sexta-feira, 29 de junho de 2018

O que temos pra hoje, Dona Maria?

Batalhas de rap na Praça Presidente Café Filho, em Extremoz:“Um mundo que a gente cria ali naquela roda, naquela batalha, um mundo em que qualquer um que tiver o mesmo sentimento pode entrar e participar”

Por Aimmee Araújo e Mariana Batista 

Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

É no início de mais uma noite fria na Praça Presidente Café Filho, em Extremoz, que o cenário começa a ser montado. Estudantes da escola Almirante Tamandaré, que fica em frente ao largo, aglomeram-se nos bancos com a pintura desgastada. Chamam atenção com o barulho das conversas. Um pouco mais distante da pequena multidão, embaixo de um cajueiro situado no lado direito, um pequeno grupo – não mais que quinze pessoas – começa a se organizar. Caminham juntos rumo ao centro do espaço. Um deles segura uma pequena caixa de música que ecoa uma batida de rap e chama atenção de quem passa. Formam um círculo no meio daquela parte mais vazia da praça e mais pessoas aproximam-se. Tem início mais uma batalha de rap na Praça Café Filho.

Natalia (à esquerda) posando para a foto. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

“É mais que uma distração, é mais que um hobby que a gente tem. É um compromisso que a gente tem, é uma casa que a gente tem, é um mundo, é a nossa ideologia, são os nossos pensamentos, os nossos sentimentos que estão todos ali. É uma ligação, uma conexão. Eu sinto isso todas as vezes que eu vou e não importa se é debaixo de chuva, não importa se tiver pouca gente, às vezes estão só os MCs mesmo, uns cinco MCs só, e é isso aí”, diz Natalia Kelly Lima da Silva, 17 anos.

Sempre usando termos como “a gente” e “nós” para dar ênfase ao trabalho conjunto e a relação amigável dela e dos demais organizadores do pequeno evento, conta que a ideia de fazer as batalhas em Extremoz surgiu, pois eles sempre participaram das batalhas e eventos desse tipo na capital, porém o deslocamento entre as cidades é complicado, e como não há muitos  em sua cidade decidiram trazer a batalha para casa. A ideia em si surgiu há algum tempo, menos de dois anos, porém não se firmou por causa da rotina de estudo dos participantes; apenas no final do ano passado passado eles decidiram voltar com a batalha como forma de resistência à opressão e para que mais gente da cidade tivesse acesso a essa cultura.

Natalia e Rubens, estudantes do ensino médio. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta 

Numa folha de caderno, Natalia e Rubens Monteiro Filho, 18, organizam o esquema das batalhas daquela noite. A primeira não acontece, pois os participantes não estavam presentes; passa-se então para a segunda. Eronilton “Eron” Brito da Silva e Caik Fernando de Souza Nunes, ambos com 18 anos, vão para o centro do círculo improvisado. Seleciona-se uma das batidas que eles mesmos baixaram na internet e a batalha se inicia. Segue-se o ritmo “ataque e contra-ataque”; Caik faz seu rap, Eron contra-ataca, enquanto alguns murmúrios dispersos, palavras de incentivo e até mesmo palavrões aliviam a pequena tensão entre os participantes. Por vezes, as vozes dos rapazes são abafadas pela música levemente alta e pelo assobio forte do vento frio, porém isso não impede que a pequena plateia vibre a cada contra-ataque que ecoa, em meio à roda. Eron vence a disputa e Rubens e Natalia gritam “Um salve para batalha!” em uníssono; a pequena plateia vibra mais uma vez.

Final da batalha, da esquerda para a direita, Caik, Eron e a pequena plateia ao redor, esperando o começo de uma nova disputa. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

A plateia se anima ao final da primeira disputa da noite e os cochichos a respeito daquela que está para começar ficam mais frequentes. “Não são todas batalhas em que o público é grande”, diz Rubens. “No entanto, na maioria das edições que acontecem temos percebido que o público vem aumentando e isso nos incentiva a continuar”.

Eron volta para o centro da roda e, desta vez, vem acompanhado por Ektor Fernando do Nascimento Dias, 20; ambos colocam-se frente à frente e Natalia pede um pouco de silêncio para que eles possam começar. A batalha é acirrada, as palavras de ataque são rápidas e as de contra-ataque ainda mais. A atmosfera é uma criatura híbrida entre a tensão e euforia; os gritos de incentivo tornam-se ovações rápidas e tão emboladas quanto às letras dos raps. Saem numa velocidade parecida com as gotas de uma chuva torrencial e se espalham preenchendo a noite, junto com a música de batida forte e palavrões aleatórios. Desta vez, Eron perde, Ektor sai como o vencedor da disputa, ao som das ovações de seu público.

Ektor e Eron (de costas), são fotografados por Natalia durante a batalha. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

A batalha segue para o seu terceiro ato, uma disputa entre Lucas e Tomais, dois rapazes que estavam na plateia. Lucas fica envergonhado, diz que não quer participar mas é incentivado por seus amigos. Eles o empurram para o meio do círculo. Risadas ecoam pela praça quase vazia. Os estudantes que antes estavam em frente ao colégio já foram para suas respectivas aulas. Com o mesmo ritmo das duas batalhas anteriores, porém com uma atmosfera mais divertida, a terceira batalha é marcada pelo nervosismo de Lucas. Após o rap de Tomais, o primeiro ataque, Lucas enrola-se no contra ataque; as palavras saem emboladas, dispersas e quase sem nexo. Depois de algumas tentativas, o rapaz começa a rir de seu comportamento e a vitória da terceira batalha é de Tomais.

Ektor e Tomais voltam para o centro da roda; é a hora da última disputa da noite. A plateia se aproxima, o círculo se torna pequeno e as ovações aumentam. Ektor começa, Tomais contra ataca, Ektor responde ao contra ataque; alguns palavrões são ditos, a atmosfera volta a se tornar tensa. Algumas palavras são abafadas pela música novamente, outras se espalham pelo vento, e se perdem em meio à noite escura. Depois de mais algumas palavras soltas, a plateia vibra mais. Ektor é o campeão da noite. Enquanto alguns gritos ainda ainda reverberam pela praça e a pequena multidão começa a se desfazer, Natalia pergunta “Com essa já foram quantas?”: Ektor responde, mostrando o número nos dedos: “Acho que quatro”. 

Ektor (por trás de Natalia e Rubens) e Tomais à sua frente. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

Dispersada a multidão, resta apenas o mesmo grupo do início, os organizadores da batalhas. Os que levaram suas mochilas as deixam organizadas uma por cima da outra no centro da praça, sentam-se no chão formando um novo círculo e começam uma pequena reunião. Eles conversaram sobre o planejamento da próxima atividade cultural que pretendem organizar. Natalia nos informa que a cultural consiste em reunir a cultura do rap, fazer apresentações, slam (Campeonatos de poesia) e as batalhas; juntar todo mundo, sendo de Natal ou Extremoz, “todo mundo colar lá e gerar uma galera bacana”. No meio da conversa sobre a cultural, se entra no assunto sobre a falta de verba para se adquirir um equipamento de som e explicam que com um som bacana se atrai mais público. Um dos MC’s, Ektor tem uma caixa de som, porém por morar distante nem sempre pode participar da batalha e trazer o equipamento. Com isso, discutem sobre várias formas de arrecadar verba, como ir ao sinal, adquirir patrocínio, vender rifa e comida, fazer camisetas e diversos outros meios.

Todos sentam em roda para conversar. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

A conversa chega ao fim. Natalia e Mikael começam a discutir sobre introdução da roda de cordel e poesia, que sempre acontece depois das batalhas, e então Natalia se levanta perguntando: “O que temos pra hoje, Dona Maria?!” e então todos respondem: “Cordel e poesia!”, E ela continua: “Contra o machismo, Dona Maria!” e o grupo repete os dizeres anteriores: “Cordel e poesia!”. O diálogo continua dessa forma:

“Contra a homofobia, Dona Maria!”

“Cordel e poesia!”

“Contra o racismo, Dona Maria!”

“Cordel e poesia!”

E por fim, Natalia questiona novamente: “E quem é ele, Dona Maria, O que ele traz, Dona Maria?!”, então a primeira pessoa se levanta e recita sua poesia. Na sequência se apresentam: Mikael Lucas, 20; Rubens; Natalia; Dyanna Kathleen O’hana Doca de Souza, 17; Rubens novamente; e por fim Ektor fecha o Slam recitando a última poesia.

