terça-feira, 27 de março de 2018

Festival de artes integradas natalense aconteceu nesse final de semana

Por L. G. Sousa

Foto: Ramon Pacheco

Aconteceu no final de semana do último dia 23, de baixo das copas das árvores do Bosque das Mangueiras e ao som de ótimas músicas, o Burburinho. Festival que ocorre em Natal desde 2017 e tem a participação de mais de 80 artistas locais. O evento cultural tinha como objetivo trazer visibilidade para os artistas e a ocupação de locais públicos de forma harmônica com a natureza.

“A gente tentou ser o mais pontual possível. Se tivesse só uma pessoa na plateia nos faríamos o espetáculo só pra ela”, disse a produtora cultural e diretora do evento, Nathalia Santana. “Tentamos o tempo todo deixar tudo perfeito, mesmo que a perfeição seja uma coisa difícil de se atingir”. O espaço tinha cadeiras, para que a audiência pudesse sentar e apreciar as árvores, e a música, enquanto esperassem por alguma atração. “O próprio ambiente vira uma atração”.

Com 24h de atrações dividas em três dias, o Burburinho englobou as áreas de artes visuais, cinema, música, até cozinha, dança e artesanato. “Não existia, em Natal, um festival de artes integradas”, disse a diretora do evento. “Existiam muitos festivais massas, mas por exemplo, um festival de teatro, o foco é no teatro. Mesmo que tenha outras atrações, ele não é necessariamente um festival de artes integradas, porque todas essas linguagens não estão proporcionalmente distribuídas”.

Artista Daniel Torres / Foto: Ramon Pacheco
O Burburinho queria trazer um público diferente para o meio artístico, e o Bosque das Mangueiras é um ambiente que sai dos meios de arte natalenses, que algumas vezes se restringem a rua Chile, e ao bairro de Ponta Negra. “Pra mim, que trabalho com artes visuais, sai de um eixo que é muito íntimo”, contou o artista Daniel Torres, que trouxe sua exposição, Pelo Pescoço. “Por estar num festival, traz uma dimensão de abertura”. 

Acontecendo das 14h até 22h, o evento trouxe uma audiência mais jovem, e atrações que puderam ser apreciadas por crianças e adultos. “É algo muito família, algo que eu tenho certeza que vem pra somar para o calendário de eventos de Natal”, disse Paulo Capistrano, produtor de eventos. “Achei legal principalmente o horário, porque ele é diurno, coisa rara aqui na cidade”, explicou a poeta potiguar, Regina Azevedo.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Campus do IFRN celebra crescimento no número de ingressantes portadores de necessidades especiais

Pela primeira vez, o campus São Gonçalo do Amarante consegue preencher todas as vagas destinadas às ações afirmativas para pessoas com algum tipo de deficiência 

Por Francisca Pires

Rebeca Pessoa de Brito
“Estudar aqui tem sido uma experiência que nunca vivi! Não me arrependo nenhum pouco de ter feito o processo seletivo, pelo contrário. Os professores têm se empenhado muito para me ajudar, nós formamos uma grande parceria que vem dando certo”, comemora Rebeca Pessoa de Brito, estudante do curso técnico integrado em Logística no IFRN. 

Rebeca tem 14 anos e aos três foi diagnosticada com Artrite Crônica Juvenil - doença silenciosa que costuma apresentar sintomas somente em estado já avançado. A inflamação nos ossos acabou afetando a visão, comprometendo-a completamente com o passar do tempo. 

A jovem chegou a viajar até Recife em busca de tratamento, mas nenhum médico lhe deu algum tipo de esperança, todos diziam que transplantes e demais tratamentos não eram capazes de mudar sua situação. “Resolvi não arriscar, pois ainda consigo ver a claridade e tinha medo de depois dos procedimentos não conseguir mais ver nada. Logo, comuniquei essa decisão aos meus pais”. 

Ela relata nunca ter se sentido verdadeiramente excluída, mas que precisou buscar meios de desenvolver seu aprendizado nas escolas em que estudou, por não encontrar a estrutura necessária para o atendimento de suas demandas diárias. Suas esperanças se renovaram ao ver no Instituto Federal uma oportunidade de encontrar suporte para seu desenvolvimento acadêmico e pessoal.

“Há quatro anos eu frequentava o CAP (Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual) de Lagoa Nova. Até que em 2016, um colega, também deficiente visual, fez o processo seletivo do IFRN e foi aprovado para o campus Natal-Zona Norte. No ano seguinte, meus professores e familiares começaram a me incentivar para fazer o processo seletivo também, me contaram sobre a estrutura, os recursos que o IF poderia oferecer para o meu aprendizado e eu decidi fazer”.

Para realização do processo seletivo, Rebeca precisou do auxílio de um funcionário do campus que leu as questões, marcou as alternativas que ela escolheu e transcreveu sua redação. Além disso, foi ofertada à aluna uma sala separada dos demais e uma hora a mais para a realização de prova. 

Luan Redmann
O mesmo procedimento foi realizado na aplicação da prova do ENEM de Luan Redmann, aluno da graduação em Redes de Computadores. Ele, por sua vez, possui sequelas motoras e na fala em decorrência de uma doença rara, diagnosticada quando ele tinha apenas seis anos. Luan, hoje com 19 anos, comenta que quando começou a apresentar os primeiros sintomas da Síndrome de Adem, só haviam 3 casos relatados no mundo inteiro (o dele, um caso na Alemanha e outro nos Estados Unidos). Os médicos tiveram dificuldades para estabelecer um diagnóstico fixo, visto que seus sintomas também se encaixavam em um quadro de esclerose múltipla. 

A respeito de exclusão social e preconceito, ele conta: “É engraçado falar sobre exclusão, porque eu nunca sofri bullying por parte de ninguém. Depois de um tempo percebi que o preconceito que eu achava que sofria era algo da minha cabeça, partia de mim mesmo. Então, resolvi mudar, me amar mais, trabalhar minha autoestima e estou bem mais feliz. Aqui no IFRN é tudo maravilhoso, eu adoro esse lugar! Meus professores e colegas são demais, me tratam muito bem. Nunca me senti diferente”. 

O estudante finaliza descrevendo que assiste aulas normalmente. Somente para a realização das atividades avaliativas, assim como Rebeca, faz uso de um notebook ofertado pela instituição. 

Atualmente, o campus São Gonçalo do Amarante contempla cinco alunos portadores de necessidades especiais em seu corpo discente, quatro na modalidade técnico integrado e um na modalidade de graduação. Para atender as demandas desses alunos, a instituição possui o NAPNE - Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais. 

Yane Ramalho, professora e coordenadora
Yane Ramalho, professora e coordenadora do núcleo, explica os detalhes da atuação deste grupo: “O NAPNE em São Gonçalo do Amarante começou desde a criação do campus, mas está em atuação de fato desde o ano passado. O núcleo é composto por professores, servidores do campus e equipe multidisciplinar - psicólogo, pedagogo, assistente social e intérprete de libras. As intervenções começaram pelos professores e técnicos administrativos nas reuniões pedagógicas, buscando informá-los e sensibilizá-los a respeito da inserção destes novos alunos portadores de deficiência”. 

A professora conta que em 2018 o NAPNE tem atuado de forma mais ativa em virtude da presença desses cinco alunos, em especial da Rebeca - primeira deficiente visual a ingressar no campus. Há preocupação específica quanto à sua acessibilidade que exige uma maior adaptação por parte do corpo docente e dos servidores. Os professores passaram a procurar com frequência o Núcleo para sanar suas dúvidas e aprender como planejar suas aulas de modo a incluir esses alunos.

“Depois de 2016, com a legitimação das ações afirmativas, houve uma busca maior por parte destas pessoas. Nós desejamos receber bem mais daqui para frente, o objetivo é ter, em cada turma, até quatro alunos portadores de algum tipo de deficiência. O IFRN lida bem com o acolhimento destas pessoas, mas tudo é uma questão de tempo e adaptação. O NAPNE trabalha muito com essa visão de formação dos professores e alunos. É uma transformação na sala de aula, os discentes passaram a buscar incluir e não excluir essas pessoas como acontecia antigamente”.

