sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O SUS no Brasil: motivo de orgulho ou vergonha?


Por Jéssica Cavalcanti e Marcelo Rocha

O Sistema Único de Saúde brasileiro completou 30 anos em março deste ano e, desde a sua fundação, temos ouvido falar dele como um símbolo da ineficácia do governo, sempre caracterizado por adjetivos catastróficos. Isso porque estamos ridiculamente alienados ao que nos é mostrado pela grande mídia.

É disseminada, constantemente, a ideia de que “quem depender do SUS morre na fila de espera” e que, para garantir um bom atendimento médico, somente apelando para os planos de saúde privados. Estes, que arrancam mensalidades absurdas para dar ao povo o que deveria ser seu por direito, de acordo com a Constituição. Verdade seja dita: o problema da saúde pública não é falta de dinheiro, mas falta de dinheiro destinado a ela. E essa é uma realidade histórica no Brasil.

O Sistema Único de Saúde, de acordo com o Ministério da Saúde (MS) em dados de 2015, é utilizado por cerca de 71,1% da população brasileira. Não é novidade que a maior parte do contingente populacional brasileiro utiliza a rede pública de saúde.



O presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Ronald Ferreira dos Santos, destacou, na 22ª Conferência Mundial de Promoção da Saúde: “Esperamos que, com esta conferência, digamos ao mundo que não há democracia sem SUS e nem SUS sem democracia”.  O vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), Paulo de Goés, concordou: “A melhor forma de defesa do SUS é intensificarmos o esforço para garantir a reforma sanitária. Não há saúde sem justiça social, nem democracia. Não há SUS sem democracia. Não há promoção de saúde sem democracia”.

Independentemente de suas falhas, o Sistema é, sobretudo, um triunfo popular, um marco da democracia. No entanto, essa conquista é frequentemente menosprezada pelos pessimistas que enxergam o SUS como um instrumento incompetente e fracassado. A massa, por sua vez, é levada a crer nessas afirmações, por não conhecer o processo histórico da luta pelo direito à saúde pública no país.

Pensando nisso – e a fim de amenizar a imagem negativa criada pela falta de informação daqueles que não conhecem a fundo a gloriosa vitória do Sistema que, hoje, garante mais que cidadania, garante que os brasileiros façam parte de um contexto mundial em que o Brasil aparece no patamar dos países mais elogiados pelo seu sistema de saúde – faremos aqui um breve apanhado histórico de como surgiu o Sistema Único de Saúde. Para isso, precisamos voltar um século no tempo, para entendermos o impacto que a criação do SUS teve na realidade da população brasileira. 

A saúde pública no Brasil: Direito x Privilégio.

No início do século XX, as epidemias de doenças como cólera, febre amarela, varíola, entre outras, aterrorizavam os brasileiros. A classe trabalhadora sofria em escala maior: não havia condições na saúde pública para conter o alastramento das pestes. Isso os deixava à mercê dos cuidados da filantropia, incentivada pela igreja.

Contudo, a preocupação com a manutenção da imigração e a consequente produção do café exigiu do governo uma providência diante da situação caótica: a vacina produzida se tornou obrigatória para toda a população. A solução foi, portanto, outorgada com repressão militar a qualquer um que se opusesse, sendo rotulado como “inimigo da saúde pública”.

A fim de conter as greves e possíveis futuras rebeliões da classe operária, em 1923, o deputado Elói Chaves expõe o projeto de lei que determina a criação de caixas de aposentadoria e pensão para os trabalhadores, tal como assistência médica. Simultaneamente, o doutor Geraldo Paula Souza cria, no Rio de Janeiro, o centro de saúde, com a ótica educativa de uma medicina de prevenção, e cuja meta também era envolver-se diretamente com as condições sociais da população, através do trabalho realizado no núcleo familiar.

Em 1930, Getúlio Vargas é eleito presidente da república pela primeira vez, sob a marca de “pai dos pobres”. O primeiro IAP (Instituto de Aposentadoria e Pensão) foi criado por ele então, em 1932, especificamente para a categoria dos trabalhadores marítimos, que tinha como objetivo também separar verba do povo para investir em assistência médica futura. A população, no entanto, que não contribuía para a manutenção dos institutos, não tinha acesso a saúde.

Como se a situação já não fosse ruim para muitos, em um contexto de industrialização já crescente, Getúlio aplicou o dinheiro investido nos IAPs para financiar a indústria no Brasil, deixando até mesmo os trabalhadores colaboradores se verem com seus direitos lesados.

No contexto de uma segunda Guerra Mundial, os centros de saúde sofreram as consequências da influência americana, se tornando obsoletos e ficando para trás no processo de reforma dos métodos de atendimento à saúde, o qual se constituiu em um sistema de medicina especializada, tornando-se ainda mais inacessível. Nesse processo, a indústria farmacêutica cresceu significativamente.

Embora tenha sido deposto como ditador, Vargas retornou ao poder para cumprir mais um mandato, que não foi concluído, devido ao seu suicídio. Contudo, nesse meio tempo, ele criou o Ministério da Saúde. Após sua morte, Juscelino Kubistchek leva a nação a um novo período de crescente desenvolvimento econômico como o novo presidente da república. Com ele, cresce também a iniciativa privada na área da saúde, dando espaço para as empresas médicas se instalarem no país.

O ano de 1964 foi um marco e divisor de águas para a nação brasileira. Com a queda do então presidente João Goulart, o general Castelo Branco assume o poder, ao lado dos militares. Um tempo marcado por repressão e censura se alastra pelo país. A privatização dos serviços é estendida até os IAPs, em uma unificação que recebeu o nome de INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). O dinheiro das contribuições reunido em um só instituto foi investido, mais uma vez, em muitas outras coisas, enquanto a saúde pública ia ficando à margem do sucateamento.

Nesse contexto, o movimento social começa a se articular em favor de melhores condições de assistência médica, a fim de promover um sistema de saúde abrangente e eficaz para todos. No centro da periferia, as manifestações começaram a ganhar adesão popular e visibilidade externa, expandindo-se em diversos municípios.

O movimento popular de saúde, em consonância com outros movimentos sociais, foi às ruas contra a ditadura militar. A falência do sistema previdenciário foi, portanto, a gota d’água para o movimento que marcou a década de 80: o Diretas Já. Em meio a esse período de lutas, uma vitória: a criação do tão sonhado Sistema Único de Saúde.

O SUS surgiu como resultado das mobilizações populares. Seus princípios básicos consistem em: universalidade, integralidade, equidade e participação popular, a fim de promover assistência médica igualitária a toda população sem distinções de classes. Contudo, o processo de lutas ainda estava muito longe do fim. A implantação do sistema se deu gradualmente, ou melhor dizendo, ainda se dá.

Está claro que a saúde pública nunca foi colocada como prioridade entre as políticas de governo no Brasil. E, embora o processo de Reforma Sanitária e a implementação do SUS tenham representado um grande progresso nessa área, a verdade é que temos visto, desde sempre, uma contradição entre avanços e retrocessos no que diz respeito à saúde pública. Desde o governo de FHC, na década de 90, com a intensificação da política econômica neoliberal, o corte de gastos com os direitos sociais entrou em divergência com a recém promulgada Constituição Federal de 88.