No slam,o poeta pode recitar sobre o que quiser, é um momento de liberdade, porém já tem que vir com o pensamento pronto. Eles falam sobre os mais variados temas como: intervenção militar, ditadura, pobreza, injustiça, sistema, perdão e amor. Natalia explica que vai de acordo com a ideologia de cada um: “A gente procura abordar tudo e desconstruir alguns preconceitos, principalmente nas poesias. Quando a gente traz poesia, a nossa intenção é essa. Na batalha pode rolar tudo, pode rolar qualquer assunto, depende muito dos MCs, mas na hora das poesias, a gente entra com elas já pra ter esse foco, já que na batalha não tem. Elas [as poesias] nem sempre são autorais, a gente transforma uma música, um rap de outro alguém em poesia.”

“Enquanto o couro do chicote cortava a carne, 

A dor metabolizada fortificava o caráter;

A colônia produziu muito mais que cativos,

Fez heroínas que para não gerar escravos matavam os filhos;

Não fomos vencidas pela anulação social,

Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial;

O sistema pode até me transformar em empregada,

Mas não pode me fazer raciocinar como criada;


Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,

As negras duelam para vencer o machismo, o preconceito, o racismo; 

Lutam para reverter o processo de aniquilação que encarcera afrodescendentes em cubículos na prisão; 


Não existe lei maria da penha que nos proteja, 

Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza; 

De ler nos banheiros das faculdades hitleristas: Fora macacos cotistas; 

Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão, 

Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação;


Navios negreiros e apelidos dados pelo escravizador

Falharam na missão de me dar complexo de inferior; 

Não sou a subalterna que o senhorio crê que construiu, 

Meu lugar não é nos calvários do brasil;

Se um dia eu tiver que me alistar no tráfico do morro, 

É porque a lei áurea não passa de um texto morto;


Não precisa se esconder segurança,

Sei que cê tá me seguindo, pela minha feição, minha trança;

Sei que no seu curso de protetor de dono praia,

Ensinaram que as negras saem do mercado

Com produtos em baixo da saia;

Não quero um pote de manteiga ou um shampoo,

Quero frear o maquinário que me dá rodo e uru; 

Fazer o meu povo entender que é inadmissível,

Se contentar com as bolsas estudantis do péssimo ensino; 


Cansei de ver a minha gente nas estatísticas,

Das mães solteiras, detentas, diaristas.

O aço das novas correntes não aprisiona minha mente,

Não me compra e não me faz mostrar os dentes; 

Mulher negra não se acostume com termo depreciativo,

Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino;

Nossos traços faciais são como letras de um documento,

Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos; 


Fique de pé pelos que no mar foram jogados, 

Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados.

Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria 

É atrair gringo turista interpretando mulata; 


Podem pagar menos pelos os mesmos serviços,

Atacar nossas religiões, acusar de feitiços;

Menosprezar a nossa contribuição para cultura brasileira,

Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra;”

Poesia da rapper Yzalu, recitada por Natalia.

Findado o slam, alguns dos participantes voltam para suas casas; outros poucos ficam conversando na praça. Perguntam por onde anda um dos MC’s da batalha, Jonas José da Costa Neto, 18. Especulam: alguém diz que ele havia saído com a namorada. O pequeno grupo ri alto, não levando muita fé naquilo que foi dito. Entrando na brincadeira, Natalia declara: “A minha [namorada] me ligou, eu falei: oi, te amo, mas tô na batalha”.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo H

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia

Por P.H Dias

A Colômbia, de Juan Manuel Santos, mesmo após a derrota para o Senegal, é a franca favorita de seu grupo. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

O grupo H é o mais diversificado da Copa, quatro países de continentes diferentes e apenas a Polônia, do artilheiro Robert Lewandowski, chegou perto de conquistar uma Copa do Mundo. No âmbito político, apesar de suas especificidades, há três países muito parecidos entre si, que têm o primeiro ministro no poder executivo, e um que usa o presidencialismo como sistema de governo. 

Acompanhe a política por trás da bola de Japão, Colômbia, Polônia e Senegal.

Japão

Depois da sua rendição na Segunda Guerra Mundial, o Japão mudou a sua conjuntura política. Atualmente o país é uma monarquia constitucional de regime parlamentarista. O primeiro-ministro do país, Shinzō Abe, faz parte do Partido Liberal Democrático (LDP), sigla conservadora comparada ao Partido Democrático do Japão (DPJ).

Há dois meses, Abe foi acusado de influenciar decisões governamentais sobre a criação de uma escola de veterinária de um amigo. Casos de escândalos de corrupção não são novidade no Governo do primeiro ministro. Durante o seu primeiro mandato, em 2007, o premiê japonês exonerou o ministro de Agricultura, Norihiko Akagi, por envolvimento em corrupção e fez uma reformulação em seu gabinete ministerial como resposta à queda de popularidade do seu governo. Uma semana após a reforma, o ministro da Agricultura que assumiu, Tokohiko Endo, renunciou ao cargo, também acusado de corrupção.

Atualmente, Shinzō Abe vem se encontrando muito com o presidente norte-americano, Donald Trump, para discutir sobre como serão as relações diplomáticas entre Coréia do Norte e os Estados Unidos. Ambos são a favor do desmantelamento completo das armas nucleares de Pyongyang, já que o primeiro ministro japonês quer que a ásia tenha uma boa relação com os interesses ocidentais.

Ao todo, são seis participações japonesas em mundiais. No último que disputou, em 2014, no Brasil, ficou na primeira fase. As melhores campanhas do país foram na Copa de 2002, quando sediou o torneio juntamente com a Coreia do Sul, e em 2010, na África do Sul, em ambas a seleção japonesa só chegou às oitavas de final.

Colômbia

A Colômbia ficou conhecida por conta do tráfico de drogas que assolou a nação em uma onda de violência extrema na década de 80 e 90. Assim como também pela guerra civil entre o Governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) - organização política de inspiração comunista que atuava por meio de táticas de guerrilha. 

Em 2016, o presidente Juan Manuel Santos conseguiu firmar um acordo de paz com o Governo e o grupo guerrilheiro. Primeiro, em plebiscito, a população rejeitou o acordo de paz. Entretanto, isso não impediu de Juan Manuel de buscar a paz. No mesmo ano, houve um cessar fogo entre o Governo colombiano e as FARC. Em 2017, o registro das armas foi concluído em conjunto com a Organização das Nações Unidas. 

No último dia 17 os colombianos foram as urnas para eleger seu novo presidente. O segundo turno das eleições foi disputado entre os candidatos Ivan Duque, de aspiração liberal e conservadora, e o candidato de esquerda, Gustavo Petro. Em disputa apertada, Duque ganhou com 53,95%, enquanto o segundo colocado obteve ficou com 41,83 % dos votos. Após a vitória, o novo presidente prometeu rever o acordo de paz firmado pelo seu antecessor.

A Colômbia foi a seis Copas do Mundo, seu melhor foi na edição de 2014, no Brasil, quando o time foi eliminado nas quartas de final pelos donos da casa. Os principais jogadores do atual time são James Rodríguez, Falcão García e Cuadrado.

Polônia

Na Polônia o presidente é o chefe do estado, mas não de governo, eleito por voto universal para mandato de cinco anos. Ao tomar posse, o presidente nomeia o primeiro-ministro, que precisa ser confirmado pela câmara baixa do parlamento. Esse fica por quatro anos no cargo e assume o poder executivo do país.

Em 2015, aconteceram eleições presidenciais e Andrzej Duda ganhou o pleito. Posteriormente, ele coloca como primeira-ministra Beata Szydło. Duda já tomou algumas decisões polêmicas à frente da presidência. O caso que mais chamou a atenção foi a sua oposição à política da União Europeia de cotas para imigrantes durante a crise dos refugiados.

Duda, em conjunto com o presidente croata Kolinda Grabar-Kitarovic, criou a iniciativa dos Três Mares, uma forma de ajudar e manter uma relação entre os países situados no eixo norte-sul no Mar Báltico, Mar Adriático e Mar Negro. Composta por 12 países, a iniciativa busca a cooperação nos âmbitos da economia e da energia.

Na Copa do Mundo da Rússia, a Seleção Polonesa fará a sua oitava participação. Os melhores resultados em Copas foram dois terceiros lugares - um derrotando o Brasil em 1974, na Copa da Alemanha, e em 1982, batendo a França, no Mundial da Espanha. O elenco atual conta com um dos melhores atacantes do mundo: Robert Lewandowski, jogador do Bayern de Munique da Alemanha. Piszczek, do Borussia Dortmund, e Milik, do Napoli completam o grupo de estrelas.

