segunda-feira, 30 de abril de 2018

Contribuintes do Imposto de Renda também podem ajudar instituições de caridade

O prazo para a declaração termina hoje (30), mas ainda há possibilidade de ajudar instituições de caridade através da campanha Declaração Cidadã 

Por Anthony Mateus e PH Dias 

Fonte: Portal do Ministério Público do Rio Grande do Norte 

A campanha Declaração Cidadã é uma parceria do Ministério Público do Rio Grande do Norte com a Receita Federal e tem a proposta de mobilizar a população potiguar a declarar parte do seu Imposto de Renda ao FIA (Fundos da Infância e Adolescência no Rio Grande do Norte). Essa destinação de parte do imposto é legal, não são cobrados custos a mais e tanto a pessoa física como a jurídica podem ajudar a causa. 

Sobre a campanha, a Promotora de Justiça do Ministério Público, Sandra Santiago, destacou a necessidade da iniciativa. “O dinheiro arrecadado é posteriormente alocado às instituições de apoio à crianças e adolescentes, que são inscritas no COMDICA de Natal, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente”, explica. 

Ela também fala o quanto que o projeto investiu com o intuito de ajudar os jovens. “No ano passado, o COMDICA investiu 400 mil reais em nove projetos sociais, atendendo em média 1.500 crianças e adolescentes”, relata. 

O COMDICA tem critérios e modos de distribuição para ajudar os mais diversos programas sociais voltados ao público infantojuvenil. Segundo Sandra, “os recursos são distribuídos por meio de plano de ações do COMDICA, levando em consideração as principais necessidades de cada projeto”. 

A facilidade da destinação de parte do Imposto de Renda para essas instituições é uma das
principais características que chamam a atenção de quem faz a declaração. O Auditor Fiscal da Receita Federal, Carlos Oliveira, destaca que hoje o processo é simples e rápido. “Em casos de Restituição do Imposto de Renda, nada se altera, o valor que será recebido pelo declarador não muda”. 

Para quem já fez a Declaração do Imposto de Renda e quiser ajudar na campanha Declaração Cidadã, é só seguir as instruções do Auditor: “Basta que a pessoa faça uma retificação da declaração feita, para que possa editá-la. Depois disso, você escolhe a opção: Destinação diretamente ao ECA”, conta Carlos. 

É uma ajuda humanitária que salva várias crianças e adolescentes. Através do auxílio à projetos que as tiram do mundo das drogas, assim como à programas que cuidam de crianças com câncer, é possível melhorar a qualidade de vida da futura geração. 

Segundo a Agência Brasil, até sábado (28), cerca de 4,9 milhões de contribuintes ainda não haviam acertado as contas com o Estado. O programa de preenchimento da Declaração do Imposto de Renda da Pessoa Física de 2018, ano base 2017, está disponível no site da Receita Federal. O prazo para a entrega da declaração começou em 1º de março e vai até as 23h59min59s de hoje, 30 de abril.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

"Me foi dito: se até Lula vai preso, imagina você''


Yadson Magalhães, preso durante manifestação contra a prisão do ex-presidente Lula, relata o que vivenciou 

Por Yuri Gomes 

Yadson Magalhães. Fonte: Perfil da UEERN no Instagram.

O estudante de História da UERN-Mossoró e militante do Partido dos Trabalhadores Yadson Magalhães, 25, foi preso no dia seis de abril, enquanto participava de ato em defesa do ex-presidente Lula em Mossoró. Acusado de pichar uma viatura da Polícia Militar e agredir um policial, responde em liberdade após 24 horas detido. 

Em entrevista concedida ao Caderno de Pauta no dia 19 de abril, ele conta como foram os momentos que antecederam sua prisão, narra a violência policial que sofreu e descreve os momentos em que passou na cadeia. 

Revela que policiais colocaram uma lata de spray em sua mochila para incriminá-lo e afirma que a sua prisão foi um "castigo pelo ato político". 

A polarização que o país vive lhe causa preocupação e responsabiliza setores da imprensa pela disseminação do ódio. Diz também que a sua vontade de militar não foi intimidada, mas sim renovada. Confira:

Caderno de Pauta: O que acontecia no dia da sua prisão? 

Yadson Magalhães: Um dia antes eu estava conversando com uma amiga sobre o quanto as coisas estão difíceis para a gente que milita e acredita em um mundo diferente. Porque a qualquer momento você pode ser acusado de andar fora da linha, independente do que seja andar na linha, e não tem mais esse dentro e fora da linha. Eles podem lhe acusar e fazer isso de qualquer forma. 

No dia da prisão, eu fui para a casa de um amigo e ele me disse: “Yadson, eu nunca te vi de cabelo curto e com pouca barba”. Eu falei que tinha foto minha de cabelo curto no Facebook. Fomos ver essas fotos e rimos bastante. Brincamos dizendo que parecia outra pessoa. Depois na cadeia cortaram o meu cabelo. 

Outra coisa: eu falei para minha mãe que estava indo para o ato e ela, pela primeira vez, pediu para tomar cuidado. Sempre falo que estou indo para atos, atividades do partido ou do movimento estudantil, mas só nessa vez ela disse que estava preocupada. Foi estranho e eu fiquei pensando: ‘vai ficar tudo bem, ela só deve estar preocupada porque o momento exige preocupação’. De resto, o meu dia foi normal.


CP: Como foi o momento da prisão? 

YM: O ato estava se encaminhando para a InterTV Cabugi. Aconteceu uma confusão e meu grupo saiu em direção à UERN. Na rua da Universidade, há uma rotatória e durante um tempo paramos lá para mobilizar, fazer algumas falas e exibir cartazes para o pessoal que estava no trânsito. 

Em dado momento, um policial, que eu já conhecia porque ele cursara história, me chamou e fui até onde ele estava por pensar que ia conversar sobre a segurança do ato ou coisa do tipo. Quando cheguei lá, ele meteu a mão na minha mochila e disse que ia olhá-la. Fiquei um pouco assustado e a minha primeira reação foi tentar sair correndo, mas ele me agarrou. Outros policiais e outras pessoas vieram para perto. Pedi calma. Me levaram para a viatura, me jogaram no capô, mexeram na minha mochila e me algemaram. Apertaram muito as algemas e me colocaram no carro. 

Esse policial e um outro foram muito truculentos, mas tinha outro PM que também estudou na UERN, fez geografia, é a favor do movimento, tentou acalmar o pessoal. Eu acho que a abordagem não foi mais truculenta por causa dele. 


CP: Sob qual acusação você foi indiciado? 

YM: Eu fui preso e estou respondendo em liberdade por duas acusações. A primeira é por depredação de patrimônio público, porque alegam que eu pichei a viatura da PM que estava no ato, com uma tinta vermelha que disseram ter encontrado na minha mochila. Só que tem vídeos que mostram o policial chegando com uma latinha de spray enquanto a mochila ainda estava fechada. 

A segunda é uma acusação de agressão policial, dizem que eu agredi o policial. Justamente por isso que não coube fiança no caso, porque a soma das penas previstas ultrapassa quatro anos. E de acordo com o novo código de processo civil, nesses casos, não cabe fiança na delegacia, só com o juiz. 

