — tantas vezes falha — tutela; o que se pretendesse mudar, ora, seria conquistado apenas nas próximas eleições, em 2018, no curso apropriado. No entanto, com o pseudo-impeachment, os Cunhas, os Aécios, os Temers, os folhetins politiqueiros e os patriotas anti-corrupção, a história brasileira, que pouquíssimos presidentes viu concluir os mandatos para os quais foram eleitos, e a democracia saem, direto das entranhas, estremecidas, golpeadas.
 
O governo interino do Vice-Presidente da República Michel Temer, eleito para nada além desta função, trajado nas vestes obscuras do golpismo, desponta sem, curiosamente, temores. Ao lado de suas pontes corrompidas que não levam a qualquer lugar que não ao atraso, os conchavos prévios e as alianças escusas saíram das mesas redondas de seus escritórios suntuosos para o mundo: exibiram-se em meio a sorrisos cínicos e apertos de mãos que mostravam, desde cedo, quem eram e a quem representavam. Com o apoio de parte das ruas e dos que consentiram às manobras, Temer pariu a composição ministerial que é a cara do golpe que encabeça: homens brancos, ricos e, como esperado, corruptos.

Dos 23 ministros anunciados por Temer, três deles fazem parte de investigações da Polícia Federal ligados à Operação Lava-Jato; entre eles, o ex-deputado Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, ambos do PMDB, passam a ter foro privilegiado e só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal Federal — um movimento similar à nomeação do ex-Presidente Lula para o comando da Casa Civil, ainda que sem a proporcional histeria e horror coletivo que esta causou, apoiada pelos veículos de comunicação de massa e por parcelas do judiciário. Na lista, encontram-se nomes como os de Mendonça Filho, que assume o Ministério da Educação, do DEM, partido que lutou no STF pelo fim das políticas de cotas; Alexandre de Moraes, do PSDB, que já foi advogado de Eduardo Cunha e teria recebido a indicação deste para exercer a função de Ministro da Justiça; e Blairo Maggi, novo ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do PP, bilionário e um dos maiores produtores de soja do planeta, que relatou PEC que propõe fim do licenciamento ambiental.

Sem deixar de citar, é claro, o próprio Michel Temer, diversas vezes citado em investigações da operação Lava Jato e enquadrado na Lei da Ficha Limpa pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), em razão de doações de campanha acima do teto máximo permitido. Temer, inusitadamente, está inelegível pelos próximos oito anos, a contar das eleições de 2018.
 
Se os perfis dos ministros — com suas declarações deploráveis e currículos pouco condizentes às pastas que devem comandar — e do próprio líder que os guia não forem apontamentos suficientes da narrativa que se constrói, a extinção de alas como o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos demonstra, sem surpresa, qual o olhar dos golpistas a respeito destas pautas: questões necessariamente secundárias, que não encarnam — ou pouco o fazem — um projeto político cidadão e popular. Além disso, a anexação destas pastas em outros ministérios marca uma redução sensível no potencial de atuação que cada uma possui individualmente.

Sem negros e mulheres, a bancada branca, masculina e velha de ministros revela uma faceta inegável (e também intragável): a de que Temer governará, em seu mandato fajuto, para parcelas privilegiadas da população, sem buscar alcançar o universo da pluralidade cultural do povo brasileiro, como sustentava Darcy Ribeiro. Nesse sentido, é talhado a duras penas, outra vez, o Estado de Direito: no opaco do homogêneo, no indistinto do igual, perde-se a vividez do diferente, do diverso; descolore-se a própria democracia.

Mesmo os mais otimistas devem concordar que o tempo é de tudo menos de paz. Com Temer, a resposta à crise política e econômica, além de fingir que ela não existe, é o trabalho; um trabalho alheio a ele e seus comparsas, como se a classe trabalhadora brasileira não estivesse trabalhando, como pode, para superar as adversidades que se acumulam; como se não estivesse, diariamente, esforçando-se pela própria sobrevivência, em cargas que os subtraem da própria humanidade.
 
