sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A carência de atendimento médico de urgência na UFRN

Por Marcelha Pereira e Marcelo Rocha


A equipe Grupert, há algumas semanas, recebeu denúncia em relação à falta de atendimento médico de urgência para alunos no campus da UFRN-Natal. A aluna de Radialismo, Fernanda Santos, disse que quando teve uma forte crise de asma e precisou de apoio médico, foi difícil de achar. Seus colegas foram orientados pelo segurança do Departamento de Comunicação (Decom) a levarem-na para a Diretoria de Atenção à Saúde do Servidor (DAS), a qual fica perto do Departamento de Artes (DEART). Chegando lá, teve dificuldades para ser atendida por ser aluna, não servidora. Somente depois de algum tempo conseguiu ser medicada, mas com certa relutância. 

Ao procurar a Coordenadoria de Atenção à Saúde do Estudante (CASE), na Reitoria da Universidade, fomos informados pela psicóloga, Isabelly, e pela bolsista, Raquel, de que realmente a UFRN não possui centro de atendimento médico de urgência. A CASE somente direciona para hospitais de Natal, que tenham convênio com a UFRN, os alunos de baixa renda que precisam de atendimento básico – como consulta com oftalmologista ou algum outro apoio médico.

No Mato Grosso do Sul, desde 2014, há lei que exige a implantação nas universidades de posto médico para atendimento emergencial e de primeiros socorros depois que uma aluna de arquitetura morreu nos corredores de uma universidade em Campo Grande. Porém, não há nenhuma medida nacional que obrigue todas as instituições a possuírem postos de atendimentos. A responsabilidade cabe a cada estado e município. E não somente na UFRN, mas em outras universidades pelo Brasil, há a falta de estrutura médica para o socorro dos alunos.

Fizemos uma entrevista com o aluno de Jornalismo, Leandro Lima, o qual também é estudante do curso de Logística no IFRN. Ele comentou que em cada campus do Instituto Federal possui centro de atendimento médico. No centro, 5 profissionais da saúde estão prontos para fornecer apoio: dois enfermeiros, um médico geral, um psicólogo e um dentista. Qualquer aluna ou aluno que venha a passar mal será atendida (o) na hora. Vendo a assistência que é dada nos campus dos Institutos Federais, a falta dela é sentida no campus da UFRN-Natal.

Na Universidade, casos simples ocorrem diariamente: alguém precisando de remédio para dor de cabeça, cólica ou dor de barriga. Porém, casos mais sérios, como foi o caso da Fernanda Santos, estão sujeitos a acontecer. A implantação de posto de atendimento, e o aviso aos alunos de que ele existe, é fundamental. É direito da aluna e do aluno receber assistência médica no local onde estuda, o atendimento rápido – e especializado – pode salvar uma vida. 

domingo, 25 de setembro de 2016

Eleições 2016: dos santinhos aos funks remixados

Por Luana Aladim          


Desde agosto a poluição aumentou. Panfletos, adesivos, carros de som: tudo para promover os candidatos à Prefeitura e à Câmara Municipal. Em meio ao conturbado período político brasileiro, abraços e promessas se juntam aos repetitivos jingles: parecemos estar em período natalino, quando ateus se comportam da melhor forma possível para celebrar o nascimento do menino Deus.
            Os cidadãos comuns, por assim dizer, são bombardeados antes mesmo de saírem de casa: logo pela manhã é possível escutar um candidato evangélico com seu carro e som pelas ruas da cidade com mixagens de umfunk “pesado”. No percurso para o trabalho, o cidadão precisa ultrapassar o mar de panfletos e santinhos espalhados pelo chão – papéis estes abandonados pela própria população nas vias públicas. Além disso, não faltam pessoas sorridentes para distribuir propostas milagrosas e muitas vezes hipócritas.
            Agentes da esquerda se confrontam com agentes da direita, muitas vezes para criticar, e não para debater. A política, que deveria servir para o exercício da cidadania, acaba por se instaurar como um campo minado: mantenha-se afastado. É então que se chega ao imaginário popular, em que não se discute política, religião nem futebol. Até outubro, a poluição sonora e visual se instaura pelas cidades. Até janeiro, as reclamações urbanas permanecerão as mesmas. Até março, boa parte da população vai dizer que o Brasil não tem jeito. Até 2020: poluição sonora, visual e moral.