Ficou muito nítido que estava sendo uma espécie de revanchismo. Realmente foi uma questão política. O pessoal estava puto porque estava havendo o ato e ficaram mais putos pela pichação na viatura. Eles [os policiais] queriam responsabilizar alguém por tudo. Estava sendo um castigo por participar do movimento social, por confrontar a galera da PM. Enfim, foi por a gente estar fazendo coisas que as pessoas não esperam que a gente faça e por estarmos ocupando os espaços que não querem que a gente ocupe.


CP: Quanto tempo você ficou preso? 

YM: Acho que no total devo ter ficado preso umas 24 horas. Cheguei na delegacia quase às 19 horas, fui levado para a cadeia pública às 23 horas e lá fiquei até às 18 horas do outro dia. 


CP: O que passou pela sua cabeça ao chegar na cadeia? 

YM: Até hoje eu estou tentando entender o que aconteceu, porque sai da minha casa, fui para um ato de rua e em tal hora estava algemado, dentro de uma cadeia com policiais me julgando e alguns outros me ameaçando. Enfim, muita confusão. 

No momento eu não estava entendendo muito bem. Mas uma coisa até hoje não deixou de passar pela minha cabeça é que voltamos a viver momentos em que existem presos políticos. O meu caso não chega a ser o primeiro. Eu lembro que quando estava havendo a greve dos servidores da saúde, do estado e da UERN, dois dirigentes do Sindicato da Saúde foram presos, mas não foram levados para a cadeia pública. 

No meu caso, acho que fui levado para a cadeia pública por ser estudante, por estar com a camisa do PT e não ter baixado a cabeça em nenhum momento que os policiais vinham me atacar e me chamar de idiota por estar na rua defendendo Lula. Justamente por tudo isso eu entendia que aquilo era uma prisão política. Não deixava de passar pela minha cabeça: ‘pegaram um militante que estava organizando e agitando o pessoal no ato. 


CP: Como foram as suas 24 horas preso? 

YM: Me colocaram em uma cela que deve ter espaço para três ou quatro pessoas e tinha nove. Mas ainda era melhor que a vizinha, que tinha onze. Quando cheguei lá, apenas um dos presos estava acordado e ele me perguntou por que eu estava lá. Respondi e ele deu de ombros. Eu não consegui dormir o resto da noite. Os presos que foram acordando perguntavam também. 

No outro dia foi servido um café da manhã. O pessoal comia de qualquer jeito, com pedaço de garrafa que eles usavam para tomar café. Foi servido um pão para cada. No resto do dia, os presos começaram a falar da rotina deles: a vida de tráfico, de homicídio, assalto, latrocínio, etc. 

Foi servido um almoço que eu não consegui comer e eu dei para o pessoal. Descobriram que eu sou professor e esse virou meu apelido. Um detento me pediu para ajudá-lo a ler a Bíblia que ele tinha e os outros pediram para eu ficar lendo trechos da Bíblia. Isso foi o que aconteceu nos períodos da manhã e da tarde. Depois todos ficaram calados ou foram dormir, e eu só passei o resto da tarde pensando que não ia sair dali naquele dia, que as coisas iam ficar piores. Pensava que eu ia surtar, que eu estava bem, mas aquele lugar era muito perigoso. E eu não sabia como seria os outros dias. Passei a sentir uma necessidade enorme ver alguém que eu conhecia, mas isso era impossível. Esse foi o meu dia na cadeia. 


CP: Você sofreu algum tipo de agressão ao ser preso ou na cadeia? 

YM: Ao ser preso sim. Alguns policiais me deram socos e pontapés. Vi depois manchas vermelhas pelo corpo. Apertaram muito a algema de propósito. Quando cheguei na delegacia, pedi para folgar um pouco e o cara disse que era para evitar que eu usasse os dedos para pichar. Disse que ia ficar daquele jeito porque não tinha nada a ver com aquilo. Se eu fosse liberado é que ele ia soltar. 

Depois, veio outro policial, tirou as algemas e me colocou numa cela de detenção. Era uma sala com uma porta trancada e uma janelinha. Tive pouco contato físico com eles. Um policial foi me acusar de ter batido nele, mas eu dizia que não. Outros [policiais] diziam que eu era idiota por estar preso por ter defendido Lula e eu falava os motivos de defender uma visão de mundo que acho que vale a pena. 

Na cadeia havia um carcereiro muito escroto. Ele cortou meu cabelo e minha barba. Me olhou e disse que ia cortá-los, e que isso era norma da prisão. Isso foi um tipo de agressão. Acredito que a escolha de quem pegar foi pelo estereótipo. Foi tirada uma foto minha com cabelo e barba, e outra foto com o cabelo e a barba cortados. Isso foi divulgado em blogs que fazem cobertura policial ou são carniceiros aqui no estado. 


CP: No Blog do BG há duas notícias a respeito do seu caso: a primeira sobre uma pichação no carro da PM e a segunda lhe condenando como pichador da viatura. Como você enxerga essas publicações? 

YM: Eu não vi essas matérias, vi os prints que me mandaram das fotos que saíram no Blog. Desde o acontecido eu não abro o meu Facebook e não acompanho notícias locais. Estou correndo atrás dos prazos que perdi na universidade. 

Tem um grande problema no Brasil todo, mas especialmente no Rio Grande do Norte: se faz um jornalismo muito ruim. Não é um jornalismo de cobertura e de informação. É um jornalismo com lado, com ideia política e que não quer informar o consumidor, mas sim formar uma opinião para que essa opinião seja a mesma de quem paga o jornal. As pessoas se interessam mais por ver o circo pegando fogo do que pela informação. 

O péssimo trabalho da mídia dá esse viés de condenar antes de qualquer coisa, porque a condenação midiática é mais impactante do que dizer que há investigação, etc. A mídia é responsável pelo caos que a gente vive no país, pela ignorância de quem a faz. 


CP: De modo geral e diante disso que você falou, qual é o papel da imprensa na atual conjuntura? 

YM: A grande imprensa, de veículos tradicionais, tem um "despapel" nessa conjuntura toda. Um dos papéis gloriosos que a imprensa pode exercer em alguns momentos é formar uma população pela educação, pela política e cultura. E a nossa não está seguindo por esse caminho. Um exemplo é a contribuição para com o discurso de ódio que a Jovem Pan faz diariamente com comentaristas fixos, como o Marco Antônio Vila; ou um comentarista do Jornal da Globo, que cobre coberturas políticas como cobre futebol: todo tipo de xingamento vale. Tratam o debate político que temos todo dia e assuntos sérios com chacota, como torcidas de futebol. 

Paralelo a isso, temos veículos de imprensa que devem ser fortalecidos. Há blogs de estudantes que demonstram uma qualidade maior do que muito que circula no Rio Grande do Norte e até mesmo no Brasil. No estado, um exemplo é a galera no blog Saiba Mais, que dá um baile no que deveria ser o jornalismo brasileiro. Esse tipo de veículo deve ser fortalecido. Eu acho que o papel da imprensa e das pessoas que constroem esse tipo de veículo é tentar montar uma rede que fortaleça esse tipo de discurso contra hegemônico. Sempre perdemos para a grande mídia na narrativa, pois ela tem o poder de chegar na casa das pessoas, nos momentos mais íntimos delas. 


CP: Circulou nas redes sociais que um policial disse no momento da sua prisão, a seguinte frase: "se até Lula foi preso, você acha que não vai ser?". Isso realmente foi dito? 

YM: Ao ser algemado, me foi dito: “se até o Lula vai preso, imagina você”. Isso foi mais um indício que me levou a pensar que tudo isso era uma perseguição pelo ato político. 