Senegal

A sua forma de governo é o semipresidencialismo, modo de governar em que o presidente eleito partilha o poder executivo com um primeiro-ministro e seu gabinete. O país africano tem como presidente, e chefe de estado, Macky Sall. A constituição senegalesa fala que o mandato presidencial tem duração de sete anos, com possibilidade de reeleição. 
Os senegaleses enfrentam crise econômica e instabilidade social. As tensões políticas se agravaram quando o estudante de medicina, Fallou Sène, que protestava por conta do atraso do pagamento de sua bolsa de estudos morreu ao ser baleado, durante um confronto com a polícia. Milhares foram às ruas protestar contra a morte do estudante. E, em meio ao caos, Macky Sall decidiu tirar doze dias de férias para acompanhar a seleção do seu país na Copa do Mundo da Rússia.

A Seleção do Senegal vai ao mundial pela segunda vez. Na primeira participação, em 2002, não poderia ter se saído melhor: caiu nas quartas de final, perdendo para a surpreendente Túrquia por 1 x 0 na prorrogação. Este ano, a equipe tem como seu principal nome o atacante do Liverpool, Sadio Mané. O time também conta com os destaques de Koulibaly, jogador do Napoli, e Keita Balde do West Ham. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo G

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia

Por Yuri Gomes

A Inglaterra, da Rainha Elizabeth, vem com time renovado para tentar repetir o título de 1966. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

O Grupo G da Copa do Mundo de 2018 abriga países com cenários políticos muito distintos. Dona de um título mundial, a Inglaterra vive um impasse diplomático desde a aprovação do Brexit, a Bélgica vê a ascensão de movimentos da extrema-direita e os tunisianos enfrentam forte crise econômica e de representatividade. O Panamá ainda festeja a inédita classificação. 

Acompanhe a política por trás da bola de Inglaterra, Bélgica, Tunísia e Panamá.

Inglaterra

Em junho de 2016, a Inglaterra e os outros países do Reino Unido se encontraram diante da mais importante decisão política em anos: sair ou permanecer na União Europeia. O país sempre mostrou resistência ao avanço da integração econômico-política entre os países do bloco. A sua ausência no Tratado de Schengen, acordo que aboliu as fronteiras e permitiu o livre trânsito de pessoas entre os países signatários, é um exemplo desse tímido isolamento. A Libra Esterlina foi mantida como moeda dos britânicos, mesmo após a criação do Euro. 

É importante frisar que, diferentemente do que acontece nas Olimpíadas, os países do Reino Unido competem separadamente nas competições da FIFA. 

Ah não, Mick Jagger! Os ingleses foram campeões em casa, na Copa do Mundo de 1966, a única vez em que o país conquistou a taça. Desde lá, o melhor desempenho da seleção foi em 1990, quando terminou a competição em quarto lugar. Seu torcedor mais ilustre é o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, que sempre está presente nas eliminações de seu país. Os fãs de futebol lhe deram o título de pé frio.

Bélgica 

A União Europeia tem o seu centro simbólico e de poder na Bélgica, mais especificamente em Bruxelas, não somente a do país, como também a capital formal de todo o bloco europeu. A política internacional belga desde muito tempo busca a interação econômico-política com seus vizinhos. É tanto que, juntamente com Luxemburgo e Holanda, ainda em 1958, criou a Comunidade do Benelux, que instituiu um acordo de livre comércio entre os três países. Era um embrião do que hoje é a comunidade europeia. 

Porém, essa inclinação à cooperação comercial e ao livre trânsito de pessoas - bases da União Europeia - foi fortemente impactada nos últimos anos. Os atentados terroristas de Bruxelas, em março de 2016, reivindicados por jihadistas do Estado Islâmico, inflamou discursos xenófobos da extrema-direita belga. Principal nome do campo político, o ativista Tom Van Grieken, do partido Vlaams Belang, fez a promessa de expulsar todos os muçulmanos do país, caso eleito nas eleições federais de maio de 2019. “Nunca dará resultado vivermos juntos", declarou, dois anos atrás.

Na contramão dos discursos nacionalistas, o Partido dos Refugiados foi apresentado na última segunda-feira, 18, na capital belga. Formado por cidadãos, em sua maioria refugiados, o movimento tem a intenção de radicalizar o debate público sobre as condições humanitárias dos imigrantes que chegam à Bélgica. O partido está focado nos pleitos do próximo ano. 

O cabeça de chave do Grupo G participa da copa pela décima segunda vez e o seu melhor resultado foi um quarto lugar em 1986, no México.

Tunísia 

Sucessivas crises econômicas, corrupção e repressão instalada em um governo autocrata, este era o cenário da Tunísia no final de 2010, quando eclodiu as primeiras manifestações da Primavera Árabe. Nos protestos que se seguiram, 300 pessoas foram mortas e o ditador Zine al-Abidine Ben Ali foi obrigado a renunciar, após 23 anos no poder. Em outubro de 2011, os tunisianos foram às urnas pela primeira vez para eleger sua assembléia constituinte. 

Sete anos após a queda de Ben Ali, a política nacional encontra-se dividida entre o partido islamita Ennahdha, grande vencedor das eleições municipais de maio deste ano, e o partido secular Nidaa Tounes. A economia patina nas incertezas que o quadro instável pós-revolução impõe aos investidores internacionais - os tunisianos já tiveram 9 governos desde 2011. O desemprego atinge 15,5% da população e a moeda nacional, o dinar tunisiano, sofreu depreciação de 40% em relação ao Euro. Os severos cortes de gasto por parte do governo, em resposta ao lento ritmo de crescimento, paralisam alguns serviços públicos essenciais, causam revolta da população e põe em cheque a frágil democracia tunisiana. Apesar da atual instabilidade, a Tunísia é o único país que saiu da Primavera Árabe com um sistema democrático minimamente consolidado. 

O retrospecto da Tunísia em Copas do Mundo é de cinco participações, contando com a edição deste ano. As Águias de Cartago, como é conhecida a seleção, obteve seu melhor desempenho em mundiais em 1978, na Argentina, quando terminou o torneio em nono lugar. 

Panamá 

Uma estreita faixa de terra caribenha entre o oceano Pacífico e o Atlântico: este é o Panamá, sempre lembrado pelo seu famoso canal que reduz o tempo de viagem de navios cargueiros de todo o mundo. Inaugurado em 1914 pelos americanos, o Canal do Panamá foi um domínio dos Estados Unidos em território panamenho até 1999. A presença norte-americana no país durante 85 anos moldou a cultura e a sociedade de seu povo. 

O ápice da interferência americana no país ocorreu às vésperas do Natal de 1989, quando soldados do exército dos Estados Unidos invadiram o Panamá para derrubar e capturar o ditador Manuel Noriega. Aproximadamente três mil foi o número de civis mortos ou desaparecidos após a operação militar. O episódio inflou um sentimento anti-americano nos panamenhos.

As relações entre geopolítica e futebol, nesse caso, se estreitam. Nas eliminatórias para a copa deste ano, o Panamá venceu a Costa Rica, classificou-se para o torneio pela primeira vez em sua história e ajudou a eliminar os Estados Unidos, a potência interventora imperialista, na visão dos panamenhos. A torcida invadiu o campo, a festa no país foi generalizada e o presidente declarou feriado nacional no dia seguinte. 

A Copa do Mundo de 2018 marca a estreia da Seleção Panamenha em mundiais. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo F

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia

Por Augusto Ranier

A Alemanha, de Angela Merkel, defenderá a hegemonia mundial ao menos no futebol. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

No grupo F caíram a poderosa Alemanha, o intrépido México, a Suécia (sem Zlatan Ibrahimovic) e a Coréia do Sul (só). Levando em conta suas diferenças de ordem política e econômica; todos, sem exceção, aproveitarão o mês de Copa do Mundo para tirar a cabeça de suas dificuldades nacionais.

Acompanhe a política por por trás da bola do Alemanha, México, Suécia e Coréia do Sul.

Alemanha

A Alemanha é o centro de gravidade da política europeia. A potência industrial com brilhante performance econômica recente e governada pela mulher mais poderosa do mundo (pronuncia-se Ânguela Mérkel), parece uma ilha de estabilidade em um mundo acossado pelo ressurgimento do populismo. Dessa forma, é posta a alcunha de líder do mundo livre na chanceler. A realidade, porém, revela vários desafios. 

Começando pelo encurtamento de sua base de apoio no Parlamento, justamente devido a essa sua imagem, digamos, Europe first. O principal motor da polêmica é sua política liberal de asilo aos imigrantes. Crescentemente impopular entre os alemães, é contudo necessária para não sobrecarregar outros países da EU (União Europeia) já em dificuldade. O que se faz ainda mais importante tendo em vista o crescimento do euroscepticism, ou descrença EU, que já tomou o Reino Unido e foi recentemente visto na França e na Itália. 

