sábado, 5 de novembro de 2016

PEC 241: Neoliberalismo, desigualdade e ilusão


POR: PEDRO VINÍCIUS DANTAS

O fantasma do neoliberalismo, que tanto assombrou o Brasil no fim do século passado, voltou a roubar a cena ainda no segundo e turbulento mandato da presidenta Dilma Rousseff. Com as ações de austeridade defendidas por Dilma através do seu controverso pacote de ajuste fiscal, reafirmava-se no País uma tendência que já rondava soturnamente o restante da América Latina: o crescimento da direita e o fortalecimento do neoliberalismo, aprofundando as desigualdades sociais e os conflitos de classe.

A destituição inconstitucional orquestrada contra a presidenta, no entanto, era apenas o fio condutor que faltava não só para a consolidação das forças golpistas no Brasil, como também para a temida guinada neoliberal da nação em tempos de violenta crise internacional.

Com personagens maiores e temíveis em ação, o governo ilegítimo de Michel Temer desponta com falsas pontes para o futuro que visam, justamente, intensificar as relações de opressão e exploração próprias de um sistema capitalista, embora exacerbadas pelo teor neoliberal. A política econômica desenvolvida por ele e seus aliados, num plano de governo sem respaldo das urnas, serve para nada além do que o agravamento das distorções sociais em um momento em que estas deveriam ser severamente combatidas.

No que pese a balança (e a história), as escolhas defendidas por Temer, nada novas, cobram um preço elevado da classe trabalhadora - pobres e classe média -, enquanto permite que os muito ricos respirem aliviados. Faz tudo isso com o apoio da grande mídia, imersa em seus próprios interesses, com energia de sobra para cumprir com o seu papel historicamente alienante junto às camadas mais populares - elas próprias influenciadas pelo discurso raso dos veículos de comunicação e da direita golpista. Como entoam movimentos sociais de esquerda em seus atos e protestos, "a crise é dos ricos e os pobres é que se fodem".

A PEC 241, aprovada com folga em segundo turno pelo Câmara dos Deputados e agora encaminhada ao plenário do Senado, onde deverá ser votada em caráter de urgência, é o produto de uma equação cujo resultado é nocivo e previsível: cortes fortíssimos em áreas primordiais que afetam diretamente os menos favorecidos.

Vendida como a redentora do Brasil, iniciativa milagrosa capaz de impor limites aos gastos públicos e equilibrar as contas públicas enquanto a nação se colapsa em dívidas, o que a PEC 241 faz é estipular um teto de gastos em áreas primárias, como Educação e Saúde, durante os próximos 20 anos.

Acontece do seguinte modo: se aprovada ainda este ano, o orçamento de 2017 terá os mesmos valores que o de 2016, somente acrescido aos valores da inflação daquele ano. Em outras palavras, se o país voltar a crescer nos próximos anos, estes setores não terão nenhum crescimento real, uma vez que o investimento neles estará limitado pela PEC - que não leva em conta, também, questões como o crescimento populacional e o gasto per capita, em ampliação.

A demanda crescente nos campos da saúde, educação, assistência social, cultura e outros não pode ser ignorada. Estudo elaborado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão do próprio Governo Federal, demonstra que, até 2036, ano em que a emenda deixaria de vigorar, somente para a saúde a perda potencial seria de R$ 654 bilhões, ao passo em que a assistência social deixaria de receber mais de R$ 864 bilhões.

Os possíveis impactos da PEC no salário mínimo são outros apontadores de que a emenda serve apenas para aprofundar as explorações do capital contra a classe trabalhadora. Com ela, o mecanismo que possibilitava o aumento real do salário mínimo acima da inflação pode ser vetado se o Estado não cumprir o teto de gastos. O salário dos trabalhadores, que já é precarizado, seria ainda mais prejudicado, amplificando as desigualdades no mesmo ritmo em que se agigantaria a massa social de mais-valia.

Até mesmo nomes importantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) admitem que medidas de austeridade, como a PEC 241, trazem efeitos nocivos às economias de países em desenvolvimento. Em artigo divulgado em maio, três economistas do Fundo afirmaram que algumas políticas neoliberais alteariam a desigualdade e poriam em risco uma expansão duradoura das nações. "O aumento da desigualdade prejudica o nível e a sustentabilidade do crescimento", ratificam.
Nesse sentido, a PEC 241 é parte de um pacote de medidas cujo olhar é projetado pensando em um futuro não tão tardio quanto se imagina. O que não dizem os canais de comunicação de massa é que a pretensão não é o bem-estar social e a qualidade de vida da maior parte da população, mas sim, por outro lado, conferir ainda mais poder aos setores privados e suas forças conservadoras e liberais. Para eles, a manutenção da pobreza e do status-quo dos opressores e oprimidos pelo capital, no fim, é o que importa.

Com os cortes nas despesas primárias por duas décadas, e com o investimento nessas áreas proibido pela Constituição - mesmo se houver verba em caixa -, a saída será recorrer ao capital privado. Ou seja, o objetivo escuso, milimetricamente calculado, é levar o Brasil a se curvar às sombras das privatizações, vendendo suas riquezas e subalternizando ainda mais o seu povo; como já vêm fazendo, por exemplo, com a entrega descarada do pré-sal às multinacionais.

As problemáticas que abraçam a PEC 241 vão além. O que ela estabelece, combinado com as outras medidas empurradas goela abaixo pelo governo, é a "economia" do dinheiro público somente para continuar pagando os juros intermináveis aos banqueiros e aos especuladores. Enquanto tira da classe trabalhadora, enquanto arrasa os investimentos públicos em saúde e educação, o governo continua pagando, sem nem titubear, juros altíssimos para agradar o capital financeiro.

A emenda constitucional e suas irmãs univitelinas oportunizam, na realidade, mais força ao neoliberalismo e à acentuação das relações de opressão e exploração contra a classe trabalhadora e minorias. Trata-se não de um arrocho qualquer e passageiro, mas 20 anos de mordaça e sucateamento de serviços públicos essenciais, como Universidades e Institutos Federais e o próprio SUS. Na prática, é uma perigosa sentença para um país que goza de altíssimos índices de desigualdade e uma riqueza vasta demais para passar despercebida pelas rapinas do capital. 

imagem: Agência Brasil

sábado, 29 de outubro de 2016

“C&Todos” só na hora do ingresso

Para conseguirem se formar, os estudantes de C&T têm enfrentado obstáculos em série. Quais são os mais recorrentes e como isso pode ser amenizado?


Por Jéssica Cavalcanti

Você já deve ter ouvido falar na sentença “fácil entrar, difícil sair” no que se refere ao curso de Ciências e Tecnologia da UFRN, não é mesmo? A expressão “C&Todos” também ganhou a boca do povo por causa da grande quantidade de vagas disponibilizadas para ingresso na universidade. Mas, lá dentro, a realidade tem se mostrado nada fácil. Hoje, o curso tem um fluxo de aproximadamente 5.000 alunos. No entanto, os índices de evasão e retenção dos estudantes de C&T são, já há bastante tempo, gritantes frente a outras unidades e departamentos da universidade. Por que isso acontece?