Nos últimos anos, o que se observou foi um distanciamento da concepção de direitos universais, uma vez que a prioridade do Estado tem sido combater o déficit público, deixando os direitos sociais em segundo plano. Essa contradição é justamente o constante embate entre a necessidade de fontes estáveis e seguras para financiar o SUS e o que alguns autores chamam de “princípio da contenção de gastos”.

Os defensores do SUS travaram uma batalha intensa contra a privatização do governo de Fernando Henrique Cardoso, sem desistir dos ideais estabelecidos, e venceram. O sistema de saúde que temos em vigência hoje no Brasil é o resultado de muitas mobilizações, debates e persistência por parte dos militantes do movimento.

Mas, afinal, o SUS funciona ou não funciona?

Podemos enxergar que, com o passar do tempo, as melhorias têm vindo, gradativamente, como tudo que é bom e complexo. Devemos levar em consideração que o Sistema Único de Saúde é uma realidade recente no cenário brasileiro, tendo recém completado os seus 30 anos – conforme já foi dito – desde a fundação, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986.

Há, portanto, uma necessidade emergente de uma desconstrução do tabu referente à supremacia da saúde privada sobre a pública, sabendo que, desde que hajam pessoas comprometidas a dar continuidade a essa luta, chegaremos ao SUS projetado na mente dos primeiros adeptos do movimento, não importando quantos anos isso ainda dure.

Por hora, queremos apenas reiterar que a imagem nauseante que muitos de nós temos da saúde pública no Brasil é uma herança secular e que ela não reflete fielmente a funcionalidade efetiva do Sistema na vida de milhões de pessoas, dependentes dos serviços ofertados por ele. E, assim, queremos deixar esclarecido que, tendo em vista a sua construção em um contexto social e político de clientelismo e privilégios para as classes mais altas da sociedade, só a existência do SUS já é motivo de orgulho para o país. Porque ele representa a força do povo quando se une por um mesmo propósito. Representa as necessidades de um Brasil esquecido pelos governantes, finalmente tendo voz. Ele representa eu e você, e a nossa incessante luta por direitos universais e pela democracia.



Fontes: - Filme documentário “História da saúde pública no Brasil: um século de luta pelo direito a saúde”
- “O Direito Universal à Saúde em Risco: A Fragilidade Histórica do Financiamento do SUS e as Incertezas dos Governos Lula” de Áquilas Mendes e Rosa Maria Marques.
- “OMS defende fortalecimento e ampliação do Sistema Único de Saúde” disponível em: https://nacoesunidas.org/opas-pede-fortalecimento-e-ampliacao-do-sistema-unico-de-saude-do-brasil-em-conferencia-mundial/

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Símbolos da desumanidade

Por Lais Di Lauro
Todos têm consciência de que o mundo é um local propício a catástrofes sejam estas tendo motivações humanas ou naturais. Enquanto um lado do mundo sedia o maior evento esportivo do planeta, o outro sedia uma realidade triste e devastadora.





Em um momento onde todos os olhares eram voltados para atletas competindo nas mais diversas modalidades esportivas, uma notícia choca o mundo: imagens de Omram Daqneesh, um menino sírio de cinco anos de idade, em completo estado de choque e pânico após um ataque na cidade de Aleppo na última quarta-feira (17). A imagem gerou grande repercussão e Omram tornou-se símbolo da barbárie causada pela guerra. A criança estava toda suja de destroços, com ferimentos pelo corpo e rosto ensanguentado.
Entretanto, Omram não foi o primeiro, e, infelizmente, não será o último que sofre direta ou indiretamente com as consequências devastadoras que uma guerra causa. Todos os dias não somente na Síria, mas também em outras nações, famílias inteiras são atingidas. Centenas de pessoas são mortas, destruídas. Enquanto isso, o mundo se cala.
E é assim uma boa parte do tempo. Silenciamos as guerras, fechamos os olhos para a dor de milhares de pessoas que vivem diariamente aterrorizadas pelo medo. Crianças, jovens, mulheres, homens, idosos... Populações inteiras vivendo sob pavor.
É preciso, de vez em quando, surgir uma imagem icônica para avivar em nossa memória a desumanidade do mundo. Por mais distante que esteja da nossa realidade, não há quem veja uma criança ferida, paralisada pelo pânico e pelo medo, e não sinta, pelo menos, indignação. Parece que às vezes esquecemos que há uma parcela do mundo em guerra. Pessoas que convivem diariamente com a aflição de não estar seguras em sua própria casa.
Há alguns meses atrás a imagem do Alyan Kurd – outra criança síria que teve seu corpo encontrado em uma praia da Turquia após afogamento no final de 2015 - foi altamente disseminada por veículos de comunicação do mundo inteiro. Por alguns dias, milhares de pessoas se comoveram com os refugiados sírios e com a situação que o país e o seu povo enfrentam. Porém, logo depois, ninguém mais falava ou sequer lembrava o ocorrido. Parece que, de alguma forma, a empatia tem prazo de validade.
Hoje, a imagem desumana da dor está viva em nossas mentes. O sentimento de compaixão está aflorado. Em minha memória, a imagem do Omram, do Alyan e de tantas outras crianças e pessoas não se apagará tão cedo. O meu sentimento é de revolta, de dor e de luto.
Organizações mundiais, autoridades das grandes potências globais e outros “grandes” do mundo parecem ter memória curta. Nada é feito a respeito. Todos emudecem. É claro que não sou ingênua de pensar que não há por trás de todo esse silêncio questões políticas, econômicas e até mesmo religiosas. Porém, se toda crueldade causada pela guerra fosse a outros países, em outro hemisfério do mundo, será mesmo que haveria tanta omissão e desprezo?
Quantos mais precisarão ser afetados e mortos até que uma medida seja tomada? Quantos novos “símbolos da desumanidade” precisaram emergir para que uma providência seja tomada?
O valor de uma vida é o mesmo em qualquer lugar do mundo, seja em qual hemisfério for. Não importa nacionalidade, dinheiro, religião. Uma vida é uma vida. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Entenda os ataques aos ônibus no RN

Por Marcelha Pereira

Resumo
Sexta-feira, 29 de julho de 2016. A circulação de áudios oriundos do Presídio Estadual de Parnamirim (PEP) começava pelo aplicativo de mensagens instantâneas, WhatsApp. Os presos eram contra a ordem do governo do Estado de instalar bloqueadores de sinal de telefonia móvel e caso a instalação continuasse no presídio, eles iriam atear fogo em ônibus – além de cometer outros crimes. Através dos áudios eles diziam à população para não sair de casa a partir das 18h do dia.
Porém, os ataques começaram próximo às 13h em um micro-ônibus na estrada RN-304, próximo a Macaíba. E não pararam, até o dia 12 de agosto, já se somavam 114 ataques em 40 municípios do Rio Grande do Norte, entre eles estão os atos contra prédios públicos e privados, incêndios e tentativas de incêndio.

População afetada
Na sexta-feira (29), próximo às 17h, os motoristas de ônibus de algumas empresas receberam ordem de voltarem para as garagens. Com a falta de transporte, a prefeitura municipal através de rede social informou a autorização concedida pelo DER (Departamento Estadual de Rodovias) para que vans escolares, táxis e ônibus de fretamento realizassem serviço de lotação até o final da paralisação dos rodoviários. Porém, por causa da superlotação, nem toda a população que estava na rua conseguiu voltar para casa por meio dessas opções alternativas e tiveram que ir ao seu destino andando ou por meio de carona.

