domingo, 30 de setembro de 2018

Atos do movimento “Ele Não” tomam as ruas do país e do mundo

Municípios de todos os estados brasileiros receberam as manifestações contra Jair Bolsonaro 

Por Kamila Tuenia e Marco Veppo 

Mulheres, meninas, rapazes, LGBTs, negros e negras, senhoras, crianças, pessoas de todas as classes e de diferentes expressões políticas estiveram ontem (29) reunidos por um só grito. O movimento Mulheres Unidas Contra Bolsonaro fez ecoar nacional e internacionalmente nas ruas a hashtag #EleNão que nos dias anteriores tomou grandes proporções nas redes sociais. 

A campanha surgiu da organização virtual de mulheres em um grupo na rede social Facebook, que em pouco tempo já contava com milhões de participantes. Elas se mobilizaram para ocupar as ruas não só contra Jair Bolsonaro, mas contra o fascismo, o conservadorismo e o preconceito que ele e seus eleitores têm demonstrado. 

Em Natal, um dos cruzamentos mais movimentados nunca esteve tão cheio - não eram carros que passavam, eram mulheres. Com seus balões lilás, bandeiras de diversos movimentos, cartazes, batucadas e palavras de ordem, deram cor e voz ao movimento que contou com cerca de 12 mil pessoas, estimadas pela organização. O shopping mais movimentado da cidade, Midway Mall, foi ocupado pelos manifestantes por um tempo, já que as ruas estavam tão cheias que se tornava difícil de transitar. A manifestação foi pacífica e não foram registradas ocorrências de qualquer ação violenta ou desrespeitosa. 

Manifestação do movimento Ele Não em Natal/RN, 29 de Setembro de 2018. Foto: Portal Macaíba no Ar

A multidão gritava “Ele Não” repetidamente e cantava a paródia da canção “Bella ciao”, símbolo da resistência italiana contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Diziam “Somos mulheres, a resistência, por Brasil sem fascismo e sem horror, vamos à luta pra derrotar o ódio e pregar o amor”, fazendo arrepiar os e as manifestantes presentes. 

Para Alna Atena, estudante do IFRN, o candidato do PSL não a representa por ser LGBTfóbico, machista e racista. “Eu sou a primeira mulher trans a se formar no curso de Multimídia do IFRN, se dependesse dele, isso jamais aconteceria, eu aqui hoje pra fortalecer essa causa e para lutar por todos aqueles e aquelas que sofrem opressão todos os dias”, conclui. 

Historicamente, as mulheres protagonizam os movimentos políticos e de resistência aos retrocessos, como relembra Isolda Dantas, vereadora de Mossoró e candidata a deputada estadual: “Em 2015, quando nós mulheres ocupamos as ruas de Brasília com a Marcha das Margaridas chamando o Fora Cunha, já sabíamos que ele era uma grande ameaça a democracia. E mais uma vez nós percebemos o risco que é o avanço do fascismo e do conservadorismo, então cabe a nós mulheres feministas e de luta, tomar a frente dessa batalha e vencer, derrotando o machismo e o patriarcado”. 

Mossoró também registrou um dos maiores atos do estado, reunindo cerca de 3 mil pessoas na caminhada da Praça do Pax ao Teatro Dix-Huit Rosado. Para a militante da Juventude do PT, Letícia Cely, esse foi um momento histórico e de extrema importância: “Isso mostra o quanto nós somos protagonistas desse movimento, o quanto as mulheres são vanguardistas em dizer não ao fascismo, ao machismo, racismo e a homofobia”. 

Ela afirma ainda que é extremamente preocupante que Bolsonaro seja o primeiro nas pesquisas eleitorais. “Ele diz que temos que receber menores salários que homens porque engravidamos, que crianças que são criadas por mães e avós tendem ao mundo do crime, e tenta aprovar um PL que retira o nosso direito de ser atendida pelo SUS em caso de abuso sexual. Por tudo isso que dissemos não nas ruas e diremos novamente nas urnas”, disse. 

O movimento que reuniu milhões de pessoas no país e no mundo inteiro. Segundo o DATAFOLHA, Jair Bolsonaro lidera as recentes pesquisas de intenção de voto para o primeiro turno, com 28%, seguido por Fernando Haddad, do PT, que tem 22%. 

Portugal 

Manifestação em frente à igreja do Carmo. Foto: Cibelle Moreira

Fora do país, as manifestações contra o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro também ocorreram. Em Porto, Portugal, mulheres se reuniram na praça Fonte dos Leões, próxima à Igreja do Carmo, um dos pontos turísticos da cidade. Elas gritavam “Ele Não” e mantinham seus cartazes de protesto à mostra. Além de menções contra alguns pronunciamentos homofóbicos e racistas do candidato, as mulheres citaram e defenderam movimentos indígenas. Houve, também, manifestação à favor do ex-presidente Lula. 

Organizado nas redes sociais, o protesto começou por volta das 15h, horário local. Contou com brasileiros e portugueses e, segunda a polícia, cerca de 250 pessoas estavam presentes. 

Para Ariane Meireles, ex-moradora do Porto, o candidato representa tudo de pior: “Nós sabemos que precisamos nos unir muito. As mulheres precisam se juntar, porque não está fácil.” Ela também comenta que, negros e LGBT’s são os grupos que mais irão sofrer, caso Jair Bolsonaro se eleja. 

"Mulheres: aquela fonte de resistência que você respeita!" Foto: Cibelle Moreira

Algumas personalidades estavam presentes na manifestação. Foi o caso de Fátima Guedes, ex-presa política na época da ditadura militar no Brasil. Ela conta que sofreu no sangue, na alma e no corpo o processo da ditadura. “Para mim tortura nunca mais. O Bolsonaro representa o fascismo, com sua pobreza de caráter.” Quando questionada sobre o porque de fazer uma manifestação mesmo fora do Brasil, ela responde: “Eu costumo dizer que minha memória recusa esquecer a dor da tortura. Eu não esqueço. Por não esquecer eu me mantenho na luta".