De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Acadêmica da ECT (Escola de Ciências e Tecnologia), apenas 3.447 matrículas estão, atualmente, ativas no sistema. Além disso, o percentual de formação por turma é de apenas 40% do grupo ingressante, somando cerca de 200 alunos colando grau por semestre. Os 60% restantes dividem-se entre abandono total do curso (uma estimativa de 25%) e trancamento ou retardo do tempo de formação (agregando, os dois, uma estatística de 35%). Muitas podem ser as razões que implicam nessa realidade. Vamos tentar compreender quais delas têm mais influência sobre esses estudantes.

De uma amostra de 50 alunos e ex alunos do curso de Ciências e Tecnologia, sendo 30 ativos, 7 formados, 7 tendo abandonado e 6 trancado a matrícula, podemos fazer algumas análises mais minuciosas. Dos 37 estudantes que estão cursando ou já concluíram toda a grade curricular, 45,9% já apresentou o desejo de trancar ou abandonar a graduação em algum momento em virtude da insatisfação com o corpo docente; e 40,5% devido ao grau de dificuldade das disciplinas e, consequentemente, às notas baixas obtidas nelas. Do mesmo modo, dentre aqueles que desistiram, esses dois quesitos também foram os mais apontados, porém em ordem invertida: 42,9% queixou-se dos mestres e 50% atribuiu a culpa da própria renúncia ao mal desempenho acadêmico.

Isso se evidenciou mais uma vez quando, ao serem questionados sobre as melhorias mais urgentes para mudar o quadro de evasão acentuada, as respostas dividiram-se, do mais citado para o menos, entre a didática e postura dos professores, a quantidade de alunos por sala e a infraestrutura para estudo em grupo – outras preocupações também foram abordadas, porém com menos frequência entre os entrevistados.

No entanto, essa informação não é novidade. Foi exatamente buscando eximir os estudantes dessa precariedade que o Programa de Tutoria da ECT foi criado. Ele consiste, basicamente, em promover aos discentes um espaço de troca mútua de conhecimento e incentivo. As grandes turmas não só lotam os auditórios e impossibilitam uma aprendizagem plenamente eficiente, como também dificultam os relacionamentos interpessoais entre os próprios graduandos. Por isso, os grupos de estudo formados na Tutoria limitam-se a 6 estudantes (chamados tutorandos) e um(a) tutor(a), que tem o objetivo de conduzir e orientar os alunos nesse processo de aprendizado.

Andressa Azevedo, graduanda do 4º período de C&T, foi tutoranda logo que entrou, em 2015.1. Ela relata que a experiência enriqueceu não só sua vida acadêmica, como a ajudou a criar laços de amizade dentro da academia, que perduram até hoje. “Também me ajudou a saber lidar com aquela mudança de colégio para faculdade, que é uma realidade totalmente diferente”, acrescentou.

O Programa abre as inscrições a cada novo semestre e dá prioridade para os calouros e veteranos repetentes. Já para candidatar-se a tutor, é um pré-requisito que tenha sido antes tutorado. É o caso de Andressa, que hoje é bolsista do Projeto como tutora, pois reconhece o impacto positivo que teve para si e deseja passar isso adiante. “Eu agora auxilio os meus tutorandos tanto a formar esses grupos de estudo, tirando dúvidas, dando dicas, como também fazendo um horário de estudo para eles (...) A ideia é que eu os ajude a conseguir criar uma rotina de estudo, a encontrar uma forma que eles consigam estudar, consigam se sentir motivados”, conta com orgulho.

A evolução no desempenho acadêmico dos alunos que têm recorrido à ajuda do Programa é uma realidade. Os maiores problemas apontados pela amostra aqui analisada de estudantes de C&T estão, portanto, sendo contornados na vida dos universitários que aderiram à Tutoria. Dessa forma, se houvesse um maior engajamento dos alunos, as estatísticas atuais poderiam sofrer alterações substanciais. É necessário divulgar e incentivar mais a procura dos jovens por essa solução em potencial. Havendo demanda, a tendência é que projetos como esse cresçam e se multipliquem dentro do ambiente acadêmico.

Não podemos afirmar que encontramos a elucidação para todos os infortúnios característicos da universidade, uma vez que a sociedade meritocrática na qual estamos inseridos não permite equidade de oportunidades, e jogar toda a responsabilidade pela graduação nas costas dos estudantes seria reafirmar a lógica neoliberal cruel e desigual inerente ao sistema em que vivemos. É imprescindível, sim, rever a estrutura do curso, bem como o corpo docente que não tem satisfeito as necessidades dos alunos, mas há que se reconhecer também que mudanças como essa são estruturais e levam tempo. Logo, medidas provisórias são válidas, desde que o objetivo seja minimamente alcançado. E o objetivo aqui é: proporcionar opções para o universitário que não impliquem em sua desistência, mas que o estimulem a persistir no sonho e na esperança que, primeiramente, o trouxe até aqui, para que, dessa forma, “todos” que entram possam sair com seus respectivos diplomas e aptos a realizarem um bom trabalho enquanto engenheiros e engenheiras do futuro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Crônica do Era uma Vez