CP: A prisão impactou de alguma forma a sua militância? 

YM: Sim, mas não negativamente. No sábado, eu pensei muito sobre ficar mais contido e não estar na linha de frente das coisas, como na gestão de um DCE. Na prática, isso não aconteceu. Na semana seguinte, a gente começou a ter reuniões sobre debates e coletivos que organizamos. Votei em atividades. No último final de semana [dia 14 e 15 de abril], eu estava no congresso da União Estadual dos Estudantes e participei dele ativamente. Já estou pensando atividades juntamente com o movimento estudantil da UERN. 

Eu pensava que tudo isto iria me deixar um pouco mais tranquilo, mas no final das contas só mostrou o impulso e a vontade que todo mundo tem em garantir que o estado democrático volte para que isso não volte a acontecer com mais ninguém, nem comigo. Embora eu tenha ficado com certo receio de diminuir, me mostrou que no momento é ainda mais necessária, não só a minha, mas a militância de quem acredita num mundo melhor. Acredito que no fim, o que aconteceu renovou essa energia e essa vontade. 


CP: A convulsão social que o país enfrenta e a sua prisão fizeram crescer algum sentimento de medo dentro de você? 

YM: Passei a ter um pouco mais de medo da polícia. Quando eu estou nos cantos e chega um carro da PM ou tenho que passar por algum, sempre penso que eles vão me parar, me revistar e mexer nas minhas coisas. Penso que se me reconhecerem vão ser mais truculentos ainda porque acho que isso deve ter ficado nos grupos deles. Enfim. 

Tenho medo da violência causada por essa polarização que o país enfrenta. De pessoas que nem me conhecem, não sabem o que faço da vida, não sabem quem eu sou eu, e já me odeiam só porque sou militante do Partido dos Trabalhadores. Me odeiam porque defendo um projeto de país diferente daquele que essas pessoas acreditam, se é que elas têm um projeto; eu acredito que não. 


CP: Tem algo que você gostaria de acrescentar? 

YM: No final das contas, eu tenho mais é que agradecer a muita gente. Quando isso aconteceu, eu vi a importância de estar construindo o movimento social e lutando por pautas coletivas. Isso traz com você muita gente. Eu tive certeza que todo esse negócio da militância e movimento social é uma pauta coletiva. 

Tem duas grandes instituições que eu tenho muito a agradecer: a UERN e o PT de Mossoró. Agradeço também ao Sindicato de Professores da UERN, a Aduern. Membros dessas instituições foram as primeiras pessoas que apareceram. Os primeiros advogados também. Tenho que agradecer aos meus amigos e a gente que eu nem conhecia. Vi muita gente fazer nota de apoio e dizer que estava do meu lado. Tudo isso é o que está me fazendo passar por isso de cabeça erguida, me ajuda a continuar caminhando. 

O advogado da UERN se ofereceu para pegar o caso. Com certeza vai ser muito difícil, porque o próprio alvará do juiz taxa muito os movimentos sociais. Diz que é uma minoria de baderneiros. Embora esteja me dando a liberdade provisória, ele [o juiz] já está me condenando. A Vereadora Isolda Dantas (PT-RN) esteve acompanhando o processo a todo momento. O Deputado Fernando Mineiro (PT-RN), o qual me ligou assim que consegui um telefone; ligou também para os meus pais e fez o possível para as coisas andarem no âmbito jurídico. Tenho que agradecer a todo mundo.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Anticoncepcionais e seus efeitos na saúde feminina

Por Renata Duarte

Imagem: O Globo/Reprodução

Desde a sua criação em 1960, a pílula anticoncepcional foi transformando aos poucos o cenário mundial ao permitir que gestações em momentos inoportunos fossem evitadas. Permitiu também que mulheres tivessem um maior controle sobre o seu corpo e suas decisões. O sexo deixou de ser visto apenas como método de reprodução e passou a ser mais reconhecido como meio de prazer. Este efeito é inegável, a revolução causada pelo remédio impactou a sociedade, deu autonomia à mulher.

Hoje em dia, o método de contracepção mais utilizado são os anticoncepcionais. Entretanto, a pílula que é tida como heroína, facilmente se torna vilã. Não é difícil encontrar mulheres que sofram com os famosos efeitos colaterais e disfunções ocasionadas pelo medicamento. Além disso, o uso do anticoncepcional oferece um risco até seis vezes maior do desenvolvimento do tromboembolismo venoso, popularmente conhecido como trombose.

Maria Clara Paiva, 21, utilizou anticoncepcionais durante três anos por conta de problemas no ovário e interrompeu o uso assim que foi diagnosticada com Dermatite Ocre, uma doença vascular ocasionada por alguns dos hormônios presentes na medicação. Fora isso, a estudante de fisioterapia conta que sofreu com mais efeitos comumente relatados por outras mulheres. “Tive ganho de peso, cansaço nas pernas, fiquei muito estressada, além da doença vascular (dermatite ocre), enjoos e crises de ansiedade”, relata. 

Segundo pesquisa da Universidade de Washington, recentemente apresentada em Chicago, Estados Unidos, há um avanço quanto ao desenvolvimento das pílulas anticoncepcionais voltadas aos homens. Essa alternativa foi vista com bons olhos pela estudante: “Seria ótima a liberação dos anticoncepcionais para homens levando em conta que temos durante cada mês apenas um período fértil enquanto os homens são férteis todos os dias”, comentou.

O modo como cada organismo reage à quantidade de hormônios ingeridos é diferente, podendo causar além de dores físicas, as crises de ansiedade. A depressão é também um efeito comum. Jullyenne Rocha, 21, apesar de ter utilizado por pouco tempo, sofreu já no início as frustrações proporcionadas pelo remédio. “Eu usei por três meses. No primeiro mês eu só sentia muita dor de cabeça, a partir do segundo mês eu comecei com os sintomas de depressão, mas achava que era normal, pensei que fosse uma adaptação do meu corpo ao remédio. Perdi muito peso, não tinha vontade de comer e fui ao médico, lá eu descobri que era tudo decorrência dos anticoncepcionais”, disse. 

A ginecologista consultada afirmou que a tolerância aos hormônios é variável. Enquanto uma mulher pode suportar altas dosagens e não sentir absolutamente nada, outra pode receber quantidade menor e ter grandes disfunções. É fundamental que sejam avaliadas as necessidades individuais de cada uma. Além disso, o uso de contraceptivos pode ser motivado por outros fatores que não a prevenção da gravidez e a automedicação é perigosa em qualquer circunstância. Portanto, antes de iniciar o tratamento consulte um(a) profissional. 

Os inquestionáveis 58 anos de sucesso da pílula fazem sua fama. Bem como seus mal-estares também saíram do anonimato. A responsabilidade preventiva no sexo não deve estar destinada apenas a mulher e para isso aguardamos resultados da ciência. Vale lembrar que os anticoncepcionais cumprem o seu papel quando o assunto é evitar a gestação, mas apenas o preservativo é capaz de prevenir as IST’s (Infecções Sexualmente Transmissíveis).