Ao ser questionada quanto às principais dificuldades presentes na instituição, Yane destaca: “O que podemos fazer para melhorar, nós estamos fazendo. A maior dificuldade no momento é a falta de um espaço físico para o núcleo, visto que o objetivo é poder ofertar um maior acolhimento ao aluno que precise ser atendido. O NAPNE agora luta, também, por mudanças na estrutura da instituição, a fim de melhorar ainda mais a acessibilidade. Em termos de materiais didáticos, estamos buscando trazer livros em braille, já que a Rebeca possui total domínio”. 

Além disso, a coordenadora salienta a necessidade da criação de parcerias governamentais entre institutos voltados a atender exclusivamente essas pessoas e as escolas, sejam elas estaduais ou federais. Assim, o suprimento das necessidades e o atendimento destes alunos começará a ser feito de forma mais rápida, sistemática e completa.

Luiz Alberto Pimentel, diretor acadêmico
Acerca de possíveis queixas de bullying realizadas pelos alunos com necessidades especiais à direção do campus, o diretor acadêmico, Luiz Alberto Pimentel, afirma: “Alguns dos alunos não declaram sua deficiência para a direção da instituição e nós acabamos descobrindo no decorrer do ano letivo, por meio do trabalho da pedagogia. Quando isso acontece fica mais complicado acompanhar de perto a interação entre esses discentes. No entanto, aqueles que são declarados, são muito bem recebidos pelos colegas, eles costumam ser ‘adotados’ pelos amigos que, por conta própria, disponibilizam-se a dar o suporte necessário no dia-a-dia”. 

Luiz conta que o IFRN preza por uma perspectiva de inserção de inclusão muito clara, presente desde a própria missão da escola. É importante ter esses alunos justamente pela busca de uma educação que respeite as diferenças: “Ainda existem muitas dificuldades, porém fica claro todos os dias que eles têm muito a nos ensinar e ensinar aos seus colegas. É uma construção diária, estamos todos aprendendo juntos”. 

A Rebeca e o Luan, personagens do início dessa matéria, possuem muitos planos. Ela pretende finalizar o curso técnico em Logística e em sequência ingressar no ensino superior. Formar-se em Logística ou Administração para que possa ser uma grande empresária, proprietária de uma grande rede de lojas. Ele, por sua vez, apesar de cursar uma graduação voltada à tecnologia, sonha em outra área: a educação. Luan tem o objetivo de estudar Letras para lecionar e ser um grande professor de português. Ambos acreditam na mudança através da educação, por outro lado os educadores acreditam que eles estão mudando a forma de educar. Nessa parceria, na qual a diferença une, todos acabam ganhando.

Recuperando a Ribeira junto à sociedade


Muitas tentativas de revitalizar a localidade histórica de Natal foram feitas ao longo dos anos, a mais recente vem do campus universitário da cidade


Por Ana Beatriz Cordeiro, Anna Vale, Germano Freitas e Hilda Vasconcelos


O bairro da Ribeira, núcleo boêmio e cultural da cidade do Natal, vem sendo alvo de tentativas de reconstrução e revitalização desde os anos 90. Esse esforço se dá com o intuito de preservar suas edificações históricas, que demonstram algumas das mais antigas referências à arquitetura modernista na cidade. 

A mais recente iniciativa para “reviver” o segundo bairro mais antigo de Natal veio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em parceria com a Caixa Econômica Federal, Ministério das Cidades e Prefeitura do Natal, por meio da primeira edição nacional do concurso universitário BID UrbanLab.

Com o objetivo de “buscar soluções criativas e ideias inovadoras para os problemas urbanos da América Latina e do Caribe,” a competição convidou universidades brasileiras a pensar projetos de desenvolvimento urbanístico, social e patrimonial inovadores para intervenção em bairros como a Ribeira. Foi a primeira edição do concurso em solo tupiniquim, que desde 2015, já ocorreu na Cidade do Panamá, Colômbia e, paralelamente à edição brasileira, em Mendoza, Argentina.

A primeira fase do concurso recebeu 40 propostas, das quais apenas metade foram aprovadas para a etapa seguinte. Destas, 7 provenientes da Cidade do Sol: 6 da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mais uma da Universidade Potiguar (UNP).

Entre as três finalistas, a equipe vencedora veio diretamente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFRN, com um projeto intitulado “Olhos da Ribeira”. Composta por Marcela Scheer, Dmetryus Targino, Nicholas Martino, Mariah Holder e orientada pela professora Ruth Ataíde, a equipe propôs um diálogo com os moradores do bairro para tomar as decisões que viriam a afetá-los. Além de oferecer-lhes a chance de se tornarem investidores na revitalização.

Sendo a única equipe potiguar entre as finalistas, os estudantes já estavam familiarizados com a situação do bairro desde muito antes do anúncio do concurso. Marcela, de 24 anos, por exemplo, era graduanda na época do concurso, mas possuía o conhecimento de uma vida inteira passada ali: “Eu passei minha infância e minha adolescência toda na Ribeira, porque estudei no Salesiano. Vi aquela praça [Augusto Severo] ser reformada e os terminais de ônibus mudando mil vezes. Sempre foi um lugar com o qual eu me identifiquei muito”.
Dmetryus Targino (esquerda); Mariah Holder (topo); Nicholas Martino (direita) e Marcela Scheer (abaixo), integrantes da equipe vencedora / Foto: Cícero Oliveira

Além disso, ela explica que foi muito vista a questão da Ribeira como patrimônio histórico em projetos de pesquisa oferecidos pelo curso. No entanto, o concurso permitiu o aprofundamento desse conhecimento, como também de temas técnicos que não seriam tão estudados. Nicholas, também de 24 anos, completa que, ao contrário do concurso, na pesquisa, o estudo é muito voltado aos problemas e, não necessariamente, às soluções; uma mudança considerada bem-vinda.

Entre os muitos destaques do bairro, o que mais chamou a atenção da equipe ao visitar a Ribeira para avaliação, foi o Terminal Pesqueiro. Localizado na Avenida Tavares de Lima, é o lar da pesca artesanal do bairro, fonte de sustento de muita gente. Apesar da percepção popular de que estaria abandonado, os próprios pescadores foram fundamentais para entender alguns dos problemas que precisavam ser resolvidos ali. Dmetryus, 22, graduando de Arquitetura e Urbanismo, conta que enxergar a Ribeira pelos olhos da comunidade que vive ali, os ensinou algo que não está nos livros.

Na medida em que o processo de elaboração do projeto de revitalização foi iniciado, eles relatam que tudo parecia servir de inspiração: “Quando estamos fazendo projeto, tudo que a gente vê, pensa ‘meu Deus, isso vai ficar perfeito na Ribeira’”, exemplifica Marcela. Ela admite ter se apropriado de alguns elementos da revitalização do Recife Antigo. Foi a falta de experiência dos membros da equipe, no que diz respeito à participação em concursos, que os levou a explorar os projetos vencedores do BID Urban Lab em edições passadas. Sendo o primeiro ganhador, no ano de 2015, em Curundú, no Panamá, a sua maior inspiração gráfica e de apresentação de produto. 

Uma vez que as três equipes finalistas foram escolhidas, o produto final deveria ser apresentado em Washington D.C., nos Estados Unidos, na sede do BID, para uma banca de jurados e especialistas internacionais que formavam a comissão julgadora do concurso. Apesar do cenário, a apresentação seria em português, com tradução simultânea. Cada expressão era pensada e treinada, com o intuito de montar um discurso publicitário que vendesse a premissa do Projeto “Olhos da Ribeira”. A equipe teve direito a um dia de treinamento e a orientação do banco quanto ao roteiro, mas foram feitas mudanças até na véspera da apresentação. “Cada palavra foi pensada e decorada, parecia que eu estava fazendo discurso político,” conta Nicholas, o responsável pelo discurso.