Por Tázio Silvestre


Costumam dizer que “era uma vez” é o método infalível de iniciar uma narrativa de conto de fadas. Porém, adquirindo um pouco de vivência, creio que vivo em um preâmbulo fantasioso todos os dias, como um ciclo vicioso e infortúnio – às vezes, a propósito, é glorioso. Uma roda sempre está passando por cima de mim: era uma vez o ônibus que peguei hoje para ir à faculdade, era uma vez uma discussão em sala sobre a PEC 241, era uma vez um estágio (dos muitos) que não deu certo... 
Diferentemente de uma estória traçada com princesas e príncipes, montados em um cavalo branco, rumando em direção ao castelo deslumbrante lá longe no horizonte, a realidade me arranca do conforto e me joga no mundo real. Princesas são o sinônimo da futilidade; o príncipe se apresenta como sapo em nosso caminho; os castelos são possíveis realizações que se concentram, muitas vezes, sobre uma montanha de papéis e perguntas intermináveis em uma sala – obrigando-me a me portar como pessoa padrão. A bruxa má, maquinando como fará o “felizes para sempre” não acontecer, está ao meu lado, de mãos dadas comigo, como uma velha amiga que me acompanhava no parquinho quando criança. Ela não tem, contudo, uma pele rugosa, feridenta, nem o nariz com deformidade – tampouco uma postura corcunda. Eu me deparo com essa personagem todas as manhãs quando acordo: ela sou eu e eu sou ela. Não digo, caro leitor, que me apresento nela, mas a bruxa faz parte de mim, assim como todos os outros elementos e personagens fantasiosos.
Sinto o vento roçando as maçãs do meu rosto e o galope do cavalo. Os galhos das macieiras atrapalharem meu cavalgar. Busco de forma ensandecida me desvencilhar da bruxa atrás de mim, conforme avanço floresta adentro, mas há apenas pequenas frestas de luminosidade devido ao sol. As árvores interceptam a luz e o ar se torna mais agressivo à medida que ajo contra ele, indo na direção oposta. Viro para vislumbrar a silhueta da bruxa, e me encontro no lugar dela – estou fugindo de mim mesmo.
No momento seguinte, torno minha atenção para a frente e vejo algo que aterroriza de tão familiar que é: eu estou um pouco mais distante, em pé, perto do final do túnel que as árvores formam e, gradativamente, a bruxa se aproxima. Logo depois é a vez da princesa e do príncipe... Todos eles estão ao lado do meu outro eu. Algo curioso acontece: meu cavalo para a poucos metros e me encontro obrigado a descer da sela e testemunhar um dos eventos mais lindos da face da terra, daqueles que o caos se torna belo, em que a redenção toma para si o perdão: os personagens do conto de fadas se fundem à pessoa igual a mim, tornando-se carne e osso dela.
Num átimo, encaro-a e levanto a mão direita para tocá-la, por uma genuína curiosidade que me enreda, e ela faz os mesmos movimentos que eu. Nossos olhares se encontram e se fitam por um pequeno momento que perdurou por eras a fio até que a ponta dos dedos se tocam... E eu não sou mais eu, ao mesmo tempo que sou. Integralizo, pelo que percebo, uma conjuntura que comporta mais corações e pensamentos que jamais pude cogitar.
Divergindo do final previsível dos contos de fadas, não sei o meu “felizes para sempre” porque estou em uma constância frenética de começos e términos, de chegadas e partidas, ao passo que me muno involuntariamente de fantasias tão reais que elas são eu. Não consigo olhar para os múltiplos e infinitos contos de fadas particulares sem pensar no meu reino encantado. Afinal, desbravar limites de mim mesmo é ir além e criar novos personagens que me cortarão e curarão enquanto as linhas se formarão e os “era uma vez” se recomporão para novos começos – e finais.

Imagem: ObviusMag

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Resenhando: SAGA 2.0 2016

Por Clercio Rodrigues

O avanço da tecnologia nas últimas décadas e a popularização da internet mundo afora culminou numa série de fenômenos sociais. Um deles foi o surgimento da cultura Geek. Esta comunidade é formada por pessoas apaixonadas por interesses variados e complexos, indo desde tecnologia, eletrônica e jogos, até livros, quadrinhos, filmes, animes e outros. Hoje em dia, é comum conhecer alguém que se identifique com essas características. Afinal, quem nunca brigou com os amigos na hora de escolher qual Power Ranger seria?

Um indicativo do crescimento do público Geek, é a relevância gradativa que feiras e festivais relacionadas ao tema alcançam. Com mais de 10 anos de história, o SAGA acontece anualmente em Natal e reúne os Geeks de toda a capital potiguar. Além de trazer novidades aos interessados, o evento é uma forma de continuar investindo em uma comunidade local que cresce cada vez mais e uma alternativa de proporcionar lazer para toda a família.

Exemplo disso foi a edição mais recente do evento, intitulada SAGA 2.0, que aconteceu no último final de semana (15 e 16 de outubro). Ubiraci Rodrigues, 37, foi com os dois filhos à Arena das Dunas para conhecer a feira. “É uma forma de reviver coisas que fizeram parte da minha vida e entender quais tendências meus filhos acompanham hoje em dia, como o fenômeno dos YouTubers, por exemplo.” - disse o Professor de Educação Física.

Além dos tais YouTubers, o SAGA 2.0 recebeu atrações como dubladores, cantores e até mesmo um artista internacional. Um palco externo foi montado e as atrações se revezaram para entreter o público durante os dois dias de festa. “Eu vim ao evento para ver as atrações e porque tem muitas coisas que gosto, como games. Consequentemente, posso interagir com pessoas que curtam as mesmas coisas que eu.” - explicou o estudante Gabriel Vale, 17.

O evento também contou com espaços temáticos para acomodar outros interesses, como quadrinhos, tecnologia e cultura japonesa. Entre os mais expressivos, a área destinada aos games chamou a atenção pela grande quantidade de campeonatos amadores e de E-Sports, como o famoso League of Legends. Para Bruno Michelson, 17, que esteve nos dois dias do SAGA 2.0, “esses eventos são oportunidades pra galera não só se divertir e descontrair, mas talvez se destacar e descobrir uma nova profissão, como jogador profissional por exemplo.”

Outra atividade que chamou a atenção de quem visitou a feira, foi a prática do cosplay. Várias pessoas escolheram o final de semana para encarnar alguns dos seus personagens favoritos e marcar presença no evento, conhecendo outros praticantes e tirando toneladas de fotos com o público. “Eu comecei a fazer cosplay em 2013 e desde lá fiz muitas amizades. Além de não interferir na minha vida pessoal, posso relaxar tirando um dia para ser e homenagear algum personagem que gosto. - disse João Victor, 21, que durante o evento, foi Crash Bandicoot. Maria Emilha, 14, também foi fantasiada e desfilou no palco principal do evento no papel de uma famosa personagem de anime. Para ela o verdadeiro desafio de fazer cosplay, além de arrumar tudo, é escolher um personagem. Normalmente, eu me guio pela personalidade, prefiro aquelas com qual me identifico mais”.

No geral, a edição deste ano do SAGA dividiu opiniões. Para Filipe Brizolara, a feira foi uma oportunidade de mostrar o game independente que ele e uma equipe de amigos está desenvolvendo. “Considerando todos os desafios que encaramos na produção do game, como o baixo capital para investir e a competitividade do mercado atualmente, ter esse espaço para mostrar nosso trabalho durante o evento é muito bacana.” - disse o estudante universitário.

Já no caso de Igor Luiz, a feira não foi tão agradável assim. O jovem de 17 anos tinha comprado ingressos para os dois dias do evento, foi ao SAGA 2.0 em seu primeiro dia, deixou a feira frustrado, e acabou desistindo de retornar no domingo. Eu vim para a feira principalmente para comprar mangás para minha coleção. Normalmente, em todos os eventos deste tipo existem espaços que vendam o produto, mas não foi o caso aqui.” - explicou Igor.

Como o próprio nome da feira sugere, a proposta fundamental do SAGA 2.0 foi ser uma versão melhorada do que foi visto em relação aos anos anteriores. Para isso, não podiam faltar novidades. A principal delas é que desta vez o evento também serviu de sala de aula para uma série de palestras do SENAC. A instituição organizou seminários sobre vários temas, principalmente sobre fotografia, audiovisual e design gráfico, e distribuiu certificados para os participantes. A inclusão de atividades como esta são muito importantes para ir além da proposta básica da feira, e com certeza, merecem mais espaço nas próximas edições do evento.