Quem mais cedo não havia acreditado na veracidade dos áudios, começava a mudar de ideia e a descrença tornou-se medo. Outros não sabiam da existência dos áudios e foram pegos de surpresa. Na UFRN, os circulares pararam de rodar e os estudantes tiveram que sair a pé do campus para conseguirem chegar à parada do Via Direta e pegarem algum meio de transporte para casa. 

O caos estava feito. No começo da semana seguinte, com a frota de ônibus reduzida, algumas escolas e faculdades cancelaram suas atividades e tiveram o calendário acadêmico prejudicado; e quem tinha que sair de casa para trabalhar, saía com medo por não saber se na volta teria transporte. 


Prejuízo

No sábado e domingo, os ônibus continuaram sem circular pelas ruas. De acordo com a SETURN (Sindicato das Empresas de Transporte Urbano do RN), os atentados geraram o prejuízo de 4 milhões de reais. Nessa contagem é incluído o gasto com os ônibus queimados e o total que as empresas perderam ao encerrarem as viagens.


A situação também não foi boa para o comércio: os shoppings e centros comerciais ficaram vazios e houve queda nas vendas.


Rumores
Como em qualquer evento de proporções grandes, ocorreram notícias falsas. Entre os rumores estavam: um áudio ameaçando algumas escolas (o adolescente que gravou foi detido), ataque ao supermercado Extra e ao Hiper (houve sim um ataque, mas ao supermercado Nordestão na Zona Norte da cidade), ataque ao Mc Donalds de uma rua principal de Natal – Abel Cabral –, uma suposta carta do Sindicato do Crime (a facção que estava coordenando os atos) e uma fuga do presídio de Alcaçuz (na verdade, descobriram um túnel; fuga aconteceu no CDP - Centro de Detenção Provisória da Ribeira).
Houve também mal entendidos, como uma caminhonete pegando fogo na Rua Tororós, no Bairro de Lagoa Nova, Zona Sul de Natal, mas na verdade era um problema no motor.

Reforço
Tudo caminhava do jeito que os presos imaginavam: atacando a população, o governo deixaria de instalar os bloqueadores. O que não aconteceu.
O Governador, em suas redes sociais, postou no dia 31 de julho:
Solicitei apoio das tropas do Exército para se somarem às nossas destemidas polícias no trabalho para garantir a segurança da população do Rio Grande do Norte. Desde ontem tenho mantido contato com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, com o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, com o ministro da Defesa, Raul Jungman e com a direção nacional da Polícia Federal. Aqui, todas as forças de segurança permanecem em total atenção para retomarmos a normalidade. Estou no aguardo da liberação das tropas pela presidência da República.”
E no dia 03 de agosto, quando os militares chegaram:
"Estive agora no 16° Batalhão de Infantaria Motorizada dando as boas vindas a parte das tropas do exército que já está no nosso Estado, no momento se dedica ao estudo das estratégias e amanhã vai para as ruas no reforço à segurança pública. Sejam bem vindos!"
Na quinta (04), os militares já estavam agindo nas principais ruas da cidade. A população ficou mais tranquila, mas mesmo assim se questionou a participação dos militares do RN. É importante esclarecer aqui essa dúvida: os militares do RN estão sim agindo na Operação Militar, porém, como medida de precaução somente aqueles que possuem certo grau de experiência em Garantia da Lei da Ordem (GLO) foram selecionados. Além disso, as tropas que chegaram são especializadas em situações como essa que ocorreu no Estado e serão essenciais até que as instalações dos bloqueadores em todos os presídios estejam concluídas.  
Mais de 1.300 operações já foram realizadas com as Forças Armadas na região metropolitana e em Natal. De acordo com o jornal Tribuna do Norte, são 880 operações de patrulhamento motorizado, 362 pontos estáticos, 11 postos de controle e bloqueio de vias urbanas, 66 ações de reconhecimento, 16 operações costeiras e fluviais e controle de áreas estratégicas. E segundo a mesma fonte, 110 pessoas suspeitas de participação nos ataques foram presas na primeira semana de atuação.

Repercussão
A notícia dos ataques começou a sair em blogs, sites e jornais do Rio Grande do Norte primeiro. O NOVO Jornal fez a atualização dos ataques dia a dia em seu site e pelo WhatsApp (eles utilizam o aplicativo para manter os assinantes atualizados, no período dos ataques não foi diferente, eles mandavam notas para deixar quem assina o jornal informado sobre o que estava acontecendo). Os jornais de circulação nacional publicaram em seus sites matérias a respeito dos atos. No entanto, na TV aberta não ocorreu maior cobertura quanto ao caso.
No Twitter, muita gente não estava sabendo o que estava acontecendo no RN e lançaram a hashtag #PrayForNatal, que atingiu 1° lugar nos Trend Topics brasileiros.  


Neste momento
Depois de alguns dias de paz com a transferência de 21 mandantes dos ataques no RN para as penitenciárias federais de Rondônia, Mato Grosso do Sul e Paraná; nesta segunda-feira (15), um carro e um caminhão foram incendiados no bairro de Felipe Camarão e Bom Pastor.
Robinson Faria, na sexta-feira (12), havia feito pedido para a permanência do Exército por mais um mês já que as tropas estavam previstas de deixarem o RN na terça-feira (16). Michel Temer, então, no dia 15, autorizou a continuação por mais 8 dias, ou seja, até o dia 24 (próxima quarta-feira); havendo possibilidade de prorrogação.

Fontes: Tribuna do Norte / UOLNotícias NOVOJornal

Equipe de Reportagem: Clércio Rodrigues, Fernanda Cristina, Marcelha Pereira.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Saúde mental: uma mesa redonda sobre as implicações de ser feliz