A guerra em duas frentes pode ser demais para Merkel que, antes do Trump acontecer, planejava deixar a política - talvez para retirar-se no norte da Alemanha e passar o tempo estudando química quântica, já que ela é doutora pela Universidade de Leipzig. Além de manter a desacreditada EU coesa, precisa lidar com as críticas do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha) que hoje é a terceira maior força no parlamento. 

A AfD é outra peça interessante nesse tabuleiro. Liderada pelo polêmico Alexander Gauland (prêmio Nobel em falhar em não soar como nazista), é a voz dos que criticam a guinada ao centro da União Democrata-Cristã (partido de Merkel, historicamente conservador), a política de imigração e dos que simplesmente não gostam de um negro como Boateng na sua seleção. 

Em mundiais, a seleção alemã é uma das mais tradicionais, com quatro títulos (1954, 1974, 1990 e 2014). Além disso, é a que mais chegou à final, em oito ocasiões.

México

E se te contassem que, em um país nas Américas, as eleições se aproximam e pesquisas indicam que o favorito é um demagogo, ativo nas redes sociais, populista, que defende a truculência policial e fala contra as reformas e corrupção do governo neoliberal atual? E também que esse país está inquieto com a violência relacionada ao tráfico de drogas que chega, inclusive, a assassinar políticos proeminentes? Estaria preparado para chutar qual é? Não devia, esse é um cenário muito comum na política latinoamericana. Mas o país em questão é o México. 

Vamos contextualizar um pouco mais. O candidato que estamos falando é Andrés Manuel López Obrador (chamado de AMLO), ex-prefeito da Cidade do México. Ele é a figura maior do partido Morena, de esquerda. Costuma pontuar bem nas eleições presidenciais, porém sempre perde para o candidato do PRI (Partido Revolucionário Institucional; hegemônico no México). A diferença agora é a aprovação abismal do presidente Enrique Peña Nieto, do PRI. Cerca de seis em cada dez mexicanos desaprovam seu governo que, entre outras coisas, é visto como conivente nos Desaparecimentos de Iguala, quando 43 estudantes foram sequestrados no estado de Guerrero, em 2014, e não foram visto desde então. Agências internacionais acusam um trabalho conjunto da polícia com o cartel de drogas. O governo pouco fez para dar esclarecimentos à população. 

As eleições acontecerão em 1º de Julho. Os outros candidatos são Ricardo Anaya, conservador do PAN (Partido de Ação Nacional) e o centrista tecnocrata José Meade (PRI). O primeiro sendo, no momento, mais competitivo. 

Há três dias, Alejandro Chavez Zavala, candidato à reeleição como prefeito de uma pequena cidade, levou um tiro na nuca enquanto tirava selfie com seus eleitores. É o 113º político morto nesse ciclo de eleições. Obra de uma fracassada guerra às drogas que, em pouco mais de uma década, tirou a vida de mais de 80.000 mexicanos. 

Na Copa, a seleção mexicana é vista como uma seleção "chata", mas que sempre acaba entregando o ouro. Seu melhor desempenho foi nas quartas-de-final, em 1970 e 1986.

Suécia

É o terceiro país desse grupo e você já deve estar deprimido com a história do México e da Alemanha. Mas vê que é a tão admirada Suécia e dissolve a angústia achando que finalmente lerá sobre um país estável. Bem, isso é apenas meia verdade. 

Por um lado, a Suécia tem um sistema de bem-estar social invejado, baixo desemprego e economia e moeda sólidas. Por outro, um mercado de trabalho extremamente formal cujos altos salários tendem a excluir trabalhadores menos qualificados. Some isso ao enorme influxo de refugiados e o modo de vida escandinavo estará em risco. 

O resultado é, como em outras partes do mundo, o crescimento do populismo, acompanhado fatalmente da proeminência de grupos neo-nazistas agitando clandestinamente a vida política. O partido anti-imigração Democratas Suecos, ainda que não ganhe, está previsto para conquistar um quinto dos votos; desempenho superado, apenas, pelos dois partidos mais tradicionais, o Social Democrata (centro-esquerda) e o Moderado Sueco (centro-direita), com 24 e 23%, respectivamente. 

Liderados pelo jovem Jimmie Åkesson, 39, os Democratas Suecos agora tentam moderar sua imagem perante o público expulsando alguns dos membros mais polêmicos. Porém, se confirmarem o bom desempenhos na urna, em eleições marcadas para 9 de setembro deste ano, prometem ser uma oposição furiosa, e radicalizar o panorama moderado da política sueca. 

No futebol, a seleção sueca já teve bons time e galgou um segundo lugar na Copa de 1958, quando perdeu para o Brasil. Hoje, é uma seleção organizada mas que perde muito sem o seu maior jogador, Zlatan Ibrahimovic.

Coréia do Sul

Pouco se fala da Coréia do Sul. Isso é compreensível, afinal, o país vizinho é uma ditadura sanguinária que vez ou outra ameaça destruir a raça humana com suas armas nucleares. Mas, vista de perto, é bastante diferente do paraíso da tecnologia e do kpop que pensam. 

A Coréia do Sul é tanto produto quanto agente ativo da guerra fria entre as duas coreias. Para citar um exemplo, o povo sul-coreano, principalmente os mais velhos - que viveram a guerra -, é famoso por ser furiosamente anti-comunista e partidários da ideologia da segurança nacional. Exercícios militares que elevam a tensão na península são frequentemente aplaudidos. 

Uma das proponentes da ideologia da segurança era a ex-presidente Park Geun-Hye, conservadora, que foi impichada no final de 2016 devido a um escândalo de corrupção envolvendo tráfico de influência por meio de sua amiga Choi Soon-sil. A crise política e o aumento do desemprego favoreceu a figura do liberal Moon Jae-in, centro-esquerda, que obteve votação consagradora e maioria no parlamento nas eleições de 2017. 

Moon Jae-in, filho de imigrantes norte-coreanos, promete dialogar com Pyongyang e tentar chegar a uma solução diplomática para o conflito. Essa é uma visão popular entre os jovens, mas bastante controversa para os mais velhos que, em certa medida, ainda ressentem a guerra. Prestes a completar 68 (em 25 de junho), o conflito há muito cessou, no entanto, a paz não está às vistas. 

Já com a bola rolando, a seleção sul coreana não tem muita tradição fora da Ásia, onde é vista como potência. Porém conta com uma participação surpreendente na Copa de 2002. Na ocasião, foi quarto lugar e eliminou a tradicional Itália.

domingo, 17 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo E

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia 

Por L. G. Sousa

Canarinho Pistola: o retrato atual do brasileiro enfezado com a política e doído pelo 7 a 1, mas apaixonado por futebol, carismático e confiante no hexa. Foto: Reprodução/CBF

O Grupo do Brasil na Copa do Munda da Rússia é o E e, além do nosso país, ele conta com Costa Rica, Suíça e Sérvia. Quando estamos falando de futebol, existe uma grande diferença entre o Brasil e seus rivais. O Brasil é o maior campeão em Copas e participou de todas as edições até hoje, enquanto os nossos adversários nunca venceram o mundial e somam um total de 25 participações.

Acompanhe a política por por trás da bola do Brasil, Sérvia, Suíça e Costa Rica.

Brasil

No Brasil, o mal estar político domina as conversas e as discussões de bar, padaria e Facebook. O país passa por uma séria crise política desde o fim das eleições de 2014. Esse momento turbulento se agravou com a queda da ex-presidente Dilma Rousseff, em maio de 2016. O atual chefe de governo, Michel Temer, está afundado em escândalos de corrupção e amarga uma reprovação recorde: 82% de ruim ou péssimo. Depois da Copa do Mundo, o evento mais importante para os brasileiros será as eleições, em outubro. A corrida eleitoral está desfalcada por seu nome mais popular: Luiz Inácio Lula da Silva. Outros jogadores correm por fora, mas não brilham, nas pesquisas, como o ex-presidente. 

O descontentamento político da população refletiu nas expectativas dos brasileiros com o mundial. Em pesquisa do Datafolha, 53% dos brasileiros dizem não se interessar pela Copa do Mundo. O Canarinho Pistola, mascote da seleção, é o retrato de um povo descontente com a humilhante derrota por 7 a 1, na Copa passada, para a Alemanha, desconfiado com os rumos da política nacional, mas apaixonado pelo futebol.

A camisa da seleção brasileira, utilizada em 2016 como uniforme de manifestante político, novamente vestirá uma nação unida pela sua mais sincera paixão. O time canarinho é um dos grandes favoritos para levar a taça. A seleção brasileira de 2018 é muito mais coesa do que a de 2014, não estando tão dependente do Neymar, cujo o talento, obviamente é uma das grandes armas do nosso time. Marcelo, Philippe Coutinho, Willian e outros completam as estrelas da equipe, dispensando apresentações. Além disso, os comandados por Tite vêm de excelente campanha nas eliminatórias sul-americanas: o Brasil se classificou com três rodadas de antecedência. Todos acreditam que o hexa, dessa vez, está mais próximo. Vamos aguardar. 