 Imagens: Assessoria SAGA 2.0 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Nós no Planeta: A XXII semana da Cientec

Por Ana Flávia Sanção

A Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura é o principal evento acadêmico do ano da UFRN. Unindo todos os campi e áreas de estudo, a feira convoca os visitantes a explorarem a pluralidade de conhecimentos e costumes, desde projetos tecnológicos a amostras culturais. Nesse ano, apresentada com o tema Nós no Planeta, a exposição dos estandes aconteceu do dia 19 de outubro até o dia 21, das 8h até às 21h.

Com uma quantidade de visitantes diária que varia entre 20 a 25 mil pessoas, a Cientec é o maior e mais importante evento educacional do estado, estando entre os principais do país. Ela reúne numa só exposição todas as áreas de estudo e pesquisa da instituição e atrações culturais diversas, criando um espaço de interação e diálogo entre a comunidade acadêmica e a população do estado.

“A Cientec tem essa busca de ser realmente um evento integrativo e que ponha em sintonia a produção acadêmica com o momento de vida da sociedade que acolhe essa produção”, conta Leonardo Mendes Álvares, Técnico em Assuntos Educacionais e Coordenador Adjunto de Atividades Acadêmicas.

É baseado nesse propósito de inclusão social que o tema Nós no Planeta foi escolhido para batizar a semana desse ano. A proposta da temática é fazer com que pensemos sobre a nossa relação com o mundo em que vivemos, de que formas as nossas atitudes podem alterar, para o bem ou para o mal, o nosso ambiente de convivência. Esse tema foi, pela primeira vez, escolhido com participação direta da comunidade acadêmica, através de uma enquete disponibilizada pela Coordenação Geral no portal da Universidade e nas suas mídias sociais. 


Os estandes e as amostras culturais

Foi aprovado um número de 232 estandes, dispostos em quatro pavilhões e zonas de exposição. Os projetos englobavam as principais áreas do saber: linguagens, biológicas, humanísticas e tecnológicas, aplicados com metodologias dinâmicas e interativas para os visitantes. Haviam também estandes de instituições convidadas, como a STTU, e escolas particulares, que veem mostrar aos visitantes um pouco do trabalho que fazem durante o ano com seus alunos.


Pinturas de rosto no estande A Cultura Hispânica através do Cinema. Imagem: Gemyma Medeiros.
As propostas dos projetos são avaliadas às cegas  sem que o avaliador conheça o proponente e vise-versa  por professores, doutores, técnicos, pessoas que possuem habilitação necessária para avaliar os conteúdos de acordo com a sua área de educação. Há um estímulo para que esses projetos se liguem ao tema central da feira, apesar de não ser um critério obrigatório.

Muitos das criações chamam atenção pela abordagem diferente e inovadora. Um dos destaques desse ano foi a exposição da coleira Blind Dog, criada por Luana Silva, mestranda de Engenharia da Computação, que ajuda cachorros cegos a desviarem de obstáculos através de um sistema de alerta vibratório. Outro popular foi o Planetário Barca dos Céus, veterano da Cientec, que conseguia até 300 visitantes diários em suas sessões de apresentação.


Amostra da coleira Blind Dog. Imagem: Gemyma Medeiros
Além de apresentar áreas de pesquisas da comunidade acadêmica, os trabalhos da Cientec ajudam futuros alunos universitários a tirarem dúvidas sobre o curso de graduação que querem seguir. Carla Patrícia, estudante da terceira série do ensino médio da Escola Municipal Yayá Paiva, em Nísia Floresta, pretende cursar enfermagem e conta o que acha da importância da feira nessa decisão. “Às vezes a gente está interessando num curso e muitas vezes não é aquilo que a gente acha que é. Até quem já escolheu, mas que precisa saber de algo para saber se é realmente aquilo que ele quer”.

A programação cultural da Cientec reuniu, igualmente, inúmeras mostras artísticas. Foram 37 atrações convocadas pelo Circuito Cultural e 29 pelo SIGAARTE. Através do Programa Acessibilidade Cultural, aconteceram sete Cines UFRN e dois Chão de Saberes. As apresentações trouxeram artísticas locais, companhias de danças, grupos de teatro e títulos cinematográficos. Em destaque, com direito a um posicionamento político através de cartazes “Fora Temer”, tivemos a Orquestra Sinfônica da UFRN, abrindo oficialmente o evento.


O desafio de ultrapassar os cortes de orçamento universitário

Um dos maiores desafios encontrados pela Pró-reitoria de Extensão, Proex, foi criar uma Cientec com o mesmo nível de qualidade das edições anteriores com uma quantidade de custos reduzida.

Esse ano, os recursos disponibilizados pela UFRN para a feira foram um terço do que ela possuía há duas edições. Como não há entrada de capital externo na produção do evento , os organizadores tiveram de fazer mais com menos dinheiro.

“Somos membros da administração pública e de uma instituição pública, o nosso desafio diário é exatamente o desafio de fazer mais com menos. Esse desafio para nós, esse ano, foi bastante maior, porque cair para um terço do recurso que a gente tinha há dois anos significa tentar fazer uma feira que vinha numa curva crescente de envolvimento, de participantes. E esse ano a gente tem uma estrutura física menor para acolher esses trabalhos”, explicou Leandro, o Coordenador Adjunto de Atividades Acadêmicas.

A diminuição desses recursos alterou diversos componentes da feira, desde quantidade de dias de exposição, nessa edição foram três dias ao invés de quatro, até o número e a montagem dos estandes, os quais muitos foram divididos por dois grupos diferentes através de uma meia parede, visto que no dia seguinte outro grupo os ocuparia, pois montar e desmontar paredes diariamente aumentaria os gastos.

“A gente fez o máximo que a gente pode para enxugar o que poderia ser enxugado e manter o que era de qualidade, o que não poderia deixar de sair da feira”, declarou Breno Cabral, Pró-Reitor Adjunto de Extenção. “Para que as pessoas não percebessem essa redução da feira e, principalmente, para que não perdesse nada de qualidade. Acredito, pelo que estou vendo, que conseguimos.”

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Muitos sorrisos e gratidão

Por Fernanda Cristina

Apolônio de Carvalho, exímio ativista social e que passou boa parte da sua vida no exílio, disse uma vez a seguinte frase: “A vida é uma coisa extraordinária, é um dom. E é preciso valorizá-la... É preciso construir algo, ter um fio condutor: olhar o horizonte de modificação da sociedade”.

A vida é mesmo algo incrível. É bem verdade que nem sempre é fácil, e em alguns momentos ela é bem dura, para uns mais para outros menos. Mas é preciso valorizá-la em todas as suas vertentes e nuances. Minha mãe costuma dizer que tudo que se leva dessa vida é o que se vive e o que se faz por alguém. 