Thiago Medeiros e suas formas de ser possível

“Acho que poesia é um sal que não deixa a gente apodrecer”

Por Tiago Silva

Thiago na construção do espetáculo João ou eu só queria ver os pássaros. Foto: Carlos Roger Tavares

Thiago chega com sorriso reluzente e camiseta do Chico Buarque, com tropicais folhas de palmeiras. Elas destacam o intenso verde de seus olhos, que flutuam em matizes de azul, a depender da luz. Gotículas de chuva estão esféricas em seus fios dourados, como orvalho da manhã sobre o trigo. Está abafado e chuvisca lá fora. Seu abraço de alfazema é lilás e morno. Carrega seu cheiro em velho frasco de plástico de lavanda, para perfumar as mãos durante o dia. 

Garoto tímido, cresceu no bairro do Alecrim, na Zona Leste de Natal, próximo ao cemitério deste bairro. Desse lugar de atmosfera melancólica e de sepultamentos, Thiago desenterra memórias. Viu caveiras, brincou, correu de abelhas e de estátuas. O homem sentado com asinhas no calcanhar corria atrás dele e de seus amigos. “Se você parar, Thiago, ele vai te pegar!”, diziam. A brincadeira era coletiva. Se a estátua fosse pegar só Thiago, ele parava e deitava. Então ele corria para um lado: “Não, Thiago, ele tá vindo daí!” E corria para o outro: “Não! Ele tá vindo daí!” “Ele não tá vindo nãaaao!”, gritava.
Quem nasce numa periferia e luta por uma sobrevivência não vem jogando flores, falando do passarinho, da gaiola azul; acho que vem mesmo com a peixeira na mão pra resolver a parada
Seu primeiro emprego foi lavando túmulos. Achava um barato. Imaginava quem poderia estar dentro daquelas sepulturas, gostava de mexer com velas, santos. Perto do tanque de água que as pessoas usavam para lavar os túmulos, havia uma foto de uma mulher, Lindalva, em cores muito fortes, a primeira foto colorida que tinha visto e que ficou xilogravada em sua memória até hoje. Sempre gostou de ficar sozinho no meio do nada. Então aquele ambiente não o assustava. Ficava conversando com os mortos, escrevia cartas para sua avó e deixava em seu túmulo. Sua mãe não queria que assinasse as cartas, pois “não pode levar carta assinada para o cemitério”. Ele desobedecia e entregava a carta a seu destinatário, e ficava tentando criar o rosto de sua avó materna que não conhecera.

Seu sonho era cursar Filosofia. Na época, o ensino superior era algo muito distante, e ser frade franciscano possibilitaria seu curso. “Só em dizer ‘você vai morar em Recife’, gente, vou sim”, brinca. Entre os três votos – pobreza, obediência e castidade –, ele diz que o mais difícil é o último. Acha bonita a maneira como a qual São Francisco se relaciona com as coisas e acha que talvez tivesse sido um bom frade franciscano.

Sabia que não tinha pré-disposição para brincadeiras de correr. Jogar bola, queimada, bandeirinha – detestava. Ficava sentado na calçada, de perna cruzada, lendo gibi, escrevendo no chão, enquanto seus primos brincavam. “Ninguém queria conversar comigo. Um chato, né? Ou tava chorando ou tava calado”. Espinhas e problemas com dente na adolescência deixaram sua autoestima “baleada”, lá embaixo, trancando-o em timidez.

Essa inibição, contudo, ajudou-o a olhar para si com mais nitidez, e navegar com mais fluidez pelos seus caminhos introspectivos, tão necessários aos poetas. A palavra escrita chegou primeiro pelos ouvidos, através dos discos que ouvia e pela TV. As vozes femininas de Roberta Miranda, Maria Betânia e Alcione, por exemplo, ecoavam em sua casa. Adorava mexer nos discos, nos encartes, ler as letras das músicas, ficava viajando nesse mundo artístico com sua irmã. “Parecia que eu podia ser aquela voz que estava cantando”, lembra. Thiago escrevia diários e escondia seus registros para ninguém ver. “O que eu escrevia ali era muito real, era muito verdade; era como eu me comunicava melhor com o mundo”. Só depois de adulto entendeu que o que escrevia ali era poesia, independente de regra ou forma.

Thiago e Marina Rabelo durante o sarau Insurgências Poéticas, edição erótica. Foto: Franklin Levy

Thiago escreve todos os dias. A agonia toma conta de si se não o faz. Às vezes, é só exorcismo, transformar o sentimento de então em palavras escritas. Geralmente, eles passam primeiro através da caneta para algum de seus vários caderninhos. Suas matérias primas são suas histórias, vivências, o amor. Escreve fora de regras. Às vezes está numa rede social ou na rua, chega uma frase e depois completa. 

Ele gosta de deixar transparecer em sua obra seu lugar de margem, de beira, por ser uma pessoa que nasceu na periferia. “Marginalizado, porém, na beira, que eu acho mais poético. A beira do rio, a beira do mar...” Também o lugar da homoafetividade, às vezes com um sujeito poético feminino. Cresceu numa família matriarcal, rodeado por vozes femininas, e elas ressoam sempre em seu trabalho. As palavras em movimento do teatro também chacoalham sua escrita. Vê as coisas com muita imagem. Cria imagens, cenários com os textos do dia a dia, vê as coisas acontecendo em sua mente criativa. 

É com a arte que Thiago se torna uma pessoa possível. Possível para o amor, para a amizade, para a sociabilidade. Não se vê fazendo outra coisa na vida. Pois tem coisas que só em cena ou escrevendo que tomam forma. No córrego de palavras, Thiago navega pela poesia. Ela é, para ele, amizade. É a possibilidade de fazer amizade com as coisas, com a cidade, com as pessoas. É a amorosidade que precisamos para olhar as coisas do mundo. “É um sal que não deixa a gente apodrecer”, reflete.

Thiago e Michelle no lançamento de Para eu parar de me doer. Foto: Maiakovski Pinheiro

A vida às vezes nos proporciona belos encontros com pessoas cuja beleza das almas reconhecemos de imediato. Thiago e Michelle Ferret se conheceram numa entrevista, quando ela trabalhava na Tribuna do Norte e ele participava de um grupo de teatro da Casa da Ribeira. “Há 800 milhões de anos atrás”, tempo do coração. “Aí pronto. Tem 10 anos isso já. Eu era uma criança, né, chato pra caralho”. 

Desde então, compartilham vida e poesia. Um vai para a casa do outro cantar, tocar violão. Escrevem juntos para o teatro. Já escreveram, junto com Marina Rabelo, quatro peças. “Michelle é, ave maria, acho que é o ser humano mais imantado de poesia. Eu nunca conheci outra pessoa igual a ela”. Michelle é daquelas que liga para conversar, falar da novela. Devido ao trabalho dos dois, se veem pouco agora. 

No carnaval de 2011, foram para Olinda. Um rapaz queria assaltá-los. Michelle disse que só tinha um batom e mostrou a beleza da Lua. “Eu: ai cala a bocaaaa”, lembra Thiago. O homem deu um tiro para cima e de repente caíram na real. Levou tudo que não tinham. Michelle só tinha um batom e depois foi ver que tinha dinheiro dentro do bolso. “Meu Deus! A gente podia ter morridooo”. 

Michelle é uma referência amorosa para Thiago. Ela o torna possível. “Se escrevo para o teatro, poesia e tenho essa coragem de me expor na escrita, eu devo isso a ela; Michelle me inspira bastante”.