Houve também protestos na capital Lisboa. Além de Portugal, os protestos ocorrem em Nova York, Londres, Lisboa, Barcelona e Cidade do México.

sábado, 29 de setembro de 2018

José Dirceu: “Quem apoia a ditadura militar não pode ser uma opção democrática para o Brasil”

Ex-ministro de Lula roda o país divulgando sua obra autobiográfica 

Por Kamila Tuenia e Yuri Gomes

José Dirceu fala sobre seu livro em Natal. Foto: José Aldenir

O ex-chefe da Casa Civil no primeiro mandato Lula, José Dirceu, 72, esteve em Natal na última segunda-feira (24), para lançar seu livro autobiográfico “Zé Dirceu - Memórias volume 1” (554 p.p./Geração Editorial). O lançamento ocorreu no Bar Cultural Acabou Chorare, localizado em Ponta Negra, e contou com uma longa sessão de autógrafos, além de um breve discurso do também ex-presidente do PT. 

Pouco depois que chegou, próximo das 18h, Dirceu subiu ao palco e foi saudado pelos presentes. Agradeceu a todos, de braço levantado e punho fechado, marca do ex-guerrilheiro, que fez o gesto quando foi preso em 2013. “Lula livre!” falaram as primeiras palavras de ordem do público. Dirceu logo repreendeu, carinhosamente, levantando o indicador do mesmo punho outrora cerrado: “Haddad presidente!”. A plateia atendeu o pedido. 

“Escrevi essas memórias por uma razão muito especial, que vocês já sabem: minha filha”, contou Dirceu. Em seguida lembrou das queixas da filha caçula, Maria Antônia, 8, que reclamou quando ele foi preso, pela segunda vez, em 2015, pela Lava Jato, e não se despediu dela. 

Em outro momento de sua fala, Dirceu questionou, retoricamente, o argumento de que o povo não participa da política. “Por que o Lula tem essa votação no Nordeste?”, perguntou. Também usou-se do fato de cerca de um terço do eleitorado declarar votos em Bolsonaro, para embasar sua retórica de que o povo tem partido - independente de qual for. 

Sobre a popularidade do ex-presidente no Nordeste, ele explicou: “Só tem uma razão: o fio da história. A memória, a consciência coletiva de um país que tem que ser soberano”, e disse ainda que “se o povo não tivesse consciência política, Lula não teria 45% das intenções de voto no 1° turno”. Para Dirceu, os governos do PT foram os mais democráticos: “A quem mais interessa a democracia é o povo trabalhador”, disse. 

Em sua leitura, o governo Lula foi o que mais buscou o diálogo com outras expressões políticas nacionais e internacionais, e também foi nesse período em que todos os setores da sociedade brasileira “saíram ganhando”. O ex-ministro falou da importância de uma “revolução educacional” no Brasil, afirmando que não possível que o país avance sem isso e sem as reformas necessárias a serem implementadas, citando principalmente a reforma tributária, reforma política e a democratização dos meios de comunicação. 

Durante a breve coletiva, perguntado sobre a presença da Ação Penal 470, o Mensalão, nas páginas do seu livro, ele respondeu: “Eu faço questão de abordar, primeiro porque não havia previsão legal para processar deputado licenciado. Eu fui condenado, mas sem nenhuma prova. Cumpri a pena e fui indulado, em 2016, pelo Ministro Barroso. Vai haver uma revisão criminal disso tudo aí. Não deixo de tratar nada”. Afirmou que, além da sua vida, pretendeu falar sobre a história do Brasil, sobretudo, a época da ditadura. 

O escândalo, que estourou no primeiro governo Lula e resultou numa grave crise política, foi o motivo do afastamento de Dirceu da Casa Civil, da cassação de seu mandato de deputado federal, sua condenação, por corrupção passiva, e prisão, em 2013. 

“Porque ele prega abertamente o autoritarismo. Quem apoia a ditadura militar não pode ser uma opção democrática para o Brasil”, explicou Dirceu, ao ser perguntado sobre o presidenciável Jair Bolsonaro e disse ainda que o candidato é um “falso moralista e um atraso para a democracia”. Para ele, o PT e o candidato da extrema-direita não são dois pólos, em defesa disso, alegou que os discursos de ódio começaram com hostilizações e ataques direcionados ao PT e seus membros, bem como as campanhas violentas contra Lula e Dilma. “A nossa campanha é pacífica”, disse. 

Dirceu criticou a atual política externa brasileira de se opor e não ser um mediador dos conflitos na América Latina, em especial na Venezuela. “Nós devíamos estar ajudando a Venezuela a sair dessa crise, a evitar que o país tenha uma guerra civil”, disse. Sobre isso, ele opinou que o Brasil começou a “dar corda” para o possível plano de intervenção militar norte americana no país governado por Nicolás Maduro. “Para a nossa vergonha Peru, México e Colômbia se posicionaram contra na OEA; disseram não! O Brasil não pode ser office boy dos EUA à porta da Venezuela”, protestou. 

Dirceu afirma que vivemos um momento parecido com a época da ditadura graças aos discursos falaciosos de combate a corrupção: “A palavra de ordem da ditadura era contra a corrupção e a subversão. Uma luta contra o povo e hoje em dia é contra nós, contra Lula, contra o PT e tudo que fizemos pelo Brasil. Contra o Brasil, pois eles acabaram de entregar o pré-sal”. 

Meia hora depois, afirmou, por fim, que o livro também foi escrito para provocar a juventude a “lutar pelo Brasil que o povo construiu. A nossa maior vergonha é o povo brasileiro ter construído uma riqueza tão fantástica e não ser beneficiado dela”. Finalizou o discurso como iniciou, chamando a atenção para as eleições: “Vamos à leitura das minhas memórias, mas, principalmente, vamos às urnas”.

Após suas palavras, José Dirceu sentou para dar autógrafos àqueles que haviam comprado seu livro. A fila ocupava praticamente todo o pequeno bar, e a sessão adentrou pela noite. Música cubana ocupava o palco onde ele havia discursado e animava as pessoas que esperavam chegar perto de Dirceu. 

Dirceu em sessão de autógrafos. Foto: José Aldenir

Vez ou outra, sentado à mesa de autógrafos, Dirceu levantava para tirar fotos com admiradores imitando o gesto do punho cerrado. Estava servido de pastéis e bebia numa caneca com o símbolo do PT. Em um momento, um senhor no palco, ofuscado pela multidão, fez uma pequena fala saudando o “comandante”, como Dirceu é chamado carinhosamente. Ele levantou e agradeceu, de longe. Depois, perguntou a uma assessora “quem era?”.

“Vale a pena lutar, porque a vida precisa ser vivida com paixão. E é preciso resistir, lutar e combater. E estar do lado certo: o da justiça social, das liberdades individuais, da democracia e, no meu caso, o do socialismo”, respondeu Dirceu, quando perguntado pelo Caderno de Pauta qual seria o legado de seu livro para os jovens militantes. 