Por Jéssica Cavalcanti

No semestre passado, o Caderno de Pauta publicou uma matéria referente aos transtornos psicológicos no cenário acadêmico. O Projeto de Extensão BeHappy foi apresentado a muitos estudantes que não o conheciam com mais afinco, e tivemos um feedback extremamente positivo sobre o tema em pauta: saúde mental e qualidade de vida na universidade (e fora dela também). Foi em torno disso que girou a mesa redonda dessa última segunda-feira (15), no Anfiteatro das Aves, no Centro de Biociências da UFRN.
Promovido pelo BeHappy, o episódio consiste em um evento semestral, no qual alunos podem ouvir, debater, tirar dúvidas e compartilhar experiências próprias não só com outros estudantes, mas com profissionais convidados. Em sua quarta edição, o projeto trouxe para compor a mesa: a Profa. Dra. Simone Tomaz, na área da psicologia; o professor farmacêutico Idivaldo Micali; e por fim, o nutricionista Helry Costa.
No primeiro momento, cada profissional teve a oportunidade de trazer um pouco do seu conhecimento para contextualizar a discussão, pontuando sua relevância em dias tão corridos e atropelados como os que vivemos. Contudo, ao abrirem a oportunidade para os estudantes exporem suas dúvidas, posicionamentos e problemas, foi quando o debate ganhou mais estrutura e rumo.
Antes de qualquer coisa, é preciso compreendermos que esses problemas não se resumem a transtornos mentais patológicos, mas que podem se manifestar em pequenos detalhes do cotidiano. A exaustão, a ansiedade e a pressão são fatores que, atrelados à falta de tempo para realizar atividades indispensáveis ao bom funcionamento de nosso corpo e mente, configuram-se em uma sobrecarga emocional para o indivíduo, podendo se apresentar em diferentes formas e graus de intensidade, a depender das circunstâncias e especialmente dele mesmo. “A verdade é que cada pessoa precisa encontrar o seu ritmo e o seu limite, e respeitá-los”, disse a professora Simone.
A mesa redonda durou quase 3 horas e, nesse curto espaço de tempo, muitos assuntos foram abordados e problematizados pelos alunos e profissionais presentes: a rotina desgastante do ambiente acadêmico; a relação médico-paciente e professor-aluno; o período do famigerado TCC; hábitos de alimentação e atividades físicas; padrões de beleza impostos socialmente; até a falta de segurança pública entrou na discussão (deixo aqui meus sentimentos de solidariedade à estudante que foi vítima de assalto seis vezes em Natal – algumas, inclusive, enquanto praticava suas caminhadas diárias).
Diante de tantos tópicos, uma verificação em especial me surpreendeu na fala de alguns discentes: o uso de medicamentos prescritos na área psiquiátrica mostrando-se tão comum em pessoas tão jovens. Apesar dos efeitos colaterais, somos uma geração imediatista e procuramos sempre por resultados a curto prazo. Para insônia, para irritabilidade, para auto exclusão social, para estresse, para ansiedade: aparentemente a indústria farmacêutica tem se mantido muito bem, obrigada.
Podemos entender esse declínio da saúde mental e da qualidade de vida das pessoas nos dias de hoje compreendendo uma série de aspectos que, em conjunto, formam a base que dá molde à realidade de uma grande parcela da sociedade. Um dos pilares que sustenta essa situação é a negligência generalizada da qual tem sofrido esse excesso de bagagem emocional. Estamos sempre tão ocupados com as obrigações de hoje e preocupados com as de amanhã, que não damos a devida atenção aos pedidos de socorro silenciosos que nossos organismos fazem para que desaceleremos o ritmo. Muitas vezes, só percebemos – ou escolhemos perceber – que o problema existe quando ele atinge um nível diferente. O momento em que a condição psicológica do indivíduo se reflete em queixas físicas, seja por uma dor muito incômoda, manchas na pele, ou qualquer similaridade, é chamado na medicina de Somatização. E, infelizmente, também é outro fato muito mais comum do que imaginamos.
Entretanto, de forma alguma podemos utilizar desse argumento para culpabilizar os indivíduos usuários das drogas farmacêuticas, tampouco qualquer um que possua algum tipo de deficiência em sua saúde mental. Nenhum de nós é cem por cento saudável. Estamos imersos em um sistema que nos exige um “cronograma para vencer na vida”, e entre tantas necessidades e responsabilidades, é triste constatar que o bem-estar físico e emocional já não é uma prioridade para a prevalência da população.
E isso é extremamente preocupante.
Estamos hoje, na universidade, vivenciando apenas um período preparatório. O capitalismo que nos espera é muito mais feroz e voraz, aguardando ansiosamente o momento em que poderá devorar nossas forças de trabalho até seus esgotamentos. E enquanto isso, nós, seres sujeitos a uma estrutura social cruel, somos impulsionados cada vez mais pela necessidade de alcançar metas intermináveis. E assim, usamos todos os artifícios possíveis para ter mais fôlego e disposição, a fim de atender a uma lógica de mercado e de vida doentias.
Diante dessa realidade, o que fazer? Como reaprender a viver – de forma saudável dessa vez – a essa altura do campeonato? Como enfrentar todos esses fatores externos tão torrenciais?
Sobre isso, falou o professor Idivaldo: “Nós sempre vamos chegar despreparados em todas as fases de nossas vidas, inclusive para a morte. O ser humano tem essa marca. E o momento que a gente vive é bem peculiar. O estresse, nesse formato que vivemos, é muito novo para a humanidade. Não deu tempo pra ela se adaptar ainda. Não deu tempo dela produzir ainda as substâncias que precisamos pra nos proteger disso (...) A chance de terminarmos essa atividade aqui e voltar tudo como era antes é quase de 100%. Porque o mundo lá fora conquista a gente. Ele nos impõe muitas coisas, e nos obriga a lutar. Mas, mesmo que não consigamos fazer muito, temos que ser um pouco mais atrevidos. Usar mais vezes a palavra ‘não’, peitar as coisas um pouco mais, ser mais resistentes, fazer menos disciplinas nos períodos, ter um tempinho pra gente dar uma respirada. A gente tem que dá um jeito de passar uma rasteira no estresse”.
Precisamos reeducar nossas mentes a pensar em nós mesmos para além das necessidades financeiras. Existem carências em nossas vidas que são ainda mais urgentes. É por isso que os profissionais chamaram tanta atenção no evento para o olhar individual que cada um deve exercer sobre si mesmo. Refletir sobre o mundo em que vive e como se reconhecer nele. Buscar um ponto de equilíbrio entre necessidade e desejo, obrigação e prazer. A verdade é que nos desdobramos tantas vezes, e nos adaptamos a tantas mudanças no decorrer de nossas vidas, que podemos encontrar uma brecha: para uma boa, dessa vez.

Encerro esse texto com uma declaração muito feliz de Glêibert Mesquita, aluno de Medicina e um dos coordenadores do projeto BeHappy: É preciso se reinventar. “Eu vou mudar, até o ponto de poder dizer: Agora sim, desse jeito eu conseguiria viver o resto da minha vida”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Para todo tipo de Pai

Por Marcelo Rocha

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Existem várias concepções de família e dentre elas várias relações representativas. Com a imagem do pai não é diferente. Isso reflete de maneira expressiva quando ouvimos “você é como um pai para mim” ou então “eu te considero um pai”. Ser pai não é somente liberar um esperma, não se trata apenas de laços biológicos.

A relação de afeto entre dois indivíduos, independentemente de seus laços biológicos, guiada pelo “considerar” é o que define o “ser” para cada pessoa. Eu somente sou para alguém se a pessoa considerar que meu ser é relevante para ela. Isso acontece frequentemente e, muitas vezes, não percebemos que estamos criando laços familiares a todo tempo.

Quando eu era criança, possuía uma família normal: eu, meus irmãos, minha mãe e meu pai. As adversidades chegaram e o que era uma família “normal”, se tornou apenas um conjunto de pessoas morando na mesma casa: eu, meus irmãos e minha mãe. Eu era criança e não entendia muito bem o que estava acontecendo, minha mãe chorava para um lado e meus irmãos se revoltavam para o outro. E assim foram anos da minha vida.

Fui crescendo e percebendo tudo que minha mãe passava para nos sustentar. Logo no início da separação, lembro-me que ela passava fome para nos dar comida - meu pai nos deixou sem nada e minha mãe não tinha emprego. Foram tempos difíceis.

Mamãe insistia muito na minha educação, sempre estava no pé para garantir que eu conseguisse um futuro melhor. Ela sempre foi esperançosa, falava no futuro e sempre, sempre, dizia que tudo iria ficar bem. Embora eu quisesse acreditar nela, dava para ver que seu olhar andava baixo e morto. O sofrimento tinha apagado o brilho da alma dela. Chegou a nossa hora de levantar nossa mãe e contar sobre o futuro para ela. Eu e meus irmãos, embora não fossemos muito unidos, sempre estávamos do lado dela. Ela passou muito tempo com depressão.