Charge: Bruno Galvão

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Arte desvalorizada

Teatro Alberto Maranhão (TAM) encontra-se fechado há dois anos, causando transtorno aos artistas locais.

Por Léo Figueiredo 

 Teatro Alberto Maranhão. Imagem: Léo Figueiredo.

O Teatro Alberto Maranhão (TAM), localizado no bairro Ribeira, na cidade de Natal, é a casa de espetáculo mais antiga da capital potiguar, com estilo clássico e palco italiano. Há dois anos, para infelicidade de artistas da terra, encontra-se interditado para uma reforma que ainda irá acontecer. 
Tendo mais de 100 anos de história, ele, durante muito tempo, foi referência nacional e chegou a ser eleito como o teatro que possuía uma das melhores acústicas do Brasil. O motivo do fechamento foi pelo fato do Corpo de Bombeiros ter interditado o local por questões de segurança. O prédio não estava atendendo as exigências dos Bombeiros, tanto pela sua idade quanto pela sua manutenção. Por ser um patrimônio tombado, a reforma tem que seguir uma série de regras, as quais são supervisionadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Reza a lenda que a maioria da população de Natal não valoriza a cultura potiguar. Agosto, por exemplo, é considerado o mês do folclore, e foi exatamente na capital norte-rio-grandense que residiu aquele que é considerado um ícone no universo folclorista; Luís da Câmara Cascudo. No entanto, as manifestações artísticas ainda são poucas e, quando ocorrem, são minimamente faladas e divulgadas. No Rio de Janeiro, é proibida a entrada no teatro com comida na mão porque é considerado desrespeito. O natalense não tem esse tipo de orientação. E os resquícios dessa herança reverberam por aqui até hoje e, ao que parece, o TAM tornou-se mais um número nas estatísticas.
Natal é uma cidade que não comporta um número ideal de casas de espetáculos; se antes era difícil montar um espetáculo teatral ou de dança na capital potiguar, hoje essa tarefa ganha outro grande bloqueio. É esse o desabafo de Sandemberg Oliveira, 41, professor e delegado de cultura do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC). “O TAM é considerado um teatro popular, com preços acessíveis ao público e pautas que encaixam dentro da realidade dos grupos de teatro da cidade. O teatro tem uma capacidade de suporte para 600 pessoas, o que dá bastante visibilidade ao artista. Infelizmente, outros locais, como Casa da Ribeira e Teatro Riachuelo, oferecem pautas exorbitantes, elitizando o trabalho teatral e deixando a classe artística sem muitas opções para expor seus trabalhos”, declarou.

Sandemberg Oliveira, professor e delegado de cultura. Imagem: Léo Figueiredo.

Para o professor, em Natal não há outro teatro com tamanho glamour, e é um pecado que esteja fechado. Ele confessou que no início deste ano procurou a Câmara de Vereadores da cidade para investigar a porcentagem de verba que seria destinada à cultura, e até que ponto esse valor estaria direcionado aos teatros do município, e simplesmente constatou que “Não houve nenhum vereador que externasse preocupação em relação ao TAM”.
Sandemberg revelou ainda que muitos grupos foram surpreendidos com o fechamento do TAM, uma vez que tinham programado suas respectivas apresentações no local. A maioria dos espetáculos dos grupos de Natal e inclusive grupos de fora tiveram que ser cancelados em virtude do fechamento. Ele próprio disse que se sentiu prejudicado, pois possui uma companhia teatral, a Girarte, e com ela tinha planos de se apresentar no TAM. Por isso teve que recorrer ao Teatro de Cultura Popular (TCP), o qual comporta um número reduzido de pessoas.
Essa situação não vem afetando apenas grandes grupos. O Grupo de Teatro Eureka, nascido há pouco tempo e oriundo da graduação ofertada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), sentiu na pele os empecilhos que a falta do TAM representa, suspendendo as apresentações lá marcadas. “É difícil encontrar um espaço que possa comportar nosso espetáculo e que possa ser acessível ao público. E às vezes não encontramos essas duas qualidades no mesmo espaço”, relata Denilson David, 27, diretor do grupo.