O ex-ministro de Lula roda o país divulgando sua obra autobiográfica acompanhado da esposa, de sua filha mais nova e de assessores, em um ônibus pago pela editora. Depois de Natal, José Dirceu participou lançamentos do livro em Fortaleza (26), Teresina (27) e na segunda-feira (01) estará em São Luís. “Zé Dirceu - Memórias volume 1” aparece como o oitavo livro de não ficção mais vendido no Brasil, na lista semanal da Revista Veja.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Manuela D’Ávila desembarca no RN e é abraçada pela militância potiguar

Acompanhada de Fátima Bezerra, a candidata à vice-presidência pelo PCdoB cumpriu agenda de campanha no Estado

Por Kamila Tuenia e Yuri Gomes

Fátima Bezerra (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB) no encontro do dia 22. Foto: José Aldenir

Uma espaçosa tenda de um hotel, na praia de Ponta Negra, em Natal, foi o lugar de um movimentado encontro entre militantes, em sua grande maioria jovens, de diferentes grupos do PT e do PCdoB. Com participação da deputada estadual pelo Rio Grande do Sul e candidata à vice-presidência, Manuela D’Ávila (PCdoB), e a senadora e concorrente ao governo do estado, Fátima Bezerra (PT), o evento aconteceu na noite do último sábado, 22. 

A organização do local lembrava um teatro de arena, ou um picadeiro de um circo: o público rodeava o palco onde ficavam as oradoras. A intenção, segundo um militante envolvido na organização, era de aproximar as candidatas das pessoas. Além da conversa com a militância, a ocasião serviu para a gravação de peças que preencherão spots da propaganda eleitoral de Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte. 

Inicialmente, estavam previstos dois eventos: o primeiro às 18h, somente com a presença das juventudes dos partidos, e outro, logo em seguida, às 20h, contando com toda a militância. No entanto, o atraso das duas candidatas inviabilizou parte do cronograma - o que não fez com que os presentes se dispersassem.

Marcada para o início da noite, a programação iniciou próximo às 21h. Até esse horário, o espaço já estava lotado de pessoas com seus cartazes, bandeiras, adesivos e palavras de ordem. Animados pelo som que tocava canções do PT, como a célebre “Lula Lá”, marcante nas eleições de 1989, os presentes cantavam desde o famoso “Olê, Olê, Olê, Olá, Lula, Lula”, até o mais atual “Eu tô com ele, eu tô com ela, tô com Lula, Haddad e Manuela”. 

Antes do encontro, Manuela e Fátima percorreram em carreata as ruas de Parnamirim, cidade da Região Metropolitana de Natal, como previsto na agenda das candidatas. 

Resistência, educação e igualdade

Os primeiros a falar foram as lideranças dos movimentos sociais e estudantis que participaram do encontro. Representantes da União Brasileira dos Estudantes (UBES), União Nacional dos Estudantes (UNE), Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG), União Estadual do Estudantes do RN e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fizeram alas às candidatas. Eles pediram o compromisso de ambas na luta pela educação, pelos direitos das mulheres, negros, LGBTs, bem como de toda a classe trabalhadora.

Movimentos de jovens ligados aos partidos marcaram presença no local. Foto: José Aldenir 

Em seguida, Fátima Bezerra começou seu discurso. Professora de carreira, ela pauta a educação como a prioridade de seu eventual governo. “Eu tenho um sonho: lutar para que a educação para que o ensino médio do estado tenha a qualidade que tem a rede de educação profissional federal do nosso país”, declarou. Entre as principais propostas da líder nas pesquisas de intenção de votos para o governo do estado, destacou o aumento da inclusão digital, a ampliação de investimentos para a UERN, além da reforma e ampliação das Casas do Estudante, que atualmente correm o risco de serem fechadas. 

Última a discursar, Manuela D’Ávila citou a voz da resistência daqueles que enfrentaram a conjuntura que se instaurou depois do impeachment de Dilma Rousseff e tem ecoado no período eleitoral, quando a maioria da população, em especial o povo nordestino, quer eleger novamente um projeto popular para governar o Brasil. “Em 2016, nós não imaginávamos que dois anos depois teríamos um grito de resistência tão alto do povo do norte do país. Nós temos o grito e a voz alta dos que não aceitam o golpe que destrói o nosso país, aqueles que dizem que esse país tem dono e os donos desse país não são as oligarquias que se perpetuam como aqui no RN, e que serão varridas do governo do RN porque essa mulher [Fátima Bezerra] vai tirá-los de lá. Os donos desse país são as mulheres e homens que trabalham e acreditam que todas as mulheres e homens têm direitos iguais”. 

Na primeira fila da plateia estavam sentados alguns dos candidatos à câmara dos deputados e ao senado federal da coligação local, composta por PT, PCdoB e PHS. A candidata à vice-presidente chamou a atenção para a importância da eleição de uma base aliada do governo. “Deputados federais e senadores nós precisamos de vocês lá, se elejam!”, pediu.

Manuela ainda destacou os feitos do período em que o seu companheiro de chapa, Fernando Haddad (PT), ocupou o Ministério da Educação: “A juventude naquele tempo nem sonhava em entrar na universidade. Era um sonho proibido e Haddad nos fez perceber que não existia sonho proibido e que não importava a cor da pele, o trabalho do pai ou a cidade onde o jovem nascia, pois nada disso o impediria de ter acesso a uma educação de qualidade”. Afirmou, ainda, que o ex-ministro “colocou a juventude dentro de um projeto de desenvolvimento”. 

Por fim, a candidata à vice de Haddad comentou: “Não queremos que os nossos filhos aprendem a simular tiros com as mãos”, denunciando o episódio em que o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) ensina uma criança a imitar uma arma com as mãos. Sob aplausos, Manuela afirmou que as crianças devem aprender a usar as mãos para escrever, nas creches, nas escolas, nas universidades e nos institutos federais - uma grande bandeira levantada pelos governos petistas.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Veganismo: uma visão para além do estilo de vida

Ideologicamente ou não, a verdade é que muitas pessoas estão deixando de comer alimentos derivados de animais: no país, essa prática tem um crescimento de 40% ao ano 

Por Gideão Marques

O Veganismo prega, sobretudo, o amor e respeito aos animais, entendendo que eles – os animais – não estão aqui para nos servir. Assim, não consumir produtos de origem animal como queijo, mel, carnes, leite, ovos, entre outros alimentos, além de roupas de couro, lã ou que escravizem os animais para a produção, é essencial para a manutenção da vida dos animais. Os veganos sabem, e é comprovado cientificamente, que muitas doenças das quais somos vítimas se deve ao consumo desses produtos. 