Suíça

A Suíça, Confederação Suíça ou Confederação Helvética é o país conhecido por ser o neutro e o diplomático, e onde os políticos brasileiros gostam de sempre ter uma conta bancária. Com 26 cantões, ou seja, estados independentes, está localizada na Europa central, entre Alemanha, França, Itália e Áustria. Não existe uma língua “suíça”, assim, o país tem oficialmente quatro línguas oficiais, sendo elas o alemão, francês, italiano e a língua romanche. Em 2016, havia 8 milhões de habitantes. O seu território é menor que o próprio estado do Rio Grande do Norte. Sua capital, Berna, é a segunda cidade mais populosa do país, perdendo para Zurique, que fica no Norte, perto da fronteira com a Alemanha.

Um dos mais famosos paraísos fiscais, ou seja, regiões que, com baixíssima ou nenhuma tributação e, principalmente, por proverem total sigilo bancário, são atrativos para investidores estrangeiros. Segundo a FSI (Financial Security Index), só a Suíça corresponde a 5,6% de todo o mercado global de serviços financeiros offshore. Em maio de 2017, as autoridades do país admitiram que os bancos suíços foram utilizados para lavagem de dinheiro oriundo da corrupção brasileira. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, foram mais de 40 bancos suíços e US$ 1 bilhão estão envolvidos no escândalo.

Nossa adversária de estreia, a seleção suíça é a mais antiga do Grupo E da Copa do mundo da Rússia. Fundada em 1895, é conhecida pela qualidade de sua defesa. Nunca ganhou nenhum título de Copa do Mundo e sua melhor colocação foi na Copa 1950 do Brasil, quando chegou ao sexto lugar.

Costa Rica

País da América-Central, a Costa Rica é dividida em sete províncias, com sua capital San José localizada no centro da província de mesmo nome. Tem como um de seus maiores parceiros econômicos os Estados Unidos e segue um regime político parecido, sendo presidencialista. Sua administração é dividida em três poderes: Administrativo, Legislativo e Executivo. Abrigava em 2014 pouco menos de 5 milhões de habitantes e tem o maior índice de longevidade da América Latina com 79,9 anos, ocupando assim o 31º lugar entre os países que ocupam a lista do Fórum Econômico Mundial.

Mesmo sendo um país pequeno, abriga cerca de 5% de toda a biodiversidade do planeta. O clima é caracterizado basicamente de duas estações, a seca e a úmida, típico de regiões equatoriais. Aproximadamente um terço de todo seu território é protegido por parques nacionais e, a partir disso, o país tem como grande parte da sua economia o ecoturismo. Recebendo pessoas, em especial, dos Estados Unidos, Costa Rica tem grande parte da população com conhecimento de inglês, e pronta para receber os turistas. E tem como objetivo, anunciado em junho de 2007, zerar as emissões de gás carbônico do país até o ano de 2021.

O histórico entre as seleções do Brasil e da Costa Rica não é muito favorável para os costariquenhos. Em 10 partidas disputadas, nove vitórias para a canarinho e apenas uma para a La Sele. Na última Copa do Mundo, a Costa Rica era considerada o time mais fraco do chamado “Grupo da Morte” constituído pelos times do Uruguai,  Inglaterra e Itália. E mesmo com todos esses tubarões, a foquinha conseguiu chegar às quartas de finais.

Sérvia

País oriundo da Iugoslávia, a Sérvia tem 7 milhões de habitantes, de acordo com dados do Banco Mundial, pouco mais que a cidade do Rio de Janeiro, que tem 6,3 milhões de habitantes. É constituída por 29 distritos administrativos, a capital Belgrado e a província de Kosovo. Atualmente é administrada pela Organização das Nações Unidas e é considerada a república mais industrializada da região, usando a moeda Dinar Sérvio. Apesar de pequeno, é um país com cultura histórica e muito delicada.

Fez parte do império Austro-húngaro e é preciso salientar que foi um sérvio, Gravilo Princip, ligado a um movimento nacionalista, que ocasionou o evento que serviu como estopim para a Primeira Grande Guerra Mundial. O envolvimento dos sérvios na Primeira Guerra foi só o primeiro de muitos conflitos que viriam a seguir. Enquanto a Iugoslávia ainda existia, ouve algo que poderíamos chamar de estabilidade política na região, devido ao regime socialista “não-alinhado” à URSS e ao ditador Josip Broz Tito, que reprimia as tentativas qualquer de movimento nacionalista que pudesse existir. Porém, com a crise do bloco socialistas, e com a morte de Tito, as divergências do passado voltaram à tona e a Iugoslávia tinha seus dias contados.

Guerra por guerra, as repúblicas que constituíam a Iugoslávia foram ganhando a independência. As repúblicas da Sérvia, Bósnia e Croácia entraram em conflito durante a década de 90. Em uma tentativa de impedir independências por parte do governo sérvio, e com cada uma das repúblicas tentando conquistar seus territórios, a guerra resultou em cerca de 100 mil mortos e mais de 2 milhões de refugiados. Em fevereiro de 2003, a Iugoslávia deixou oficialmente de existir, dando origem a um país conhecido como Sérvia e Montenegro. Três anos depois, com uma votação ocorrida no território que hoje é conhecido como Montenegro, houve uma votação que ocasionou em outra separação, assim originando os Estados independentes de Sérvia e de Montenegro.

A Sérvia participou na Copa do Mundo 11 vezes, tanto como Iugoslávia quanto como país unificado com Montenegro. Jovem seleção possui a base do time campeão do mundial sub-20, em 2015. A média de idade dos jogadores é entre 23-26 anos. Dos 27 pré-convocados, nove deles tem até 23 anos. O treinador sérvio, Mladen Krstajić, está apostando na personalidade de sua seleção.

sábado, 16 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo D

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia 

Por Maria Clara Pimentel 

Na política e nos gramados, a Argentina de Macri tenta mostrar a sua força. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

O grupo D da Copa da Rússia está recheado de países cultural, econômica e politicamente distintos. Há a Argentina, passando por crise financeira desde o começo do ano, e, ao mesmo tempo, a Croácia, que é o último país a se tornar membro da União Europeia. Além disso, existe a Islândia, considerada o primeiro país em igualdade de gênero, concomitante à Nigéria, cujo próprio presidente clama que o lugar de sua esposa “é na cozinha”.

Confira agora fatos interessantes, características políticas e como chegam ao mundial de 2018 as seleções da Argentina, Islândia, Croácia e Nigéria.

Argentina

O tango, o futebol e a literatura são o que basicamente definem os nossos hermanos. E a Argentina - mesmo que não gostemos muito disso - tem muito a ver com o Brasil. Um clima diferente para cada região do país, a religião majoritariamente católica e o fato de ser um grande exportador de commodities justificam a comparação. Além disso, o país mais ao sul do continente americano, berço da personagem de tirinhas Mafalda, tem um sistema de governo muito parecido com o brasileiro, sendo uma democracia representativa e república presidencialista e constitucional. Os argentinos possuem grande apreço pela política, tanto é que é possível encontrar cervejas como a Evita (nome da primeira-dama do ex-presidente Perón), Montoneros (em homenagem a um grupo guerrilheiro dos anos 70) e Double K (tributo aos ex-presidentes Cristina e Néstor Kirchner).

O atual presidente argentino, Mauricio Macri, tem a maior impopularidade desde o começo do seu mandato - em dezembro de 2015 - com imagem negativa somando 62,7%, de acordo com pesquisa feita pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP). O país atualmente passa pela pior seca dos últimos 40 anos, teve sua moeda perdendo 22 pontos de seu valor e as taxas de juros subiram em 40%. A medida de Macri para voltar a respirar - a concessão de ajuda financeira pelo Fundo Monetário Internacional - é reprovada por 77% da população. Os argentinos têm más lembranças dos auxílios que o FMI ofereceu nas últimas décadas, em especial no ano de 2001, que culminou na maior crise do país.

Com tradição em mundiais, a Argentina vem para a sua 17ª participação. A seleção que quase não se classificou para disputar a competição na Rússia - salva apenas pelo seu grande nome, Lionel Messi - é bicampeã no mundial. Além disso, os nossos vizinhos têm um certo vício no número "dois”, tendo ficado em segundo lugar dezenove vezes em torneios oficiais (continentais ou mundiais) - mais que qualquer outro país. Três desses vices foram em Copas do Mundo, inclusive a de 1990, quando ocorreu o caso da “água batizada” numa partida contra a seleção do Brasil. Em meio a disputa pelas oitavas-de-finais, o massagista da seleção argentina forneceu uma garrafa d’água com sonífero ao lateral brasileiro Branco, que passou mal durante o jogo. Afinal, os hermanos também sabem ser malandros.