Conforme o site do concurso, a equipe vencedora teria a oportunidade de validar e adaptar a sua proposta, trabalhando em parceria com técnicos locais, a Prefeitura, especialistas do BID, do Ministério das Cidades e da CAIXA, entre o período de fevereiro e março de 2018. No entanto, a equipe explica que essa movimentação ainda não ocorreu, devido ao momento turbulento vivido pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), de revisão do plano diretor – o que deixa os trabalhos na Ribeira sem prioridade. 

Ainda, tanto a equipe quanto a Secretaria, esperavam que os estudantes trabalhassem no projeto, mas o banco apenas os financiará por um mês. Dmetryus argumenta que o período é completamente inviável para a implementação de um plano de grande escala como esse, “não dá nem para juntar os dados suficientes para começar o projeto”. A estratégia para lidar com isso parte da Prefeitura, que pretende gerar um clamor social para o projeto a partir de uma exposição, incentivando, assim, o Banco Interamericano a financiá-lo.

Apesar dos altos e baixos que, inevitavelmente, vieram com a tentativa de colocar o projeto em prática, o grupo permanece empenhado e esperançoso. Em consenso, explicam que, se pudessem trabalhar em apenas um aspecto da intervenção planejada durante esse curto período, seria a criação de um deck a partir da Avenida Tavares de Lira - que apresenta grande potencial por seu tamanho. Além da revitalização do espaço já funcional do Terminal Pesqueiro.
Deck às margens do Rio Potengi, conforme apresentado na proposta / Foto: Olhos da Ribeira/BID Urban Lab

Foi observada, durante a fase de elaboração, a partir de conversas com as diversas comunidades presentes no bairro, que há, sim, o desejo de transformá-lo e recuperá-lo por parte dos seus próprios moradores. Além disso, o grupo nota que a gestão tem sido um problema nas tentativas anteriores de revitalizar o bairro, seja no emprego dos investimentos ou dos impostos cobrados. Assim, a inclusão da participação social foi pensada para equilibrar esses dois pontos: o cidadão, como investidor, seria parte essencial da tomada de decisões do projeto e estaria presente em todas as suas etapas. “Daí a gente teve a ideia de um aplicativo em que as pessoas poderiam opinar, ajudar na gestão, se mobilizar, fiscalizar e ter um sentimento de comunidade”, conclui Marcela. 

Apesar das dificuldades enfrentadas na implementação do projeto “Olhares da Ribeira”, é inegável seu potencial e o esforço empregado pela equipe em sua elaboração. Em uma proposta que se preocupou bastante em como aquilo seria viável e condizente com o que já existe no bairro, a equipe se apoiou no resgate da memória, no desenvolvimento econômico e na recuperação da vitalidade da Ribeira. Oferecendo uma nova possibilidade para a região, baseada no potencial natural, social e econômico que já possui.

Para o projeto completo, acesse o link.

Página do Instagram gera comoção ao contar histórias invisíveis

Com quase 18 mil seguidores, o perfil "RN Invisível" conquistou a admiração dos potiguares ao contar as histórias de vida por trás de pessoas marginalizadas pela sociedade

Por Marco Veppo e Francisca Pires

Página oficial do RN Invisível no Instagram.
“(...) Já tem um ano que venho todo final de semana pra cá, pedir dinheiro pra comprar a nossa comida da semana”, diz Ana Lídia, que se encontra em situação de rua em São José do Mipibu. A história dela e de outras pessoas que moram nas ruas estão sendo contadas no Instagram por um perfil chamado RN Invisível. Marcel Rodriguez, idealizador do projeto, arrecada doações e voluntários para ajudar a suprir as necessidades destas pessoas. Em entrevista, ele nos conta os detalhes da história da página.

Há quatro anos, Marcel participa de um projeto chamado Sopão, que aos sábados leva suprimentos - comida, roupa e material higiênico - aos moradores de rua e que, ao longo do caminho, escuta várias histórias. No entanto, sempre houve uma inquietação: “Ao entregar um copo de sopa, nós matávamos a fome daquelas pessoas naquele momento, mas como elas ficam depois que vamos embora? ”. Motivado pelo propósito de ajudar essas pessoas não só uma vez, mas sempre, resolveu pesquisar projetos que dessem maior suporte a pessoas necessitadas e encontrou alguns que contavam histórias de pessoas em situação de rua, porém, esses não davam nenhum tipo de auxílio. 

Assim, para unir o útil ao agradável, criou há pouco mais de um mês a página RN Invisível, contando histórias e, simultaneamente, dando amparo aos personagens delas. Agora, toda semana, nas tardes de terças e quintas, ele sai de casa na missão de encontrar histórias. São documentadas 3 ou 4 delas em um dia, às vezes até mais. As abordagens por enquanto estão ocorrendo apenas nas ruas, mas Marcel revelou planos de começar a abordar pessoas dentro de comunidades carentes. 

Francisco de Assis, a ultima história postada.
Cada narrativa é singular e revela experiências muito impactantes. Marcel diz que algumas das histórias ele precisou ir em busca, mas outras já conhecia, por ter participado do Sopão: “Eu costumava ouvir um pedacinho de cada história que era contada sem pretensão por eles, muitas vezes era perceptível o quanto desabafar era importante. Eu notava algo preso dentro deles que parecia se libertar toda vez que surgia alguém para quem contar, isso porque, no geral, essas pessoas nunca são ouvidas, nem mesmo pelos seus companheiros de rua. Então, eu pensei que do mesmo jeito que eu me interessava por essas histórias, outras pessoas podiam se interessar também. O mundo precisava entender o porquê de eles terem ido parar ali”. 

Ao ser questionado sobre como é feita a abordagem dos entrevistados, ele explica que existe muita relutância por parte deles para contar suas histórias. “Eu puxo assunto, explico o projeto e pergunto se eles querem me contar as histórias, e que, através delas, eles podem receber ajuda. Quase todos aceitam e resumem as suas vidas para mim”, relata.

O diferencial do projeto é que, por ter tido uma ampla divulgação pelos usuários do aplicativo, foi possível arrecadar muitos suprimentos para a doação. “O RN Invisível está ajudando não só uma vez, mas sempre que possível. Para ocorrer a entrega das doações é feito um cadastro de cada um deles e, geralmente leva quatro dias para a arrecadação dos mantimentos. Por enquanto, eu acho, é possível contribuir com umas duas ou três (doações) para a mesma pessoa”. 

Ana Lídia recebendo as doações.
Em meio a tantas histórias emocionantes, perguntamos ao Marcel se ele conseguiria destacar uma que mais tenha chamado sua atenção: “Entre todas elas, a história que mais me emocionou foi a do Francisco de Assis ele tem trinta anos e foi morar na rua aos doze, isso porque o pai dele o colocou lá. Ele foi expulso de casa. Entende a gravidade? Ele não teve o que fazer. É assustador! Mas, cada história dessa mudou um pouco da minha vida. É incrível porque cada história me faz refletir toda vez que estou escutando e depois escrevendo. Às vezes o maior sonho da pessoa é ter uma cama, é chegar em casa e tomar um banho, comer, e assistir televisão. Esse tipo de choque de realidade muda a gente”.