E existem duas coisas que não podem faltar na vida: amor e alegria. 

No amor, estão contidas várias coisas: carinho, doação, compreensão, amizade, bondade. Na alegria estão contidos: sonhos, sorrisos, brincadeiras, conquistas e também doação. Doação é a palavra em comum entre as duas, porque a vida é também uma troca. Eu dou o que eu tenho de bom e você me devolve o que também tem. Uma doação recíproca. Talvez fosse este o tal fio condutor de que Apolônio falava, talvez seja ele que possa transformar mesmo uma vida, a sociedade e o mundo, ou pelo menos por um dia. 

Há muito havia o desejo de se solidarizar. Trazer amor e alegria a alguém, sem ver a quem. E então chegou o mês de outubro e com ele o dia das crianças. Só se mobiliza em trazer a felicidade a um rosto infantil quem não esqueceu a fase e guarda em seu cerne o espírito de criança. Quando pensamos numa ação solidária para desenvolver, escolhemos as crianças, pois nelas há muito amor e alegria ingênua tão pura e um senso de doação tão bonito. Escolhemos o dia delas, ou pelo menos a data oficial no calendário. Decidimos fazer a ação em abrigos de crianças. Começamos a planejar tudo o que faríamos e como faríamos, pra doar não apenas presentes, mas, com um pouco do nosso amor, levar alegria a quem tanto necessitava dela.


Foram alguns dias de arrecadação de brinquedos, doações, preparação. A ansiedade tomava conta de mim a cada brinquedo que chegava, e a expectativa de como seria ação solidária, a imaginação dos sorrisos, das brincadeiras, das historias que seriam contadas.  Na terça embalava os presentes em contagem regressiva. Estava chegando o dia. E chegou. Café, trocar de roupa, sacolas nos braços, alegria no peito e lá fui eu. Encontrei com o pessoal e partimos, rumo ao abrigo. 

A chegada foi regada de abraços carinhosos nos dois lugares e de um sol tímido entre as nuvens iluminando ainda mais o lugar. A curiosidade por saber o que aqueles estranhos amigos traziam nas sacolas era constante nos olhinhos de cada um, e de repente não éramos mais tão estranhos assim.

Foi feito um círculo de cadeiras no pátio para que todos se reunissem e começássemos a programação. Eu resolvi me vestir de Emília, um dos meus personagens favoritos das histórias infantis. Enquanto entrava no personagem, o restante do grupo ia conhecendo cada um, os nomes idades, e animando para cada entrada da Emília, a eterna boneca de pano que se tornou criança, espoleta que só ela, trazendo consigo toda magia da infância. Naquela hora, ali vestida do personagem para aquelas crianças, talvez fosse eu a mais criança de todas elas. Tirei do bolso uma boa história para contar. Era mágico ver a atenção e os sorrisos de cada um, a cada página da história que era contada nós viajávamos juntos na imaginação.

Brincadeiras, morto e vivo, dança das cadeiras, músicas, bolo, bala, brinquedo, presente, presença, riso, alegria. 

Ah, meus pequenos, vê-los sorrir, receber seu carinho, os abraços apertados, conhecer um pouquinho de cada um, e contar um pouquinho de mim foi tão incrível. Queria poder dizê-los como vocês fizeram meu dia melhor, como me fizeram melhor. 

Gratidão.

domingo, 9 de outubro de 2016

Comer para poder crescer

Por Érica Cabral

Joaninha posa com suas medalhas
ao lado de Érica Cabral nos bastidores do
programa da TVU Xeque-Mate
"Ovo com macarrão!" me respondeu Joana Neves, a Joaninha, (para mim, Joanão) quando lhe perguntei qual a sua comida preferida. Paratleta e medalhista paralímpica na Rio-2016, com duas medalhas de prata e uma de bronze no currículo, esta nadadora velocista potiguar, de 1,23m e 29 anos, representou o Brasil grandemente pela segunda vez, sendo a sua primeira experiência em Londres-2012.

Ao contar sobre a sua trajetória, falou das dificuldades enfrentadas por ela e por sua família durante a sua infância. Após receber o diagnóstico de nanismo acondroplásico – que consiste em uma privação na formação das cartilagens levando a comprometer o crescimento dos ossos, mas mantendo intactas as capacidades cognitivas – passou a ser acompanhada pelos serviços de saúde e chegou a ser submetida a quatro cirurgias corretivas.

Além das cirurgias e sessões de fisioterapia, a sua rotina incluía também episódios de preconceitos, a princípio no ambiente escolar. No entanto, foi neste mesmo local que teve a oportunidade e felicidade de conhecer seu marido, Rodrigo, com quem teve uma criança chamada Janilly, hoje com nove anos.

A natação surgiu em sua vida como tratamento terapêutico, porém, à medida que o seu potencial esportivo foi se revelando, transformou-se em uma atividade profissional.

Fala satisfeita que, hoje, graças às possibilidades advindas do esporte, pode comer o que quiser à vontade e consumir todas as refeições diárias com garantias de obter o aporte calórico e nutricional adequado para as suas necessidades.

Ao ouvir sobre essa satisfação dela, não consegui não me lembrar das crianças que, desde o ventre materno, deixam de ter uma alimentação balanceada, rica em energia, proteínas, vitaminas e minerais e, por isso, desenvolvem um outro tipo de nanismo na vida adulta.

Tais restrições nutricionais prolongadas, além de favorecer a baixa estatura, também afetam a evolução das habilidades físicas e, especialmente, atestam o descaso do poder público com o desenvolvimento das potencialidades intelectuais e sociais de cidadãos.


Para nossa sorte e alegria, a minha Joanão vem driblando, com muita dignidade, determinismos genéticos e sociais que a vida lhe apresentou e enchendo de orgulho a massa papa-jerimum e a nação brasileira.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Admiro seu quê de beleza





























Por Thayane Guimarães

Junto aos mais de 570 mil jovens eleitores entre 16 e 18 anos dos 167 municípios do Rio Grande do Norte, as eleições de 2016 para prefeito e vereador foram a primeira vez em que digitei meu voto numa urna eletrônica.

Muito se passou de campanha eleitoral até o domingo 02 de outubro, porém a experiência só se tornou real e sólida quando o primeiro carro de som passou na calçada da casa da minha avó. “Ela vem aí...” estrondava pela rua uma voz forte e potente vinda de um Fiat Palio todo adesivado em amarelo, enquanto uma leva de pessoas vestidas de verde entoava o hino do seu candidato em resposta.

Populismos: política em cidade de interior é algo que toma proporções épicas. Como religião de exércitos, mobiliza as almas, mexe com os receios e desejos de cada um, infla o ego e as mágoas contra o adversário, e faz com que, durante o final de semana das eleições, importe apenas as leis que o Tribunal Superior Eleitoral instituiu. 