Islândia

A Islândia é um país nórdico europeu situado no Atlântico Norte, possui um Índice de Desenvolvimento Humano altíssimo e uma expectativa de vida de 90 anos - proporcionando, assim, um dos melhores padrões de vida do planeta. O país tem como principal atividade econômica a pesca, responsável por grande parte das exportações - a agricultura, em contrapartida, é muito pouco desenvolvida, pelo fato de apenas 1% do território ser próprio para cultivo. A ilha, que não tem loja do McDonald’s e não tem exército, é o primeiro país do mundo a obrigar as empresas a propiciar igualdade salarial para homens e mulheres. O sistema de governo islandês, além disso, é uma república parlamentarista constitucional, e sua primeira-ministra, Katrín Jakobsdóttir, no cargo desde o ano passado, defende a expansão do sistema público de saúde islandês.

O país, com décadas de governos conservadores, adotou políticas neoliberais no começo do século XXI. Privatizou seu sistema bancário, adotou impostos mínimos sobre o capital e desregulamentou inteiramente as relações de trabalho. Sucedeu-se então a crise financeira de 2007/2008, na qual a Islândia foi um dos primeiros países a quebrar. O desemprego cresceu, as pessoas foram às ruas e o governo caiu. A instabilidade do país resultou na confecção de um referendo sobre a nova Constituição a ser adotada. Os bancos quebrados foram nacionalizados, as dívidas dos empreendedores foram renegociadas e a quebradeira em outros países europeus não conseguiu chegar à Islândia. O país se recuperou.

A Rússia este ano é a sede da primeira participação da Islândia na Copa do Mundo, e o país vê o seu jogo de estréia, hoje, 16/06, como a maior partida da história do seu futebol, de acordo com o técnico da seleção, Heimir Hallgrímsson. O país, que é o menor do mundo em população a se classificar para o mundial, levou um quinto da nação a comprar passagens para a Rússia - o sentimento de vitória já é sentido por só chegar lá. Há dois anos, a seleção islandesa que surpreendeu na França e alcançou as quartas de final da Eurocopa, hoje é considerada uma das 20 melhores seleções no ranking da Fifa. Os chamados “vikings” só pretendem continuar o trabalho duro e mostrar ao mundo seu crescimento e regularidade no futebol.

Croácia

O país que é uma das repúblicas mais desenvolvidas da ex-Iugoslávia, situada na Península dos Balcãs (no leste europeu), é impulsionado economicamente pelos setores da indústria e serviços - sendo o turismo a grande fonte de renda, graças, especialmente, às suas 1.135 ilhas. O sistema de governo é uma república parlamentar democrática, dividida, como o Brasil, em 3 poderes. Quem rege e representa o país, dentro e fora dele, são o chefe de governo (primeiro-ministro) e o chefe de Estado (presidente). Sendo um dos países com maior número de pontos turísticos declarados como patrimônios da humanidade pela UNESCO, as belas paisagens da Croácia podem ser observadas na série Game of Thrones, principalmente pelas ruas de Dubrovnik.

Algumas tentativas de política mais progressistas vêm se intensificando no país que já fora pró-fascista. Em setembro de 2014, uma lei concedeu algumas igualdades de direitos aos casais gays da Croácia - deixando de lado somente os direitos de obtenção do nome do cônjuge e de adoção de crianças. No ano passado, após um tribunal reconhecer a lei do aborto instituída em 1978 como inconstitucional, a Corte exigiu que o Parlamento mude a legislação até o próximo ano. Além disso, nos últimos meses, grupos antidireitos do país tentam impedir a assinatura croata na Convenção de Istambul, que luta e previne a violência sexista. A Croácia, que entrou na União Europeia em 2013 (depois de oito anos de espera), talvez esteja tentando se assemelhar aos seus novos companheiros de bloco. Aliás, a presidente Kolinda Grabar-Kitarović, em cargo desde 2015, se considera bastante aberta ao capital estrangeiro - com sorte, ela não se restrinja apenas à economia.

No ano de 98 começou a história da Croácia em Copas do Mundo. Na realidade, os croatas participaram outras vezes, mas como a FIFA e a UEFA só reconhecem a Sérvia como única sucessora da Iugoslávia, esses são os dados noticiados. De onde começou quase não mais parou: vai para a sua quinta participação no campeonato e, desde que começou, só não esteve presente na África do Sul. Abriu suas atuações na Copa com chave de ouro: ficou em terceiro lugar no mundial da França. No entanto, não teve tanta sorte em suas seguintes aparições: não passou da primeira fase nas Copas de 2002, 2006 e 2014. Mais sorte ao país de toalha de piquenique desta vez.

Nigéria

A Nigéria, localizada no oeste do continente africano, tem como língua oficial o inglês - além de haverem outros dialetos regionais - e tem sua população bem dividida religiosamente: cerca de 50% pratica o islamismo, 40% o cristianismo e os 10% restantes possuem outras crenças nativas. O país é cheio de controvérsias - é a segunda maior economia da África, mas sofre com inúmeras mazelas sociais e carece de infraestrutura. O que ocorre é que, mesmo possuindo a décima maior reserva de petróleo do mundo, a corrupção se apropria de parte das riquezas naturais do povo nigeriano. O país é uma república constitucional, federal e presidencialista, cujo chefe de Estado é, desde maio de 2015, Muhammadu Buhari.

O país viveu anos de terror com a presença do grupo extremista Boko Haram, criado em 2002, o qual visava construir um califado no nordeste nigeriano. Os fundamentalistas chegaram a matar cerca de 20 mil pessoas e a deslocar dois milhões em seus oito anos de atividade. Longas e complexas discussões foram travadas entre o governo e o grupo islâmico para que somente as 21 primeiras crianças fossem soltas dois anos depois da captura - sendo algumas outras até hoje inlocalizáveis. Além disso, mulheres e crianças sobreviventes à dominação do Boko Haram também foram violentadas pela própria força de segurança nigeriana - com a justificativa de estarem supostamente relacionadas ao grupo terrorista -, de acordo com documento apresentado pela Anistia Internacional.

A Nigéria chega na Rússia para a sua sexta participação em Copas do Mundo. Em sua primeira atuação no mundial, no ano de 94, os nigerianos brilharam e conquistaram a 9ª colocação no campeonato. Quatro anos depois, em território francês, conseguiram sua primeira vitória em uma partida na Copa. Nigéria e Espanha: 3 x 2. Também ganhou da Bulgária por 1 x 0, mas contra o Paraguai não teve jeito: levou de 3 x 1. Passou para as oitavas-de-final, mas terminou a melhor época de seu futebol em um jogo contra a Dinamarca, quando perdeu por 4 x 1. A partir daí, só conseguiu passar às oitavas de novo na última Copa (só para perder de 2 a 0 para a França): ficou em quarto lugar da primeira fase no mundial de 2002 e em terceiro no de 2010.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo C

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia 

Por Luiz Gustavo Ribeiro

A França, de Emmanuel Macron, é uma das grandes favoritas da Copa. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

O Grupo C da Copa do Mundo é um dos mais equilibrados do torneio. De um lado, a tradicional França vem para a sua 15ª participação. Do outro, Austrália, Dinamarca e Peru chegam à sua 5ª aparição em mundiais. Fora das quatro linhas, cada país carrega um fator único na política, sistemas de governo distintos, momentos políticos e sociais diversos e peculiaridades únicas. 

Acompanhe a política por trás da bola de França, Austrália, Peru e Dinamarca, além de uma uma avaliação sobre como as seleções chegam ao mundial. 

França

A política sempre marcou a história dos franceses. A transição do século XVIII para o século XIX ficou conhecido por anos turbulentos e controversos. Primeiro aconteceu a Revolução Francesa, um marco de muito impacto político e social que acabou com a monarquia no país. Anos depois, com um golpe militar, Napoleão Bonaparte toma o poder, se auto proclama imperador e se torna um dos maiores nomes da história do mundo. Hoje a França é uma república semi-presidencialista e conta os três poderes - executivo, legislativo e judiciário.

O sistema de governo divide entre dois dirigentes. Eleito no último ano, o atual chefe de estado e presidente é Emmanuel Macron, foi o mais jovem a assumir o cargo - com 39 anos na época. O Governo é liderado pelo primeiro-ministro Edouard Philippe, nomeado por Macron. A república francesa é caracterizada por ser laica, indivisível, democrática e social pela Constituição da Quinta República Francesa, vigente desde 1958. Além disso, a França participa do G8 e é a quinta maior economia do mundo. 