Elenco do Grupo de Teatro Eureka. Imagem: Léo Figueiredo.

O Eureka está tendo que pesquisar novos locais, alguns alternativos, para apresentar seu espetáculo mais recente, “Debaixo da Pele”. De acordo com o diretor, todos estão sofrendo com o fechamento do TAM, e isso também prejudica projetos que os artistas firmam com escolas, no intuito de fazer com que os alunos experimentem o fazer teatral no próprio teatro. “Não há onde levar essas escolas e nem onde fazer esses espetáculos. O TCP reabriu há pouco tempo, mas ainda assim não comporta a quantidade de pessoas que o TAM comportava. Isso dificulta a logística de recursos; uma casa que comporta um número menor de público rende um custo e um lucro que muitas vezes não é o ideal”, lamenta Denilson.
Os artistas natalenses unem-se em um coro e a grande maioria concorda: o TAM democratizava o acesso tanto para o público quanto para o artista. O teatro na cidade continua vivo, e os grupos lutam em busca de novos espaços. Existem lugares que não são apropriados, mas que, vez ou outra, em um nobre gesto generoso, cedem seus ambientes, como a Pinacoteca, no bairro Cidade Alta.

A boa e má notícia
É importante lembrar que o TAM não é o primeiro teatro de Natal a encerrar suas atividades. O Sandoval Wanderley, no bairro Alecrim, também fechou suas portas e está completamente abandonado pela prefeitura. Contudo, com a reinauguração do TCP, o atual governador, Robson Faria, cogitou a reabertura do TAM e confirmou já estar reunindo verbas para providenciar o início da reforma do prédio.
Por questões burocráticas e também pela velocidade da restauração, é bastante possível, em uma estimativa positiva, que o TAM venha reabrir suas portas somente daqui a dois anos, impossibilitando que os artistas e o público local usufruam do espaço e, infelizmente, proporcionando que um prédio de tamanho valor histórico fique inutilizável.

 A mensagem de esperança que paira sobre os artistas é proferida pelo delegado de cultura, Sandemberg Oliveira, que recita “O TAM é um teatro que perpassou as mazelas do tempo e clama por alguém que cuide dele, assim como o semeador cuida de uma planta. É preciso que se crie políticas públicas educativas para que o teatro não seja apenas reformado, mas que seja, sobretudo, cuidado”. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Mudanças no sistema do RU: o que precisamos saber

Por Ana Flávia Sanção, Leonardo Da Vinci e Fernanda Cristina

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O Restaurante Universitário da UFRN é um dos principais locais de uso por parte dos estudantes e dos profissionais que trabalham na instituição. A construção foi inaugurada em 1973, pelo então reitor Genário Alves da Fonseca. O Ru atualmente consta com uma média de 4.500 refeições por dia, sendo 3.000 delas só na hora do almoço.

No primeiro semestre desse ano foram divulgadas, pelo Conselho de Administração da Universidade, duas mudanças no sistema de funcionamento do RU. A primeira era que o valor pago pela refeição passaria de R$ 3 reais para R$ 7 reais a partir de outubro. E a segunda era sobre a mudança na forma de pagamento, que foi transferida dos pontos de recarga (uma na Central de Atendimento ao Discente e outra no prédio do RU) para agências do Banco do Brasil, através da geração de um boleto bancário.


A mudança do preço

O anúncio da alteração do preço da refeição pago pelos usuários do RU gerou polêmica dentro do meio acadêmico, principalmente dos discentes, principais usuários do serviço. Os alunos alegam que o aumento do preço para mais do dobro do valor anterior fere aqueles que precisam do RU no dia-a-dia e não tem condições de custear uma alimentação mais cara. Também dizem que a qualidade da comida servida não sustenta o valor de sete reais. Numa pesquisa feita pelo CP com 55 alunos, 94,5% não gostaram da transição. “Não é uma comida de alta qualidade, como sabemos, e com o valor que estão cobrando dá para comer em cantos melhores que o RU”, diz Joalisson Gomes, estudante de CeT.