Mas em seus panteões, alojados em palácios escandalosos, os golpistas e Temer não enxergam nada senão as próprias contas rechonchudas, o capital e os interesses que advogam; imersos em suas jogatinas e partidas de xadrez que põem em xeque - mais que o status quo a que se agarram como condenados - toda uma nação, eles observam, agora não mais em silêncio, o plano concretizando-se. Não veem as mulheres, não veem as negras e negros, não veem os LGBTs e não veem os pobres deste país. Não veem ninguém além deles mesmos e seus egos colossais. Assim, encenam a crônica como querem, assaltam a democracia como sempre pretenderam. Mas a história há de conferir aos seus nomes a alcunha da qual hoje tentam fugir: golpistas.

Imagens: http://s2.glbimg.com/KzsTgS3YtimgPc_UsB5K9aMpga0=/i.glbimg.com/og/ig/infoglobo1/f/original/2015/12/07/dilma_e_temer.jpg

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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Vozes Grupert: sobre o 13 de Maio

Dia 13 de Maio, dia nacional da abolição da escravatura, que promove discussões e temáticas para além das suas 24 horas. Em 1888, era assinada a Lei Áurea pela princesa Isabel e assim escravos eram libertos dos seus senhores, mas não foram libertos - ainda - de todas as mazelas, estereótipos, preconceitos e discriminações nas mais diversas camadas da sociedade brasileira. 
O Caderno de Pauta reforça a luta pela conscientização, e hoje traz abre espaço às literaturas e concretudes dos nossos membros, abordagem mais livre pela liberdade: pela erradicação de quaisquer preconceitos raciais.

Suspiro

por Marcelha Pereira da Silva e Tálison Felipe Ferreira de Sena


Meu nome era Jorge
negro, pobre e pé rapado
escravizado, humilhado, vendido
esquecido, alforriado... livre?

Livre de que?
não tinha emprego
não podia estudar
andava sozinho, queriam me matar

Minha vida inteira fui resto da sociedade
se ia ao shopping? não podia comprar
ao senado: não podia entrar
pra escola... bem, ali não era meu lugar

Minhas músicas não queriam escutar
minhas novelas quiseram acabar
minha arte criticar
e meu salário usurpar

Você vem me falar de liberdade
mas não a vi em nenhum lugar
igualdade?
aqui não deixaram passar

E meu povo vai vivendo assim
sofrendo, morrendo

lu..tan..d..o...


PS: Jorge foi morto aos 19 anos sendo vítima de sua cor.

Cor

Por Luana Aladim

Sou feito de carvão, de petróleo e  fumaça
Sou parte da raça que compõe o Brasil
Sou força, sou luta, eu sou resistência
Sou mais que a parte, eu sou a essência

Sou grito, sou fogo, sou fome e de cor
Sou rico, sou pobre, valente com amor
Parte do que fui, do que sou, eu não era
Mas sempre fui forte, lutante de guerra

Também sou carinho, afago e arte
Também faço parte da cor do Brasil
Sou bem desse jeito, mas mais que um preto
Sou tão integrante quando a cor anil.

O que falta para sermos uma só raça? 

Por Luana Aladim e Tálison Felipe

Falta muita coisa. Mas, antes de tudo, faltam aceitação e respeito. Aceitar o Brasil como miscigenação, como um país unido por diferentes culturas, de diferentes povos, de gente diferente também. Um país de história construída com muita luta, muito suor e sangue. Um país que foi, por muitos anos, explorado por quem só pensava no lucro das nossas terras, por quem duramente escravizou negros africanos e pouco se importou com a vida dos que já viviam aqui.

É bem verdade que a história de luta do negro por liberdade, espaço, representação e igualdade é antiga. A escravidão deixou marcas e apesar de algumas conquistas, ainda assim, uma grande maioria enfrenta dificuldades para conseguir emprego e ingressar na universidade, por exemplo.   

“O que falta é a noção de igualdade entre as etnias, noção de que somos iguais enquanto seres humanos, diferentes apenas em alguns aspectos físicos. Falta a noção de identidade com o conceito de ‘ser humano’”. Aryádne Melo é estudante de Direito da Universidade Católica de Pernambuco e participa de movimentos contra o racismo.