Hoje, que tudo está bem, posso entender que, agora sim, faço parte de uma família. Agora sim, faço parte de laços de amor e união. Unidos pela esperança e coragem. E, hoje, dia dos pais, só tenho a agradecer a minha mãe que foi meu apoio nas horas difíceis, que me incentivou a continuar e descobrir quem sou hoje. Agradeço a minha mãe que me fez entender que, hoje, somos uma família: Eu, meus irmãos, minha mãe e minha mãe.

Isso aconteceu comigo e acontece com várias pessoas todos os dias, no mundo todo. Hoje é dia de abraçar e dizer tudo que você sente. Hoje é dia de curar as feridas e reafirmar laços. Hoje é dia de afeto e troca de amor. Hoje é o dia que temos para agradecer a essas pessoas que consideramos nossos pais.


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Jovens Aposentados


Por Luana Aladim

Filhos da tecnologia, irmãos da coragem e reféns da inovação: os jovens do novo milênio têm tudo para mudarem o mundo. Entretanto, falta-lhes força de vontade. Eles estão muitas vezes envolvidos em projetos e sonhos: trabalham para alcançá-los, mas morrem no meio do caminho – às vezes nem começam por ser árduo demais, por ter resultados em longo prazo. Sobre este assunto, discursou o Papa Francisco na cerimônia de abertura da Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia: “Entristece-me encontrar jovens que parecem aposentados antes do tempo. Preocupa-me ver jovens que se renderam antes do jogo sem ter começado a jogar; que caminham com a cara triste, como se a vida não tivesse valor. São jovens essencialmente chateados... E chatos”.
            A fase da vida de maior brilho e disposição parece estar passando por tempos tenebrosos, e apenas alguns pontos de luz podem ser vistos. Essa iluminação se dá a partir do desprendimento para consigo na tentativa de se alcançar um bem comum; e para ter essa disposição, é preciso cuidar da saúde. Sabe-se que o número de jovens nas academias de musculação aumentou consideravelmente nos últimos anos. Nos esportes, isso também não é diferente. O graduando de Educação Física da UFRN, Felix Sousa, comentou sobre a paixão pelos exercícios, que começou desde cedo: “desde os 12 anos que eu treinei futsal, handebol, vôlei, atletismo. Acho que o esporte é fundamental, pois além de ser uma ferramenta de inclusão social, nos ajuda a transformar nossa própria vida”.

            Para essa mudança acontecer, entretanto, é necessário desprender-se da comodidade e buscar melhorar-se a cada dia. Desse modo, haverá ganhos tanto para o indivíduo quanto para a sociedade a que pertence. É nesse contexto que surgem os movimentos sociais: o Levante Popular da Juventude, por exemplo, a cada dia convoca mais jovens para lutar por um país mais justo. Marcos Barbosa, integrante do movimento, incentiva os jovens: “Unidos seremos mais fortes. Precisamos romper com o individualismo e pensar que apenas coletivamente poderemos nos tornar agentes capazes de romper com os retrocessos e perdas de direitos. Precisamos avançar juntos na construção de uma nova identidade para o Brasil, que respeite as diferenças, que seja menos desigual, que respeite os direitos humanos”.
            Assim como um fósforo, a juventude precisa deixar-se queimar, sabendo que uma chama não sobrevive sozinha. Levantar a cabeça e esticar as pernas: fazer uma revolução humanitária, visto que a tecnológica já foi alcançada. Olhar nos olhos e não ter medo de se comprometer, de ser vivo, feliz, disposto e verdadeiramente jovem.

Imagens: http://www.unicef.org/brazil/pt/br_cavadas_033.jpg
http://observatoriodajuventude.upf.br/wp-content/uploads/2012/07/Youth-jumping1.jpg
http://www.revistaforum.com.br/wp-content/uploads/2014/04/1912278_717022038363353_4864709941818003298_n.jpg

Equipe de Reportagem: Ana Laura Freire, Leonardo Figueiredo, Luana Aladim, Nínive Luara

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016

Por Ana Flávia Sanção

Imagem: Alkis Konstantinidis/Reuters

Sexta-feira (5) foi dia de festa para os atletas de todo o mundo com a abertura das Olimpíadas 2016 no Rio de Janeiro. A cerimônia ocorreu no estádio Maracanã e reuniu os atletas, os organizadores, os artistas e o público num espetáculo de luz, cor e música.

As atrações, que tinham como objetivo unir a cultura brasileira, a diversidade e a sustentabilidade, trouxeram elementos culturais e históricos, como os índios e o aviador Santos Dumont. Na música participaram brasileiros dos mais diversos estilos — tivemos Karol Konká, Ludmilla, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Anitta, entre outros artistas. Um dos grandes destaques da noite foi para a modelo Gisele Bündchen, que entrou desfilando ao som de Garota de Ipanema.


Gisele atravessando o Maracanã. Imagem: Mike Blake/ Reuters

Esteve presente a todo o momento o tema da sustentabilidade. Desde os índios às imagens do aquecimento global e à formação dos arcos olímpicos por enormes mudas de plantas, a importância do cuidado com a natureza foi lembrada. Um detalhe importante foram as sementes trazidas por cada atleta participante, que serão plantadas no Parque Radical de Deodoro. Elas farão parte do legado deixado pelas Olimpíadas, batizado de "Floresta dos Atletas". 

O show da pluralidade cultural olímpica ficou para as delegações dos países participantes dos Jogos. Todos os países traziam elementos culturais em seus figurinos, com grande destaque para os países africanos e do oriente médio, que além de cultura, traziam a diversidade racial e religiosa. A representatividade não parou por aí; apresentando a delegação brasileira, a última a entrar, estava a modelo transexual Lea T.


Delegação de Burundi. Imagem: David J. Phillip/AD Photo

Mas o verdadeiro clímax da noite foi a entrada da chama olímpica nas mãos de Guga, que foi recebido por um coro emocionante dos brasileiros presentes do estádio, e a ascensão da chama na pira, acendida pelo ex-atleta olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima. Vanderlei, nas Olimpíadas de 2004, estava em primeiro lugar de uma prova de maratona, quando foi impedido de continuar pelo padre irlandês Neil Horan, o que prejudicou seu desempenho na prova e gerou uma comoção nacional pela situação vivida pelo atleta.

Ao fim da entrada das delegações tivemos o discurso muito bem feito pelo Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, que integrou o texto com partes em inglês, português e francês, e o discurso feito pelo Presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach. Logo após, a abertura oficial dos Jogos foi dada pelo presidente interino Michel Temer, que preferiu não ser anunciado diante do temor de vaias e que, mesmo assim, foi cercado por elas durante sua breve fala.


