terça-feira, 30 de outubro de 2018

Crônica dos tempos da Democracia

Por Luiza de Paula



Sete horas em ponto do dia vinte e oito de Outubro de dois mil e dezoito. O espaço e o tempo pararam. Interrompeu-se a programação para anunciar a pesquisa de boca de urna para presidente. Segundos de tensão. Jair Messias Bolsonaro com cinquenta e seis por cento dos votos válidos. Minha respiração parou por um tempo. Meu corpo começou a formigar – sinal de queda de pressão, suponho. Sim, eu sabia! Mas fácil é saber no campo abstrato. O concreto é palpável e dói. 

Reconhecemos na prática que o Brazil está matando o Brasil. Ou, seria mesmo, os dois Brasis com “s” e eu que não quero ver? Colocar um espelho com lente de aumento perante a realidade abala a ideia que nós tínhamos sobre o outro, mas como tudo tem o lado bom, tem uma máxima que anda na moda que pode nos acalentar: “reconheceis a verdade e a verdade vos libertará.” Me libertará do ódio disfarçado de brincadeira. Me libertará do preconceito enrustido. Me libertará de uma elite que às sete vai à missa e às dezenove vai à festa da intolerância. Me libertará de quem conseguiu o desastroso feito de não ter compreendido absolutamente nada sobre a vida. Aliás, já me libertou. O Instagram vem sendo meu detector de verdades e o “Unfollow” anda sendo meu hobby. Ah! E perder seguidor também. Ainda bem! Não quero ter comigo quem de dia saúda a um revolucionário progressista, ele mesmo, um tal de Jesus Cristo e à noite bate continência para o torturador Carlos Alberto Ustra. Adoro contradições, mas não tolero desvio de caráter. 

Hoje admirei e valorizei um pouco mais a liberdade de ser e de expressar-se. Hoje compreendi o âmago profundo dos poetas. Hoje saquei o quão revolucionária é a leitura. Hoje eu respeitei mais os que lutaram contra o arbítrio, a força bruta e a censura. Hoje eu enxerguei o Estado Democrático de Direito como nunca antes. Hoje tudo ficou turvo e logo depois, um surto de clarividência. Hoje eu tive convicção de que estou do lado certo da vida e da história. E nada, absolutamente nada, pode ser mais reconfortante do que saber se posicionar frente ao mundo e saber identificar os lobos em pele de cordeiro. Hoje vi que perder lutando e na resiliência nem é perder tanto assim. É ganhar! 

Faz um tempo que o sinal não fica verde para nós. Estava no amarelo. Mas hoje está no vermelho e, literalmente, fechou para nós – que somos jovens. Fechou porque veio uma roda-viva querendo levar o destino pra lá. Mas a gente vai contra a corrente até não poder resistir. Sempre. Porque estamos vendo, infelizmente, que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. E que os nossos ídolos ainda são os mesmos. E que Elis vive! E Belchior sempre esteve certo! E que Chico não merece chorar novamente em busca da Democracia! E que a concretude dos fatos nos toma como um monstro emergindo da lagoa. E que amanhã há de ser outro dia e tudo isso vai passar. E que eu não sou nada fã de cálices, cálice ou cale-se.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O que Vladmir Herzog nos ensina para os dias atuais?

O caso do Jornalista morto há 43 anos pela ditadura militar exemplifica o que não queremos que se repita da história do Brasil

Por Kamila Tuenia 

No último dia 25 de outubro completaram-se 43 anos da morte do jornalista Vladmir Herzog, torturado pela Ditadura Militar Brasileira no Departamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Herzog era judeu naturalizado brasileiro, foi diretor de jornalismo da TV Cultura e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. Apresentou-se ao DOI-CODI para prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro e de lá nunca saiu, foi violentado, morto e dado como suicida. 


O DOI-CODI onde Herzog foi assassinado era comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, idolatrado pelo então candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), citado por ele na emblemática votação do Impeachment como “o terror de Dilma Rousseff”, torturada por Ustra no mesmo lugar. Bolsonaro já declarou que “querem vitimizar em cima da morte de Herzog”, para ele, ser morto por ser contrário a um regime que tortura pessoas é vitimismo, assim como se vitimizam mulheres, negros, LGBTs, pobres e nordestinos. 

A pergunta que me paira na cabeça sem parar é: Como um país que viveu um regime ditatorial tão brutal é capaz de dar milhares de votos a um candidato que defende tais ideais autoritários e semelhantes com os daquela época? Minimamente, grande parte do eleitorado Brasileiro não aprendeu nada com sua história e tem se deixado levar por esse discurso usurpador. 

A morte de Herzog, - assim como de todos os brasileiros que sofreram e foram mortos pela ditadura - deveria ser para todos nós um episódio que jamais deve se repetir e ser tratado com desdém, mas sim que deveria nos ensinar que vivemos tempos sombrios e violentos, onde o ódio e a intolerância dominaram por 20 anos. Um país que se permite viver algo minimamente semelhante ao regime que matou Vlado por se opor, talvez mereça uma nova chance de aprender a valorizar a democracia. 

Vivemos uma conjuntura em que o ódio e a intolerância novamente estão à beira de dominar o Brasil, e a garantia da democracia é incerta. Episódios violentos e tentativas de calar a voz da oposição a uma figura que representa medidas extremistas e excludentes, além de casos de censura velada e frases como “vamos fuzilar a petralhada” e “não te estupro porque você não merece” que dão aval a ataques de seus apoiadores para seguirem na prática a violência que Bolsonaro prega.

A cada dia Bolsonaro e seus seguidores nos provam que nossa jovem Democracia pode viver seus últimos dias em um governo mascarado por uma eleição democrática - que na verdade é manipulada pela construção do atual governo ilegítimo por meio de um golpe, pela grande mídia e pela farsa de que “as instituições estão funcionando normalmente”. Independentemente do resultado deste segundo turno, muitos de nós já temos o sentimento de que o nosso país já perdeu em vários aspectos, e infelizmente ainda é possível perdermos ainda mais e o candidato que infelizmente tem vencido as pesquisas de opinião eleitoral representa todo esse risco. 


Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos ante as atrocidades sofridas por outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados
Vladmir Herzog
Presente!

sábado, 20 de outubro de 2018

Setenta e sete

Por Luiza de Paula


Senti uma necessidade vital. Visceral. Lembrei do “Cartas ao Jovem Poeta”, de Maria Rilke, quando ele dizia algo mais ou menos assim: “Pergunte a si mesmo se precisa escrever. Encontre em si uma resposta profunda e se a resposta for ‘sim’, construa sua vida de acordo com essa necessidade. Se aproxime da sua natureza.” O mundo pode girar como for mas eu sempre vou voltar para o meu lugarzinho sagrado que é o da escrita. O único, por sinal, que anda sendo possível nesses dias. 

Tudo mudou nesses três meses por aqui. O layout está mais bonito. Chegou uma galera massa escrevendo uns contos geniais. Paulo Prado – o publicitário e crítico de filme mais foda que eu conheço e que tem os melhores bonés imagináveis– chegou por aqui com ideias Hi-Tech e implantou um tal de “Trello”, coisa que na minha época não existia e confesso que prefiro como há três meses. Posso falar isso? Acho que sim.  Ah! E o período eleitoral deu as caras. Lula não saiu da cadeia. Ciro Gomes não alavancou na disputa presidencial. Jair Messias Bolsonaro chegou ao segundo turno graças ao bombardeio de fake news, custeados por onipotentes empresários milionários, e a divulgação grotesca de discursos antidemocráticos e avessos a todas as minorias sociais. Fernando Haddad chegou ao segundo turno graças ao meu sensato e digníssimo Nordeste e finalmente conseguiu fazer autocríticas importantes. O judiciário silenciou-se diante das denúncias feitas pela Folha de São Paulo, acerca de um suposto Caixa Dois da campanha do “cidadão de bem”, o Messias. Teve também o #EleNão, um dos momentos mais bonitos que vi nessa minha curta caminhada democrática. Uma verdadeira primavera feminina. 

Adentrei em um semestre delicado na faculdade de direito. Inúmeras crises existenciais e choros no carro ouvindo Belchior e sua alucinação inebriada pela divina comédia humana. Estágios perdidos. A vida pessoal meio revirada. Eu meio errada. O país meio errado. Eu sou naturalmente hiperbólica e intensa, então esse “meio” foi só pra configurar um certo equilíbrio e não denotar “a louca” desvairada (risos). Só que não posso esconder isso, mas peço que fique só entre a gente, tá? É que essa coisa de escrever do outro lado da tela do computador dá uma coragem peculiar e típica. A gente se liberta, escreve para si mesma, esquece – por alguns minutinhos – que têm leitores e leitoras do outro lado e diz b-a-r-b-a-r-i-d-a-d-e-s ditas provavelmente pela primeira e última vez. Essa super/hiper/mega/power dose de “agir com o coração” – a etimologia que acabei de pesquisar no Google da palavra “coragem” – só pode ser alcançada por mim por meio da arte. Da escrita. Esse lugar é profano. É sagrado. É sincrético. É imexível. E que nada nos limite nesse espaço. Que nada nos censure. Que nada nos cale. E viva Maria Rilke com o seu revolucionário “Cartas a um Jovem Poeta.” E que prazer é estar de volta, mesmo quando aqui e acolá! 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Não me esqueças

Por Tiago Silva de Oliveira

"Mistério", de Odilon Redon
Acordou de súbito com um barulho surdo e úmido. Permaneceu com os olhos cerrados, sob o alerta do medo e o peso do sono, procurando pistas daquela experiência ou para se localizar no mundo, sob aquela fina manhã antiga. Tudo no seu quarto e no seu rosto é antigo, guarda bem o tempo. Já não dorme por cansaço. O sono, esta imitação da beleza, repouso mudo ineficaz, é fuga, adiantamento da morte. Assim, a cada longa noite, madrugada vazia ou tarde de gritaria no vizinho, o sono lhe rouba a vida. E gosta. Quando acorda, tem mais certeza da proximidade do fim. Essa noite teve o sono picotado pelos cupins. Ah, esses insetos imobiliários, se comerem a escritura da minha casa, transfiro-a para seus nomes. Acordou várias vezes na noite com essas palavras na boca. Assiste impassível de sua cama aos cupins fervendo no telhado devorarem os caibros. Aquilo era novidade. Sua casa estava com cupins. Finalmente tinha algo para comentar com sua vizinha enxerida. Odiava quando ela vinha bater à sua porta para conversar e fazer perguntas que não sabia responder. Perguntava se havia assistido à novela, por que não tinha filhos ou marido, por que não decorava a casa... Mas agora ela tinha algo para falar! Sentiu um pouco de segurança. Palpitou estranho o coração no peito, palpitou. 

Palpitou estranho. Sentiu uma vontade ardente de queimar seus mortos, deixar o vento, coveiro, recolher as cinzas. Ouviu aqueles cupins castanhos e brilhantes. A ambição lhe inundou com violência. Olhou para o velho piso de tacos castanhos. Há muito, muito tempo eles eram castanhos e brilhantes como aqueles cupins. Castanho-claro como o mel. Uniformes. Admirava tanto aquele piso. Foi a primeira coisa que fez quando comprou a casa - colocou os tacos. Riu de si mesma ao lembrar que um dia sonhou ter uma casa com piso de tacos. Mas hoje, ainda deitada na cama, vê os pedaços de madeira de descolarem do chão e sente um pouco de pena. 

Como uma criança que segura um doce para não acabar logo, ela bebe seu café. Lentamente. Não por estar quente, ele já estava morno, quase frio, mas para ter certeza que de fato a manhã tinha começado. Lavou-se e arrumou-se como em todas as manhãs. Pôs a mesa e dois pratos vazios. O porquê, não sabia. Nem estava com fome. Uma xícara de café lhe bastava. De novo aquela palpitação no coração. Era chegada a hora, não podia esperar mais ou enrolar tomando café. Ele esfriou. Sentia agora um vigor sensual, vibrante, quase erótico. Iria iniciar mais um trabalho. Um quadro. Há tempos não lhe faziam encomendas e estava em carne viva. 

Tudo ocorreu na noite anterior. Estava escovando os cabelos, preparando-se para dormir ou fugindo da tormenta da vida, quando bateram-lhe à porta. Tomou um susto. Nunca recebia visitas e sua vizinha nunca bateria à sua porta a essas horas. Espiou pelas frestas da janela e deu de cara com o busto de um mulher esbaforida que trazia flores. Me desculpe, senhora, bater à sua porta tão tarde, mas preciso de você, disse. 