Sa Chi na mesa de sua casa, onde concedeu a entrevista. Na garrafa, Kombucha: bebida probiótica rica em cafeína. Foto: Gideão Marques/Caderno de Pauta

Sa Chi, 48, é empresária de produtos orgânicos. Nasceu na Bélgica e teve parte de sua criação no Japão. Sa Chi – como prefere ser chamada – não gosta de ser rotulada como vegana. Ela adotou um estilo de alimentação ainda pouco difundido no Brasil: A Alimentação Viva - hábito em que não se ingere alimentos cozidos. “Eu deixei de comer carne de mamíferos há muito tempo”, afirma a empresária. 

Sa Chi é contrária a qualquer tipo de rotulação que a sociedade costuma dar ao outro: “Eu nem sou a Sa chi. Eu sou uma essência infinita. Meu corpo e minha mente estão mudando o tempo todo”. 

O Projeto de Lei 6299/02 que prevê, dentre outras normas, que o Ministério da Agricultura flexibilize o uso de pesticidas e agrotóxicos nas plantações, assusta a comunidade vegana e também a Sa chi: “Isso é péssimo, é uma catástrofe. É um genocídio silencioso, que a gente tem que lutar contra com conhecimento. Eu planto o que posso plantar. Me esforço para comer comidas sem agrotóxicos”, argumenta. 

Estamos em 2018 e é ano de eleições. Sabendo que a alimentação não é pauta para a maioria dos presidenciáveis, Sa Chi se mostra triste com a situação. “A alimentação é o pilar principal de uma cultura. A gente vê que a saúde das pessoas está muito ruim, justamente por causa da alimentação”. É relevante salientar que, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), esses produtos químicos estão associados a doenças como os cânceres de fígado e testículo. 

Embora muitos restaurantes estejam adotando o menu vegano ou que se aproximem da Alimentação Viva, Sa Chi ainda sente muita dificuldade em encontrar lugares com opções que possam satisfazê-la. Por isso, ela opta por alimentos que não sejam industrializados e que mais se aproximem da Alimentação Viva. “Aos 48 anos de idade eu estou em forma. Não vou ao hospital há anos. A diferença é muita clara entre uma pessoa que se alimenta só de plantas e outra que só se alimenta de produtos derivados dos animais, em especial os mamíferos. As pessoas estão entendo que as doenças modernas são fruto da alimentação inadequada, e isso está fazendo com que as elas mudem”, explica Sa Chi. 

Permacultura é um novo estilo de produção agrícola que visa a sustentabilidade e o não uso de agrotóxicos e pesticidas nas plantações. Sa Chi aposta nisso para que tenhamos uma alimentação mais saudável e sustentável. “Neste sistema de permacultura existe uma inteligência ecológica, porque eles produzem alimentos diferentes e mais ricos. É uma mistura de plantações que ajudam uma a outra”. 

Falando sobre o futuro da população mundial, tendo como critério a alimentação, Sa Chi que “uma hora ou outra, a raça humana vai precisar mudar, mesmo não querendo. Porque vai faltar carne, não vai ter para todo mundo. É bom que a gente comece a mudança de agora, para que não haja um caos no futuro”. 



Sendo totalmente contra os estereótipos negativos, tanto do lado dos veganos, quanto dos consumidores de carne, Sa Chi busca um equilíbrio para tentar amenizar as rivalidades existentes: “A consciência de cada um é muito mais importante. Temos que ser exemplo e não um inimigo daqueles que consomem produtos de origem animal”.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Programa de pesquisas em ilhas do oceano Atlântico completa 20 anos em atividade

Descoberto ainda no século XVI, em 1511, o arquipélago de São Pedro e São Paulo se tornou nos últimos vinte anos uma fonte de estudos para pesquisadores

Por Anthony Matteus

O arquipélago de São Pedro e São Paulo está localizado a 1.100 km da costa brasileira. Foto: Marinha do Brasil/Divulgação

Vinte anos é o tempo em atividade do programa Proarquipélago, uma iniciativa da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm), da Marinha do Brasil. Nesse período, mais de 1300 pesquisadores de 25 universidades já passaram pelo programa, contribuindo para as pesquisas científicas.

Para o coordenador do programa e professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN, Jorge Lins, além da contribuição científica, o Proarquipélago também participa na formação acadêmica de estudantes. “Centenas de artigos já foram publicados, dissertações de mestrado, teses de doutorado. Eu gosto de dizer que formou gerações. Estudantes que foram lá, fizeram a graduação, pós-graduação e hoje são professores, difundindo o conhecimento”, explica.

O arquipélago de São Pedro e São Paulo fica situado em uma região privilegiada cientificamente falando. A região isolada, distante 1100 quilômetros da costa brasileira, está localizada bem próxima à linha do Equador, apenas um grau ao norte. Em razão disso, é uma região de grandes mudanças climatológicas, propícia para o estudo na área.

Lá é também o local onde há a maior quantidade de abalos sísmicos em território brasileiro, por estar próximo a uma cordilheira submarina, a dorsal atlântica. O professor do Departamento de Geofísica da UFRN e coordenador do laboratório sismológico do Proarquipélago, Aderson Nascimento, destaca a importância das pesquisas no local.

“Eu costumo brincar que a região do arquipélago é a nossa San Andreas [região do estado americano da Califórnia marcada por grandes terremotos ao longo da história] brasileira. É uma oportunidade única trabalhar naquele lugar”, conta Aderson.

Na biologia, a região foi identificada como uma espécie de “pit-stop” para os grandes animais, como atuns, tubarões e baleias. Lá é o local onde eles param o seu caminho para reabastecer, quando se alimentam de outros seres vivos. Além de ter na sua fauna espécies endêmicas, que só tem no local.

A estação científica tem uma estrutura formada por
laboratório, sala de estar, cozinha, banheiro, varanda,
área para armazenamento de água potável e uma edificação de
apoio para um gerador de emergência. Foto: Faacz/Divulgação.
Outro benefício para o país é a reivindicação territorial. Como se tem uma estação científica instalada e ocupada, seguindo as normas da Convenção das Nações Unidas sobre o direito do mar, o Brasil solicitou a posse de duzentas milhas em volta do arquipélago.