O serviço do RU tem como principal público os estudantes com uma renda até 1,5 salário mínimo, regra definida pelo Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). No entanto, não são somente os alunos com essa renda a usarem o restaurante durante a semana. “Aquele estudante que faz parte de uma família cuja renda per capita é superior a 1,5 salário mínimo previsto em lei, acaba sendo beneficiado indevidamente”, explica Edmilson Lopes Júnior, pró-reitor de assuntos estudantis da UFRN. Então, a partir dessa mudança, os únicos alunos a pagarem pelo preço de três reais serão aqueles que possuem bolsas de auxílio moradia e refeição, os que moram na Residência Universitária, os que têm atividades em seu contraturno e os com renda entre 1,5 e 3 salários mínimos. Os demais, assim como os servidores da instituição, pagarão sete reais.

Todos os recursos voltados para alimentação estudantil saem do orçamento do Pnaes, um gasto em torno de 6 milhões de reais por ano. Esse dinheiro é público e deve ser utilizado com responsabilidade, seguindo as leis estabelecidas pelo órgão responsável. Ainda que seja uma alteração considerável, a mudança garantirá que a legalidade do RU e o seu funcionamento esteja em dia. 

Gasto individual necessário para comer no RU (por semana e por mês)


A mudança na forma de pagamento

Em julho, o local e a forma de pagamento do RU sofreram alteração. Antes, a recarga dos créditos das refeições podia ser feita através de dois postos, um localizado no CADIS – conhecido como o antigo Relógio do Sol, no Centro de Convivência – ou no próprio RU, localizado em frente ao edifício de Saúde Coletiva da UFRN. Agora, a recarga só pode ser feita através da geração de um GRU (Guia de Recolhimento da União)  pelo SIGAA e que deve ser pago numa agência do Banco do Brasil.

Há controvérsias que giram em torno dessa mudança, pois o pagamento em dinheiro e na hora nos antigos postos de recarga era mais fácil e mais prático. Nem todos os alunos possuem conta no banco do Brasil e nem todos eles querem adicionar e nem todos eles tem tempo para enfrentar filas nos caixas. Às vezes o aluno quer creditar apenas um ou dois créditos, sendo oito o número máximo debitado na hora da geração do boleto (no caso de um número maior, serão liberados após o pagamento). 

A opinião dos estudantes varia. Ícaro César, discente de Jornalismo, não concorda com a modificação: “Antes eram os bolsistas que botavam credito nos cartões, uma coisa muito simples pro usuário, e agora o usuário tem que imprimir uma GRU, esperar que o crédito seja debitado, para aí sim ele usar o RU”. Já Camila Alexandre, graduanda de Engenharia Civil, a vê por dois lados: “Facilitou no momento da refeição, porém dificultou e muito pra quem não tem cartão do Banco do Brasil e tem que pegar fila praticamente toda semana”. 


Resultados da pesquisa de opinião feita pelo CP


O pró-reitor explica que o antigo modo de pagamento é ilegal. Nenhuma instituição pública pode receber dinheiro em espécie sem que haja uma autorização especial do governo e uma figura jurídica que se encarregue disso. Os funcionários que atendiam nos postos de recarda ou eram bolsistas ou eram funcionários terceirizados que ficavam responsáveis por levar toda a soma em dinheiro ao banco, algo que se tornava extremamente perigoso, devido à quantia que eles transportavam. “Muitas vezes era um servidor que saía com 15 mil reais do restaurante e ia para o banco. Colocávamos vidas em risco, tendo em vista que hoje em dia um local que comporta muito valor atrai a atenção da delinquência e marginalidade”, conta Edmilson.