Era uma mulher de olhos pequenos e rápidos, com certeza mais velha que ela, com muitas joias e um pronunciado bico de viúva. Preciso de você, preciso que pinte um quadro para mim com urgência, viajo daqui a dois dias e quero dar de presente. E entregou-lhe um pano vermelho com um volume equivalente a duas mãos fechadas. São todas suas, minha filha. Todas. Só quero que pinte um quadro para mim. 

Ainda sem entender, pegou as jóias e as flores e viu a porta fechar atrás de si. Nunca vira tantas jóias. O brilho metálico não a atraia muito. Mas eram muito bonitas, não se podia negar. E valiosas. Poderia trocar todo o seu chão de tacos se quisesse e muito mais, ah como poderia. Colocou o peso das jóias sobre a mesa da cozinha e examinou então as flores. Também eram muito bonitas, não se podia negar. Como eram. Nunca vira aquele tipo de flor. Pinte estas não-me-esqueças, são para meu amor. Não-me-esqueças, não-me-esqueças. São um belo presente, pensou. Mas ela queria um quadro. Um quadro com aquelas flores tão bonitas. Queria capturar o trânsito da vida e eternizar aquele auge de beleza daquelas flores. E ela era a responsável. Tremia diante de tanta responsabilidade. Já havia pintado vários quadros, já lhe haviam feito várias encomendas. Por que estava assim? Devia ter me fingido de morta. Estas flores não podem ser pintadas, elas são o amor e são finitas. “São para o meu amor”. Queria gritar mas era muito tarde. Esta é uma encomenda muito especial, única entre milhões. 

Não entendia mais seus pensamentos. Começou a engolir letras, depois palavras, as mais curtas. Sua mente era quase matemática. Ouviu então os sons do corpo. Seu coração dizia que estava com medo. Quase podia ouvir o pulsar de sua enorme veia saltada na têmpora esquerda. O ar esquentava, parecia que havia ganho dois graus. São para o meu amor. Como alguém que acabara de comer, ele cheirava à carne. Aquele cheiro doce e repugnante de carne ainda crua. Talvez não fosse a de um animal ou de uma pessoa, mas a sua. Era a sua carne que fedia. Abraçara um morto e não sabia. Amou-o como a morte ama a vida. Acho que mais. Talvez como o cheiro pálido de todas as manhãs pertence às manhãs. 

Ele tinha vindo de tão longe e amava meus quadros. Via o que não era. Mentia, mentia! Via beleza em meus quadros e em mim. Ele fazia tudo ser. Detestava. Por que não era honesto?! Ele só me via com os olhos? Pare, seus quadros são lindos. Não são! Eles cheiram a ovo podre! Mas ele insistia na beleza, e eu o admirava. 

Precisava experimentar viver de novo. Ouviu o silêncio do ressonar de seus ossos queimando e se assustou. Imaginara que o silêncio era inabitado. A manhã avançava e ela já começava a suar. Nada tinha acontecido. Não tinha coragem. Tudo dependia dela? Dependia. Mas tudo estava ainda morto e opaco, como antes da origem da vida. Precisava de água, luz e um pouco de perfeição - fez-se o mundo? Como ela estava um pouco adiantada nessa gênese, e já existia óleo, textura e cor, podia começar preparando suas tintas. Exigência pura, castigo. Esta cor é impossível. Nem sei se é. Sou um mamífero selvagem que se guia pelo cheiro. Começo a caçar. Ah, como é difícil. Não tenho mais disposição para correr. Só por medo. Esta cor é muito difícil, já disse. Não é azul, é a perfeição. Minha paleta sente prazer com esta cor. Mas eu procuro, não desisto da alquimia. Peguei elementos que não nada e os transformei. Sou uma bruxa de feitiços e fetiches. 

Está na iminência de um horror. Um horror tão feio quanto o grito de um sacrifício. Perdeu o quadro? Não, nem começou! Desespero. Não consegue achar a cor. Sente sede. Uma sede petrificada, muito seca e intensa. Seca como a aspereza da vida é seca. Quase uma fome. Bebeu inteira uma xícara de café pela manhã e sofre. Bebeu aquele café para manter a vigilância. Neste momento, sente-se quebrada, sem graça. 

Deu água na boca ver aqueles limões tão ácidos e verdes na geladeira. Verdes e brilhantes, quase oleosos. Na prateleira mais alta da geladeira. Supremos. Como o sol que arde no céu do meio-dia. Acho que têm até uma aura. Um faz companhia ao outro, mas são tão frágeis. Repousam esféricos e pesados como se fossem bolas de vidro geladas. 

Pegou dois e perturbou uma paz. Dois me são suficientes. Odeio facas, objetos cortantes no geral.Talvez pois tenha medo de sangrar até a morte .O medo da morte é antigo, mas peguei uma faca, peguei! Uma faca cheia de dentes, daquelas pequenas que usamos no café da manhã. Dessas não tenho medo, ou tenho pouco. Daquelas grandes, enormes, que usam nos açougues, tenho medo. Não me arrisco a pegá-las. Sangro por antecipação. Imagino meus órgãos fora do meu corpo e minha alma também, assistindo a tudo. Minha alma, pois estaria morta. 

Queria ser minha alma. Não é porque ela é minha que ela sou eu. Queria ser ela para sangrar com verdade. Peguei a faca, enfim, enfim. Sei cortar limões, não sou criança. Queria tirar toda a casca em espiral, mas é difícil. Só me resta a cruz. 

Seu cheiro é tão violento que dói nos ouvidos. Me toma. Engole minhas mãos, meu braço, meu tronco. Engole a casa um cheiro cítrico. Não queria ser tão má, mas preciso triturar bolas de vidro no liquidificador. Se fizer alguma diferença, bato com água benta. Tomei tudo, só um copo. 

Minhas mãos estão estranhas, muito grudentas e verdes. Engano, não estão verdes. É que confundi o cheiro com a cor. Perdão, por favor. Preciso acelerar porque já é tarde ou perderei meu ônibus, tenho que comprar mais tintas. Então vou transferir tudo da minha cozinha para um ônibus quente como algo que vive. Eu mesma estou pingando. Não tem para onde fugir do sol. Mas daqui para frente o ônibus seguirá em linha reta e nesta posição escapo um pouco dele, é o máximo que consegui. Tenho um livro na bolsa, é poesia das boas. 