“Hoje o Proarquipélago é um programa consolidado por causa da cooperação entre as instituições. A marinha e o CNPQ [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] têm desempenhado um papel fundamental a todas universidades, em especial a minha, pelo apoio irrestrito que sempre dedicaram”, diz Jorge Lins sobre o sucesso do programa.

Em comemoração aos 20 anos do Proarquipélago, o trabalho na região ganhou o livro “Arquipélago de São Pedro e São Paulo, 20 anos de pesquisa”, lançado no dia 10 de agosto deste ano. A proposta da obra é apresentar à sociedade as principais pesquisas produzidas nos últimos 20 anos e está disponível para acesso no site.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O lixo e o Dia Mundial da Limpeza

Conheça iniciativas e fique por dentro da realidade do descarte inapropriado do lixo que você produz

Por Ricarla Nobre

Você já parou para pensar sobre para onde vai todo esse lixo que a gente produz? No Brasil, cerca de 76% do lixo produzido é despejado a céu aberto (são 70 milhões de quilos!). Apenas 10% vai para lixões controlados, 9% para aterros sanitários e apenas 2% é reciclado. 

No Rio Grande do Norte, o problema de descarte do lixo espalhado pelas cidades vem sendo trazido à tona pela mídia e população há anos. A Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana), responsável pelo assunto, atribuiu o acúmulo do lixo em locais inapropriados à população. 

São mais de 200 pontos irregulares de descarte pela cidade, segundo levantamento feito em 2016. Em maio deste ano, a Urbana publicou uma nota pedindo à população do estado para evitar colocar lixo domiciliar em locais inapropriados. Devido ao descarte inadequado, são gastos pelo município mais de 12 milhões de reais por ano.

Nas praias do estado, principalmente em Ponta Negra, um dos principais pontos turísticos, o problema do lixo chama à atenção dos turistas. “Quando fui à Ponta Negra pela primeira vez achei tudo incrível, mas a quantidade de lixo por lá foi algo que se sobressaiu. É perigoso e danoso ao meio ambiente”, afirmou a pedagoga mineira, Maria Silva. 

Foto: José Aldenir/Agora Imagens

A maioria do lixo descartado em praias, cerca de 95%, é plástico. Tal material não pode ser detectado por satélites, sendo avistado geralmente por embarcações marítimas. O plástico causa danos que vão além do gasto com limpeza por parte dos municípios, várias espécies marítimas também são contaminadas e há prejuízo à navegação, atividades pesqueiras, que afetam diretamente à saúde e outras áreas importantes do ecossistema.

Na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, já está em vigor uma punição para quem sujar inapropriadamente o local. Programas como o Lixo Zero, que adotou multa para quem descartar lixo no chão, chegou a tarifar mais de 500 pessoas em apenas uma semana de funcionamento. A multa vai de 157 a 3 mil reais e é fiscalizada por grupos de três profissionais, entre PM’s e guardas municipais, que percorrem ruas e a orla local. 

Para a bióloga Kátia Dantas, a importância de iniciativas que incentivem a limpeza e conscientização das pessoas são indispensáveis. “É preciso conscientizar e falar mais sobre isso. O problema do descarte inapropriado do lixo em praias é gritante e gera muitos danos alarmantes ao meio ambiente. A responsabilidade do descarte consciente é nossa, temos que fazer nossa parte para evitar a contaminação da areia e água do mar”, conta. 

Dia Mundial da Limpeza

A partir dessas questões, entra em cena o Dia Mundial da Limpeza, mobilização de voluntários que será realizada no dia 15 de setembro em todo o mundo. O objetivo é promover a limpeza de cidades, bairros, praias e parques. Serão de mais de 124 países na mobilização de cerca de 24h. O Atitude Brasil e Limpa Brasil, com apoio do ministério do Meio Ambiente, estão certificando voluntários de todo o país, cadastrados para a ação. Os interessados poderão se cadastrar no site oficial e ficar por dentro dos detalhes. Para tirar dúvidas, também está sendo disponibilizado o e-mail: contato@limpabrasil.org.

Mobilização em Natal

Na capital do RN, será realizado um mutirão de recolhimento de lixo em vários pontos das 8h às 13h. Confira abaixo:
  • Ponta Negra - em frente ao Manary e ao Morro do Careca
  • Praia da Redinha - em frente ao letreiro e Mercado
  • Praia do Forte 
  • Praia do Meio
  • Praia dos Artistas
  • Praia de Miami
  • Praia de Areia Preta
Os voluntários receberão kits e a expectativa é reunir cerca de 2.500 pessoas na ação.

Invisível: uma exposição sobre violência de gênero

Por Erika Artmann e Marcelha Pereira

você me diz para ficar quieta porque 
minhas opiniões me deixam menos bonita 
mas não fui feita com um incêndio na barriga 
para que pudessem me apagar 
não fui feita com leveza na língua 
para que fosse fácil de engolir 
fui feita pesada 
metade lâmina metade seda 
difícil de esquecer e não tão fácil 
de entender

Rupi Kaur, em Outros Jeitos de Usar a Boca

O que você pensa quando escuta o termo violência de gênero? Provavelmente, sua mente vai para os casos de assassinatos de mulheres e pessoas LGBTI+ que aparecem na televisão e em sites de notícias. O fluxo de reportagens sobre a violência cotidiana contra esses grupos sociais nos estados brasileiros não para um só instante e muitos estão cansados de serem informados sobre esses acontecimentos. Mas… o que mais você considera como violência?

Pensando nesta temática, os alunos dos cursos de Artes Visuais e Design da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) construíram a Exposição Itinerante sobre Violência de Gênero, nomeada como Invisível. Os trabalhos expostos do dia 20 de agosto a 07 de setembro tinham o intuito de chamar atenção para manifestações de violência simbólica contra mulheres e pessoas LGBTI+, que passam despercebidas dentro e fora da Universidade. 

Obra da seção de Estereótipos da exposição Invisível. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta

A professora organizadora da exposição, Luiza Falcão, conta que a motivação partiu da observação do contexto de interação masculino/feminino dentro do Departamento de Artes (Deart) da UFRN. “Achei coerente levar essa discussão para a sala de aula como uma forma de conversar com os alunos sobre o tema, e fazer com que eles formassem uma opinião crítica sobre o assunto”, afirma. “Nós (professores, coordenadores e chefes de departamento) nos encontramos numa posição hierárquica em que algumas atitudes podem ser configuradas como assédio, e os alunos precisam entender qual o limite deste tipo de relação no ambiente acadêmico”, acrescenta. 