O personagem citado anteriormente, Francisco, ainda não recebeu doações. Isso porque sua história compõe o post mais recente da página - que se encontra aberta para as arrecadações. Já a Ana Lídia, personagem do início dessa matéria, conseguiu mantimentos graças aos voluntários do projeto, ao Marcel e também aos usuários que entraram em contato com a página via direct (o chat do instagram) ou pelo e-mail. Se você quer fazer parte do projeto é só pesquisar por @RNINVISIVEL no aplicativo e contribuir para mudar a história de pessoas como a Ana Lídia e o Francisco de Assis.

sábado, 24 de março de 2018

A Realidade e os Desafios da Maternidade na Graduação

Por Evandro Ferreira, Marcelha Pereira e Renata Duarte


“Estou grávida no meu 4° período da graduação, o que eu vou fazer?”, “Acho que vou desistir, não vou dar conta”, “Não vou ter tempo para cuidar da criança e estudar”, “Acho melhor trancar o curso e voltar quando a criança estiver maior”.*


“Eu tenho uma criança de quatro anos, acho que já posso voltar aos estudos”, “Mas ainda vai ser difícil, e se eu precisar levá-la algum dia para a sala de aula?, “Será que meus professores e minhas professoras irão aceitar? Qual será a posição da Universidade?”.*



“Eu acho que devo começar a fazer o curso dos meus sonhos, minha criança já tem cinco anos, preciso de uma formação”, “Vai ser difícil, mas preciso garantir meu futuro”.*


(Diálogos internos fictícios)

Esses pensamentos são frequentes em mulheres que engravidam em meio a graduação, mulheres que engravidaram enquanto estudavam e abandonaram o curso, assim como nas que já são mães e ainda não entraram na Universidade. Não são decisões fáceis de serem tomadas. Abandonar ou não? Voltar a estudar ou não? Começar ou não?

Audair Nascimento, 37, conta que já tinha seu filho Douglas quando entrou na UFRN para cursar Administração, em 2001. Ela sempre quis fazer faculdade e em seu segundo vestibular, cujas provas aconteciam durante quatro dias, ficou no quinto lugar da primeira fase e no 16° da segunda.

A administradora estudava à noite, mas era durante o dia que fazia os trabalhos e dividia sua atenção entre as várias apostilas que tinha de ler, seu trabalho como servidora pública e seu filho que tinha dois anos na época. “Algumas atividades não conseguia cumprir da forma como planejava pois tinha que escolher entre a atividade e tempo com meu filho. Daí a necessidade de levá-lo comigo algumas vezes. Eu também queria que ele conhecesse e de alguma forma participasse das minhas atividades”, comenta.

Os professores eram compreensivos e Audair diz que seus colegas gostavam e brincavam com seu filho. E durante a aula, Douglas era comportado e não atrapalhava. Ela lembra que nunca pensou em desistir, que o fato de ser mãe a dava mais força para continuar, porque não era só pelo futuro dela, era pelo da criança também.

No entanto, ela precisou trancar a matrícula em 2003, mas por questões de trabalho. Por sorte, voltou a estudar pouco tempo depois e em meio a essa volta, engravidou de uma menina que viria a nascer em 2005. “Essa nova gravidez me fez passar por novas situações, como dormir na sala de aula, por exemplo. Mas mais uma vez contei com a compreensão dos professores, não deixava de fazer nenhuma atividade, e colegas, inclusive consolidei uma amizade de algum tempo que dura até hoje”, relata.

Diferente do filho, a mãe não levava a filha para a UFRN, a menina ficava com a avó por ser muito pequena. Audair comenta que não teve apoio do pai das crianças, porém nem mesmo esse fato a levou a desistir do curso. 
Audair, em sua formatura, ao lado dos dois filhos: Douglas e Clarissa.

Hoje é formada em Administração e diz que o curso ajudou tanto a ela quanto ao filho mais velho. Ela não tinha o hábito de leitura antes da graduação e vendo o quão importante era, começou a incentivar o filho a ter gosto por livros desde cedo. “Estou certa de que ele é bom leitor e escritor por causa disso”, fala orgulhosamente. E para finalizar, Audair Nascimento chega à conclusão de que “a maternidade na graduação pra mim, ao contrário do que possa parecer, trouxe mais experiências e consequências boas do que ruins”.


Galdina Nascimento de Carvalho, 39, é mãe e cursa Jornalismo. Com a voz suave, ela diz que já tinha dois filhos quando ingressou na UFRN aos 35 anos. O filho mais novo estava com 5 anos e o mais velho, com dezoito. Coincidentemente, ela e o filho mais velho ingressaram em Universidades diferentes no mesmo período de 2015. 

Ela estudou um ano de Gestão de Políticas Públicas antes de ir para Jornalismo e diz que não passou por grandes dificuldades, mas que prefere encarar o período como recheado de adaptações. “Sua rotina muda totalmente, você tem que dividir seu tempo na rotina de casa, com os cuidados com o filho, trabalho e o estudo. Acho que tudo foi uma questão de tempo para que eu pudesse me adaptar à mudança”, fala. 

A estudante de Jornalismo comenta que a rotina de trabalho e graduação é mais pesada do que as tarefas como mãe. Devido ao trabalho, ela diz que por muitas vezes chega à faculdade com a cabeça cheia e com muita dificuldade de concentração. “É bem complicado”, desabafa. 

Em certos momentos ela necessitou levar o filho à sala de aula e fala que foi bem acolhida pelos colegas e pelos professores. Antes de começar a estudar, ela confessa que pensou nas dificuldades que poderiam surgir e que ficava arrumando soluções para elas em sua própria cabeça. “Até hoje as coisas estão caminhando bem, hora tenho tempo para estudar e hora não tenho. Vou seguindo dessa forma e vou me adequando a tudo. Mas desistir eu nunca pensei, eu só tive medo antes de começar a estudar, depois que comecei, eu não pensei em mais nenhum momento”. 

Galdina e Arthur em sala de aula.
"Eu acho que posso inspirar
um pouco e direcioná-lo para a vida."
Como Audair Nascimento, Galdina também não teve o apoio do pai da criança. Enquanto estava casada não teve o suporte para voltar a estudar e somente quando se separou do marido “despertou o sonho que estava guardado”, como diz. Ela conta com a ajuda da mãe para ajudá-la a cuidar do filho, mas quando a avó não pode ficar com o neto, Gal (como gosta de ser chamada) não hesita em levar o Arthur para a sala de aula.

“Ele aprende muito me seguindo, frequentando as aulas. Como os meus dois filhos me impulsionam para a vida, para querer mais, para correr atrás, eu acho que de alguma forma eu posso impulsioná-los também. Eu acho que eles lá na frente, principalmente o Arthur, vai recordar muito esses momentos da faculdade, momentos em que ele pode me ensinar e eu posso ensiná-lo também. Em que outros podem ensiná-lo, que são meus amigos, meus professores. Eu acho que posso inspirar um pouco e direcioná-lo para a vida. De uma coisa eu tenho certeza: o esforço é inevitável e o conhecimento é necessário”. 



Faculdade também deve ser espaço de apoio


O peso da responsabilidade pela criação de um filho comumente recai sobre as mulheres, e muitas não possuem o apoio necessário para correr atrás da formação acadêmica. Os desafios são variados e por muitas vezes alguns se tornam mais difíceis de serem encarados. 

É por isso que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), principal e maior instituição potiguar de ensino superior, oferece algumas ações de suporte para mães que precisam levar seus filhos para as aulas na faculdade. De forma direta, a UFRN oferece um auxílio creche no valor de 100 reais. Essa quantia é disponibilizada mensalmente para pais que apresentam situação de vulnerabilidade socioeconômica e que sejam responsáveis legais por crianças de 0 a 6 anos. A quantidade dos benefícios concedidos é limitada a 100 auxílios creche, quantidade que pode variar de acordo a disponibilidade orçamentária da universidade.

Outro de suporte oferecido para as mães é o Núcleo de Educação da Infância (NEI), é uma escola de ensino infantil ligada à UFRN que atende crianças da creche, pré-escola alunos até o quinto ano do ensino fundamental. Essas vagas são limitadas e disponibilizadas para todos que tiverem interesse, não apenas para a comunidade interna da instituição. A forma de seleção de ingresso é por edital e o critério de escolha é feito por meio de sorteio entre os interessados.

Além disso, outra ação disponibilizada para as estudantes e que pode ser útil para as mães é o apoio psicológico oferecido pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proae).



E mais inspirações


Embora algumas mães consigam conciliar a maternidade e graduação, outras não têm a mesma sorte. A falta de apoio familiar, questões financeiras, pressão psicológica, múltiplas jornadas e outros fatores são suficientes para levar mulheres a abandonarem o sonho da Universidade. 