Em relação aos créditos, no ato da geração do GRU eles são adiantados no cartão e abatidos assim que o dinheiro pago cair na conta. O Banco do Brasil é o único banco que possui autorização para receber o GRU. Isso causa transtorno, mas, segundo o reitor, a Pró-reitoria de Assuntos Estudantis imaginava que a maioria dos alunos possuía contas lá.

Entretanto, no momento, por acaso da greve dos bancos, os cartões estão sendo recarregados nos antigos locais, através do pagamento em dinheiro. Assim que o funcionamento bancário voltar ao normal o pagamento retornará a ser através do boleto.


Influência dos cortes orçamentários das universidades nas mudanças do RU

Existem questionamentos quanto à alteração dos valores do RU e os cortes orçamentários que estão ocorrendo esse ano nas instituições federais por todo o país. Em agosto, o Governo Federal publicou através do portal do Sistema Integrado de Monitoramento, Execução e Controle, pertencente ao MEC, os planos para a Lei Orçamentária Anual de 2017. O corte previsto pode ser até de 45% nos investimentos universitários.

Eu acho que é o governo em crise, e toda essa mudança no sistema, é uma tentativa do governo de ganhar mais com impostos”, diz Ícaro César, estudante. Edmilson Júnior, o pró-reitor, explica que a mudança do preço também faz parte de uma política econômica, mas não deixa claro até que ponto. “A mudança era necessária, e também é uma estratégia política e econômica. (...) Os preços que vigoram agora, são preços estabelecidos em 2012, período no qual estávamos diante de uma realidade econômica diferente”, afirma.

Com os cortes sendo aprovados, muitas mudanças ocorrerão nos programas universitários federais. Ainda não sabemos até onde isso irá alterar a vida do estudante público do país. As universidades já presenciam cortes desde o fim de 2014, mas a demanda por programas de auxílio só aumentaram desde a entrada das leis de cotas que garante 50% das vagas para estudantes de escola pública, baixa renda, negros, pardos e indígenas. Sendo assim, o Governo procura aplicar uma política econômica que, mesmo através de cortes, não interfere na qualidade da educação de seus alunos.


O funcionamento das bolsas de auxílio

As bolsas de auxílio alimentação são oferecidas pela PROAE para que os alunos com renda até 1,5 salário mínimo ou entre 1,5 e 3 salários possam ser beneficiados com uma ajuda custo benefício. Os estudantes devem se inscrever através do SIGAA no período informado pelo edital e os selecionados serão convocados para uma entrevista social para serem avaliados. Documentos e mais informações podem ser achadas no site da PROAE.


Para mais informações: Site do PROAEEditaisSite do PnaesSite do RU


Fonte: Estadão

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Cumbia* da praia

Por Luana Aladim

     Caminhei durante cinco quilômetros e alguns metros; estava fazendo um belo dia. Talvez um barbudo possa achar que esse é um texto sobre ele: paciência, gafanhoto. Não é. 
     Praia de Ponta Negra. Domingo. Meio dia.  Nada mais propício para a aquisição de câncer de pele. A família do meu lado esquerdo retocava o protetor solar fator 70 na criança. O grupo de amigos à minha direita tentava se proteger do sol. Eu contava o tempo que faltava para tomar meu suplemento de proteína enquanto escutava histórias de tatuagens e da Pipa. 
    Enquanto comparava os ambulantes praieiros natalenses com os ambulantes praieiros recifenses, tive o prazer de constatar que na praia do Morro do Careca a paz reina, mas não existe caldinho de feijão nem de qualquer outra coisa. Existe peixe frito dentro da tapioca.  Existe também um pai e um filho à procura de algo metálico nas areias da praia da zona Sul de Natal.
     A cena poderia, facilmente, ser o início de um filme de Kleber Mendonça Filho*, com a trilha sonora de Academia da Berlinda**. Pois bem, la estavam eles, pai e filho num programa nada convencional de domingo. Nas mãos, um equipamento amarelo. No corpo, calção e camiseta. Na cabeça? Não faço ideia. O barbudo do meu lado disse "vai lá entrevistar eles". Triste do ser humano que escolher o jornalismo, pois não terá férias. Mas o momento era sublime, não pedia objetividade, pedia criatividade.
     A irmã do menino perdeu seu brinco de ouro. A mãe deixou a aliança na praia de propósito, na tentativa de uma separação. O hobby é a coleção de metais. Tantas possibilidades de realidade que, pelo menos nesse caso, nenhuma em especial foi contemplada. Algumas ocasiões pedem uma narrativa bem amarrada. Outras só pedem uma boma história. Outras só precisam cumprir o texto da semana de uma forma meio inusitada. 