Bombas, rojões, fogos de artifício, faixas, cartazes, adesivos, santinhos, bótons, bandeiras, camisas e cores se distribuíram pela cidade. Como lados de um cabo de guerra, quando a batalha se afunila aos dois últimos finalistas, cada candidato se mantém firme e convicto até a corda arrebentar e a parcela mais forte e poderosa em apoio popular triunfar. Não importa toda a corrupção por trás de um voto: só o conjunto majoritário e massivo representa o povo e sua decisão, por mais acirrada que ela seja.
E assim foi o domingo eleitoral, quando a tensão tomou conta do Brasil e os resultados que mexem diretamente com a vida diária de todos nós se demoravam a sair.

E saíram.

Respirando juntos novamente, todos nós, brasileiros, irrompemos em gritos, felizes e indignados. Buzinas soavam. Os mais fracos em espírito, carregando a derrota na bagagem de mão, deixavam às pressas a cidade, numa procissão silenciosa sem sorrisos.

Enquanto isso, como um mar de esperanças e festividade, vi uma cidade se concentrar diante de um trio elétrico para consagrar a vitória de uma candidata que prometeu pôr fim a um monopólio de 16 anos de poder. Caminhei junto a multidão por 4km para, em meio a um dos bairros mais pobre do município, ver o grito de liberdade e exasperação de um povo que não se via representado nas gestões passadas. Enfim, libertos.

A política me intriga. Todo o seu proceder. Pendulo entre a rejeição e a admiração. Meu primo, após uma discussão sobre o assunto, me disse: “A política é linda”. Apesar de manter meu pé atrás com tudo que sei sobre o meio, depois do que presenciei nessas eleições, não posso negar seu quê de beleza.

O primeiro de muitos votos. Que continuem surpreendentes e edificantes.

*** Ao leitor: Espero que tenha votado bem. A missão do seu candidato só está começando. Não ignore o feito, continue a avaliar a gestão dele e se suas promessas estão sendo cumpridas. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A carência de atendimento médico de urgência na UFRN

Por Marcelha Pereira e Marcelo Rocha


A equipe Grupert, há algumas semanas, recebeu denúncia em relação à falta de atendimento médico de urgência para alunos no campus da UFRN-Natal. A aluna de Radialismo, Fernanda Santos, disse que quando teve uma forte crise de asma e precisou de apoio médico, foi difícil de achar. Seus colegas foram orientados pelo segurança do Departamento de Comunicação (Decom) a levarem-na para a Diretoria de Atenção à Saúde do Servidor (DAS), a qual fica perto do Departamento de Artes (DEART). Chegando lá, teve dificuldades para ser atendida por ser aluna, não servidora. Somente depois de algum tempo conseguiu ser medicada, mas com certa relutância. 

Ao procurar a Coordenadoria de Atenção à Saúde do Estudante (CASE), na Reitoria da Universidade, fomos informados pela psicóloga, Isabelly, e pela bolsista, Raquel, de que realmente a UFRN não possui centro de atendimento médico de urgência. A CASE somente direciona para hospitais de Natal, que tenham convênio com a UFRN, os alunos de baixa renda que precisam de atendimento básico – como consulta com oftalmologista ou algum outro apoio médico.

No Mato Grosso do Sul, desde 2014, há lei que exige a implantação nas universidades de posto médico para atendimento emergencial e de primeiros socorros depois que uma aluna de arquitetura morreu nos corredores de uma universidade em Campo Grande. Porém, não há nenhuma medida nacional que obrigue todas as instituições a possuírem postos de atendimentos. A responsabilidade cabe a cada estado e município. E não somente na UFRN, mas em outras universidades pelo Brasil, há a falta de estrutura médica para o socorro dos alunos.

Fizemos uma entrevista com o aluno de Jornalismo, Leandro Lima, o qual também é estudante do curso de Logística no IFRN. Ele comentou que em cada campus do Instituto Federal possui centro de atendimento médico. No centro, 5 profissionais da saúde estão prontos para fornecer apoio: dois enfermeiros, um médico geral, um psicólogo e um dentista. Qualquer aluna ou aluno que venha a passar mal será atendida (o) na hora. Vendo a assistência que é dada nos campus dos Institutos Federais, a falta dela é sentida no campus da UFRN-Natal.

Na Universidade, casos simples ocorrem diariamente: alguém precisando de remédio para dor de cabeça, cólica ou dor de barriga. Porém, casos mais sérios, como foi o caso da Fernanda Santos, estão sujeitos a acontecer. A implantação de posto de atendimento, e o aviso aos alunos de que ele existe, é fundamental. É direito da aluna e do aluno receber assistência médica no local onde estuda, o atendimento rápido – e especializado – pode salvar uma vida. 

domingo, 25 de setembro de 2016

Eleições 2016: dos santinhos aos funks remixados

Por Luana Aladim          


Desde agosto a poluição aumentou. Panfletos, adesivos, carros de som: tudo para promover os candidatos à Prefeitura e à Câmara Municipal. Em meio ao conturbado período político brasileiro, abraços e promessas se juntam aos repetitivos jingles: parecemos estar em período natalino, quando ateus se comportam da melhor forma possível para celebrar o nascimento do menino Deus.
            Os cidadãos comuns, por assim dizer, são bombardeados antes mesmo de saírem de casa: logo pela manhã é possível escutar um candidato evangélico com seu carro e som pelas ruas da cidade com mixagens de umfunk “pesado”. No percurso para o trabalho, o cidadão precisa ultrapassar o mar de panfletos e santinhos espalhados pelo chão – papéis estes abandonados pela própria população nas vias públicas. Além disso, não faltam pessoas sorridentes para distribuir propostas milagrosas e muitas vezes hipócritas.
            Agentes da esquerda se confrontam com agentes da direita, muitas vezes para criticar, e não para debater. A política, que deveria servir para o exercício da cidadania, acaba por se instaurar como um campo minado: mantenha-se afastado. É então que se chega ao imaginário popular, em que não se discute política, religião nem futebol. Até outubro, a poluição sonora e visual se instaura pelas cidades. Até janeiro, as reclamações urbanas permanecerão as mesmas. Até março, boa parte da população vai dizer que o Brasil não tem jeito. Até 2020: poluição sonora, visual e moral.

Charge: Bruno Galvão

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Arte desvalorizada

Teatro Alberto Maranhão (TAM) encontra-se fechado há dois anos, causando transtorno aos artistas locais.

Por Léo Figueiredo 

 Teatro Alberto Maranhão. Imagem: Léo Figueiredo.