No mundo do futebol, os franceses dão o que falar em diversos sentidos. Craques como Just Fontaine, Zinedine Zidane, Thierry Henry e Michel Platini marcaram a história das Copas, esse último rende até hoje, mas não da forma que deveria. Fora dos campos, Platini se envolveu em diversos casos de corrupção na FIFA, foi banido do futebol de todas as suas atividades relacionadas por oito anos. Além disso, ele revelou que no sorteio da Copa de 1998 da França, houve um “pequeno truque” para que os donos da casa só cruzassem com o Brasil nas finais, como de fato aconteceu. 

Para a Copa do Mundo de 2018, a França chega como uma das favoritas ao título. Após o título mundial em 1998, os franceses decepcionaram nas edições de 2002 e 2010, eliminados na primeira fase, bateram na trave com o vice-campeonato em 2006 e caíram nas quartas em 2014. Vice-campeã europeia em 2016, a nova geração francesa é liderada pelo atacante Antoine Griezmann e conta com grandes nomes como Paul Pogba e Kylian Mbappe.

Austrália

Localizada na Oceania, a Austrália ocupa a maior parte do continente conhecido geograficamente como Novíssimo Mundo. O governo na terra dos cangurus é uma monarquia constitucional. O país segue o parlamentarismo com a Rainha Elizabeth II como chefe de estado, a Austrália é uma das nações que figuram os Reinos da Comunidade de Nações. 

Como a rainha reside no Reino Unido, o governo federal está dividido entre os poderes judiciário, legislativo e executivo. Recentemente, os australianos anunciaram um boicote diplomático à Copa da Rússia, assim como o Reino Unido, o país culpa Moscou pelo envenenamento do ex-espião russo Serghei Skripal em terras britânicas. Além das peculiaridades políticas, a Austrália se destaca por sua fauna exótica, sendo o local com mais diversidade de répteis do mundo, logo, é o habitat de diversos animais perigosos, como o caso de algumas das cobras mais venenosas do mundo, sem contar com os simpáticos cangurus e coalas.

Representando a Ásia no grupo - você não leu errado - os australianos chegam a sua quinta participação em copas. A mudança ocorreu para evitar o futebol de nível “amador” da Confederação de Futebol da Oceania (OFC), a Austrália evoluiu seu futebol de forma que deixou os vizinhos para trás, migrando assim para a confederação asiática. Na terra de esportes como rugby e críquete, os australianos vão para a Rússia sob o comando de seu maior ídolo, o veterano Tim Cahill de 38 anos, que pode se igualar a Pelé e Klose, sendo um dos poucos jogadores a marcar pelo menos um gol em 4 copas seguidas. 

Peru

A terra das icônicas lhamas. O Peru também abrigou o Império Inca, a maior civilização da América pré-colombiana e no século XVI, foi elevado a vice-reinado pelo Império Espanhol. Atualmente, o governo do Peru é bem semelhante ao brasileiro, com voto obrigatório e o presidente é o chefe de governo e de estado, porém apresenta um congresso unicameral. 

O atual presidente do país é Martín Vizcarra, que assumiu este ano após a forte crise política que impulsionou a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski. Durante seu mandato, PPK enfrentou uma das crises mais delicadas da história peruana, com greves e protestos em todo o país. Além disso, o ex-presidente teve seu nome ligado a casos de corrupção, como o “Caso Odebrecht”.

No futebol, a confusão se transformou em alegria. Após 36 anos, os peruanos estão de volta a Copa do Mundo. Após surpreender nas eliminatórias, deixando seleções tradicionais no torneio, como Chile e Paraguai, para trás, o Peru conquistou a vaga na repescagem contra a Nova Zelândia. Após o susto e o caso de doping, o país vai contar com sua principal estrela, o atacante Paolo Guerrero, um dos maiores ídolos da história do futebol peruano. 

Dinamarca

O reino nórdico que é sinônimo de qualidade de vida, a Dinamarca é dos países conhecidos escandinavos. Constituído por uma monarquia constitucional, o país adota o sistema parlamentar de governo. Atualmente, a Rainha da Dinamarca é Margarida II, enquanto o primeiro ministro do país é Lars Lokke Rasmussen. 

Segundo a revista Forbes, a Dinamarca é “o lugar mais feliz do mundo”, devido ao bem-estar, assistência social e a qualidade da saúde e educação. Líderes em igualdade social, os dinamarqueses conseguem distribuir bem sua renda entre a população e, além disso, a Dinamarca foi classificada como o país menos corrupto do mundo e o segundo mais seguro, atrás apenas da Nova Zelândia.

Na Copa da Rússia, o país vai tentar recuperar a boa confiança dos tempos da “Dinamáquina” que consagraram a equipe na década de 1990, período em que faturou a Eurocopa (1992) e a Copa das Confederações (1995). Em sua quinta copa, os dinamarqueses contam com a habilidade e todo o talento de seu principal jogador, o meia Christian Eriksen, do Tottenham, da Inglaterra, que age como cérebro do esquema tático bem disciplinado do treinador Age Hareide.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Política por Trás da Bola: Grupo B

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia 

Por Vinícius Veloso 

Craque Eusébio, de Portugal, com a bola. O aiatolá Ali Khamenei, do Irã, e Luis VI, da Espanha, logo atrás. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

A Copa do Mundo chega para mais uma edição. Agora na Rússia, o grupo B do Mundial conta com duas forças da Europa (Portugal e Espanha), Ásia (Irã) e África (Marrocos). Favoritos para avançar às oitavas de final da competição, os dois países ibéricos precisam encarar o futebol marroquino e iraniano, considerados de pouca tradição, no entanto, zebra sempre é algo presente na Copa, então, todo cuidado é pouco. Fora das quatro linhas, o clima político é bem diferente entre as nações, desde a presença de reis a figura de aiatolás, cada país carrega sua particularidade quando o assunto é a sua configuração política.

Diante disso, confira as características políticas e futebolísticas do Grupo B da Copa da Rússia.

Portugal 

Pioneiro durante o período das Grandes Navegações, Portugal possui posição privilegiada no velho continente. Fazendo fronteira com a Espanha e tendo a costa banhada pelo Oceano Atlântico, o país de quase 11 milhões de habitantes é um dos mais antigos da Europa. A economia voltada à agropecuária, indústria têxtil, turismo e mineração é um dos pilares de desenvolvimento econômico do país. De população extremamente cristã, Portugal é visto como um dos bons lugares para se viver devido o bom IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e a referência em educação, a exemplo das Universidades. 

Apesar de ter vivido momentos temerosos durante o século XX por causa do Salazarismo (1932-1976), imposto por António Salazar e continuado com Marcelo Caetano, o regime perdeu espaço para a Revolução dos Cravos - movimento democrático e popular que derrubou o autoritarismo português. Desde então, Portugal vigora como República Semipresidencialista, na qual há o Chefe de Estado, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, e o Chefe de Governo, o primeiro-ministro António Costa. Isso significa que o regime reúne elementos do presidencialismo e do parlamentarismo. O presidente representa o país no exterior e comanda as Forças Armadas, além de nomear membros para o alto escalão do Governo e ministros para setores específicos. O primeiro-ministro tem um protagonismo mais parlamentar, verifica o cumprimento das leis e acompanha o resultados cotidianos de Portugal. Neste contexto, o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário também constroem a política portuguesa, moldando a discussão de projetos, elaboração de leis e execuções das penas. Homens e mulheres votam em Portugal por meio de eleições diretas mediante sufrágio universal, ou seja, o povo escolhe seus representantes. 

Bem como a Espanha, Portugal também passou por dificuldades econômicas na crise global de 2008. O alto déficit público, desemprego em níveis alarmantes, subida de preços de produtos e endividamentos externos devido a empréstimos no FMI e Banco Central, fez com que Portugal entrasse no PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) - termo inglês criado para esses conjunto de países que se encontravam em situação de vulnerabilidade econômica e déficit público. Por causa da grave crise, o país europeu teve que reformular estratégias para combater a alta inflação, que aos poucos foi sendo controlada. 

A equipe portuguesa participa de sua sétima Copa do Mundo (1966, 1986, 2002, 2006, 2010 e 2018). Seleção forte e de muita tradição, Portugal ainda conta com o talento de Cristiano Ronaldo, considerado cinco vezes o melhor jogador de futebol do mundo ao lado de Lionel Messi, que também carrega essa marca. Atual campeão da Eurocopa, os portugueses tentam conquistar o tão sonhado título da Copa do Mundo. E em duas ocasiões estiveram próximos do feito: a primeira em 1966, terminando em 3º lugar e, 40 anos depois, na Copa da Alemanha (2006), ficando em 4º lugar e perdendo por 3 a 1 justamente para os donos da casa. Mas para levantar a taça, a seleção precisa apagar o último desempenho feito em 2014, quando foi eliminada na 1ª fase da competição com uma vitória e um empate. Para isso, leva à Copa, além do craque Cristiano Ronaldo, outros conhecidos do mundo da bola, como Quaresma, João Moutinho e Pepe com o objetivo de faturar mais uma taça para a Seleção de “Quinas”. 