Thiago cresceu lendo mulheres. Acha que os homens têm uma maneira muito chata e pouco interessante de ver o mundo. Não sabem falar das coisas. “Porra, ainda bem que sou viado!”, exclama. Clarice Lispector, por exemplo, é uma referência forte. Leu primeiro A paixão segundo G.H., “lembro muito forte dos desenhos do parto que ela vai narrando e da barata que a mulher come”. Descobriu um mundo em Clarice.


quem me vê assim erguida e sóbria
no alto dos meus saltos
não sabe dos abismos
entre meu corpo e o ar

quem me vê sempre sorrindo e cantando
não mensura os encargos que minha voz
calada tem que pagar
ao longo destes anos carregando tua vida
na garganta

quem me vê desfilando estamparias
não sabe da simplicidade que jorra todos os
meses dentro de mim

quem me vê cortando o acaso com espadas
de fino corte
não sabe da espera delicada de minhas mãos
em busca de um lugar para esquecê-las

quem me vê perfumada, erguida e estampada
não sabe da metade um terço
das preces que faço vendo a vida do alto dos
meus saltos


Esse é seu poema favorito do primogênito Para eu parar de me doer. A vida não é sempre bela e perolada. Até mesmo nas alegrias temos pitadas de tristeza. A dor existe. E os abismos, os encargos, a aspereza, a simplicidade. “A acho que as pessoas não se interessam por essa pessoa, elas se interessam por aquela ali que tá lendo os poemas no palco”. Não se interessam pela pessoa com a xícara de café na mão, que tenta parar de fumar. Nem pela que arruma a casa, passeia com a cachorra, compra pão, anda no cemitério, encontra os amigos. “É triste entender que as pessoas não se interessam pela humanidade das pessoas. Elas se interessam pelo business”. 

Uma das coisas mais terríveis da vida para Thiago é você ir sozinho e sair sozinho de um hospital. Ele conta que, ao mesmo tempo que nos aproximamos da liberdade, ficamos menos humanos. “Que liberdade é essa que deixa a gente sozinha?” Thiago quer liberdade compartilhada. Quer dividir o pastel, o café, o confeito.

Thiago completou há pouco mais uma estação, passando por entre pétalas sedosas e espinhos pungentes, dores e delícias. Sente-se bem como nunca esteve. Ampliou a vida.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Quem é o novo Prefeito de Natal

Carlos Eduardo Alves (PDT) renunciou no início de Abril. Seu vice, Álvaro Costa Dias (MDB), é pouco conhecido na capital

Por Augusto Ranier


Álvaro Costa Dias, novo prefeito de Natal. (José Aldenir/AgoraRN)

Médico formado pela UFRN, Álvaro Costa Dias (MDB) tem 58 anos, 30 desses na política. Foi vice-prefeito duas vezes (de Caicó e Natal), deputado federal e estadual. O “Dias” vem do pai, Adjuto Dias, ex-deputado estadual e empresário caicoense, que morreu em 1985.

Tem longa experiência no Legislativo, exercendo por 15 anos o cargo de deputado estadual. Entre 1997 e 2003, foi presidente da Assembleia Legislativa do RN. Nesse tempo é acusado de ter assinado mais de 200 nomeações de servidores que não prestaram concurso, alguns deles parentes seus. 

Mas voltando à biografia. Em 2003, foi eleito deputado federal com 138.241 votos. Filiou-se ao PDT e eleito vice-líder do partido no ano seguinte. 

Um caso curioso aconteceu no seu tempo em Brasília. O senador Álvaro Dias (PODE-PR) incomodou-se ao ser confundido com o seu xará potiguar e lhe pediu que trocasse de nome. Ele recusou. 

A denúncia contra o nosso Álvaro Costa Dias, feita pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte continuou sem julgamento. Conhecida como “Trem da Alegria” foi declarada prescrita (ou seja, o Estado não teria mais o direito de punir) entre 2010 e 2012 por juízes da vara estadual. Porém, no ano seguinte, 2013, o Superior Tribunal de Justiça aceitou um recurso para considerar o crime imprescritível. 

Segundo o AgoraRN, os dez parentes do deputado nomeados sem concurso custaram um total de R$ 222 mil, apenas em janeiro deste ano. 

Após publicada a informação, o então prefeito Carlos Eduardo (PDT) atacou o jornal na sua conta do Twitter:

“Jornaleco, sem anunciante, sem assinatura. Gratuito, com estrutura física e destribuição (sic) de grande jornal. Quem financia? O povo quer saber. ”

Outra complicação para o novo prefeito é a denúncia contra sua esposa, a juíza Amanda Grance Diógenes. Em ação de 2007, ela é acusada de improbidade administrativa por não ter praticado nenhum ato processual (juridiquês para “empurrar com a barriga”) contra o ex-prefeito de Jardim do Seridó, Patrício Júnior - aliado político do seu marido. 

Mais: depois de sair da Zona Eleitoral de Jardim do Seridó, a juíza manteve os processos consigo. Só os devolvendo um ano depois, ainda assim, via Correios.

Ao tomar posse, Álvaro Costa Dias prometeu manter responsabilidade com as contas públicas. Disse que dará continuidade a gestão “do prefeito de recuperou Natal”. E negociará com os professores em greve por melhores condições de trabalho. 

Sendo essa sua primeira experiência como titular de um cargo no Executivo, as previsões não são animadoras. Mas paguemos para ver.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Do Playboy ao Cavaquinho

Por Luiza de Paula

Agradecimento especial à Gabriela Melo, por ter me mandado essa imagem linda e me salvar na difícil escolha de selecionar uma imagem para crônica. Fonte: Dicionário de Símbolos.

Neste momento está tocando Los Hermanos no meu Youtube. “Conversa de Botas Batidas”. Há pouco estava com Aldair Playboy. “Amar, amei”. Agora, Nelson Cavaquinho, com o seu “Juízo Final”. 

Em questão de minutos, andou acenando por aqui o rock nacional, o samba os anos 70 e algum gênero que eu não consigo definir – estou desculpada pela ignorância? E por não ir até ao Google pesquisar, também? É que inventei de seguir o desafio Power de exercitar assumir pessoalmente e publicamente quando não souber de algo. O “não sei” é tipo o adesivo de incompetência, mas eu ando achando o suprassumo da elevação espiritual. Chiquérrimo. 

Agora, já sigo com Natiruts. E como é bom transitar do Aldair Playboy ao Nelson Cavaquinho. Porque na vida não somos só funk. Nem somos só samba. Oscilamos. Misturamos os ritmos. Somos múltiplos e não unos. Mas aí, um dia desses, ouvi de um cidadão – cheio de pompa, falsas ilusões, bancando o intelectual e com o tom altamente pejorativo: “Funk não toca no meu som. Jamais.” Pensei: um desfibrilador, urgente, por favor! Logo em seguida, um café quente. Usar o argumento de que é intelectual e justamente por isso não reconhecer a riqueza cultural que é o Funk? Mas que contrassenso. Perdi o compasso do ritmo e não consigo mais acompanhar a dança. 

Nessas horas a gente percebe o porquê que andam confundindo Al Jazeera com Al Qaeda. O porquê afirmam categoricamente que o Nazismo foi de esquerda. O porquê que dizem que a existência do trabalho análogo ao escravo foi coisa para o século XX e por aí vai... Tá tudo meio nebuloso. Meio não, totalmente. 

Engoli o discurso. A discussão nociva está perdendo espaço para a minha outra missão: exercitar a racionalidade. Não sei se o que eu tinha a dizer teria alguma importância, portanto, discutir seria inútil. E tirando o lado nobre do raciocínio para eu não ter confrontado o sujeito com a minha falta de delicadeza, é que neste ano tem eleição. Preciso me resguardar também para o acalorado segundo semestre de 2018. Ah, e uma observação pessoal: preciso melhorar também a minha falta de delicadeza. 