Atletas da delegação brasileira adentrando o Maracanã. Imagem: Stefan Wermuth/ Reuters

O evento em termos gerais foi um completo sucesso — não ocorreram erros ou complicações técnicas ou de segurança. E ainda que tenha sido aplaudido por boa parte dos brasileiros, algumas respostas não foram tão positivas assim. Parte da população voltou a criticar a crise política e social do Brasil e do Rio de Janeiro, alegando coisas como atos de “pão e circo”. Internacionalmente, as reações também foram diversas. O jornal britânico The Guardian publicou, em forma de crítica, que a “Cerimônia de abertura do Rio-2016 é um misto de patriotismo aparado e clima de preocupação. Com alguma ajuda da supermodelo Gisele Bündchen, uma equipe de refugiados, milhares de mudas, a rapper de 12 anos MC Soffia e uma injeção de patriotismo, organizadores esperam que a cerimônia de abertura marque a ruptura definitiva de uma construção conturbada”. Já o jornal espanhol Marca aprovou: “Um espetáculo maravilhoso de luzes, imagens e som, que como novidade incluiu uma mensagem altamente simbólica que poderia ser resumida em um ‘salvem o planeta’, slogan que se torna mais importante no país que abriga a saqueada floresta amazônica”. Outros, como o New York Times, se posicionaram num meio-termo: “Se havia uma nação com a necessidade de um espetáculo de elevação neste momento, mesmo que sob a forma de um exercício de relações públicas, esta nação é o Brasil”.


A crise política e econômica

O Brasil vem sofrendo nos últimos dois anos as consequências de uma crise econômica, filha da crise imobiliária americana de 2008, que causou não só um descarrilamento da inflação e desvalorização do real como a maior reviravolta política da última década.

Com a inflação em alta e o preço do dólar oscilando constantemente, a importação e a exportação do Brasil, principalmente de petróleo e commodities, sofreu um abalado forte. Estamos pagando mais caro pela compra e recebendo menos pela venda dos nossos produtos. Em janeiro de 2016, o dólar atingiu a maior cotação da história, saindo por R$ 4,16 reais.  Pessoas perderam o emprego e a economia do país desceu ladeira abaixo. As medidas tomadas pelo governo não tiveram resultado além de reclamações por uma boa parte da população brasileira.

Somada à evolução da Operação Lava-Jato pela Polícia Federal, a crise econômica se tornou política, acarretando protestos contra e a favor do antigo governo em poder e que, ao final, levou à saída da presidente Dilma Rousseff através de um processo de impeachment. Desde a tomada de poder do presidente interino, Michel Temer, as relações sociopolíticas do Brasil se tornaram incertas. Há quem não apoie as medidas do atual governante, há aqueles que defendem a saída definitiva de Dilma e há aqueles que queiram novas eleições. Numa pesquisa do Ibope, em abril desse ano, antes da saída de Rousseff, 62% dos entrevistados preferiam a saída de ambos políticos e novas eleições para presidente.

Dentro do caos brasileiro, o Rio de Janeiro, sede das Olimpíadas, entrou em estado de calamidade pública. Há meses que um dos mais importantes estados do país vem lidando com um descontrole do dinheiro público. Após a ajuda do Estado ser embargada pelo não pagamento de uma dívida de mais ou menos US$ 8 milhões à Agência de Francesa de Desenvolvimento, o governador Francisco Dornelles decretou calamidade diante da falta de recursos para lidar com as finalizações das instalações olímpicas.

O Decreto de calamidade pública é um pedido de ajuda nacional diante de alguma catástrofe natural ou material sofrida por determinado estado ou cidade da federação e que não pode ser resolvida pelo governo estadual. A situação engloba os diversos setores da sociedade: econômico, social, sanitário, etc. A deficiência da economia carioca afeta a sociedade como um todo, interferindo na qualidade de vida, de saúda e de educação da população. Após receber ajuda nacional para o término das obras olímpicas, o governo estadual do Rio se vê agora na missão de corrigir a crise socioeconômica na qual sua população vive.

Os questionamentos sobre a segurança
           
Julho foi um mês caótico para todo o mundo. Com diversos ataques terroristas o principal deles em Nice, França, durante a comemoração do Dia da Bastilha, em 14 de julho, por um tunisiano naturalizado francês chamado Mohammed Bouhel, que atropelou dezenas de pessoas, matando 85 — o tema da segurança perante a situação do Estado Islâmico se intensificou nas mídias. Com pouco tempo para as Olimpíadas, o principal foco da nação era o que seria feito para impedir algum tipo de atentado no Brasil e às delegações.

A quinze dias dos jogos, 21 de julho, uma operação policial feita em sete estados da federação prendeu dez supostos terroristas. O Ministro da Justiça, Alexandre Moraes, garantiu que não houve contato direto com o grupo extremista Estado Islâmico e que não passavam de amadores. Para manter a proficiência, a PM e o Exército simularam ataques terroristas e garantiram que as forças de segurança do Brasil estavam preparadas para qualquer ocorrência.
            
Lidar com uma possível ameaça terrorista não é a única coisa que os policiais e o exército brasileiro terão de enfrentar durante o mês dos Jogos Olímpicos. A falta de segurança do próprio estado do Rio chama atenção. Com uma quantidade alarmante de assaltos na capital, a preocupação com o bem-estar dos visitantes e dos moradores deverá ser redobrada. Com 11 dias para a abertura já tivemos uma notícia ruim — o atleta neozelandês de jiu-jitsu, Jay Lee, denunciou um sequestro por parte de policiais na capital olímpica. Segundo Lee, ele foi forçado a retirar dinheiro de um caixa eletrônico para que não fosse preso.
            
Deve ser levado em consideração também os outros estados que sediarão os jogos de futebol. Além do Rio de Janeiro, as cidades de Belo Horizonte, Brasília, Manaus, Salvador e São Paulo receberão as seleções olímpicas para os jogos. Um torcedor que compareceu ao primeiro jogo do Brasil, no dia 4 de agosto no Estádio Mané Garrincha em Brasília, e que preferiu não ser identificado, deu uma entrevista ao GRUPERT afirmando que “Eles dizem que não podem entrar com bolsas no estádio, mas tem galera que entra com bolsa muito grande e tem galera com bolsa pequenininha que é barrado”.

O que esperar do Brasil no esporte
           
A delegação da casa está trazendo em torno de 465 atletas para as competições, participando praticamente de todas as modalidades oferecidas. Dentre eles temos nomes conhecidos do esporte brasileiro como Marta e Cristiane, do futebol feminino, Neymar, do futebol masculino, Daniele e Digo Hypólito e Jade Barbosa, da ginástica artística, e Rafaela Silva, do judô, que foi desclassificada nas Olimpíadas de 2012 em Londres.
            
Expectativas crescem diante não somente das seleções de futebol, como também das seleções de vôlei. A seleção feminina, comandada pela capitã Fabiana Claudino e treinada por José Roberto Guimarães, vem com toda a força após conquistar seu 11° título do Grand Prix de Voleibol em 2016, na cidade de Bangcoc, Tailândia. A masculina também chega às Olimpíadas com grandes expectativas. O time ficou em segundo lugar da Liga Mundial de Voleibol desse ano e promete vir com tudo para garantir seu ouro olímpico. 

Na natação, apesar de não termos nosso recordista mundial e campeão olímpico, César Cielo, teremos alguns nomes conhecidos como Thiago Pereira, competindo pelos 200 metros medley.