A exposição fez parte de uma ação de extensão e Luiza contou com a ajuda das professoras Helena Rugai (coordenadora e professora do curso de Design), Elizabeth Romani (professora do curso de Design) e Bettina Rupp (professora do curso de Artes Visuais) para juntar e mobilizar as turmas de Artes Visuais e Design. Duas professoras do curso de Teatro da UFRN, Melissa Lopes e Monize Moura, também contribuíram com a iniciativa ao organizarem uma oficina sobre Teatro e Gênero, na semana de lançamento da exposição. 

Dentro da temática da violência de gênero, os alunos escolheram subtópicos em que pudessem expressar as vozes silenciadas das minorias. As obras traziam à tona desde violências mais severas, como estupro e feminicídio, até violências sutis que se escondem em frases e atitudes aparentemente inocentes. As questões de assédio, luta LGBTI+ e estereótipos também foram abordadas por eles.

Espaço destinado para as obras com temática LGBTI+. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta

Jojo de Paula e Jackie Rocha, estudantes de Design da UFRN, trabalharam juntos na exposição, tendo a transfobia como objeto. Eles buscaram retratar em seus cartazes a forma respeitosa e humana de tratar as pessoas trans, sem esquecerem de também mostrar a violência presente em certas frases que essas pessoas costumam escutar. Segundo eles, o trabalho foi um grande desafio que exigiu resiliência e sensibilidade, e, por serem parte da comunidade LGBTQI+, o processo de pesquisa e resgate dessas violências mostrou-se ainda mais complexo.

O também estudante de Design, Rafael Germano, produziu sua obra com base em um questionário no qual mulheres, as principais vítimas do machismo, colocaram frases corriqueiras, aparentemente inocentes, mas que trazem grandes cargas de preconceito. Ele diz que, como homem, tornou-se “uma pessoa mais consciente com esse cartaz” e que espera que isso aconteça também com outras pessoas.

É comum achar que violência de gênero acontece só quando gera dores físicas. Essa concepção costuma apagar o peso das violências que são feitas por meio da fala e afetam o psicológico. Na exposição, as obras estavam representando pessoas que, como no poema de Rupi Kaur, são silenciadas e violentadas por meio de ações simbólicas. A expressividade e força das obras foi a responsável por tornar a exposição Invisível um evento belo e representativo.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O silêncio das marés

Por Tiago Silva de Oliveira 

"A morte de Ofélia", de Odilon Redon.

Sinto um vazio insosso, neutro. Infinito fosso que habita a memória de escaravelhos nos desertos do tempo contaminar a solidez da matéria viva das ruínas de meus templos inacabados. Ajoelho-me ao que é milenar. Ao perene. Ao que sempre existiu. A morte sempre existiu. A morte é. Só existe vida porque existe morte. Antes de existir vida já existia morte. Ela é o princípio. Nossa verdade mais antiga. Antes de nossas inúmeras tentativas de ser célula, antes do orgânico, morremos várias vezes. Também, antes de sermos orgânicos – bem mais perto do princípio –, várias estrelas morreram. A morte mais bela. A morte nunca foi horrenda. Tem pele perfeita, sem escamas aparentes ou poros dilatados. Exala suavidade, viço e frescor. Um brilho intenso. Infinito. Intermitente. Elegante. Ela tem o elixir da longa vida. Vim ao mundo defendê-la, apagar mentiras. Pois digo: ela não é treva nem escuridão. Talvez uma noite clara, bem-iluminada, no máximo. Com mil luas cheias no céu. É isso. Te assustei? 

O efêmero causa-me constrangimento. Gosto da aderência, do que permanece, do atrito da pele. É fácil vencer o atrito. Impressa na madrugada, sozinha, minha arcaica juventude é inútil, rápida. Preencho-me desta quietude e dormência que é a espera. Espero o sol – verdadeira e exata. Esta bacia de prata, não, de alumínio, tão fria e amassada e fosca, enorme, que não consigo abraçar, é perene e arcaica. A bacia. Nossa bacia. Quando mamãe diz para pegarmos a bacia, é esta. Só ela. A bacia de lavar roupa, a bacia de banhar bebês. Sonhei uma vez com a bacia. Banhava-me, nua e infantil, livre, quase divina, em frente à porta dupla de pesada madeira. Eu tinha asas e era anjo ou ave. Espirrava água para fora. Voava. Ascendia em direção ao sol que fugia. Estava pronta para receber a noite com água-de-colônia. 

A bacia para colocar o milho de molho, como hoje. Coloquei o milho no sereno antes de dormir e ele já é outro milho. Passou. Nossa avó nos ensinou. Ela também é milenar. Quando nasci, ela parecia ter a mesma idade que tem hoje. Os cabelos, tão brancos, amarelaram. Ela sempre corta as pontas amareladas. Gosta deles curtos, curtíssimos. Perguntei se já tinha deixado os cabelos passarem dos ombros, disse que sim. Certa vez, quando estávamos procurando sua certidão de casamento, achamos sua carteira de identidade. Uma moça tão milenar quanto ela, em preto e branco, cabelos castanhos ondulados em cascata, escorrendo pelos ombros. Os lábios, finos e nus. Secretos. Como os meus. Herdara sua boca e arco. Vovó não me deixava pintá-los. Só quando me levava para ver minha tia na cidade. Mesmo assim, uma camada muito fina e rala, qual casca de maçã, ela me permitia passar sobre os lábios. Uma tentativa de homogeneizá-los, apenas. 

Eu tinha oito anos e meio quando fomos certa vez à casa de minha tia que mora na cidade. Nunca soube direito o nome dela. Ela sempre fora a tia que mora na cidade. Coerente. Era a única. Acho que se chamava Carmem. Raras vezes a visitávamos. Nesta rara vez, me levou à praia, para conhecer o mar. Nunca viu o mar, coitada, disse minha tia. Minha avó disse o mesmo quando falou ao telefone com minha tia para marcar a viagem. Sou uma coitada? Por quê? Sim, nunca vi o mar, eu sei. Coitada de mim. Quero me livrar desta sensação horrível com urgência, deste oco de alma, destas risadas surdas no pé do ouvido, ser menos detestável e vulnerável. São outras crianças que riem de mim o tempo inteiro, sobretudo. Riram de mim quando falei que as coisas são feitas de átomos ou quando falei de onde vêm os bebês ou algo do tipo. Não entendi. Até hoje não entendo. Será que não me entendem? Sou a melhor da turma e todos riem de mim. 