Até essas frases nonsense têm o lado positivo: me lembrei de agradecer a Gestalt-Terapia, a filosofia existencialista em geral, sobretudo a Sartre por dizer (vou copiar na íntegra lá do Google) que “não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la.” Ufa! Desse jeito, posso ser quem eu quiser. Não estou condicionada por uma força natural a nada. Não preciso me enfiar em uma única caixinha. Não há o padrãozinho figurativo da postura que o intelectual deve ter – alô autor da desprezível frase lá de cima. O exercício da intelectualidade não proíbe o Funk no seu Spotify. 

Posso ser parte integrante do Poder Judiciário e criticar o fato da balança pender, por vezes, só para um lado. Posso ser jornalista e refletir sobre uma parte da mídia que é golpista. Posso ser advogada e não ter a malícia correndo no sangue. Posso ser cronista e acadêmica. Posso ser do Funk, do Samba, do Reggae, do Forró, da Música Popular Brasileira. Do que eu quiser. E você também. 

Posso ser da Filosofia Epicurista, mas daqui a pouco mudar de ideia e achar melhor me resguardar sob a proteção de São Tomás de Aquino. Posso seguir alterando meus quereres. Posso associar meus quereres. Posso ser advogada e jornalista. Posso ser várias. E você também. 

A vida é efêmera e admite de nós várias versões. 

Comecei esse texto com Aldair Playboy e termino neste exato momento ao som dos Novos Baianos, especificamente com “A menina dança.” E curto os dois. Ainda bem. 

Será que eu passo bem pelo Juízo Final? Interceda por mim, Nelson Cavaquinho.

domingo, 22 de abril de 2018

Tecnologia Espacial como combustível para o futuro


Edição potiguar da Campus Party teve a ciência do espaço sideral como tema principal
Por Germano Freitas

Toda edição da Campus Party tem um tema específico para o desenvolvimento daquele lugar, assim, o evento traz atenção para um potencial da cidade ou região. No caso da Cidade do Natal, foi escolhida a área aeroespacial, dando foco a palestrantes que estimulam o desenvolvimento de ciências e tecnologia para tal.
Na Campus Party Natal tivemos vários palestrantes magistrais, aqueles que estão no palco principal enquanto não há nenhuma outra atração nos demais, que, de diferentes formas, falaram da busca pelo conhecimento do espaço sideral. A variedade foi de tal forma que o público pôde conhecer um pouco de como o estudo e a exploração do espaço podem nos beneficiar.
Ainda antes da abertura oficial, tivemos um exemplo do que o evento queria enfatizar. Na palestra “Preparar, Lançar, Rastrear!”, Dino Lincoln, embaixador da Campus Party no Brasil, e o Tenente-Coronel Almeida, do Centro de Lançamento Barreira do Inferno (CLBI), o público presente foi informado e depois pode assistir, por meio de uma transmissão ao vivo que também contava com o rádio dos operadores, o lançamento de um Foguete de Treinamento Básico (FTB). Tal operação serviu para manter o pessoal do centro em preparo, como manda o código regulatório. Para a plateia serviu, como explicação e demonstração do trabalho realizado pelo CLBI.  
Já na abertura, Marcos Pontes, primeiro e único astronauta brasileiro, contou sua história de vida e sua experiência até quando foi para a Estação Espacial Internacional. Pontes estimulou a platéia a perseguir aquilo que sonha, “nos momentos difíceis, são seus sonhos que vão te segurar”.
Com a sequência do evento, vieram mais palestras com o foco na área aeroespacial: além dos palestrantes magistrais, também houve passagens pela questão da exploração e uso do espaço exterior ao nosso planeta. Aqueles mais interessados na questão puderam conhecer o Plano Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), no qual foi incluído o recente lançamento do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação (SGDC), que trouxe a autossuficiência do Brasil na comunicação militar e participa do Programa Internet para Todos, além dos objetivos futuros do país.
Cristiano Augusto, falava ao público sobre as metas do PNAE para o futuro. Foto: Equipe Grupert
Indo além das apresentações, a palestra “Operações Aeroespaciais: Preparar, Lançar, Rastrear!” trouxe explicações do por quê desenvolver esse ramo da tecnologia de forma nacional. Como principal fator, foi colocada a atuação do CLBI como auxiliar nesse desenvolvimento.
Cristiano Vilanova, contou como foi participar da construção do SGDC e o trabalho que o equipamento vai desempenhar. Foto: Equipe Grupert
O entusiasmo não ficou apenas para o exemplo do astronauta brasileiro; o americano Gabe Gabrielle também foi um magistral nesta edição. Gabe é engenheiro da NASA e um participante assíduo da Campus Party, como educador e palestrante motivacional. Ele gosta de incentivar as pessoas, “sempre lembrem de três coisas: faça o seu melhor, divirta-se com o que faz, acredite em você; assim conseguiram realizar qualquer coisa”. Como exemplo, ele adora ressaltar a diversão que tem trabalhando na agência espacial americana, “NASA é sobre se divertir”. Para o estadunidense, deve-se ter prazer naquilo que faz; ele inclusive ressalta que é assim que podemos influenciar mais crianças a se interessarem por ciências e seguirem carreira na área.
A astronomia também teve sua participação de forma marcante na CP Natal. Palestras como “O que faz um planeta ser habitável?” e “Luz: O Início de tudo” explicaram mais sobre o estudo de outros planetas e do espaço. Mas foi com “A missão Cassini a Saturno” e a Drª Rosaly Lopes, brasileira cientista da NASA há mais de 20 anos e membro da missão Cassini-Huygens a Saturno e suas luas, que o assunto teve seu maior destaque. Rosaly explicou toda a linha temporal da missão, que originalmente duraria quatro anos e chegou a quase cinco vezes isso; mostrou as descobertas, que surgiram da análise dos dados; e explicou a razão da nave Cassini ter sido sacrificada no planeta gasoso: “existe uma possibilidade de vida na lua Titã e não podíamos arriscar infectá-la com microorganismos terrestres”.
Drª Rosaly mostra o cronograma da missão junto a um mapa do trajeto percorrido pela espaçonave. Foto: Equipe Grupert
Em desenvolvimento ao estudo de planetas, houve a palestra “Habitat Marte: o espaço é agora!” apresentando as pesquisas para habitar o planeta vermelho. A ideia é simular uma habitação para estudar os problemas que podem surgir e desenvolver tecnologias para solucioná-los. A principal experiência acontece em Utah, nos Estados Unidos, no Mars Desert Research Station (traduzido livremente para “Estação de Pesquisa do Deserto Marciano”), mas o Brasil tem seu pioneirismo no assunto com primeira estação de pesquisa na América do Sul, localizada na cidade de Caiçara do Rio do Vento, terreno potiguar. O objetivo é iniciar a exploração espacial e até criar uma colônia em terreno marciano.
Com o prosseguimento do evento, apresentaram-se ainda mais palestrantes motivacionais, como Marcos Palhares, que contou sua trajetória de vida se preparando e procurando uma forma civil de chegar ao espaço. Mas o diferencial ficou com João Paulo Barreira, criança de oito anos que já é vencedor de concurso da NASA e autor de dois livros sobre exploração espacial, história contada em post anterior. Jovem prodígio, o menino estimulou a todos para que busquem desenvolver ciência e tecnologia e a estabelecer um comportamento sustentável, através da reciclagem.
Marcos Palhares falava para a plateia sobre sua experiência enquanto se preparava para ir ao espaço. Foto: Equipe Grupert
Não foi só com palestras de explicação, apresentação e entusiasmo que a Campus Party procurou desenvolver a questão aeroespacial em Natal. Em um dos horários principais se juntaram nomes de conhecimento e permanência no assunto, como o Tenente-coronel Almeida; José Henrique, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com mestrado, doutoramento e pós-doutoramento no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; Gabe Gabrielle; e outras autoridades para falar sobre a situação atual do Brasil, seu potencial e quais os desafios para evoluir a tecnologia necessária.