O futebol, um dos esportes favoritos do povo brasileiro, está sob os olhares atenciosos e cautelosos do povo desde que seu rendimento vem caindo nos últimos anos. A seleção olímpica que vai disputar os jogos é a sub-23, que conta com três jogadores mais velhos, Neymar, Fernando Prass e Douglas Costa. Depois da saída traumática da Copa do Mundo e da eliminação da Copa América, os torcedores mantêm as expectativas baixas. O primeiro jogo disputado pela seleção, no dia 4 de Agosto, já desapontou os espectadores — o time do Brasil empatou de zero a zero com o time da África do Sul.

O Comitê Olímpico espera que o Brasil alcance ao menos uma posição entre os dez primeiros colocados no quadro geral de medalhas. A possibilidade é válida, mas os atletas precisarão se esforçar para enfrentar potências esportivas como Estados Unidos, China e Reino Unido. Nos Jogos passados, o país alcançou a 17ª posição. É claro que a torcida é essencial. Dar apoio aos atletas brasileiros faz parte do espírito olímpico — assim como respeitar os atletas das outras delegações — e curtir as histórias de superação, as lágrimas e as comemorações junto com eles engloba tudo o que o evento mais prega.

Esses jogos serão mais uma provação para a sociedade brasileira. Eles provarão, dentre altos e baixos, que o país pode sim promover um evento de grande porte, mesmo que não seja o ideal no meio de uma crise sociopolítica como a que vivemos. Já está feito — o que nos resta agora é dar apoio e torcer pelos nossos representantes e tentar tirar os melhores frutos possíveis do legado que as Olimpíadas vieram nos deixar, independentemente do que aconteça. 



Link das fontes: G1 / G1 / G1 / G1 / G1 / Estadão / UOL / Roberta Jungmann / Terra

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

NYC Redux

Por Sebastião Guilherme Albano



           
Fui à Nova York ao menos cinco vezes até agora, mas esta última, em que passei quase um mês entre junho e julho, foi a mais aventurosa, ainda que tenha sido a mais planejada de todas as viagens que já fiz. Comprei um bilhete de avião para aterrissar em Nova Jersey por que gostaria de ficar daquele lado da metrópole, cuja escala em relação à Manhattan, com um pouco de imaginação, se aproxima muito à de Niterói em relação à cidade do Rio de Janeiro, ou mesmo à Zona Norte e à Zona Sul aqui em Natal.
Minha intenção, como da segunda vez que estive lá, era consultar bases de dados das bibliotecas das Universidades de Nova York, da Universidade da Cidade de Nova York e da Universidade Columbia. As últimas duas tiveram de ser preteridas, com efeito ambas as vezes, mas desta feita por um motivo mais nobre. O acervo da NYU, Universidade de Nova York, que só conheci em sua inteireza agora, apresentou-se tão imponente e as facilidades de acesso a fotocópias e digitalização que me ofereceram, de modo gratuito, pareceram-se um milagre que não aconteceria em outra universidade dali, onde tudo custa, pelo que na biblioteca da NYC fiz meu quartel general. Recordo-me agora mesmo com nostalgia das inúmeras descidas e subidas, entre os pisos oito e nove, em uma escada com uma vista portentosa para o saguão do edifício, para apanhar material para scannear. Devo remarcar, contudo, que ao final da minha estada percebi que essa perspectiva algo pessimista em relação às expectativas quanto aos serviços que as demais bibliotecas das universidades de grande reputação em Nova York poderiam ter oferecido foi suscitada devido a que o acervo da NYU era mesmo inesgotável e minhas pulsões me levaram a optar por aquele universo fabuloso e não buscar outros por enquanto. Faço essa revisão porque lá, nos Estados Unidos, há uma espécie de camaradagem em relação ao acesso às instalações desse tipo de instituições, semi-públicas ou públicas, algo bem valioso ali. Bibliotecas, bases de dados, academias, restaurantes, entre outras facilities dessas universidades, soem ser não apenas de livre acesso, mas a convivência com a comunidade não acadêmica é incentivada. E a NYU fica no similar ao que seria o coração da cidade, em pleno Greenwich Village.

O edifício da biblioteca, por fora um bloco monolítico marrom, como se fosse uma cama com um lençol estendido sobre ela, está plantado diante da Washington Square e com vista para o seu arco do triunfo, êmulo do parisiense, lugar onde culmina ou inicia a reputada Quinta Avenida. Com seus 12 andares superiores de grandes prateleiras repletas de obras de todas as partes do mundo e de muitas áreas do conhecimento autorizado pelo regime de saberes do Ocidente, mais alguns subterrâneos, me convidavam a uma permanência exclusiva e fiel, mesma que tive de trair por conta das ofertas museográficas (muito concorridas e sem nenhuma possibilidade de se atentar com esmero para as obras das exposições ali organizadas: fui ao novo Whitney e ao Moma, ademais do museus da fotografia e de algumas galerias um pouco excêntricas e preços surrealistas), e cinematográficas existentes na região, ademais de alguns restaurantes até modestos que em geral recorro quando estou ali. O Film Forum, o Angelika Film Center, o IFC e os cinemas do Lincoln Center, ademais dos hambúrgueres com batatas fritas e da água gelada com gás do The Smith, ou do Papaya Dog (pé sujo sem remorsos) e dos bem econômicos restaurantes vietnamitas me distraiam um pouco da faina acadêmica mais ostensiva e satisfaziam, enquanto mastigava, minha mania de observar como as pessoas transitam e solucionam problemas urbanos tais como atravessar uma rua, comprar alguma coisa, pegar um ônibus.
Outro detalhe: há muito adquiri, nos Estados Unidos, a mania de ver as partidas de rua nas quadras de basquete. Em 2006, vi um jogo do San Antonio Spurs no estádio daquela cidade texana e foi uma experiência inesquecível, malgrado para mim quase ininteligível, devido ao lugar em que fiquei e das vocalizações de anúncios e as músicas extremamente altos que me distraíram sobremaneira, em especial no momento das cheers girls, mesmas que eu imaginava, com aquele som, entre ouras coisas, todas em torno a uma mesa de um pub brindando. Por isso, mais recentemente, quando morei um ano e meio no Texas de novo, então em Austin, em vez de ver os Longhorns, o time da Universidade do Texas naquela cidade, jogando num daqueles ginásios fantásticos, preferia assistir as partidas rueiras e contraí o vezo de tentar examinar como se naturalizava a excelência que na quadra oficial e midiática se multiplica tecnicamente.
Explico: confesso que minha curiosidade é para o que faz os jogadores e as jogadoras construírem a habilidade para serem, há um século, os melhores do mundo desse esporte, e confesso que ainda não encontrei a solução para esse enigma. Os times norte-americanos nas Olimpíadas, por exemplo, de ordinário não são formados por seus estelares, mas por jogadores universitários. Aqui há campos de futebol espalhados por todos os quadrantes, gozamos de fama de artistas desse esporte, mas somos intermitentes em nossa trajetória em campeonatos que, sob o modelo valorativo dominante, são o termômetro de qualidade, tal como os festivais de cinema o são para os filmes. Portanto, o basquete de rua dos Estados Unidos também tende a me distrair dos interesses meramente cerebrais, mesmo que tenda a racionalizar demasiado essa fruição também. Afinal, examinar é uma ação quase clínica.
            World Hotel, na rua Bowery, número 101, em Lower Manhattan, uma parte antiga da cidade e logo na saída da ponte que vem do Brooklyn, chamada de duas pontes (muito conhecida como ponte do Brooklyn, talvez já globalmente icônica pelo enquadramento e as variações de cinza propiciadas pela fotografia em preto e branco de Gordon Willis no filme Manhattan, de Woody Allen, 1979), que atravessa a baía e no sentido Manhattan também desagua ali, em Chinatown, um lugar muito parecido com uma cidade do interior do Brasil não fosse que constantemente esteja repleto de pessoas em atitudes céleres.