O Teatro Alberto Maranhão (TAM), localizado no bairro Ribeira, na cidade de Natal, é a casa de espetáculo mais antiga da capital potiguar, com estilo clássico e palco italiano. Há dois anos, para infelicidade de artistas da terra, encontra-se interditado para uma reforma que ainda irá acontecer. 
Tendo mais de 100 anos de história, ele, durante muito tempo, foi referência nacional e chegou a ser eleito como o teatro que possuía uma das melhores acústicas do Brasil. O motivo do fechamento foi pelo fato do Corpo de Bombeiros ter interditado o local por questões de segurança. O prédio não estava atendendo as exigências dos Bombeiros, tanto pela sua idade quanto pela sua manutenção. Por ser um patrimônio tombado, a reforma tem que seguir uma série de regras, as quais são supervisionadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Reza a lenda que a maioria da população de Natal não valoriza a cultura potiguar. Agosto, por exemplo, é considerado o mês do folclore, e foi exatamente na capital norte-rio-grandense que residiu aquele que é considerado um ícone no universo folclorista; Luís da Câmara Cascudo. No entanto, as manifestações artísticas ainda são poucas e, quando ocorrem, são minimamente faladas e divulgadas. No Rio de Janeiro, é proibida a entrada no teatro com comida na mão porque é considerado desrespeito. O natalense não tem esse tipo de orientação. E os resquícios dessa herança reverberam por aqui até hoje e, ao que parece, o TAM tornou-se mais um número nas estatísticas.
Natal é uma cidade que não comporta um número ideal de casas de espetáculos; se antes era difícil montar um espetáculo teatral ou de dança na capital potiguar, hoje essa tarefa ganha outro grande bloqueio. É esse o desabafo de Sandemberg Oliveira, 41, professor e delegado de cultura do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC). “O TAM é considerado um teatro popular, com preços acessíveis ao público e pautas que encaixam dentro da realidade dos grupos de teatro da cidade. O teatro tem uma capacidade de suporte para 600 pessoas, o que dá bastante visibilidade ao artista. Infelizmente, outros locais, como Casa da Ribeira e Teatro Riachuelo, oferecem pautas exorbitantes, elitizando o trabalho teatral e deixando a classe artística sem muitas opções para expor seus trabalhos”, declarou.

Sandemberg Oliveira, professor e delegado de cultura. Imagem: Léo Figueiredo.

Para o professor, em Natal não há outro teatro com tamanho glamour, e é um pecado que esteja fechado. Ele confessou que no início deste ano procurou a Câmara de Vereadores da cidade para investigar a porcentagem de verba que seria destinada à cultura, e até que ponto esse valor estaria direcionado aos teatros do município, e simplesmente constatou que “Não houve nenhum vereador que externasse preocupação em relação ao TAM”.
Sandemberg revelou ainda que muitos grupos foram surpreendidos com o fechamento do TAM, uma vez que tinham programado suas respectivas apresentações no local. A maioria dos espetáculos dos grupos de Natal e inclusive grupos de fora tiveram que ser cancelados em virtude do fechamento. Ele próprio disse que se sentiu prejudicado, pois possui uma companhia teatral, a Girarte, e com ela tinha planos de se apresentar no TAM. Por isso teve que recorrer ao Teatro de Cultura Popular (TCP), o qual comporta um número reduzido de pessoas.
Essa situação não vem afetando apenas grandes grupos. O Grupo de Teatro Eureka, nascido há pouco tempo e oriundo da graduação ofertada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), sentiu na pele os empecilhos que a falta do TAM representa, suspendendo as apresentações lá marcadas. “É difícil encontrar um espaço que possa comportar nosso espetáculo e que possa ser acessível ao público. E às vezes não encontramos essas duas qualidades no mesmo espaço”, relata Denilson David, 27, diretor do grupo.

Elenco do Grupo de Teatro Eureka. Imagem: Léo Figueiredo.

O Eureka está tendo que pesquisar novos locais, alguns alternativos, para apresentar seu espetáculo mais recente, “Debaixo da Pele”. De acordo com o diretor, todos estão sofrendo com o fechamento do TAM, e isso também prejudica projetos que os artistas firmam com escolas, no intuito de fazer com que os alunos experimentem o fazer teatral no próprio teatro. “Não há onde levar essas escolas e nem onde fazer esses espetáculos. O TCP reabriu há pouco tempo, mas ainda assim não comporta a quantidade de pessoas que o TAM comportava. Isso dificulta a logística de recursos; uma casa que comporta um número menor de público rende um custo e um lucro que muitas vezes não é o ideal”, lamenta Denilson.
Os artistas natalenses unem-se em um coro e a grande maioria concorda: o TAM democratizava o acesso tanto para o público quanto para o artista. O teatro na cidade continua vivo, e os grupos lutam em busca de novos espaços. Existem lugares que não são apropriados, mas que, vez ou outra, em um nobre gesto generoso, cedem seus ambientes, como a Pinacoteca, no bairro Cidade Alta.

A boa e má notícia
É importante lembrar que o TAM não é o primeiro teatro de Natal a encerrar suas atividades. O Sandoval Wanderley, no bairro Alecrim, também fechou suas portas e está completamente abandonado pela prefeitura. Contudo, com a reinauguração do TCP, o atual governador, Robson Faria, cogitou a reabertura do TAM e confirmou já estar reunindo verbas para providenciar o início da reforma do prédio.
Por questões burocráticas e também pela velocidade da restauração, é bastante possível, em uma estimativa positiva, que o TAM venha reabrir suas portas somente daqui a dois anos, impossibilitando que os artistas e o público local usufruam do espaço e, infelizmente, proporcionando que um prédio de tamanho valor histórico fique inutilizável.

 A mensagem de esperança que paira sobre os artistas é proferida pelo delegado de cultura, Sandemberg Oliveira, que recita “O TAM é um teatro que perpassou as mazelas do tempo e clama por alguém que cuide dele, assim como o semeador cuida de uma planta. É preciso que se crie políticas públicas educativas para que o teatro não seja apenas reformado, mas que seja, sobretudo, cuidado”. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Mudanças no sistema do RU: o que precisamos saber

Por Ana Flávia Sanção, Leonardo Da Vinci e Fernanda Cristina

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O Restaurante Universitário da UFRN é um dos principais locais de uso por parte dos estudantes e dos profissionais que trabalham na instituição. A construção foi inaugurada em 1973, pelo então reitor Genário Alves da Fonseca. O Ru atualmente consta com uma média de 4.500 refeições por dia, sendo 3.000 delas só na hora do almoço.

No primeiro semestre desse ano foram divulgadas, pelo Conselho de Administração da Universidade, duas mudanças no sistema de funcionamento do RU. A primeira era que o valor pago pela refeição passaria de R$ 3 reais para R$ 7 reais a partir de outubro. E a segunda era sobre a mudança na forma de pagamento, que foi transferida dos pontos de recarga (uma na Central de Atendimento ao Discente e outra no prédio do RU) para agências do Banco do Brasil, através da geração de um boleto bancário.