Minha tia parece ser uma pessoa muito sorridente, parece que o tempo todo sorri. Como pode? Ela é adulta. Adultos são tão solitários e problemáticos. Mas quero ser adulta logo, ah como quero. Por que demora tanto?! Quero ficar pronta logo, estou inacabada. Quero minha solidão de adulto. Minha tia não parece só, no entanto. Minha avó disse que adultos costumam chorar sozinhos, no escuro. Deve ser isso. Estou com medo. 

Este sol parece que não existe. Este céu é de mentira. Alguém pintou. Colocou três nuvens perfeitamente recortadas e muito brancas, só. Simples e bonito. Um céu. É tudo para mim? Não sei a quem agradecer. Emudeci. Emudeci a voz e o corpo. Sou uma estátua de sal e calcário. Sou ainda mais insignificante no mundo, este mar é o tudo e eu faço parte do nada. Não tenho nove e este mar é eterno. Aqui foi onde tudo começou. Fujo para o mar para escapar das chamas. Há um incêndio e ninguém viu a fumaça; mas eu avisei. Disse que tudo ardia e seria devorado. Mas, ah! Nós, como humanos, somos culpados de nossos incêndios, me disseram, e temos que resolvê-los sozinhos. Mas como? Eu sei: me culparam pelo meu incêndio. Disseram que crianças não têm incêndios. Tudo culpa minha, por que você desmontou seus binóculos para usar as lentes, menina? Eu quis, eu precisava daquilo, precisava fazer aquela experiência, fiz escondido e foi uma delícia! Fiz buraco em folhas secas, fui lagarta de fogo ou de sol! 

Aquele cheiro de queimado... minha avó sempre brigava comigo, mas era bom! Mas não é desse incêndio que falo. Falo do perigo. De chamas de verdade, de todas as cores. É como estar dentro de uma panela de água fervendo, mas sem dor. Por isso preciso deste mar agora! Só ele. Inteiro. Puro sal da eternidade. A eternidade parece a morte. Brilha muito, muito. Me cega! Como arde minhas retinas! Será que é isso? Quero chamar minha avó para ver, mas não consigo, não consigo. Emudeci, repito. Só eu me ouço. Que tristeza, oh!, que tristeza. Por que eu sozinha? Devo ser especial, finalmente! Como estou feliz...antes de perder a visão e o chão se desfazer, vi o cristalino da água vibrar cintilante, ainda na superfície. Quero ir ao abissal, será que chego? Guardei secretamente este desejo de minha avó por anos. Não quero mais a superfície. Antes quero ver anêmonas e águas-vivas. Quero a vida séssil dos poríferos. Como os invejo. São tão simples, queria ser tão simples. Uma alga, um molusco... que arrepio... acho que o nome disso é fetiche. 

Foi então que a eternidade revelou-se feroz. Carnívora aquática. Em breve, raias irão me espetar com seus ferrões e este rosnar de tubarões irá cessar. Como é ensurdecedor. Revelei meu eu mais íntimo e atraí tubarões. Tola. Embora esteja cega, agora vejo tudo, tudo. Tenho a verdade mais fresca e morna sobre as mãos. É fluida, densa, viscosa, tem instinto de fugitiva, quer escapar. Não quero prender-te, só entender-te. Só me interessa o caminho e não o fim. Assumi este risco e sacrifiquei um coração vivo. Ninguém pode dizer que sou covarde. Sou a heroína de minha heroica salvação! Detalhe: fui sem escudos ou lanças ou espadas. Minha coragem de aço reluz, brilha intenso e fosco, sulcada. Sou meu eu mais agradável. Que asco. 

Sob o silêncio das marés, a fantasia da vida se desmonta. Aos poucos, eterno frio habita meu corpo. Eterno. Porque acho que isso que é morrer. Quando fiquei internada para a retirada de uma hérnia, foi-me servido um ovo cozido. Já veio descascado. Não gosto muito de ovos. Eles têm um quê de milenar e isso me assusta, sim, o milenar já me assusta. Eles existem desde a época dos dinossauros ou antes. Lagartixas também botam ovos. Dos ovos de galinha só gosto de descascá-los. Minha avó devia ter dito a quem me trouxe este ovo. A gema, esta parece que quer fugir da clara, não como. Está azulada daqui. Minha avó me pergunta como consigo comer apenas a clara dos ovos, e sem sal. Não tem gosto de nada!, ela diz. De nada! Nada sem sal. 

Também me trouxeram uma maçã com casca. Adivinhou: não como a casca das maçãs. Para mim, a textura da casca da maçã em minha boca acaba com toda leveza desta fruta e com a ideia de oco que ela proporciona com sua crocância. Maçã do amor causa-me arrepios. É lindo e detestável um amor maciço. Como o de minha avó. Sentada na sala que acabara de limpar, olhando sempre para a mesma faixa de céu, contorna a casa e vai para o quintal, acende mais um cigarro perto da pia, cuja torneira quebrada pinga o único som que embala esse momento de pulmão rijo e riso amarelo nicotina. Vê seu marido do quintal, enquanto lava dois copos sujos de leite, do mesmo jogo que ganhara de sua melhor amiga, e os mesmos dois copos do dia em que servira leite para ela e seu marido. Ah, aquele dia. Ele disse que queria conversar e ela preparou a mesa, porque conversar com comida era sempre melhor, ele disse que não precisava, mas ela insistiu. Não imaginava que seria destruída. Vovô disse que recebera uma ligação de seus filhos de São Paulo para que ele fosse tratar sua doença, pois lá estaria nas mãos de bons médicos. A notícia a atingiu como a solidão e a frieza de uma guerra. 

Falo de minha sepultura. Meus oceanos flamejam frios e abissais. Dançam anêmonas, rodopiam algas, em combustão dissolvem misérias e deformidades, desejos sintetizados. 

Só sereias choram.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Debate pra dentro da sala

Candidatos a deputado federal discutem ideias e propostas de campanha com estudantes da UFRN

Por Kamila Tuenia e Yuri Gomes 

O auditório da Escola de Ciência e Tecnologia da UFRN, palco de aulas de cálculo e álgebra linear, abrigou na última segunda-feira (03) um debate entre quatro candidatos a deputado federal. Organizado por professores e estudantes da disciplina de Prática de Leitura e Escrita dos cursos de Ciência e Tecnologia, Letras e Filosofia, o evento fez parte de uma atividade extraclasse: cada estudante tinha a tarefa de elaborar uma pergunta que, caso sorteada, seria feita a um dos candidatos. 