O tronco do meu dedo indicador e do médio, perto da articulação, está vermelho, na mão direita. Não é de pintar. Sinto o vermelho na minha mão. Passaram-se horas depois que cheguei, dormi um pouco e já acordei. Meus dedos mudaram de cor. Estão um pouco amarronzados. Duas manchas. Queimei minha mão com ácido de bolas de vidro. 

Tudo me distrai, Deus, me salva! Pela manhã, após longo jejum noturno, sinto-me suspensa. Acordo assim, às vezes. Começa pelo meu estômago, o preenchimento vazio. O oco do mundo é sentido primeiro nessa região. Ela tateia. Mesmo bebendo água continuo vazia. Uma força muito calma pressiona meu corpo. Tão calma e leve. Como o repouso das flores, chananas boiando na água. Na água ardente do meu estômago. Esta sensação não passa!Queria que a primavera chegasse. 

Não consigo me concentrar no quadro. São estas flores, só pode ser. Rompi um casulo de horrenda beleza e não consigo fechá-lo. Será que ela aceita outra coisa, digo, outra pintura? Tem que aceitar. Fui desonesta com minha cliente. Acho que fui desonesta com todos e comigo mesma. Não consigo pintar por encomenda, por que ainda insisto? Escolhi viver, por isso fico exposta ao perigo da morte sempre. Acho que me revelaram o segredo, espero que não seja tarde. 

Extraio crônicas secreções inaudíveis de sépia do meu coração, meu pincel se move, parece que expele tinta de lula. Tanta neblina...uma caverna úmida diante de mim começa a surgir, rasgada, com uma fenda. Tão silenciosa que começo a sentir paz. Estou sozinha diante de uma caverna. Algo lá dentro me chama. À meia luz algo respira e vive. Algo imenso. Não consigo ver ainda. Estou suando de novo, minhas pupilas estão dilatadas. É selvagem. 

Por entre estalactites e estalagmites, relincha um cavalo castanho e gordo, muito escovado, brilhante, e rompe a noite da caverna e minha tela.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Com quantos beijos se completa um homem?

Por Maria Clara Pimentel

Ela pediu um tempo. Me assustei, a princípio. Na verdade, ainda estou tentando compreender. Me beija cotidianamente, várias vezes ao dia. Quem vê, pensa que somos jovens apaixonados curtindo o primeiro amor. Seja com boca de café ou de hortelã, recebo beijos enamorados incontáveis vezes ao dia.

Nossa vida vem sendo a mesma nos últimos três anos de namoro. Nosso cotidiano segue um roteiro aparentemente estático - apesar de que ela sempre faz questão de manter um ritmo bailado e suave, quase ao eco da voz e chiado de Chico Buarque. É monótono todo dia ela mandando eu me cuidar, dizendo que me espera para jantar e me recebendo no portão quando eu retorno do trabalho. Quero dizer, ela me dá total liberdade no geral, mas gosta de se mostrar muito cuidadosa sempre que estamos juntos. O que acontece é que, para mim, isso é demais!

Às vezes dou um basta, digo que não, e ela se entristece. É descomedido, em alguns momentos, e eu simplesmente não dou conta. Por que ela age assim comigo se eu não faço metade do que ela faz por mim? Fico incomodado em alguns momentos porque seus trejeitos são capazes de me enlouquecer. Então permaneço calado, com a boca de feijão e a mal-agradecida vontade de ter nada mais que um relacionamento ordinário.

Ela faz o que as namoradas de todos os meus amigos fazem, mas é evidente a discrepância dos seus modos e reais intenções - sempre as mais puras. Ela se importa, de verdade; me beija beijos molhados e amorosos - não os secos e meramente de rotina que recebem os meus colegas. E me parece que só agora percebo tudo isso. Há muita intensidade em sua alma. Ela não foi feita para dar meio-amor, jogar meio-charme e ser meia-namorada. Ela é por inteiro; duas vezes ainda, se duvidar.

À noite, quando ela jura amor eterno e me aperta como que querendo me sufocar, seu beijo enlouquecido aparenta desesperador - ela me chupa a língua como se bebesse de uma fonte que não fosse jamais capaz de lhe sanar. Compreensível. Não sei se o gosto de pavor do nosso beijo é realmente dela, se não meu. Afinal, eu sou esse poço do qual ela tenta tão fortemente beber, extrair algo de bom, há anos. Mas é como tentar tirar leite de pedra. 

A verdade é que nunca me acostumei com todo o seu fervor e toda a sua paixão, desmedida e recorrentemente provada. Porque não sou merecedor nem de uma milésima parte do seu sentimento por mim. Aliás, creio que eu sempre soube disso, de um modo ou de outro, mas acho que ela só percebeu agora. Ainda estou atônito - agora porque não acredito que vou deixar passar essa mulher maravilhosa. Parece que só agora, prestes a perdê-la, reconheço de fato o seu valor.

Ao menos, vou tentar aproveitar ao máximo nosso próximo beijo, há grandes chances de que ele seja o último. E não a culpo, ela faz bem em terminar comigo - até me pergunto como aguentou tanto tempo ao meu lado. Meu erro foi querer um relacionamento meia-boca com alguém que simplesmente não conhece metades. E agora só o que consigo fazer é ansiar pelo gosto de café com hortelã da sua boca, e refletir: com quantos beijos será que se completa um homem?


Reinterpretação da música “Cotidiano”, de Chico Buarque.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

“Todo dia ela faz tudo sempre igual” - Da recessão à sobrevivência

Por Ylanna Pires

Luzia Francinete de Macêdo, ambulante.
Foto: Ylanna Pires. 
O trecho da canção de Chico Buarque título-trocadilho dessa reportagem, não foi usado como mero artifício para chamar atenção do leitor. Mas sim, como ilustrativo poético de uma realidade trágica. Ela, a recessão, fenômeno de contração da economia ocasionado pela diminuição da geração de riqueza do país, tem feito todos os dias tudo sempre igual: deixado milhares de brasileiros desempregados, sem esperança e jogados à informalidade dos chamados “bicos”.

Segundo o IBGE, o número de desempregados no país batia a marca de 13,2 milhões de pessoas no primeiro trimestre desse ano. A mesma pesquisa, em parceria com o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), demonstrou um aumento no que diz respeito aos empregos informais.