O preconceito é um fenômeno histórico que acompanha o ser humano desde sua formação. No conceito mais cru do termo, preconceito é a antecipação ideológica de algo que ainda nem se conhece. Desse modo, o preconceito racial é injustificável, afinal, a raça humana é bastante conhecida. Ainda sobre esse assunto, a estudante de medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde, Alícia Banja comenta: “ao contrário do que pensavam os imperialistas adeptos ao darwinismo social no século XIX, o fenótipo não altera em nada a humanidade do sujeito. E por humanidade digo capacidade intelectual, simbólica etc. O que faz do ser humano ser o Homo sapiens é a capacidade de interpretar e formar símbolos.”

“Já dizia Darwin: a lei do mais adaptado” continua Alícia, e conclui: “pra cada região do mundo o que prevalece é o fenótipo* mais adaptado: na África subsaariana prevaleceram os negros e nos países nórdicos prevaleceram os brancos – isso antes mesmo desses locais terem essas denominações territoriais”.

As fronteiras criadas em territórios físicos também permeiam o campo ideológico: a necessidade de rotular as pessoas reduz o complexo ao simples, o vivo ao objeto. Assim, antes de conhecer a essência de um sujeito, julga-se sua carcaça biológica. “É como se um capoeirista branco tivesse que ser aclamado por ele ser ‘capoeirista branco e que sabe jogar bem’, ou como se um professor doutor fosse lembrado não pela sua competência, mas por ser um ‘professor doutor negro’”, comenta João Vitor Felipe, estudante de Jornalismo da UFRN.

Definições e demarcações sempre existirão. Entretanto, barreiras não precisam ser criadas para limitar onde é início ou fim. Uma sociedade é composta por comunidades que, por sua vez, possuem nichos formados por indivíduos. Esse formato só é possível devido à capacidade de interação entre as esferas: o todo só pode existir devido à harmonia das partes.

13 de maio é um dia para reafirmarmos a luta por igualdade e refletir acerca de qual liberdade os negros têm hoje. De lutar pela inclusão ainda mais representada de negros na política, nas universidades, no mercado de trabalho, na cultura, no shopping, nas festas e aonde eles quiserem. É pela igualdade já que a liberdade não basta.

*no contexto pode ser substituído por etnia

domingo, 8 de maio de 2016

As muitas mães: os laços de amor acima das convenções

Por Fernanda Cristina e Thayane Guimarães

Dia 08 de Maio. Dia do “Leva um casaco que vai fazer frio!”, “Quando chegar lá, me ligue!”, “Não volte muito tarde!”, “Sai desde celular, menino!”, “Essa brincadeira vai acabar em choro...”, “Você não é todo mundo!”, “Não faz mais que sua obrigação!”, “Só digo isso para o seu bem!”, “Acha que sou sócia da Cosern?!”, “Um dia você vai me agradecer!”. E agradecemos.