A mudança do preço

O anúncio da alteração do preço da refeição pago pelos usuários do RU gerou polêmica dentro do meio acadêmico, principalmente dos discentes, principais usuários do serviço. Os alunos alegam que o aumento do preço para mais do dobro do valor anterior fere aqueles que precisam do RU no dia-a-dia e não tem condições de custear uma alimentação mais cara. Também dizem que a qualidade da comida servida não sustenta o valor de sete reais. Numa pesquisa feita pelo CP com 55 alunos, 94,5% não gostaram da transição. “Não é uma comida de alta qualidade, como sabemos, e com o valor que estão cobrando dá para comer em cantos melhores que o RU”, diz Joalisson Gomes, estudante de CeT.

O serviço do RU tem como principal público os estudantes com uma renda até 1,5 salário mínimo, regra definida pelo Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). No entanto, não são somente os alunos com essa renda a usarem o restaurante durante a semana. “Aquele estudante que faz parte de uma família cuja renda per capita é superior a 1,5 salário mínimo previsto em lei, acaba sendo beneficiado indevidamente”, explica Edmilson Lopes Júnior, pró-reitor de assuntos estudantis da UFRN. Então, a partir dessa mudança, os únicos alunos a pagarem pelo preço de três reais serão aqueles que possuem bolsas de auxílio moradia e refeição, os que moram na Residência Universitária, os que têm atividades em seu contraturno e os com renda entre 1,5 e 3 salários mínimos. Os demais, assim como os servidores da instituição, pagarão sete reais.

Todos os recursos voltados para alimentação estudantil saem do orçamento do Pnaes, um gasto em torno de 6 milhões de reais por ano. Esse dinheiro é público e deve ser utilizado com responsabilidade, seguindo as leis estabelecidas pelo órgão responsável. Ainda que seja uma alteração considerável, a mudança garantirá que a legalidade do RU e o seu funcionamento esteja em dia. 

Gasto individual necessário para comer no RU (por semana e por mês)


A mudança na forma de pagamento

Em julho, o local e a forma de pagamento do RU sofreram alteração. Antes, a recarga dos créditos das refeições podia ser feita através de dois postos, um localizado no CADIS – conhecido como o antigo Relógio do Sol, no Centro de Convivência – ou no próprio RU, localizado em frente ao edifício de Saúde Coletiva da UFRN. Agora, a recarga só pode ser feita através da geração de um GRU (Guia de Recolhimento da União)  pelo SIGAA e que deve ser pago numa agência do Banco do Brasil.

Há controvérsias que giram em torno dessa mudança, pois o pagamento em dinheiro e na hora nos antigos postos de recarga era mais fácil e mais prático. Nem todos os alunos possuem conta no banco do Brasil e nem todos eles querem adicionar e nem todos eles tem tempo para enfrentar filas nos caixas. Às vezes o aluno quer creditar apenas um ou dois créditos, sendo oito o número máximo debitado na hora da geração do boleto (no caso de um número maior, serão liberados após o pagamento). 

A opinião dos estudantes varia. Ícaro César, discente de Jornalismo, não concorda com a modificação: “Antes eram os bolsistas que botavam credito nos cartões, uma coisa muito simples pro usuário, e agora o usuário tem que imprimir uma GRU, esperar que o crédito seja debitado, para aí sim ele usar o RU”. Já Camila Alexandre, graduanda de Engenharia Civil, a vê por dois lados: “Facilitou no momento da refeição, porém dificultou e muito pra quem não tem cartão do Banco do Brasil e tem que pegar fila praticamente toda semana”. 


Resultados da pesquisa de opinião feita pelo CP


O pró-reitor explica que o antigo modo de pagamento é ilegal. Nenhuma instituição pública pode receber dinheiro em espécie sem que haja uma autorização especial do governo e uma figura jurídica que se encarregue disso. Os funcionários que atendiam nos postos de recarda ou eram bolsistas ou eram funcionários terceirizados que ficavam responsáveis por levar toda a soma em dinheiro ao banco, algo que se tornava extremamente perigoso, devido à quantia que eles transportavam. “Muitas vezes era um servidor que saía com 15 mil reais do restaurante e ia para o banco. Colocávamos vidas em risco, tendo em vista que hoje em dia um local que comporta muito valor atrai a atenção da delinquência e marginalidade”, conta Edmilson.

Em relação aos créditos, no ato da geração do GRU eles são adiantados no cartão e abatidos assim que o dinheiro pago cair na conta. O Banco do Brasil é o único banco que possui autorização para receber o GRU. Isso causa transtorno, mas, segundo o reitor, a Pró-reitoria de Assuntos Estudantis imaginava que a maioria dos alunos possuía contas lá.

Entretanto, no momento, por acaso da greve dos bancos, os cartões estão sendo recarregados nos antigos locais, através do pagamento em dinheiro. Assim que o funcionamento bancário voltar ao normal o pagamento retornará a ser através do boleto.


Influência dos cortes orçamentários das universidades nas mudanças do RU

Existem questionamentos quanto à alteração dos valores do RU e os cortes orçamentários que estão ocorrendo esse ano nas instituições federais por todo o país. Em agosto, o Governo Federal publicou através do portal do Sistema Integrado de Monitoramento, Execução e Controle, pertencente ao MEC, os planos para a Lei Orçamentária Anual de 2017. O corte previsto pode ser até de 45% nos investimentos universitários.

Eu acho que é o governo em crise, e toda essa mudança no sistema, é uma tentativa do governo de ganhar mais com impostos”, diz Ícaro César, estudante. Edmilson Júnior, o pró-reitor, explica que a mudança do preço também faz parte de uma política econômica, mas não deixa claro até que ponto. “A mudança era necessária, e também é uma estratégia política e econômica. (...) Os preços que vigoram agora, são preços estabelecidos em 2012, período no qual estávamos diante de uma realidade econômica diferente”, afirma.

Com os cortes sendo aprovados, muitas mudanças ocorrerão nos programas universitários federais. Ainda não sabemos até onde isso irá alterar a vida do estudante público do país. As universidades já presenciam cortes desde o fim de 2014, mas a demanda por programas de auxílio só aumentaram desde a entrada das leis de cotas que garante 50% das vagas para estudantes de escola pública, baixa renda, negros, pardos e indígenas. Sendo assim, o Governo procura aplicar uma política econômica que, mesmo através de cortes, não interfere na qualidade da educação de seus alunos.


O funcionamento das bolsas de auxílio

As bolsas de auxílio alimentação são oferecidas pela PROAE para que os alunos com renda até 1,5 salário mínimo ou entre 1,5 e 3 salários possam ser beneficiados com uma ajuda custo benefício. Os estudantes devem se inscrever através do SIGAA no período informado pelo edital e os selecionados serão convocados para uma entrevista social para serem avaliados. Documentos e mais informações podem ser achadas no site da PROAE.


Para mais informações: Site do PROAEEditaisSite do PnaesSite do RU


Fonte: Estadão