Público ouvia atencioso a conversa sobre o setor aeroespacial no Brasil. Foto: Equipe Grupert

A história do corrida espacial não foi esquecida e foi apresentada em “Programa Apollo: como fomos à Lua!” por Júlio César Guedes Antunes, Mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina e editor do website de história militar “Sala de Guerra”.
Com toda essa programação, a Campus Party Natal teve o objetivo de ascender o potencial da região na área aeroespacial. Para tal, disseminou o trabalho do CLBI e a importância do desenvolvimento da tecnologia, com seu reflexo e impacto na vida das pessoas. Agora cabe à comunidade científica local enxergar as possibilidades e trazer para a realidade aquilo que o evento estimulou.

sábado, 21 de abril de 2018

RobôLivre gerando carisma para educar


Através do mascote, empresa chama atenção para o estudo da robótica

Por Germano Freitas



Um dos destaques da Campus Party, em qualquer edição, é o ambiente de networking e transmissão de informação. O espaço da Arena é estabelecido para que as pessoas interajam entre si enquanto estão usando seus computadores ou assistindo palestras. Desta forma, a Campus Party Natal também foi um local para se conhecer pessoas e ideias inovadoras e diferentes.

Assim, surgiu em meio ao público um robôzinho feito em madeira, com feições amigáveis em seu visor e que chamou a atenção por parecer andar sozinho. Chamado de BOLI, ele é mascote e obra da RobôLivre que estava presente no Centro de Convenções de Natal para participar do evento. A altura similar a de uma criança faz com que o robô tenha logo o carisma infantil.

A história de BOLI vem da evolução da empresa de seus criadores, a RobôLivre surgiu a princípio como um projeto de mestrado de Henrique Foresti. “A ideia inicial era criar uma plataforma online para ensinar robótica a qualquer pessoa, independente de classe social ou idade”, disse Henri Coelho, um dos projetistas do robô. Com a aplicação da ideia, em 2005, surgiu o site roboliv.re, hoje, o mesmo já conta com mais de 6 mil membros Brasil a fora.

Depois de algum tempo foi criada a empresa, RobôLivre. A mesma foi idealizada de tal forma que o setor privado a contrate para ensinar e promover a robótica em escolas públicas. Assim, seus membros passaram a trabalhar para institutos, como: o Instituto Shopping Recife, que adotou a comunidade de Entra Alpuso; o Instituto João Carlos Paes Mendonça (JCPM), que adotou várias comunidades em torno de seus empreendimentos; e o Instituto Conceição Moura, que adotou toda a cidade de Belo Jardim, no interior do estado de Pernambuco. 

O foco principal é educar, “educação através da robótica, não só materializar as coisas”, enfatiza Henri. Ensinam a programação e a “mão na massa” em pequenos artefatos para que as crianças desenvolvam curiosidade sobre o assunto. “Materializar as coisas não é o nosso foco, mas quando você traz um robô para dentro de uma feira como essa a gente vê o retorno maravilhoso e as pessoas começam a procurar nossa plataforma para aprender”.

BOLI foi desenhado por um designer a pedido da empresa, que procurava redesenhar sua marca. Ao ver e aprovar o desenho pensaram e realizaram o projeto para tirá-lo do desenho, tornando-o realmente o mascote do grupo. “O retorno de emoção das crianças é maravilhoso, será que um robô desses, todo de madeira (MDF), projeto todo nosso, não pode levar essa criança a sonhar um caminho da engenharia, não só da robótica, mas da engenharia, do software… um caminho do bem já é de bom tamanho”, afirma Henri.

Por enquanto, BOLI está limitado a andar e mudar seu sorriso, mas a RobôLivre já planeja uma nova versão dele para participar de campeonatos, ele vai ganhar emoções, interface de comunicação com pessoas e ser autônomo em ambientes menos cheios do que a Campus Party, entrando na categoria at home. 

Existe também um plano de lançar uma versão de venda do robô, mais reduzida, apenas cerca de 20cm de altura. “A gente vai lançar ano que vem, que vai ser uma versão de montagem, para crianças montarem - crianças sendo jovens de 9 a 90 anos - e poderem trabalhar com ele através de bluetooth”, disse Henri Coelho. Haverá, também nesta versão, um componente onde as pessoas vão receber atualizações e vão poder ficar mexendo e alterando o seu BOLI.

A equipe da RobôLivre tem planos mais ousados, pretendem um dia fazer do mascote também um robô de cuidados, “a gente vai conseguir colocar um robô desses dentro da casa de um idoso, por exemplo, e ele cuidar desse idoso”. Mas isso ainda demanda estudos e desenvolvimento, “estamos falando de um robô que não vai ser preciso mexer nele durante meses”. 

A empresa ainda não conta com nenhuma parceria com universidade, algo comum nesse ramo da tecnologia, ou incentivo de ordem estatal. “Somos uma empresa de grandes amigos que tem o sonho de transformar através da robótica”, finaliza Henri.

Com o carisma de BOLI, a RobôLivre já foi chamada para fazer palestra em um evento da área da publicidade. Apesar da expectativa de pouco público por Henri, ele fica feliz em lembrar que a sala estava cheia e a conversa foi um sucesso. Com um objetivo de educar e o uso do carisma para atrair, a robótica ganha mais atenção através dessa atitude inovadora.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Robótica com um toque introspectivo na Campus Party Natal

Por Anna Vale

Palestrante Adam Moreira. Foto: Equipe Grupert

Há quem desconheça, ou nem mesmo reconheça, o potencial e talento tecnológico presente no Brasil, sobretudo na área da robótica, onde somos pioneiros. Há quem tenha medo dos avanços que esses estudos apresentam, um sentimento comumente atribuído às representações fictícias de como o futuro poderia se parecer.

Adam Moreira, doutorando da Universidade de São Paulo, na área de Robótica Social e Pedagógica, explica que esse medo da evolução tecnológica não é tão racional assim e que os avanços servem para auxiliar as pessoas de melhor maneira. “O problema não é o quanto a tecnologia está avançando, mas como a gente usa essa tecnologia,” completa.

Em sua palestra “Inteligência Artificial aplicada à Interação Humano-Robô: uma breve viagem pelo contexto mundial”, ele discorre sobre os benefícios da robótica, seus avanços e projetos promissores espalhados por todo o mundo. O palco Educação do Futuro, na área gratuita da Campus Party Natal, recebeu grande público de diversas idades na tarde do último dia do evento (14), que aprendeu noções básicas sobre esse tipo de tecnologia em uma conversa bem humorada e descontraída.