Membros do Grupert homenageiam suas mães

Hoje é dia de homenagear aquela pessoa que sempre esteve ao nosso lado e que, sem ela não seríamos ninguém: Mãe, letras três. Palavra forte, ser que traduz amor, criação divina, tão múltipla e tão única.
São diversas suas formas, mas o amor é o mesmo. A minha, a sua, a nossa, a da vizinha, a de todo mundo, as muitas mães, as variadas mães.
Mãe de barriga, ou mãe de vida, mãe desde sempre ou escolhida, existem vários tipos de mãe: a protetora, que cuida e protege feito uma leoa a sua cria dos perigos, as vezes até com demasiado exagero; a chefe de cozinha que faz aquela comidinha e os melhores pratos com sabor de quero mais; a chefe de família, que sozinha da conta da família inteira; a enfermeira e médica sem formação, que em seu colo se vão todas as dores; a conselheira , já vivida e experiente aconselha na tomada de decisões e ensina sempre o melhor caminho a seguir; a detetive, que sabe se estamos tristes, chateados ou com problemas, sem nem mesmo falarmos; a professora que nos diz o que é certo e o que é errado, ajuda a corrigir os erros da escola; a guerreira, que enfrenta o mundo e cada luta diária para criar e dar o melhor aos seus filhos; a exigente, que cobra a excelência no comportamento, dá broncas e, as vezes torna-se “chata” , pois quer ver um futuro brilhante para os seus; a heroína é inspiração, no trato, no jeito, na vida, e na beleza.
Mãe, um amor imenso e sem fim; vó-mãe acumula duas funções numa só; bisa-mãe, amor de três gerações, mãe-mãe, duas mães numa família só,dois colos de mãe; ir-mãe cuida dos irmãos como mãe, mas ainda brinca como irmã; ti-mãe, a tia que não teve filhos mas se tornou mãe de todos os sobrinhos; mae-drasta, chegou depois e se tornou um presente, madri-mãe é uma madrinha que aconchega e dá colo como mãe; multi-mãe é uma mãe com multicolos, mãe é emprestada é aquela que é das amigas mas é dividida e se torna um pouquinho nossa também.
Na hora de reconhecer tudo que as mães fazem a cada dia, os filhos retribuem o amor e sempre guardam o que mais admiram nas suas criadoras. Clércio Rodrigues, 18, fala que o que mais gosta na sua mãe é como ela incentiva os filhos a seguirem suas metas “De forma geral, gosto da maneira que ela me motiva a estar sempre correndo atrás dos meus objetivos, independente de quais sejam ou o que as pessoas de fora achem deles”. Jéssica Cavalcanti, 17, aponta, além da força de vontade, o altruísmo como a característica que mais admira na sua mãe “Ela abriu mão de muitos sonhos pela família e, apesar de eu não concordar totalmente com isso, acho muito bonito como ela sempre põe a necessidade da família na frente das delas”. Thayane Guimarães, 16, afirma que, de todo amor que sente, também reserva espaço para sentir orgulho da mãe que tem “Conheço toda sua luta e apesar de todas as dificuldades que o mundo coloca diante dela, minha mãe segue me surpreendendo e buscando o melhor. Em 2014 ela fez sua primeira graduação, e na festa de colação de grau só tinha espaço para admiração e orgulho. A gente se bica, de vez em quando, mas o amor é algo maior entre nós”.
Mãe de perto ou mãe à distância, amiga, companheira, anjo, abrigo, mãe é mãe. Os diversos tipos e formatos de mãe, podem até mudar, mas o amor não muda. Os vínculos entre mãe e filho, as relações que formam a família, podem ser biológicas ou não, o que importa é o laço de amor acima todas as convenções.
Por isso, a equipe do Grupert homenageia todas as mães do país, seja lá qual for seu tipo e forma, nesse dia tão especial que deve ser celebrado todos os dias pelos filhos com abraços e carinhos em suas criadoras.


Feliz Dia das Mães!

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Vozes Grupert: artigos sobre corrupção

Todos temos vozes. Somos vozes. Às vezes, elas falam numa mesma sintonia. A ideia dessa postagem é reunir produções dos nossos membros sobre o tema geral corrupção. Suas vozes estão marcadas nesses artigos de opinião sobre as diversas corrupções, não só a política, mas também aquelas presentes nas mais diversas situações do nosso dia a dia. Naturalizada no cotidiano pela constante midiatização espetacularizada, ela não pode deixar de ser discutida com reflexões consistentes. As vozes falam, e o Grupert pergunta: Para você, o que é a corrupção?


A cultura do “jeitinho brasileiro”

por Jéssica Cavalcanti

Alice não devolve o excesso de troco quando o recebe errado. Marcelo senta na cadeira preferencial e finge estar dormindo sempre que um idoso sobe no ônibus. Camila não corre atrás do professor quando ele erra sua nota para mais no sistema online. Victor sempre pega a rota mais longa quando leva turistas em seu táxi. Bruno pagou para ser aprovado no teste de direção. O curioso é perceber que eles estão nas ruas, protestando contra a corrupção dos governantes do país. São revolucionários, pessoas de bem, sujeitos que querem e lutam para ver o Brasil ir para frente. Não parece nenhum problema cometer delitos no dia a dia, enquanto rombos muito maiores estão acontecendo no plenário de Brasília.