Luciane Oliveira, 47, é administradora e professora de nível superior, mas em sua juventude abdicou da faculdade de direito por conta da gestação. "Quando a empresa que eu trabalhava descobriu que eu estava grávida, me demitiu e por consequência tive que trancar a matrícula na faculdade. Razão pela qual decidi ficar em casa e ter a minha filha." 

Quatro anos depois, Luciane decidiu voltar aos estudos e ao mercado de trabalho por considerar que a filha não sofreria tanto com a sua ausência. Consideração que ela diz ter sido equivocada. Iniciou a faculdade de administração em meio a maternidade e trabalho, mas conseguiu concluir o curso anos mais tarde. "Só me permiti voltar ao mercado de trabalho quando ela estava com quatro anos de idade. Uma das razões que me levaram a isso, foi ter a segurança (ilusória) de que ela não sofreria tanto, pois me diria as ocorrências do seu dia". 

A professora conta que o período de jornadas triplas foi cheio de entraves, principalmente em relação à convivência com a filha. "O principal deles foi de passar tempo demais longe da minha filha e como consequência, ela me esperava acordada para ter contato comigo e isso atrapalhou a vida dela até hoje, pois o sono de uma criança é essencial para sua saúde e crescimento. No entanto, foi uma das formas que ela encontrou de compensar a distância e eu acabei concordando". 

Tendo o apoio do pai da criança, concluiu a faculdade de Administração e posteriormente a Pós-Graduação e o Mestrado. Luciane nos mostra que os estudos são importantes e presentes em sua vida, visto que recentemente ingressou na faculdade de Psicologia. 

Fabiana Barbosa, 42, já era mãe quando decidiu iniciar a sua primeira graduação. Ela começou o curso de Letras na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC - MG), mas teve de abandonar por questões financeiras junto a maternidade. Engravidou aos 21 anos e conta que não foi nada fácil conciliar o papel de mãe à vida universitária. 

Após 11 anos sem estudar, resolveu iniciar o curso de Direito que posteriormente concluiu em 2016. Sem o apoio do pai de seu filho, teve a responsabilidade de criar a criança sozinha, além de trabalhar e retomar as atividades acadêmicas. 
Fabiana e seu filho Ângelo, atualmente.
No decorrer da sua segunda graduação, Fabiana conta que precisou levar o filho às aulas por diversas vezes, principalmente aos sábados por causa da indisponibilidade de alguém para ficar com a criança, mas comenta sobre o auxílio da mãe durante a semana. "Quando tinha aulas aos sábados precisava levá-lo comigo. E nos dias de semana minha mãe o buscava na escolinha. Eu ficava muito tempo sem vê-lo, era muito ruim, mas foi necessário" 

Ao levar o filho à sala de aula, a empreendedora disse nunca ter passado por mal-estar com colegas de turma ou professores. “Todos sempre foram muito corteses e entendiam completamente a situação”, afirma. 

Historicamente as mulheres tiveram sobre si a responsabilidade exclusiva de cuidar dos filhos e da casa. Ao conquistarem os espaços públicos como mercado de trabalho e universidade, a conciliação dessas longas jornadas se tornou algo a ser pensado. 

A aluna Isabela Ferreira, 20, cursa história na UFRN e comenta a pauta que voltou a repercutir dentro da universidade: as políticas de permanência oferecidas a mães estudantes. "A gente vê que há uma falha do estado e das universidades que não dão assistência suficiente a essas mulheres de estarem adentrando esses espaços e conquistando sua autonomia porque não tem suporte de políticas públicas, auxílios que as ajudem a permanecer na universidade". 

A insuficiência de políticas públicas nesse quesito faz com que mães deixem de lado o sonho da graduação para se dedicar inteiramente aos seus filhos. A implementação de projetos que auxiliem essas mães é bastante frisada por Isabela. "Se o estado, município não fornece creches públicas com quantidades de vagas suficientes que atendam essas mães, as creches privadas também não irão atender, já que tem alto custo e não são todos que têm acesso. O próprio auxílio da UFRN não é suficiente para pagar uma creche para criança então a gente vê que ainda é preciso avançar muito". 

Maternidade e graduação é um dilema que vem de longa data. Há urgência em dar visibilidade ao tema que muitas vezes é deixado de lado. "Hoje em dia a demanda não é atendida, mais ou menos 80% das demandas por creches não são atendidas então muitas mulheres sofrem com isso, desistem dos sonhos de estar na universidades e emprego porque são mães. Precisamos começar a pensar em formas de mulheres estarem adentrando esses espaços sem serem prejudicadas. E aí fica o dever de cobrar a universidade e Estado por políticas, auxílios, creches que atendam mães e pais que necessitam", disse Isabela.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Motores do Desenvolvimento no Rio Grande do Norte [ATO EXTRA]

Por Augusto Ranier e Yuri Gomes

Foto retirada da Fanpage do Deputado Estadual Hermano Morais

ATO EXTRA: OUTROS PERSONAGENS

Empresários, políticos, ou ambos, anônimos ou ilustres, reconhecidos com tímidos acenos ou breves tapinhas nas costas têm algo a contar, lembrar e, claro, a reclamar. Queixam-se desde o atraso, com razão, até a falta de atitude da juventude que vive no celular e não gosta de trabalhar.

São palpiteiros e/ou protagonistas da economia e política regional e nacional. Até mesmo aqueles que negam emitir posições sabem que precisam estar ali. Enfiados em seus ternos figuras como essas, no último dia 05, lotaram um grande hotel da capital potiguar para ouvir duas "celebridades" - uma do meio empresarial, Flávio Rocha, e outra do governo, Henrique Meirelles - fazerem seus discursos reciclados sobre os rumos certos que o Rio Grande do Norte e o Brasil devem tomar. 



"Voto em Homem, não em partido"


Um empresário do setor de postos, um senador da república e o fundador de uma famosa sorveteria do estado são os personagens desta matéria.

"Voto em homem, não em partido. Acho o Alckmin um bom candidato. O Meirelles (apontando para o palco) é um excelente nome", disse Haroldo Pinheiro Borges, empresário do setor de postos, primeiro entrevistado que abre o primeiro ato desta série de reportagens. Ele vê com incertezas a eleição deste ano, teme a ascensão de um populista. Na opinião do empresário "Lula e qualquer candidato populista é um perigo real para o Brasil". No entanto, ao ser perguntado sobre sua opinião acerca do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, diz: "não tenho simpatia por extremista, mas acho que o Brasil precisa de um baque para acordar".

Acredita que a Justiça do Trabalho representa um empecilho ao desenvolvimento do país, pois seus métodos são totalmente arbitrários e estimulam o conflito entre empregados e empregadores. Prega uma opinião meritocrática sobre o trabalho: "Se o sujeito quer trabalhar dez horas, ele deve poder trabalhar e ser recompensado por isso. Não vejo problema algum quanto a isso. Os cubanos fugidos chegam em Miami e ficam ricos porque trabalham muito. Eu não cobro horário aos meus funcionários, apenas peço que façam o serviço". 

A conversa é interrompida por Antônio Leite Jales, diretor de uma fábrica de sorvetes, que cumprimenta Haroldo e, ao saber da presença de dois iniciantes no jornalismo, elogia o trabalho, mas aconselha: "rapazes, priorizem as boas notícias, se eu estivesse lá em cima, só deixaria os jornais publicarem notícias positivas, basta de pessimismo e coisa ruim. E já dou uma palavrinha a vocês, ok?", prometeu o empresário.



O Senador


Terminada a primeira palestra, a movimentação pela entrada do hotel foi grande, muitos não esperaram a chegada do atrasado Henrique Meirelles. Entre eles, estava o senador José Agripino Maia (DEM-RN) sozinho mexendo em seu celular. Agripino Maia é senador há 31 anos. Abordado, ele prontamente se dispôs a responder breves perguntas.