Com relação ao Nordeste, a taxa de desemprego é ainda mais preocupante, pois alcança a marca de 15,9% e lidera o ranking das regiões com maior índice de pobreza e desemprego do país. É nesse cenário que Luzia Francinete de Macêdo, 53, faz do seu cotidiano meio de sobrevivência a uma crise que segundo ela “existe desde que papai tinha dente”.

A ambulante “Fran”, como prefere ser chamada, trabalha nas ruas da capital do estado do Rio Grande do Norte há 35 anos, natural de uma cidade interiorana de Pau dos Ferros, localizada na região do Alto Oeste. Ela veio buscar na Cidade do Sol melhores condições de vida e uma fuga para o destino da inchada e da agricultura, que rege a economia das microrregiões norte-riograndenses.

Encontrei Fran em umas das passarelas da Zona Sul da cidade, e me apresentando, faço-a meu convite para transformá-la em personagem dessa matéria sobre a classe trabalhadora a qual ela faz parte, ao que me responde: “Conheço essa faculdade que você estuda, formei uma filha lá. Ela é professora de menino pequeno”. 

Dada a conveniente coincidência, ganho a simpatia da comerciante, que diante do meu questionamento de como foi parar na informalidade e como se dá sua rotina, dispara: “Trabalho aqui em Natal faz uns 35 anos, vim bem novinha pra cá, nunca trabalhei em empresa e nem estudei, é com isso aqui que criei cinco filhos, dois são ambulantes também. Vim pra cá, porque você sabe né? Menina nova não quer trabalhar no roçado. Eu não queria. Sou feliz aqui".

Sobre as principais dificuldades de se trabalhar na rua, sem proteção ou resguardo e quanto “dá pra fazer” no mês, em dinheiro, ela diz: "Muito não, não faço muito. Mas assim, é o de viver né? Era mais difícil antes, agora meus cinco filhos tão criados e me ajudam, eu faço uns 300 reais. A única coisa ruim de trabalhar aqui é o risco de acidente, né? Como a gente corre pra pegar uma brechinha nas janelas dos ônibus pra vender pro povo que vem, pode cair sabe? Ou até ser atropelado. Sim, e assalto. Assalto tem muito. Não me assaltam porque tou velha”, brinca ao enaltecer o tempo de trabalho e os anos de vida. 

Questiono se nos últimos anos, visto a crise que assola o país, Fran tem percebido algum aumento no número de ambulantes. “Essa crise existe desde que papai tinha dente, que aumentou, é verdade, aumentou, na verdade dentro dos ônibus, porque fora tá menos faz uns anos...os homem do Ministério Público queria tirar nós tudo daqui. Mas as outras autoridades não deixaram, eu até ia mudar. Ia começar a vender no Bom Pastor, moro lá. Mas não tem freguesia, ainda bem que deu certo. O povo com medo saiu da rua e foi pras condução, né? Mas eu não tenho mais idade pra isso, é muito perigoso e ainda mais, se entrar no ônibus tem que pagar a passagem. E quem vende essas baganinhas que não tira nem o da passagem?!”.

O ato do Ministério Público que Francinete se refere é ação civil contra o município de Natal, que solicitava a retirada dos ambulantes das vias públicas da cidade. A ação tem nove anos, e foi negada. Procuro saber dela sobre a rotina dos ambulantes, sobre o que vendem, quais os horários de pico e a jornada de trabalho.

“Antes a gente só tinha hora pra chegar, chegava assim, lá pras sete horas, quem tem barraquinha chegava mais cedo. E aí a gente ficava até ás nove ou dez horas noite. Era bom, pegava a freguesia de quem fazia faculdade. Mas agora não pode, tem assalto até de meio dia, imagina de noite... quando dá a noitinha todo mundo arruma as tralhas pra ir simbora. E assim, de venda, a gente vende tudo, água, balinha, óculos, pulseira, bolsa... Sim, tem cerveja também, você quer?”

Foto: Ylanna Pires. 

Recuso a gentileza alegando não beber. Pouco tempo depois chega uma criança carregando sacolas e falando apressada com a comerciante, pergunto quem é e se trabalha com ela. “Trabalha aqui, é meu neto”. 

Como nossa conversa se dava pela manhã, questiono se o menino que citei acima, visivelmente menor de idade, não deveria estar na escola. “Olhe, tem gente que nasce pra estudar igual você, e tem gente que nasce pra trabalhar como eu. Ele estuda de tarde, mas quer trabalhar também, ninguém vai impedir, e ele já falou que não gosta de escola. Quer ser ambulante”, responde defensiva.

Contraponho o argumento da comerciante usando o exemplo da filha dela, citada no início da reportagem, Fran alega: “Mas ali é diferente, foi uma benção de Deus. E agora já que você não bebe, faça uma fotografia minha perto da minha cervejinha, é o lado bom de eu mesma ser minha patroa”.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Conheça os candidatos eleitos pelo Rio Grande do Norte para ocupar o Senado e a Câmara Federal

Potiguares foram às urnas neste domingo (7) e escolheram novos representantes para os cargos legislativos

Por Kamila Tuenia 

Neste domingo (7), os eleitores potiguares votaram em seus novos representantes para o período 2019-2022 na Câmara Federal e 2019-2026 no Senado. Também foram eleitos os deputados estaduais que irão compor a Assembléia Legislativa e os cargos de Governador(a) e Presidente serão decididos no segundo turno que será no dia 28 de outubro. 

Conheça um pouco dos 8 deputados federais e 2 senadores eleitos pelo povo potiguar. 

SENADO

15 candidatos e 2 vagas. A bancada Norte Rio Grandense do Senado Federal será composta por Capitão Styvenson Valentim e pela Dra. Zenaide Maia, que tiveram 25,7% e 22,6% dos votos, respectivamente. 


Capitão Styvenson (REDE)

Estreante na disputa política, Eann Styvenson Valentim é Policial Militar do Rio Grande do Norte desde 2003, atuando também no Comando de Polícia Rodoviária Estadual onde ficou bastante conhecido por ser rígido na coordenação da Operação Lei Seca, e mais recentemente na área de Segurança Escolar. 

O Senador eleito foi o mais votado para o pleito, tendo 745.827 votos. Ele afirma nas redes sociais que fez uma campanha limpa e popular, sem usar do dinheiro público, e defende que sua falta de experiência política é compensada por sua honestidade. 