Espanha

Localizado na Península Ibérica, a Espanha possui população de aproximadamente 46 milhões de habitantes e tem como capital Madrid. Faz fronteira com Portugal, Andorra e França, sendo um dos países europeus mais próximos da África, devido a conexão do estreito de Gibraltar entre os dois continentes. A língua oficial é o espanhol, conhecido também como castelhano, mas em outras partes do país - Catalunha - o idioma é o catalão. Os principais setores econômicos são a agricultura, finanças (bancos), indústria e turismo. A moeda de circulação é o euro.

Depois de vivenciar uma Guerra Civil (1936-1939) e o franquismo do ditador Francisco Franco que durou 36 anos, o sistema político espanhol se sustenta em uma Monarquia Constitucional hereditária, com o rei Felipe VI e uma democracia parlamentar instaurada em 1978. De acordo com a Carta Magna espanhola, o Rei é o chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas. Ele também está incumbido de nomear o Presidente do Governo espanhol, ministros e outros membros do alto escalão da Espanha. O contexto político é dividido em Poder Executivo, Legislativo e Judiciário. O primeiro é onde se encontra o Rei, presidente e demais representantes, o segundo, a Câmara dos Deputados e o Senado, por último, juízes e magistrados. O multipartidarismo se faz presente na Espanha, porém, boa parte dos políticos que ocupam as cadeiras do Parlamento e do Senado, são do PP (Partido Popular), PSOE (Partido Socialista dos Trabalhadores Espanhóis) e o Podemos. 

Recentemente, houve toda uma mobilização na Espanha devido ao pedido de separação da Catalunha. Os catalães reivindicam maior autonomia e o reconhecimento da República catalã. Nesse período de turbulência política, a Catalunha se declarou independente, entretanto, o governo espanhol, que até então era presidido por Mariano Rajoy, não reconhecia o estado catalão. Hoje, o presidente é Pedro Sánchez, que tomou posse depois de Rajoy ser destituído do poder. Seu maior desafio é estabelecer novos laços com a Catalunha. Além desse esforço de apaziguar as tensas relações políticas, o Governo espanhol tenta se recuperar desde 2008 da crise econômica que assolou vários países do mundo. As enormes dívidas, diminuição do PIB, desemprego e empréstimos ao Banco Central e FMI, atrelados a outros desequilíbrios financeiros, fez com que o país entrasse no grupo dos PIIGS - conjunto de países em vulnerabilidade econômica, citado anteriormente. 

A Espanha vai para sua 15ª edição de Copa do Mundo. Dessas edições venceu apenas uma vez, que foi em 2010, na África do Sul. A conquista veio contra a Holanda; em um jogo memorável, Andrés Iniesta, garantiu o título para a Fúria. No entanto, na Copa seguinte, a Espanha não conseguiu repetir a façanha do Mundial passado, logo na estreia foi goleada pela Holanda: 5x1. No jogo seguinte, perdeu para o Chile por 2 a 0 e só venceu a última partida: 3 a 0 contra a Austrália, mas não tinha mais chances de classificação. Quatro anos se passaram e o foco é levantar a segunda taça. Um fato curioso é que o Julen Lopetegui, até então técnico da seleção na Copa, foi demitido nesta quarta-feira (13), após ter sido nomeado como novo técnico do Real Madrid, o que desagradou membros da Federação Espanhola. Agora a Fúria será comandada pelo ex-jogador Fernando Hierro.

Marrocos 

O país do noroeste da África, com capital em Rabat, possui aproximadamente 32 milhões de habitantes e a língua oficial é a árabe. Boa parte da população é islâmica, cerca de 98%. A economia é voltada à agropecuária, mineração, turismo e indústria têxtil. Mas o que mais se destaca é o contexto político, dividido entre poder executivo, legislativo e monárquico.

O país vive uma política de parlamentarismo e monarquia ao mesmo tempo, sendo que o primeiro-ministro é escolhido para chefiar o Conselho de Governo que discute políticas públicas e setoriais com a Câmara dos Representantes (parlamentares) e traça questões envolvendo os direitos humanos, educação, segurança, saúde e projetos de leis. Além disso, o Conselho de Ministros, outro órgão importante do País, é presidido pelo Rei Mohammed VI (desde julho de 1999, cargo hereditário) e conta com diversos ministros das demais áreas de desenvolvimento do país, adotando medidas destinadas a estratégias militares, anistias e revisões da Constituição. Mesmo com essas duas esferas de poder, tudo acaba passando pelas mãos do monarca depois dos assuntos serem debatidos no Parlamento. O Parlamento é dividido em duas “casas”, a Câmara dos Representantes e a dos Conselheiros. Os parlamentares podem propor leis e votá-las, mas para serem aprovadas devem ter o parecer das duas Câmaras. O sistema é multipartidário, tendo partidos de centro, esquerda e direita. 

Após 20 anos longe da Copa do Mundo, a seleção marroquina volta a disputar novamente o Mundial. A equipe é uma das representantes do continente africano, juntamente com Senegal, Nigéria, Tunísia e Egito. O país vai para sua 5ª edição de Copa (1970, 1986, 1994, 1998 e 2018) que ainda conta com Espanha, Irã e Portugal. A melhor participação do Marrocos foi na Copa de 1986, quando liderou o grupo F (Inglaterra, Polônia e Portugal), com uma vitória e dois empates e chegou às oitavas de final, mas acabou derrotada pela Alemanha Ocidental por 1 a 0. 

Irã

O país asiático localizado no Oriente Médio, possui aproximadamente 80 milhões de habitantes. A língua oficial é a persa e tem como religião principal o Islamismo. Teerã é a capital do País que tem o Rial como moeda de maior utilização. A economia iraniana é voltada para a produção e exportação de petróleo, o que faz do Irã ser uma das potências na extração do recurso. Mas não é o único setor de interesse econômico, a indústria têxtil e a procura por especiarias, como temperos e frutas secas, a produção agrícola e pecuária também chama a atenção do público afora. No entanto, a República do Irã, sofre pelas condições climáticas e escassez de recursos hídricos, fazendo com que a água seja um fator de luta e sobrevivência. O país é visto como ameaça para alguns países, a exemplo dos Estados Unidos, devido ao seu programa nuclear e a questão petrolífera.

O sistema político se baseia em uma relação complexa que envolve Democracia moderna e Teocracia islâmica. O líder supremo do país é um aiatolá, que atualmente é Ali Khamenei, desde 1989. O aiatolá indica o Presidente do Poder Judiciário, nomeia ministros e membros para o Conselho dos Guardiães (órgão composto por seis teólogos e seis juristas), representantes das Forças Armadas e os responsáveis pelos serviços de comunicação do País (rádio e TV principalmente). Além disso, há eleições diretas, a população vota em um determinado candidato à presidência e o chefe máximo confirma ou não o pleito. 

Eleito o presidente, este passa a controlar o Poder Executivo, com objetivo de regir o que está contido na Constituição. Mas, seu poder é limitado pelo aiatolá e pelo Conselho dos Guardiães que controlam o Poder Legislativo (Parlamento). Nas eleições, homens e mulheres podem votar, porém, devem ser nascidos no País e ter idade mínima de 15 anos para realizar o ato. Os representantes escolhidos para os três poderes, ficam em um mandato de oito anos. 

O Irã participa pela quinta vez da Copa do Mundo (1978, 1998, 2006, 2014 e 2018) e busca, mais uma vez, conseguir a classificação inédita para às oitavas de final, já que nunca passou da 1ª fase. É considerada uma das melhores seleções da Ásia, mesmo não tendo feito uma boa campanha em 2014, quando terminou em último lugar no grupo F (Argentina, Bósnia e Nigéria) com apenas um empate. A melhor participação no Mundial foi em 1998, na França, quando derrotou os EUA por 2 a 1. Essa vitória, que foi a única até agora em Copas, teve um valor simbólico muito forte. Naquela ocasião, tensões diplomáticas entre os dois países se faziam presente extra-campo, devido a tomada da embaixada norte-americana em Teerã e a Revolução Islâmica instaurada pelo Xá Reza Pahlevi anos antes que culminou na política dos aiatolás. Em meio a esse passado turbulento, o Irã pretende mostrar um bom futebol na Rússia.