A verdade é que, em uma conjuntura de naturalização da desonestidade, nós precisamos falar sobre pequenas corrupções. Obviamente, esse não é um atributo unicamente nosso. Em todos os lugares, presente em cada camada social que integra a hierarquia de uma nação, instituição ou agrupamento humano, de alguma forma ela está lá. Porém, cabe analisarmos como no Brasil, a corrupção tornou-se um elemento cultural, intrínseco ao caráter de praticamente toda uma população.

Isso nos leva, obrigatoriamente, a problematizar essa construção social em torno da desonestidade no país. Não foi algo que surgiu da noite para o dia, pelo contrário. A corrupção como mecanismo de sobrevivência configurou-se como uma resposta ao processo sociohistórico pelo qual passamos. A civilização brasileira, como a conhecemos, começou a ser formada com a chegada da expedição portuguesa, a qual subjugou os povos aborígenes à escravidão, roubando deles o direito de possuírem sua própria terra e serem livres nela. Após o extermínio da população indígena quase em sua totalidade e a incorporação de outros povos ao território recém-descoberto, nossa sociedade foi sendo moldada de acordo com os interesses dos europeus. Dessa forma, cresceu com marcas de dominação e exploração de uma minoria sobre as classes subalternas, a qual foi, desde sempre, privilegiada frente a uma massiva população de pobres, cada vez mais submetidos à precarização de suas condições de vida.

O papel do Estado enquanto promovente do bem-estar social tornou-se utópico. As camadas mais pauperizadas da sociedade passaram a ser mera força de trabalho na construção de uma nação industrializada e economicamente globalizada. O conjunto de uma educação pública sucateada, a falta de oportunidades no mercado de trabalho e o descaso dos governantes dificultam, assim, a possibilidade de ascensão de uma gente socialmente condicionada à miséria e, muitas vezes, à criminalidade. Diante do caráter seletivo, clientelista e exíguo das políticas públicas, o brasileiro teve, de fato, que aprender a dar o seu “jeitinho” para sobreviver.

É importante dizer que não tenho intenção de justificar a falta de honestidade dos seres sociais. E, de maneira alguma, generalizar também. Mas as nuances que permeiam os comportamentos dos sujeitos individuais e coletivos precisam ser levadas em consideração.

Compreende-se que, no entanto, a corrupção que observamos no dia a dia não se trata apenas da parcela marginalizada da população. Se observarmos bem, ela veio de cima para baixo. Alice, Marcelo, Camila, Victor e Bruno somos eu e você. Estudam, trabalham, em muitos casos têm uma boa condição socioeconômica, e são “contra a corrupção”. Sofremos com a impunidade dos políticos, enquanto nosso próprio conceito de justiça está corrompido. Talvez o que eles – nós – não tenham notado é que, assim como o sistema instaurado influencia em nossas atitudes diárias, nossas ações têm potencial mantenedor ou transformador da sociedade em que vivemos. Somos reflexo dela e ela um reflexo de nós.

Por essa razão, precisamos falar sobre pequenas corrupções. Promover debates públicos, para fazer nascer assim, um processo de conscientização e criticidade que seja aplicado em nossas autoavaliações. Para que, dessa forma, não continuemos réus da desonestidade que assola não só o cenário político em Brasília, mas o cotidiano de incontáveis brasileiros.

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A geração espontânea da corrupção

por Ana Flávia Sanção

Trazida e pregada como praga pós-moderna ou contemporânea, a corrupção é o centro das notícias brasileiras. Tal político fez isso, tal política fez aquilo; esquemas mirabolantes para lá, esquemas mirabolantes para cá; dinheiro desviado para a Suíça, dinheiro desviado para o México. Vivemos numa sociedade midiatizada que nos lembra, todos os dias, que nossos governantes são desleais para com a própria nação.

Enchemos as bocas, as redes sociais, perdemos nosso tempo discutindo quem é o pior corrupto. Tratamo-los como se fossem divindades infernais, erradas em qualquer parte. Eles não fazem parte de nós – não, eles não nos representam.