Esses eventos espartanos para umas férias na supostamente dionisíaca Manhattan não me teriam sido estranhos desta vez, devido a que nas outras regiões em que vou, quando só, sempre acabo a maior parte do tempo em lugares semelhantes: livrarias e bibliotecas, com algum desvio impronunciável aqui para aliviar  a tensão do excesso de exercício intelectual. Não obstante isso, devo admitir que desta vez em Nova York o mais curioso de tudo foi a minha vizinhança. Fiquei em um hotel chamado
Sua semelhança com nossas vilas descansa no fato de que naquela região há uma variedade vultosa de odores, cores e mercadorias vinculadas a tradições que a despeito de marcadamente orientais se aproximam muito a qualquer mercado de cidade pequena nacional e, em compensação, se distanciam por demais do modelo nova-yorquino de comércio de rua: vende-se de peixe fresco a gengibres gigantes, folhas de bambu e chapeús camponeses chineses, tudo à mostra do transeunte nas elegantes calçadas da Big Apple. A grande diferença entre o enclave chinês de Manhattan e algum vilarejo brasileiro sobressai na ausência dos bons-dias muito típicos entre as pessoas que se cruzam pela manhã em nosso interior (ato nem sempre agradável, como diria Rubem Fonseca) e ali quase inexistente em razão de uma atávica pressa em montar barracas, descarregar pescado e hortifrutigranjeiros, arrumar objetos budistas e mesmo shintoístas, ainda que esses em menor escala, entre outros produtos de aparência distante. A minha perplexidade inicial com certas características do cotidiano daquela região em especial me levou a que um dia confundisse um fabuloso templo budista com uma Igreja Universal, por certo com várias sedes por lá também. Nesse dia cortei o cabelo numa barbearia chinesa e assisti a uma missa católica em mandarim.

Não obstante, o que mais me chamou a atenção foi o hotel em que me hospedei, ou me hospedaram. Quando desci do transporte que me deixou em frente ao edifício em estilo francês do século XIX, não me pareceu de todo ruim, pois em Buenos Aires, para usar um exemplo Sul Americano, há prédios semelhantes que abrigam hospedarias suntuosas e com um preço mais realista. Mas não foi o caso. Com cinco andares e sem elevador, causou uma impressão diversa a tudo o que eu pensava do lugar. Com longos e estreitos corredores, com portas de quartos enfileirados muito próximas umas das outras, que me levaram a pensar, guardadas as proporções em face do castelo em que se passa a película, àqueles do filme de Stanley Kubrick, The Shinning (O iluminado, 1980), banheiros compartilhados, detalhe que provocava um constante trânsito nos corredores, confesso que alguma noite sonhei que estava sonhando estar naquele lugar.   Mais o que chamou a minha atenção de verdade foram os quartos: a maior parte deles sem janela, com as dimensões de um cômodo numa casa das Viagens de Gulliver (Jonathan Swift, 1726/1735) e com um sistema de ventilação central que parecia cumprir funções de uma rede de sonoplastia, uma vez que eu podia ouvir sintonias de rádio, conversas pouco aptas para menores, programas de tv, entre outras bizarrices não apenas do vizinho, mas de dois ou três ou mesmo quartos mais distantes do meu próprio cafofo. Não que inexistam quartos semelhantes em outros hotéis ao longo do mundo, parece que no Japão são até chamados de Hotéis Cápsula, mas pelo preço cobrado pelas acomodações, era-se de esperar algo menos desconfortável. Não reclamei demasiado, tão somente me concentrava em estudar, ver os filmes que necessitava para futuros trabalhos e aproveitar o movimento nas ruas de uma metrópole tão cosmopolita que alberga inclusive uma cidade no interior de seu corpo: Sinédoque Nova York (Charlie Kaufman, 2008).
            Nessa seara, dos filmes assistidos por lá gostei muito de um documentário acerca da trajetória de Brian de Palma (revi cenas de Olá, mamãe, 1970, Carrie, 1976,  Dress to Kill, 1980, Scarface, 1983, e Missão impossível, 1999, todos clássicos comentados por ele, hoje um idoso gordo e, parece, em vias de se aposentar: a idade pesa, disse ele) e outro documentário um pouco atávico a respeito dos mecanismos de dramaticidade do regime comunista coreano, Sob o sol (Vitaly Manzky, 2015), que demonstra os mecanismos de encenação da satisfação dos habitantes do país com o que King Jong-Um assinala como um avanço técnico, militar ou social. Este último filme eu comparei, um pouco a contragosto por saber de antemão a improcedência desse cotejo, com o magnífico The Autobiography of Nicolai Ceausescu (Andri Ujica, 2010). Talvez por que ambos me fizeram conjeturar de modo diverso que no formato de sociedade em que vivemos, mais que a espetacularização, conceito ao que o lugar comum atribui a superficialização das figuras que nos fornecem elementos de intelecção acerca do que vemos, sentimos etc., vige um modelo de comportamento e emocional histérico e cínico. Por exemplo, no campo do entretenimento ou do jornalismo, alardeiam-se, visualmente, dados de certa importância conjuntural que não são propriamente esquecidos ou minorados pela audiência como querem alguns teóricos, mas, como um simulacro, são assimilados como um modelo ou uma representação e talvez até como um mero desvio ou variação de uma norma que ninguém sabe mais qual é ao certo. Isso fica nítido no noticiário policial brasileiro, ademais do político e etc., por acaso, às vezes, a mesma coisa. No filme coreano, as cenas com crianças sendo ensaiadas para representarem ordem e felicidade seriam curiosas, não fossem um clichê social e fílmico superlativo.

Aliás, outra divagação a propósito dos filmes e suas fontes de inspiração fora da tela, no mundo da vida, se hoje ainda podemos discernir uma coisa da outra: se no campo da política partidária e dos eventos que temos visto pelos meios audiovisuais tradicionais esse fenômeno (espetacularização, simulacro, comportamento histérico e cínico) se acentua por conta da celeridade com os profissionais devem enquadrar os eventos que se apresentam, os temas de interesse empresarial que arremedam temas de interesse público, ou vice-versa, no caso das redes sociais, talvez com atores leigos que procuram ser epígonos dos estrategistas dos meios mais sólidos, salienta-se a ilusão de que esse incauto, como estratégia de convivência ou sobrevivência, possa, por intermédio de uma mídia cuja característica é o espalhamento descontrolado, manter as rédeas sobre a imagem ou mesmo sobre a autoimagem ou sobre a imagem de outrem, o que suscita uma notabilização desse histerismo cínico. Sendo assim, cinicamente, me permito tanto aceitar a comparação entre filmes social e poeticamente tão díspares (ainda que um visivelmente inspirado no outro) como afirmar que minhas férias foram, falando de maneira até modesta para os padrões de mensuração da felicidade pelos que são escrutinados comentários semelhantes em especial nas redes sociais, deveras outstanding, great, amazing!!!