O ex-governador do RN e ex-prefeito de Natal esclareceu sobre a nomeação de um candidato à presidência da república pelo seu partido e afirmou: "o Rodrigo Maia, que é presidente da Câmara e que tem verbalizado muitas opiniões com muita coragem e competência, vai fazer a interpretação das ideias do partido. É claro que você pode ter candidatos se você tiver ideias que sejam aceitas pela opinião pública, que se traduzem em pesquisa. Então, se as pesquisas mostrarem que daqui até o mês de maio, que se aquilo que ele [Rodrigo Maia] verbaliza em nome do partido tiver apelo popular, a candidatura se consolida. Do contrário, a gente vai parar e pensar na nossa alternativa".

De fato a candidatura consolidou-se e na convenção do último dia 08, o partido Democratas lançou Rodrigo Maia como pré-candidato à presidência da república. Porém, até o momento, o atual presidente da Câmara não aparece com porcentagem de votos relevante nas pesquisas de intenção de voto. Em recentes entrevistas, Rodrigo Maia evitou associar sua imagem à de Michel Temer, mesmo sendo, na teoria, da base do governo.

O apoio do DEM ao atual governo é o centro do questionamento feito ao senador Agripino, que foi enfático ao dizer: "DEM é DEM, PMDB é PMDB. Nós temos nossas ideias, muitas delas coincidentes com as do PMDB e do atual governo. Não confundam..." justificando que um eventual governo do Democratas não seria uma continuidade do governo de Michel Temer.

"O Democratas ofereceu um ministro, o PR, um ministro; enfim, todos os partidos do governo de coalizão indicaram ministro, mas não significa alinhamento automático, nem muito menos vinculação a padrões éticos de quem quer que seja, não", disse numa tentativa de evitar uma associação do seu partido com o presidente mais impopular da história democrática do Brasil. 



O sorveteiro


Terminado o evento, Antônio Leite Jales, fundador e diretor da maior fábrica de sorvetes do estado, cumpriu sua promessa e atendeu os dois repórteres.

"Só quero que Deus ilumine a cabeça dos próximos dirigentes", isentando-se de dizer suas preferências no pleito de outubro deste ano. Para o natural de Messias Targino (RN), sua prece por uma iluminação divina na política não renderá frutos para sua vida, mas para "vocês que são mais jovens".

Para o empresário, apesar da crise de desconfiança sem precedentes que a sociedade brasileira atravessa, o Brasil é "o melhor país do mundo, que gera muitas oportunidades".

Em tom profético, despedindo-se das perguntas, "estou sem tempo", arremata: "não tenham dúvidas que seus filhos e netos terão muito orgulho disto aqui (apontando pra terra)" . Amém.

Cortinas se fecham, apagam-se as luzes.

Ribeira para conhecer, desenhar e preservar


Projeto de extensão da UFRN leva pessoas a pensar e falar sobre o bairro

Por Ana Beatriz Cordeiro, Anna Vale, Germano Freitas e Hilda Vasconcelos

Segundo bairro na história de Natal, a Ribeira passou por muitos momentos, formas, reformas e teve sua relação com o restante da cidade modificada de diversas maneiras. Nascendo como bairro comercial, graças às mercadorias que vinham pelo Rio Potengi, a localidade logo se tornou o núcleo da cidade. Hoje, passa por um cenário de descaso e sofre com a estigma de insegurança.

Houve grande crescimento no início do século XX, com a construção da Praça Augusto Severo, que em seus arredores viria abrigar o Grupo Escolar de mesmo nome – sede do Atheneu e da antiga Faculdade de Direito. Até a década de 80, antes da relocação da rodoviária, acomodava grande movimentação devido à mesma e ao Porto de Natal, que desempenhou papel importante durante a Segunda Guerra Mundial. Neste período, veio o alto da atividade turística e boêmia, pelo qual o bairro é conhecido até hoje, com os cabarés e casas de entretenimento da época.

Lar de algumas das mais antigas referências à arquitetura modernista em Natal, o bairro sofre com o boato de que seus arredores são inseguros, devido a falta do trânsito de pessoas, sobrevivendo na estaca de local cultural e histórico. Em 1990, passou a integrar a Zona Especial de Preservação Histórica, junto a Cidade Alta. Diversos projetos de revitalização trataram de tentar guardar as suas construções e, ainda hoje, novas ideias surgem e tentam sair do papel. Enquanto isso, a Ribeira recebe eventos, como o Circuito Cultural Ribeira e as diversas festas na Rua Chile, além da atenção da academia.

Professor José Clewton e Professora Eunádia Cavalcante / Foto: Germano Freitas

Os professores José Clewton e Eunádia Cavalcante, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), são dois entusiastas quando se trata da Ribeira. Além da discussão natural que acontece dentro do ambiente universitário, durante as aulas e pesquisas, ambos são coordenadores do grupo Urban Sketchers em Natal. O grupo já realiza eventos na capital potiguar há cinco anos, com o intuito de praticar o desenho urbanístico. 

O bairro da Ribeira possui seus admiradores, apesar do descaso com o qual sofre diariamente daqueles que não a conhecem, por desinteresse ou falta de informação. É com o intuito de educar o público externo sobre a importância dessa área como patrimônio histórico e cultural da Cidade do Sol que os dois professores da UFRN, em parceria com o grupo Urban Sketchers, criaram o projeto de extensão “Ribeira Desenhada”.

O movimento Urban Sketchers nasceu do interesse do jornalista espanhol Gabriel Campanario em desenhos de locação, ou seja, feitos ao ar livre, que o levou a criar um blog, em 2008, para reunir outros entusiastas por esta atividade artística. Eunádia e José Clewton estão entre estes entusiastas na cidade do Natal, e foi por conta dos encontros mensais do grupo que surgiu a ideia de não só desenhar, mas pensar e discutir sobre o seu objeto de inspiração, por assim dizer.

Tendo em vista as movimentações anteriormente ocorridas em torno da Ribeira, as tentativas de “reavivar” o bairro por meio de intervenções governamentais ou privadas, era uma escolha natural, explica o professor José Clewton. Assim, foi formulada a ideia de juntar desenho e discussão do patrimônio da Ribeira, trazendo ao longo disso moradores e proprietários de edifícios históricos que debaterão em torno das permanências, resistências, descasos e insistências no decorrer da sua vivência no bairro.

A previsão inicial é que os encontros ocorram pelos próximos cinco meses, conforme o modelo mensal já usado pelo Urban Sketchers, e sejam movidos por essas conversas, com outras atividades ocasionais agregadas: na primeira edição, ocorrerá apresentação cultural da banda Líquidos Modernos, compostas apenas de pessoas vinculadas ao curso de arquitetura. 

Será apresentada ainda, uma exposição de imagens e registros das equipes que participaram da mais recente edição do concurso internacional BID Urban Lab, o qual buscava justamente soluções criativas e inovadoras para a revitalização do bairro. Intitulada de “Apropriar Ribeira”, mostra o olhar das equipes em fotografias e desenhos iniciais; como enxergaram a vivência e a necessidade daquele lugar para o desenvolvimento das propostas.

A professora Eunádia explica a importância da apropriação do bairro para conseguir ver além dos estigmas criados pela sociedade: “Você conversa com pessoas, principalmente os mais jovens, e eles têm a Ribeira como um lugar abandonado, que não acontece nada lá, e essas imagens mostram o contrário: que tem vida na Ribeira, que tem trabalho na Ribeira, que as pessoas estão por lá”. 

Infelizmente, o fechamento do Teatro Alberto Maranhão, maior atrativo cultural e gerador de movimento noturno do bairro, dificulta o engajamento da população. Apesar disso, o espírito boêmio ainda permeia o bairro que, de tempo em tempo, é agraciado com um evento de certo calibre, como o Festival MADA, no passado; o Festival Literário de Natal e o Ribeira Boêmia, mas, sem ações ou espetáculos a serem realizados, não há movimento noturno.

Ela explica que, por conta do descaso e abandono de algumas edificações por seus proprietários, existem locais construídos para abrigar atividades comerciais, de serviço ou moradia que são ignorados em favor de imóveis localizados nas “beiradas” do bairro, no que chamam de “Nova Ribeira”, em negação da original. Essa negação se estende aos órgãos públicos, como a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), que abandonou prédio próprio em favor de aluguéis por toda a cidade. “Esse tipo de ação retira o movimento do bairro,” reforça a professora.