Dra. Zenaide (PHS)

Médica formada pela UFRN, antes de entrar de fato na vida política Dra. Zenaide foi Secretária de Saúde do Município de São Gonçalo do Amarante e em 2014 foi eleita Deputada Federal. Na Câmara dos Deputados, Zenaide se destacou pela atuação completamente destoada da dos demais deputados que representavam o Rio Grande do Norte, se posicionando e votando por exemplo, contra a Reforma Trabalhista, contra a Emenda Constitucional 95 e contra o Impeachment contra Dilma Rousseff.

A nova senadora também foi, enquanto Deputada Federal, a única potiguar a estar presente em todas as sessões da câmara, sendo indicada e eleita pelo Prêmio Congresso em Foco como a melhor deputada do RN, sendo relatora da lei de cotas para deficientes nas universidades públicas e destinando emendas para a Saúde e para os IFRNs. 

CÂMARA FEDERAL

A bancada federal do RN mudou, agora 5 novos nomes ocuparão a CF pelo Rio Grande do Norte junto com outros 3 que foram reeleitos. A antes era intitulada “bancada 7x1” tem grandes chances de mudar esse quadro. 


Benes Leocádio (PTC)

Luiz Benes Leocádio é Servidor Público Estadual e foi Prefeito do município de Lages por cinco gestões. Nestas eleições, Benes compôs a coligação de Robinson Faria (PSD) e Geraldo Melo (PSDB) sendo cotado inicialmente para ser vice do atual governador que tentou a reeleição. O deputado federal mais votado do RN foi presidente da Federação dos Municípios do RN, já passou pelo PSDB e MDB, sendo em 2014 apoiador e coordenador da campanha de Henrique Alves - que cumpre atualmente prisão domiciliar por corrupção e fraude - ao governo do estado. 

Natália Bonavides (PT)

Natália Bonavides é Advogada popular formada pela UFRN e militante dos direitos humanos, foi eleita Vereadora de Natal em 2016, se tornando a primeira mulher do PT/RN a ocupar o cargo. Natália constrói um mandato participativo, mantendo diálogo com os movimentos sociais e defendendo pautas como os direitos das mulheres, negros, negras e LGBTs, como também considera cruciais as reformas agrária, tributária e das comunicações cruciais para o Brasil. 

A vereadora realizou durante seus dois anos de mandato diversas audiências públicas e encontros temáticos, seus principais projetos na Câmara dos Vereadores foram o PL do Parto Humanizado, PL Transcidadania e PLs que instituem o Dia Municipal da Mulher Negra e a Semana da Cidadania LGBT. 

Fernando Mineiro (PT)

Fernando Mineiro é biólogo pela UFRN e professor da Rede Estadual de Ensino, foi vereador de Natal e Deputado Estadual do RN por quatro mandatos em ambos os cargos, sendo reeleito com votações expressivas.

Vários eixos norteiam a atuação dos mandatos de Mineiro, como a defesa da educação, dos servidores públicos, dos trabalhadores, da juventude, mulheres e negros. O petista é autor da Lei Djalma Maranhão de incentivo à cultura, da Lei RN sem LGBTfobia que criminaliza a violência contra LGBTS no estado e também é de sua autoria a lei 9.014 que reconhece a propriedade de terras ocupadas por quilombolas. No início do ano, Mineiro articulou a derrubada dos projetos popularmente conhecidos como “Pacote de Maldades” propostos pelo governo Robinson.

João Maia (PR) 

João Maia é Economista pela UFRJ, Servidor Público Federal e foi deputado federal pelo RN por dois mandatos, eleito para o primeiro deles em 2006, sendo coordenador de bancada no período 2011-2014. 

Atualmente compondo a coligação de Robinson Faria, em 2014 João foi candidato a vice-governador de Henrique Alves e é acusado pela Operação Via Ápia de receber propina de uma empresa responsável por parte das obras da BR-101.

Rafael Motta (PSB)

Engenheiro de Produção formado pela UFRN, Rafael Motta é um dos deputados reeleitos para a Câmara Federal. Foi vereador de Natal, sendo autor do projeto que institui a Auto Escola Pública Municipal, já como deputado foi integrante da comissão de Reforma Política, apresentou o PL que proíbe a inauguração de obras inacabadas por gestores federais, e viabilizou o programa Câmara Inclusiva, que dá oportunidades de trabalho para deficientes.

Rafael também votou contra a Reforma Trabalhista, contra a Terceirização, contra o Financiamento privado de campanha e a favor da abertura de processo contra Michel Temer. 

General Girão (PSL)

Também estreante na disputa eleitoral, Eliéser Girão é membro das Forças Armadas, graduado em Ciências Militares da Arma de Infantaria pela Academia Militar das Agulhas Negras. 

O general atuou como subchefe da Casa Militar da Presidência no governo FHC, foi Secretário de Segurança do RN na gestão Rosalba e atualmente ocupa o mesmo cargo na prefeitura de Mossoró. 

Girão é tido como o candidato de Bolsonaro nas terras potiguares, representando bem suas pautas conservadoras, o deputado eleito diz que se candidatou “para dar governabilidade a Bolsonaro” e acredita na eleição de militares para que a ordem e o progresso sejam resgatados no país. 

Walter Alves (MDB)

Walter Alves é mais um dos deputados federais reeleitos, Administrador e ex-deputado estadual, o filho de Garibaldi Alves votou a favor do impeachment contra Dilma Rousseff, foi a favor da PEC do Teto de Gastos (EC 95) e contra a abertura de investigação contra Michel Temer. 

Walter destinou em seu mandato federal, emendas parlamentares que destinam recursos para a UERN e apresentou projetos de lei que instituem penas mais rígidas para casos de roubo, homicídio e lesão corporal. 

Fábio Faria (PSD)

Administrador pela UnP, o terceiro deputado federal reeleito, Fábio Faria defende principalmente as bandeiras do Turismo e do Esporte, destinou recursos para compra de equipamentos da saúde do RN, é autor da lei que instituiu o bloqueio de sinal telefônico nos presídios e da lei que institui o programa de incentivo a geração de energia por fonte solar. O filho de Robinson Faria votou favorável ao impeachment, a terceirização e a reforma trabalhista e contra a investigação de Michel Temer. 