Por mais que não se perceba, os robôs já fazem parte do nosso cotidiano, de forma bastante sutil: os bots que existem de montes nas diversas mídias sociais, os chatbots em canais digitais para interagir e engajar com o público, e quem nunca respondeu a um Captcha para confirmar que é humano? O estudo dessa interação entre robôs e humanos é fundamental para entender e aperfeiçoar as funcionalidades das máquinas.

Essa área é chamada de HRI, do inglês Human-Robot Interaction, que é literalmente traduzido para Interação Humano-Robô. Ao estudar essa interação, há um foco maior na experiência do usuário (user experience), de forma a entender como o robô será aceito, tratado e como, por sua vez, o robô reagirá e assimilará tal ação. O entendimento dessa relação permite o aperfeiçoamento das interfaces e do comportamento da máquina para aumentar sua aceitação. O nível de praticidade e usabilidade de um robô é diretamente equivalente ao seu nível de aceitação e o sucesso da comunicação.

Dinâmica com participação do público. Foto: Equipe Grupert
Essa comunicação entre robô e humano não é tão fácil, como demonstrou Adam com uma dinâmica: duas pessoas da platéia subiram ao palco, representando o robô e um humano; um comando apareceu na tela e a pessoa teria que transmiti-lo ao robô com certas restrições. Isso mostrou aos espectadores que muito pode ser mal comunicado e mal entendido, mesmo entre duas pessoas. A dificuldade é maior com um robô que precisa traduzir a comunicação natural humana para sua própria linguagem.


Projetos promissores ao redor do mundo

Para exemplificar os avanços já alcançados e os ambientes impactados pela interação robô-humano, Adam apresentou diversas ocorrências por todo o mundo. Talvez a melhor financiada dos seus exemplos, a Disney Research é a divisão do conglomerado que busca aprimorar a experiência do usuário, “injetando inovação científica e tecnológica”. Seu setor de robótica atua, principalmente, com os animatrônicos dos parques Disneyland e Disney World, para que entendam, reajam e interajam de forma mais realista com as pessoas.

No Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, foi criado o primeiro robô doméstico do mundo: o Jibo, capaz de reconhecer até 16 pessoas diferentes e oferecer uma experiência adaptada e diferente para cada. Também para uso doméstico, Romeo ainda não está sendo comercializado, mas é o que há de mais sofisticado no que diz respeito à acompanhantes. Ele possui 1,40m de altura, força maior que a de um ser humano e está sendo desenvolvido pela SoftBank Robotics para auxiliar pessoas idosas que estão perdendo sua autonomia.

No Japão, já é comum o uso do robô Pepper para a recepção, informação e diversão dos clientes em lojas por todo o país. Capaz de reconhecer e se adaptar às emoções do seu interlocutor, o robô humanóide, também da SoftBank, é utilizado como intermediário no serviço de atendimento ao cliente. O robô humanóide mais completo do mundo também está no país e foi criado pela Honda, em 2000: exibido em um museu da capital japonesa, ASIMO é capaz de reconhecer objetos, posturas, gestos, seu ambiente, sons e rostos, o que o permite interagir e conversar com seres humanos de forma autônoma.

Robôs humanóides produzidos pela SoftBank Robotics: NAO (à esquerda), Romeo (meio) e Pepper (à direita).
Foto: Divulgação/Softbank Robotics

Projetos promissores no Brasil

Mas não é só na Ásia ou na Europa que esse tipo de inovação se encontra. Apesar de parecer distante da realidade tupiniquim, o brasileiro possui um talento para a robótica inigualável. Aquele Robozão dançarino que você já deve ter visto no YouTube é produto nacional. Na Universidade de São Paulo (USP), também já estão desenvolvendo uma avatar recepcionista que reconhece e imita expressões humanas. 

O esforço brasileiro na área permitiu um avanço histórico no que diz respeito à mobilidade assistida. Na abertura da Copa do Mundo de 2014, o chute inicial foi dado por um jovem tetraplégico, utilizando um exoesqueleto projetado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, em conjunto com o Instituto Internacional de Neurociências de Natal – Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).


NAO: o robô-professor

Pesquisador do Laboratório de Aprendizado de Robôs da USP, Adam possui seu próprio projeto promissor: a adaptação do robô humanóide NAO, da SoftBank Robotics, para uso em sala de aula. O objetivo é utilizar as tecnologias já encontradas naquele ambiente, como celulares ou tablets dos alunos, de forma adequada para a educação.

O processo ocorreria da seguinte maneira: o NAO capta as informações referentes à atenção dos alunos, suas emoções e nível de atenção durante a aula ou em relação ao professor. Assim como analisa os dados apresentados e reage ao que aprendeu, seja modificando seu comportamento ou sugerindo mudanças ao professor, que tem acesso aos dados captados.

O robô-professor em ação. Foto: Adam Moreira
Até agora, o projeto tem sido testado em escolas públicas e privadas de São Carlos, no estado de São Paulo, apresentando aceitação e retenção de conteúdo 20% maior nos alunos que interagiram com o robô. No entanto, Adam avisa que ele deve ser utilizado em conjunto com um professor, sempre. Apesar de sua execução precisa, a inteligência artificial não apresenta cognição, logo, não substitui o ser humano.


Iniciativas de incentivo 

Com o objetivo de despertar o interesse e contribuir com o aprendizado, foram lançadas diversas iniciativas de incentivo ao estudo da robótica. Várias delas são aplicadas em um âmbito nacional ou até internacional, de forma irreverente e divertida, chamando a atenção até das pessoas que se consideravam inaptas na área.

Adam conta que foi na Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) que iniciou sua trajetória na área: se trata de um evento que visa o aprendizado e o estímulo dos jovens às carreiras científico-tecnológicas, ocorrendo em categorias práticas e teóricas de forma gratuita e sem fins lucrativos. Outra competição, a RoboCup é uma copa robótica internacional de futebol, partindo do pressuposto de que um time de robôs completamente autônomos deverão vencer uma partida contra a atual equipe humana campeã do mundo, de acordo com as regras da FIFA.

A RoboCore é uma empresa desenvolvedora de tecnologia que realiza feiras, competições, congressos, além de oferecer palestras, cursos, tutoriais e atividades extra-curriculares na área da robótica. Outro exemplo, que esteve, inclusive, presente na Campus Party Natal, a Plataforma RobôLivre pretende “mostrar que a robótica pode e deve ser desenvolvida por qualquer pessoa que tenha interesse, independente de possuir conhecimentos técnicos sobre o tema ou qualquer formação”, apresentando um conteúdo colaborativo e fácil de fazer.

Além destas iniciativas, existem instituições educacionais dedicadas à robótica e ao ensino da tecnologia por todo o país. Só na Cidade do Sol, existem duas escolas dedicadas a ensinar a robótica a crianças: a RoboEduc e a Robô Ciência, que estiveram presentes na edição potiguar da Campus Party. Além de dois novos laboratórios que serão construídos por meio de um convênio assinado junto ao Instituto Campus Party.

O avanço da tecnologia é inevitável, mas não é algo do que se ter medo. Mudança é algo natural e quando ocorre nessa escala, nesse tipo de ambiente, está sendo especificamente estudada para gerar resultados favoráveis aos que a utilizarem. Não é questão de resistir, é um processo de ajuste, tanto do lado da inovação tecnológica, quanto da interação do indivíduo com ela: “Não é parar de avançar a tecnologia,” explica Adam, “é adaptar as pessoas”.