Mas existem também aqueles que sabem apreciar o valor arquitetônico e histórico dos prédios da Ribeira. É o caso da recém-inaugurada Galeria B-612, na Rua Doutor Barata. O edifício já foi lar de um banco e de uma gráfica mas, ao adaptar o imóvel para o novo empreendimento, o proprietário procurou manter e respeitar a sua história. “Foi uma intervenção muito cuidadosa e interessante. Acredito que pouca gente na cidade saiba da existência desta galeria e desta importante iniciativa de insistência na Ribeira como um espaço a se investir,” aponta Eunádia.

Outra estrutura cuidadosamente conservada é a do Edifício Bila, localizado na Rua Duque de Caxias, e escolhido pelo Projeto Rehabitar, em 2008, para uma intervenção por parte da SEMURB, apesar de a iniciativa ter nascido do dono do imóvel, e que funciona hoje para residência e comércio. É nele que acontecerá o primeiro encontro do projeto, no Nalva Melo Café Salão, cuja proprietária, a mencionada Nalva Melo, cabeleireira e animadora cultural, puxará a primeira conversa, em conjunto com Alexandre Gurgel, morador do Bila.

Quanto ao público, Eunádia garante que os próprios participantes do Urban Sketchers não são apenas arquitetos, mas todos aqueles que se interessarem por desenho e pela cidade. A preocupação está nos olhares de cada um e em sua forma de registro, seja grafite, canetinha, aquarela, etc. “O importante é estarmos juntos para observar a cidade, observar esses lugares, e a partir dos nossos registros, compreender e discutir a cidade,” explica.

Foto: Divulgação
Entre artistas, amantes da Ribeira, “pessoas que insistem em gostar do bairro” e o próprio público do Café Salão, a expectativa é que o público seja bastante variado. Há ainda o convite oficial feito à COOPERE – Grupo de Trabalho de Projetos Estruturantes da Ribeira e Entorno.

Com o objetivo de trazer um público diferente ao bairro, o Projeto Ribeira Desenhada oferece uma chance única de enxergá-lo pelos olhos dos seus admiradores, conscientizando-se sobre a região que ainda é o lar da comunidade alternativa e boêmia de Natal. “Quanto mais a gente sair e conseguir fazer uma articulação do que a gente pensa para a cidade, melhor,” conclui José Clewton.

O primeiro encontro da Ribeira Desenhada terá reunião de Urban Sketchers, roda de conversa com moradores, apresentação cultural e a exposição “Apropriar Ribeira”. Ele ocorre neste sábado, dia 24 de março, no Nalva Melo Salão Café, situado na Avenida Duque de Caxias, no histórico bairro da Ribeira.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Marielle vive

Ato em Natal reúne ativistas em frente ao Midway

Por Tiago Silva

Mulher com cartaz em memória de Marielle. Foto: Tiago Silva

No sétimo dia de morte da vereadora do Rio de Janeiro pelo Psol, Marielle Franco, executada a tiros junto com seu motorista, Anderson Pedro Gomes, centenas de pessoas ocupam a calçada do shopping Midway Mall, em ato pela memória da defensora de direitos humanos e contra o extermínio da população pobre, negra e LGBT e contra a intervenção militar no Rio de Janeiro. Este ato ocorre simultaneamente em várias cidades do País e é um desdobramento das manifestações ocorridas no dia 15 de março nas ruas e de toda mobilização e solidariedade demonstrada nas redes sociais pelas brasileiras e brasileiros.

Empunhando cartazes, faixas e cruzes de madeira, os ativistas fizeram reverberar pelos megafones e carro de som a voz silenciada de Marielle e de outras tantas mulheres negras de luta que ousaram e não aceitaram o lugar que lhes foi historicamente atribuído. “Foi uma perda muito grande por ela ser uma mulher preta que conseguiu ter visibilidade”, conta Luciara Freitas, da Comissão de Direitos Humanos da OAB e do coletivo Negras de Periferia. Luciara fala da dificuldade em levantar a bandeira dos direitos humanos, pois é senso comum na sociedade que defender esses direitos é algo negativo, sobretudo quando se refere aos direitos humanos de negros da periferia, pois seriam “bandidos”, e diz que a morte de Marielle é como se fosse a morte de cada mulher negra que conseguiu de alguma forma algum tipo de visibilidade na sociedade. 

“Em árvore que não dá fruto ninguém joga pedra; então, se a gente tá recebendo pedra, é porque de alguma forma a gente tá incomodando”, referindo-se à onda de notícias falsas que que invadiu a Internet após a morte de Marielle, numa tentativa de desconstruir toda sua história de luta. 

Adonyara Azevedo, do Quilombo Raça e Classe, conta que, neste momento de enorme polarização social, os conservadores utilizam todas as ferramentas possíveis para disseminar o ódio, inclusive a morte. E enfatiza: “Respeitem a dor da família de Marielle, respeitem as mulheres negras!”. Camila Barbosa é militante do Juntos e do Psol e não se surpreende com essas tentativas de manchar a imagem de Marielle, mesmo após sua morte, e diz que o partido está reunindo todo o material difamatório que circula na Internet sobre a vereadora para entrar com ação na justiça.

Em círculo, intervenção de mulheres com cruzes de madeira. Foto: Tiago Silva

“Não deixe a negra morrer, a juventude acabar, a polícia que sobre no morro só sobe pra exterminar”

William escreve suas reivindicações em cartolina. Foto: Tiago Silva

A morte de Marielle ampliou ainda mais o debate sobre a necessidade de desmilitarização da PM e o questionamento sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. William tem 23 anos e é coordenador da rede de cursinhos populares Emancipa. Ele acredita que a intervenção no Rio não está para garantir a segurança pública, mas sim para exterminar a população negra. “E um ponto central de Marielle é que ela se posicionou contra essa intervenção de forma muito rígida, inclusive, acredita-se que foi por ela ser tão incisiva nessa pauta que ela foi executada”, diz. 

William conta que a intervenção militar no Rio não é de hoje, apenas do governo Temer, mas também dos anteriores, com as UPPs e a intervenção durande a Copa do Mundo de 2014, e que isso tem atingido diretamente a população negra.

Para ele, a morte de Marielle é uma tentativa de calar a voz de um país com população majoritariamente negra, à tentativa de romper com as barreiras impostas a esta população, que teve seu acesso à educação e aos espaços de poder, como a câmera de vereadores, por exemplo, no caso de Marielle. “E ela conseguiu romper com isso tudo saindo da favela da Maré, entrando na universidade, enquanto mulher, enquanto LGBT”. Durante sua fala no ato, William fez menção de solidariedade à companheira de Marielle, a arquiteta Monica Tereza Benício, muitas vezes invisibilizada, que precisa de nosso total apoio neste momento.

William acredita que a intervenção militar no Rio só serve para extermínio da população negra. Foto: Tiago Silva


Vozes silenciadas

Lívia está acorrentada e amordaçada. Passou o ato assim. Muda e imóvel. Mas seu simbolismo grita, e diz que ela está machucada por dentro. “Dói em mim e na minha companheira e na minha família. Há uma semana eu me encontro de luto e aqui estou também, pra expressar o meu luto e tentando transformar em luta”, conta. 

Ela acompanhou o histórico de lutas de Marielle e seu mandato como vereadora do Rio de Janeiro. E diz que mataram a principal voz que ela tinha neste país. “Me sinto hoje como uma ninguém e uma ninguém no sentido de não ter voz”, explica o simbolismo da mordaça.

Lívia está amordaçada em protesto à tentativa de calar a voz de Marielle. Foto: Tiago Silva

Esse ato é resposta a quem mandou matar Marielle, que achou que iria calar a voz das periferias, das mulheres negras, LGBTs e da juventude. Engano. Há uma semana, seu nome reverbera por cada canto deste país. E o de Anderson, Aurora, Isolda e o de milhares que foram vítimas deste Estado. O ato encerrou ao som de tambores e com a voz de Adonyara, com “O canto da cidade”. E mostrou que a cor desta cidade é negra. É Marielle. Hoje e sempre.