Suspeito de receber recursos da Odebrecht Ambiental via caixa dois, para sua campanha de reeleição em 2010, Fábio vai agora para o seu 4° mandato na Câmara Federal.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A nova composição da Câmara dos Deputados em um gráfico

PSL, de Bolsonaro, terá a segunda maior bancada da casa, com 52 deputados; somente fica atrás do PT, com 56 cadeiras

Por Yuri Gomes

Foto: Laycer Tomaz/Câmara dos Deputados

A já fragmentada Câmara dos Deputados bateu um novo recorde: terá 30 partidos com representantes divididos entres as 513 vagas. Em 2010, o número era de 22 siglas; em 2014 chegou a 28.

Dessa forma, o próximo presidente da República, que precisará aprovar reformas fundamentais ao país, não terá tarefa fácil. Para a aprovação de um projeto de lei ou medida provisória é preciso o apoio da maioria simples dos parlamentares. Já no caso de uma proposta de emenda à Constituição são necessários os votos favoráveis, em dois turnos, de 308 deputados 3/5 do total da casa.

A votação expressiva de Jair Bolsonaro na corrida presidencial ajudou a eleger 52 deputados do seu partido, o PSL. Em 2014, a sigla havia elegido apenas 1 representante para a Câmara Federal. O PT perdeu 13 deputados em relação a 2014, quando elegeu 69. Mas, mesmo assim, o partido continuará com a maior bancada da Câmara.

Diretamente atrelado à imagem do impopular Michel Temer, o MDB foi o partido que mais reduziu o número de deputados, quando comparado com os resultados da última eleição, em 2014, quando elegeu 66 deputados. A partir de fevereiro de 2019, terá quase a metade, 34 cadeiras. Sai da segunda colocação para a quarta, atrás do PP, que preencherá 37 vagas.

O PSDB foi outra agremiação que viu sua bancada reduzir: de 59 deputados em 2014 para 29 em 2018. O PSOL dobrou o número de representantes eleitos: de 5 para 10. O estreante NOVO conseguiu eleger 8 deputados. O PRTB, que possuía um deputado eleito em 2014, não ocupará nenhuma cadeira na casa; único partido que deixará a Câmara dos Deputados.

Confira a nova composição da Câmara dos Deputados:

Como fica o Senado Federal

A nova composição em um gráfico

Por Yuri Gomes

Divulgação: Agência Senado

O próximo presidente da república, seja ele quem for, terá grandes dificuldades para formar maioria no Senado Federal. Segundo os resultados das eleições, a partir do dia 1° de fevereiro, a casa contará com 21 partidos diferentes.

Dos 81 senadores, a maior parte continua sendo do MDB, com 12 representantes. São sete a menos, em relação a 2014 na lista dos que ficaram de fora incluem-se os caciques Romero Jucá (RR), Edison Lobão (MA) e Garibaldi Alves (RN). O PSDB passa a ter a segunda maior bancada: 9 senadores. Cabe ressaltar que o senador tucano Antônio Anastasia concorrerá no segundo turno das eleições para governador, em Minas Gerais. Caso vença, o seu suplente, Alexandre Silveira (PSD) assumirá a cadeira e mudará a composição do senado.

O Partido dos Trabalhadores (PT) terá apenas 6 representantes no Senado Federal, sete a menos em comparação a 2014, quando tinha 13. As baixas principais são: Lindbergh Farias (RJ),  Jorge Viana (AC) e Gleisi Hoffmann (PR), eleita para uma vaga na Câmara dos Deputados. A ex-presidente Dilma Rousseff, que vinha liderando todas as pesquisas de intenção de voto para o Senado, até às véspera da eleição, não conseguiu se eleger ficou na 4° colocação.  

Puxados pela expressiva votação de Jair Bolsonaro, 4 senadores foram eleitos pelo PSL, o partido do presidenciável. Entre eles estão o filho do capitão, Flávio Bolsonaro (RJ) e Major Olímpio (SP), ambos os mais votados nos seus estados.

O PSD contará com a terceira maior bancada, sete senadores, podendo chegar a oito com a vitória de Anastasia em Minas. A REDE saltou de zero, em 2014, para cinco representantes em 2018. O mesmo aconteceu com o Podemos. PSOL e PCdoB perderam seus únicos representantes no Senado.

Os senadores Álvaro Dias (PODE-PR) e Kátia Abreu (PDT-TO) retornam à casa, após saírem derrotados da corrida presidencial. O paranaense foi o nono presidenciável mais votado, com 0,8% dos votos. A pedetista e ex-ministra do Meio-Ambiente foi vice na chapa de Ciro Gomes (PDT), que terminou na terceira colocação, com 12,5% dos votos válidos. Os dois ainda terão quatro anos, dos oito, de mandato pela frente. A sen. Ana Amélia (PP-RS), vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin (4,8% dos votos), cumprirá seu mandato até janeiro de 2019.  

Confira abaixo o gráfico interativo da nova composição do Senado Federal:


sábado, 6 de outubro de 2018

O massacre do Carandiru e o sistema prisional brasileiro

Por Vanessa Islany 

Detendo segura a Declaração Universal dos Direitos Humanos enquanto clama para que a força policial não invada o presídio.

Há 26 anos, acontecia o mais grave episódio na história do sistema prisional brasileiro. No dia 02 de outubro de 1992, uma briga entre presidiários foi o estopim para um confronto generalizado no interior da Casa de Detenção de São Paulo. Mais conhecida como Carandiru, a Casa abrigava mais de sete mil detentos distribuídos em nove pavilhões. 

A fim de controlar uma rebelião que teria se iniciado no pavilhão nove, cerca de 300 policiais invadiram o presídio, deixando pelo menos 111 mortos e 110 feridos. Os números do massacre só foram revelados à opinião pública um dia depois, data das eleições municipais. O episódio resultou em um massacre que marcou a história do Brasil e a imprensa brasileira da época deu a esse acontecimento o título de Massacre do Carandiru. 

Um dos maiores presídios da história do Brasil, o Carandiru, carrega consigo uma trajetória de altos e baixos, que vai de um presídio modelo ao palco de um dos maiores massacres da nossa história. Mas que relação esse acontecimento tem com nosso cenário atual? Às vésperas de eleições, nos deparamos com discursos de um certo candidato e seus apoiadores defendendo publicamente a violência e incitando ódio enquanto fazem apologia à tortura. 