Mas eles são brasileiros, certo?

Os corruptos não nascem espontaneamente; não estamos falando das teorias de geração espontânea, já provadas falsas, de séculos atrás. Estamos falando de gente, de sociologia. Os corruptos governantes de hoje já foram tão gente quanto a gente. Eles foram criados como brasileiros de raiz, nascidos e crescidos com os mesmos preceitos que todos nós. Iguaizinhos.

Seria válido então perguntar de onde toda essa corrupção teria vindo? Como algo que não sabemos a origem pode infectar tantos dos nossos?  A reposta é: ela não veio de lugar nenhum. Paramos então com as questões. Como assim a corrupção não veio de lugar nenhum? Como alguém se torna corrupto?

A corrupção não veio de algum lugar – ela está presente em nós. Nós, brasileiros, somos corrompidos desde o nosso nascimento. Os portugueses corrompiam os índios e os negros – e assim nasceu a etnia brasileira, com base em quem passava a perna em quem. Criamos a nossa nação através de um “jeitinho”.

Sim, o famoso “jeitinho brasileiro”, mundialmente conhecido pela sua eficácia. O esperto passando por cima do burro, o rico passando por cima do pobre – a eficácia de sempre favorecer apenas aquilo do meu interesse.

Ações pequenas, mínimas, quase insignificantes, montam uma ideologia individual e social do autofavorecimento. São coisas bestas – como um pai mentir a idade de um filho para não pagar entrada num evento; como uma mulher fingir uma gravidez para passar na fila do preferencial; como uma mãe pedir para o filho furar a fila da cantina só para ir mais rápido.

Independente de quais sejam, elas sempre estarão ali. Faz parte da nossa cultura, do nosso sangue. Somos frutos da junção de três principais culturas, na qual uma única detinha o poder sobre todas as outras. O modo como esse poder foi sendo adquirido e espelhado pelo resto da população foi apenas um mecanismo de defesa; uma cláusula da lei de Talião – aqui se faz, aqui se paga. Você é, eu também serei.

Para não ser tão injusta, tenho de deixar claro que a corrupção, o ser corrupto, faz parte de qualquer ser humano. Não só o brasileiro – por favor, não sejamos egocêntricos –, como qualquer outro indivíduo nesse planeta traz consigo um pouco da corrupção. O Homem é corrupto, afinal é um ser vivo individualista. Pensamos em nós primeiro; nossos instintos animais mais profundos são primeiramente e irrevogavelmente individuais.

Mas, nesse momento, estamos falando da nossa corrupção. Além de característica animal humana presente, nossa cultura nos criou para sermos piores do que os corruptos normais. Nós somos os responsáveis pelos políticos corruptos, porque eles são brasileiros.

Não podemos apontá-los como únicos malfeitores, pois eles são nós. Sim, eles nos representam. Talvez não politicamente, nem socialmente, mas como povo brasileiro. Como esperaríamos governantes decentes se nós, a nação, somos tão defeituosos nessa questão?

Nós não respeitamos paradas reservadas a deficientes e idosos. Roubamos a água e a luz do vizinho com construções ilegais. Damos dinheiro à polícia para não sermos presos. Compramos nossas carteiras de habilitação. Jogamos lixo nas ruas e nos rios. Furamos fila até para comprar pipoca. É o nosso “jeitinho” em ação.

Como podemos então julgar os políticos como os únicos passivos de corrupção, quando nós nos corrompemos pouco a pouco todos os dias? Não estou falando que suas atitudes são certas, só garantindo que eles não são os únicos. Eles são filhos do Brasil, e como diz o ditado: tal pai, tal filho.

De pequenas corrupções a maiores corrupções, vamos criando um ciclo vicioso, no qual eu, você, o vizinho, todos nós fazemos parte. Esse ciclo gera mais um, que gera mais um, e vamos seguindo nisso infinitamente. Não adianta julgar o topo se a base também está suja. Eles são nós – o nosso reflexo. Nós somos eles – os seus criadores.

E juntos somos brasileiros.