Faixa com o nome de Marielle é estendida quando o sinal fecha. Foto: Tiago Silva

terça-feira, 20 de março de 2018

Da música clássica às trilhas sonoras cinematográficas: um novo capítulo para a Orquestra Sinfônica da UFRN

Por Ana Flávia Sanção, Edigar Gomes, Leonardo Figueiredo e Suzane Chagas


Ensaio da OSUFRN. Foto: Equipe CP.

“Cordas, por favor, compasso 184”. Farfalhar de folhas. O maestro levanta a batuta, respira fundo, diz mais alguns aperfeiçoamentos e, com a firmeza de quem já faz isso há muito tempo, inicia a peça. Os sons dominam o ambiente, a música enche o auditório vazio, reverberando na madeira das paredes. Num segundo, a Orquestra não é mais um conjunto de músicos, mas sim um organismo vivo, trabalhando como um só.

Para nós que assistimos ao ensaio, tudo já parece perfeito. O ritmo, a sincronia das notas, a sequências dos compassos. À nossa frente, o maestro da Orquestra Sinfônica da Escola de Música da Universidade do Rio Grande do Norte, André Muniz, move o corpo com força e determinação. A única luz acesa no palco ilumina o palanque onde ele se encontra. A luz amarela deve ser quente, mas André não parece se importar. É o penúltimo ensaio antes do espetáculo que acontecerá na noite de sábado, 17 de março.

Do Poderoso Chefão a Harry Potter – Sinfônica da UFRN nas Trilhas do Cinema é o primeiro concerto do ano, estreando a nova seleção de músicos selecionados apenas algumas semanas antes. A apresentação é um compilado das principais trilhas sonoras do cinema mundial, trazendo principalmente as composições do premiado maestro e compositor John Williams. Na lista de filmes temos Indiana Jones, Harry Potter, A Lista de Schindler, Star Wars e outros sucessos.

Da esquerda à direita: maestro assistente Erickinon Bezerra,
maestro André Muiz e João Batista. Foto: Equipe CP.
Produtor e diretor administrativo da OSUFRN, João Batista conta que a ideia para o espetáculo surgiu numa das reuniões de segunda-feira. De início, a proposta era trazer algo novo e grandioso, ainda não realizado por ela. O maestro sugeriu as trilhas sonoras feitas por John Williams e daí foi desenvolvido o resto do concerto. Para criar a experiência completa, eles decidiram montar uma apresentação que unisse música e cena. Atrás do palco, haveria um telão que passaria as cenas dos filmes enquanto a Orquestra se concentrava na música. “É importante que contextualizar sempre cada obra, mostrar aos músicos que não é só para tocar mas também para sentir”, endossou João.

O conjunto é um desafio para os musicistas que ensaiam apenas há duas semanas. Os dedos, tão ágeis pelas cordas, teclas, chaves, repetem os mesmos movimentos todos os dias, buscando a perfeição - ou pelo menos o que há de mais próximo a ela. André explica que em termos técnicos, as peças dos filmes não são muitos diferentes das músicas clássicas tradicionais, frutos de grandes artistas como Mozart ou Beethoven.

“A gente retomou a Orquestra há algumas semanas. Foi duro, pois canções como do Harry Potter são muito difíceis. E fazer isso em poucos dias foi um desafio. Mas ao mesmo tempo é muito bom porque essa Orquestra é um laboratório para a Universidade”, afirma. No entanto, ao analisar o ambiente, ele acrescenta que, devido à temática do concerto, os músicos estão mais relaxados e o clima dos ensaios mais ameno.

Os estudantes que integram a Orquestra também sentem o ambiente mais leve, mais convidativo. “Eu adoro Star Wars e para mim é bem gratificante tocar. A gente fica até mais instigado a tocar quando toca uma coisa que a gente gosta. Eu fico dividida entre querer assistir e querer tocar, porque você tocando é uma coisa e por fora, você assistindo, é outra”, conta Andresa Laíze, contrabaixista.

Nas Trilhas do Cinema, pela Orquestra Sinfônica da Escola de Música da UFRN. Foto: Equipe CP. 

É quase difícil acreditar, ao olharmos o palco, que lá estejam 56 músicos. O espaço é pequeno e apertado, mal cabem os alunos, os instrumentos e o palco do maestro. Os canhões de luz, responsáveis pela ambientação, também dividem espaço com eles. Um dos violoncelistas brinca ao descer do palco, “a luz estava encadeando nos meus óculos”. André Luiz ri, mas pede a um dos técnicos que movam o canhão de lugar.

Não foi o primeiro pedido de ajustes – durante todo o ensaio, o maestro ditava alterações e recriava mais uma vez o ambiente do concerto. No intervalo entre a primeira peça ensaiada e segunda, ele conversa com um dos professores em espanhol, ainda sugerindo mudanças na iluminação. André também presta atenção detalhadamente na sequência de imagens à sua frente, para que não perca sincronismo com a música. Ele admite que tudo aquilo é novidade para ele e que por isso não consegue relaxar cem por cento. “É uma realidade com a qual eu não estou acostumado, eu estou aprendendo junto com eles. Sincronizar a música com a imagem do telão, são tempos muito próximos, então não posso perder a atenção. Eu me divirto, óbvio, mas é uma diversão bem contida”.
Dedicação e paciência que levam a um belo espetáculo, de casa cheia. Às cinco horas da tarde do sábado, a Escola de Música da UFRN já está lotada. Os ingressos das duas sessões, vendidos durante a semana, esgotaram em quarenta minutos. Há quem tentou conseguir ingressos de última hora ou se espremer nos bastidores, mas tudo estava lotado. No hall da recepção, um telão transmitia simultaneamente tudo o que se passava dentro do auditório para aqueles que não podiam estar lá dentro.
Para a equipe da Orquestra, o sucesso inesperado é um sinal de que as pessoas estão se interessando mais pela produção cultural do estado. João Batista, também ex-secretário da cultura do município de Carnaúba dos Dantas, alega que faltam governantes que invistam na produção cultural do Brasil. “Ter acesso à cultura não é só assistir um espetáculo. O acesso à cultura é trabalhar as políticas públicas, com todos os artistas, com todas as áreas culturais. Muitos gestores pensam que evento é cultura, mas não, isso (aponta para o palco) é cultura”, declara.
Espetáculo Nas Trilhas do Cinema da OSUFRN. À esquerda o violoncelista Fábio Pesgrave e à direita o maestro André Muniz. Foto: Equipe CP. 

João ainda assegura que
Nas Trilhas do Cinema será marco para a Escola de Música e da produção musical do Rio Grande do Norte. “É um espetáculo que vai marcar a história da Escola de Música, da própria Orquestra e do Rio Grande do Norte em si, que, até então, desconheço ter um espetáculo desse tamanho, dessa grandiosidade”, diz ele, sorrindo.  
Assim que as luzes apagaram, o silêncio, antes perturbado pela passagem de som dos músicos no palco, se fez por completo, recheado de expectativa. O auditório lotado fitava o maestro, saindo do backstage e caminhando até o palco. O concerto foi aberto com a marcha clássica da 20th Century Fox, seguido de uma breve pausa até o espetáculo começar. O que se seguiu foram 12 peças musicais de 8 filmes diferentes. Compassos lentos e outros energéticos, gestos fortes e determinados do maestro que há dez anos dirige a Orquestra Sinfônica da UFRN. Da energia de Indiana Jones à nostalgia de Harry Potter e Star Wars à melancolia de A Lista de Schindler. O talento dos solistas convidados, Hugo Shim, oboísta, e Fábio Presgrave, violoncelista. E a emoção das 33 vozes do Madrigal, o coral da Universidade, que receberam demorados aplausos de pé do público. No final, todos pareciam cansados, mas realizados. O trabalho foi cumprido. E ainda havia mais uma sessão por vir.