Auditório lotado acompanha debate entre candidatos a deputado federal na UFRN. Foto: Yuri Gomes 

Com duas sessões, uma à tarde e outra à noite, o debate contou com a participação dos candidatos Alayde Passaia (NOVO), Caramuru Paiva (PT), Renato Fernandes (PSC) e Silvino Baú (PSTU); a vereadora de Natal e também candidata Natália Bonavides (PT) foi convidada, mas não compareceu ao evento. Foi dividido em cinco blocos, com apresentações de cada candidato, perguntas dos estudantes e da plateia, além de questionamentos entre os candidatos, e suas considerações finais. 

Por não haver temas pré-definidos, como acontece em alguns debates presidenciais, os temas foram os mais variados possíveis: de reforma agrária a empreendedorismo, de privatizações ao modelo adequado do sistema público de saúde, de adoção a porte de armas. 

O combate à corrupção e aos privilégios políticos, bem como a diminuição do Estado ocuparam boa parte das falas dos candidatos Alayde Passaia e Renato Fernandes. Reforma agrária, defesa dos aparatos de proteção social e críticas à classe empresarial foram comentados por Caramuru Paiva e Silvino Baú. 

“Um exercício da democracia”

Os debates na Escola de Ciência e Tecnologia são prática comum na disciplina de Prática de Leitura e Escrita, como disse Glícia Azevedo Tinoco, linguista, professora da ECT e uma das organizadoras do debate. Para ela, o foco da sua disciplina é a prática da argumentação e o debate é um espaço para esse exercício, além disso, considera a linguagem como principal pilar da educação política. “A política se exerce a partir da linguagem e, na posição de linguista, eu defendo que o ensino da argumentação tem de ser feito em função de um trabalho maior, de educação e conscientização política", disse. 

Segundo Glícia, a escolha de realizar um debate entre candidatos a deputado federal se deu em razão da maior representatividade de ideias e pensamentos que eles poderiam dar ao debate. Essa decisão, bem como outras, se deu através de votação entre os estudantes das turmas da professora. O conjunto de organização e execução do debate, de acordo com ela, é um “exercício da democracia”.

A candidata do NOVO 

Alayde Passaia, 41, publicitária e candidata pela primeira vez a um cargo eletivo. Segue o modelo de seu partido, o NOVO, afirmando defender novas práticas na política, a começar pelo uso da cota parlamentar para custeio de gabinete: todo candidato a cargos legislativos da sigla está comprometido a, caso seja eleito, cortar 50% dos custos com assessores, carros e outros serviços comuns aos parlamentares. 

O NOVO permite que cada candidato tenha seu próprio posicionamento acerca de pautas identitárias, como regulamentação do aborto e descriminalização das drogas, por exemplo. João Amoêdo, presidenciável do partido, já se declarou “um liberal na economia e um conservador nos costumes”. 

Alayde segue a linha do seu líder partidário e opina que o aborto deve se restringir aos casos atualmente previstos na constituição. “Eu sou a favor da vida. Agora, precisamos pensar isso como um problema de saúde pública e na minha opinião nunca foi feito um levantamento, um estudo sério, sobre as mulheres que estão morrendo fazendo aborto. Depois disso, podemos colocar em discussão”, disse. 

Uma política transformadora

Caramuru Paiva, 43, é engenheiro agrônomo e tem histórico nos movimentos sociais voltados à agricultura familiar e ao acesso à terra. O postulante do PT à Câmara dos Deputados foi delegado federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário, durante a segunda gestão de Dilma Rousseff, e assessor do mandato da senadora Fátima Bezerra. Dada a sua experiência, diz que vai focar sua atuação parlamentar na melhoria dos programas de alimentação, de amparo à agricultura familiar e no combate ao uso de agrotóxicos. 

Defensor de maiores investimentos na educação, promete lutar pela abertura de mais mais vagas nas universidades, especialmente no interior. “Acredito que é possível construir uma nação que garanta minimamente as três refeições por dia das famílias. Vamos fomentar o desenvolvimento pensando nas pessoas, na educação, na juventude e na diversidade”, afirmou.

O candidato acredita que a política é um instrumento de transformação da vida das pessoas e, para ele, foram os governos de Lula e Dilma que fizeram com que o país experimentasse a maior distribuição de renda e a diminuição das desigualdades. “É para continuar esse trabalho que me coloco a serviço do Rio Grande do Norte”, declarou. 

“O resgate dos valores morais” 

O empresário salineiro Renato Fernandes, 56, é um dos candidatos à câmara federal pelo PSC. Suas pautas principais giram em torno da desburocratização do acesso ao crédito por pequenos produtores, da exploração do potencial mineral do Rio Grande do Norte e da mudança na lógica de financiamento dos presídios e cadeias públicas - ele defende que os presos trabalhem para pagar seus custos na prisão. 

Perguntado sobre suas posições acerca da descriminalização do aborto antes de 12 semanas de gestação, Renato foi assertivo: “sou contra”. Diz seguir a orientação ideológica do seu partido e concorda que a prática apenas deva ser legalizada nos casos previstos na lei. 

Em nome da revolução

Silvino Baú, 52, líder comunitário no bairro do Bom Pastor, pleiteia uma das vagas do RN na Câmara dos Deputados pelo PSTU. No ano de 2016, foi candidato a vereador pelo mesmo partido. Apesar de estar concorrendo em um processo eleitoral, ele não deposita nenhuma confiança na política atual. E, assim como as candidaturas majoritárias do seu partido, Silvino clama por uma rebelião: “As eleições não mudam a vida do povo. As classes marginalizadas devem se organizar em uma rebelião”. 

“A classe baixa, o trabalhador, deve se rebelar contra tudo que vem acontecendo porque há mais de 400 anos que a política do capital sempre vem trazendo benefícios para os ricos”. Defende a estatização das 100 maiores empresas brasileiras, para que ocorra uma inversão da lógica capitalista e que a riqueza do país sirva aos trabalhadores. Assim, afirma que o único caminho para isso é a rebelião: “Faltam políticas públicas nas nossas comunidades e nós, que estamos na periferia, sabemos disso. Nós precisamos nos rebelar contra tudo isso e fazermos uma revolução preta, jovem e socialista”.

Perguntado sobre a contradição de negar a eficácia da política e concorrer a um cargo eletivo, Silvino respondeu que a eleição é apenas um meio para um fim maior: "A intenção máxima do PSTU é chegar no poder e organizar a massa para fazer a rebelião e depois fazer uma revolução”.