*ritmo latinoamericano 
**diretor recifense, autor de "o Som ao redor" e "Aquarius"
***banda olindense

Imagem: http://queroirdenovo.blogspot.com.br/

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Falso julgamento é golpe

Esqueçam os eufemismos. No teatro político criado, a peça apresentada foi golpe institucional

Por Luiz Henrique




A farsa estava montada: antes do início do julgamento de Dilma Rousseff o resultado já estava escancarado. Há legitimidade num julgamento onde a acusada é considerada culpada antes do seu início? Acabamos por assistir um golpe institucional comandado por gambás.

Na cartilha do processo, Dilma respondia pelas chamadas ‘pedaladas fiscais’. No entanto, respondeu pelos desgastes políticos e econômico do seu mandato num espetáculo inflamado pela operação Lava-Jato que atingiu as relações espúrias entre o público e o privado. Sem envolvimento com os investigados, a cortina de fumaça foi lançada numa narrativa que confundiu as questões a serem julgadas.

Cada peça foi arquitetada a fim de legitimar o golpe. Em junho, a perícia realizada por especialistas do Senado para a comissão especial que avaliou o processo de impedimento afirmou que Dilma não atrasou o pagamento aos bancos públicos, mas durante essa semana esse documento foi esquecido. Não por falhas da memória, mas por artimanhas do cinismo. Exemplo disso é a afirmação de José Agripino Maia, senador do nosso estado acusado de receber propina milionária, que ignorou o documento e disse não haver fato novo para reverter seu voto no processo.

Os comandantes do teatro político souberam anestesiar o país: construíram a narrativa do PT como inimigo que carrega todos os males do país, reduziram o debate político ao maniqueísmo e, por fim, ofereceram aos setores mais conservadores o discurso da moralização do país. Tão bem montada e aceita estava a farsa que não foi preciso escrúpulos e eufemismos para o senador Acir Gurgacz (PDT-RO), que votou favorável a destituição, afirmar para quem quisesse ouvir, logo após o julgamento: não houve crime de responsabilidade.

Lembremos que o nome a frente do processo desde dezembro passado é Eduardo Cunha. Investigado por contas secretas na Suíça e recebimento de propina, o então presidente da Câmara dos Deputados autorizou o pedido de impeachment num momento que estava acuado no Conselho de Ética por não haver conseguido os votos do PT que o favorecia em relação a sua cassação. Desde então, tudo foi conduzido de maneira ardilosa e minuciosa para esconder o odor golpista, mas as gravações de Sérgio Machado, também esquecidas durante a semana, escancararam as intenções dos condutores: “Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, afirmava Romero Jucá, escolhido Ministro do Planejamento por Michel Temer no afastamento de Dilma Rousseff, em maio.


Assim, o golpe institucional foi sendo fabricado sem alarde, alterando-se os métodos militares de outrora. Rachou a democracia e nos seus escombros agora fazem morada os gambás. No desabamento causado, é muito perigoso o que agora está soterrado. A começar pelo segundo dia da nossa farsa-república: presenciamos uma estudante que perdeu a visão de um dos olhos após ser atingida por bombas jogadas pela PM, a senadora Vanessa Grazziotin agredida em avião, ‘flexibilização’ das leis trabalhistas, jornalistas agredidos, presos e com equipamentos destruídos, o conselho curador da EBC extinto e a proibição de protestos na Avenida Paulista, com a liberação das Forças Armadas para ‘auxiliar’ a uma eventual repressão caso a ordem não seja atendida. Isso é só o começo.