No Brasil contemporâneo, o pensamento com teor fascista prolifera em terreno fértil. Os recentes massacres nas penitenciárias de Manaus, Boa Vista e Natal ocorridos em 2017 possibilitaram vir à tona comentários que demonstram o fascínio do homem pela violência arrebatadora. A sociedade, em sua grande maioria, defende o combate ao crime de forma dolorosa. A pena de prisão ocupa no imaginário popular um papel de vingança, distante da possibilidade de recuperação e reintegração social do detento.

Corredor de sangue em um dos pavilhões após o massacre.

Mesmo após 26 anos do massacre do Carandiru, o sistema penitenciário brasileiro continua se apresentando cruel e ineficaz. A superlotação dos presídios, o funcionamento precário das unidades e as práticas recorrentes de violência transformam o sistema prisional em uma máquina de sofrimento. O vácuo deixado pelo Estado na garantia de direitos básicos dos presos foi sendo assumido pela organização dos grupos criminosos. 

Os índices de diminuição de homicídios são mínimos diante da centralidade que o tema deveria ter nas estratégias de segurança dos governos, visto isso, o foco das políticas de segurança pública não é a redução de homicídios. É necessário que haja uma prevenção criminal, ou seja, políticas públicas apropriadas de conscientização social que visam evitar a necessidade de resolução de conflitos em esfera penal, postulando que, em última instância, isso venha ocorrer, o acusado se possa valer efetivamente de direitos e garantias necessárias. 

É preciso impor limites nas forças de segurança, para evitar que os abusos sigam se repetindo. A solução é trabalhar em cima da readequação da polícia no contexto brasileiro, suspendendo a estrutura arcaica, legada pela Ditadura Militar. Não há democracia que tenha alcançado a paz social através da violência policial. Um regime democrático pressupõe, sobretudo, a limitação do poder. Não cabe a corporação alguma o papel de executar detentos com pretexto de defender a sociedade.

O projeto Forró na UFRN contribui para a transformação de vida dos praticantes

O projeto de extensão colabora ainda mais com a valorização da cultura nordestina

Por PH Dias

Praticantes do Forró na UFRN. 

Em 2015, na Universidade de Toronto, no Canadá, um grupo de amigos da capital potiguar, que faziam intercâmbio, começaram a praticar aulas que se assemelham com o forró pé de serra. Foi paixão na certa. E querendo praticar esse amor adquirido, voltando para Natal/RN, se depararam com uma situação complicada: não havia uma academia de dança especializada no pé de serra.

Eles, por conta própria, começaram a ensinar o ritmo, em uma sala de aula, no Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No começo, eram poucos voluntários dentro do projeto. Agora, o sucesso é tanto que é até concorrido para entrar e há uma grande lista de espera para aqueles que não conseguiram ingressar na turma do semestre. Somado à isso, o espaço das aulas também mudou. Atualmente, os exercícios de forró ocorrem na sala do anexo do Ginásio Poliesportivo 1.

Diante desse contexto todo, estamos falando do Forró na UFRN, o projeto de extensão para todos os públicos.


A equipe de reportagem do Caderno de Pauta entrevistou a Erika Vivian, formada em Teatro na própria Universidade, ela contou a importância do Forró na UFRN na sua vida pessoal. Ela entrou no projeto como participante e hoje faz parte da equipe de professores de forró. “Entrei no projeto com um pensamento de senso comum, que já sabia dançar forró, quando percebi que era música somente com sanfona, zabumba e triângulo, pensei: 'forró de véi'. E estava totalmente enganada. Hoje sou apaixonada por forró pé de serra, descobri que existem vários ritmos dentro do forró, que eu tinha esquecer o que o mundo me ensinou", relata. Ela diz que foi no projeto que descobriu o prazer em dançar, em ouvir, em abraçar alguém e viver a experiência que o forró pode proporcionar em apenas uma música.

Uma vez que é normal os alunos acharem que sabem de alguma coisa sobre a prática, o projeto faz questão de desconstruir conceitos: um deles é quanto a questão de diferenciar forró eletrônico, o que mais aparece na mídia, do xote, o pé de serra.

Além de uma desconstrução, a atividade traz benefícios para a vida pessoal e social do praticante. “O forró me proporciona momentos importantes de uma vida mais saudável, por manter o corpo ativo, viver em comunidade de pessoas que respeitam a si e ao outro, porque quer proporcionar ao próximo uma dança agradável e prazerosa”, comenta Erika.

Ela fala também como valorizou a cultura do Nordeste, a partir do conhecimento dos vários arranjos presentes no gênero. “A importância cultural de conhecer a história do forró pé de serra e a criação do projeto forró na UFRN, me fez valorizar ainda mais o que é nosso. Que eu desconhecia. O forró faz parte da gente, é a cultura que é introduzido a nós na escola, na quadrilha junina, mas não nos contam que é um dos ritmos do forró, que ainda existe o xote, o xaxado, o baião. Dançamos pela diversão. Que é maravilhoso! Mas quando você descobre a grandiosidade da comunidade forrozeira, percebe que pode vivê-lo todo dia, sem precisar esperar por junho chegar, a vida fica mais completa. Quanto mais se conhece do forró, mais se quer viver ele, apresentar pra todo mundo e ter orgulho de fazer parte da história do nordeste”.

Quem quiser participar do Forró na UFRN, as inscrições são abertas todo semestre para o público interno e externo na Secretária do Ginásio Poliesportivo I. É só ir lá e ver qual o melhor dia e horário: terça-feira das 19h às 21h; quarta-feira das 9h às 11h; quinta-feira das 14h30 às 16h; e sexta-feira das 10h às 12h.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Saneamento é caso de urgência em nova descoberta

Esgoto ao ar livre no bairro é um grande problema, mas não uma grande novidade

Por Ella Torres

Rua Djalma Maranhão, em frente ao 7° Batalhão de Engenharia do Exército. Foto: Manuela Torres. 


Há anos o bairro de Nova Descoberta, na Zona Sul de Natal, é tomado por um incômodo enorme. Em frente ao 7° Batalhão de Engenharia do Exército, em uma via de importante acesso na cidade chamada Djalma Maranhão, o esgoto frequentemente toma conta do perímetro, sujeitando os cidadãos ao mau cheiro e à sujeira.

Segundo moradores, os problemas de encanamento começaram desde que a empresa de saneamento responsável, a Caern, concluiu uma obra de drenagem no local. Algo deu errado, mas até o presente momento, o mau cheiro é muito e as informações ainda são poucas. “Você tem algo para me dá? Não? Então não vou falar nada, porque moro aqui há mais de cinquenta anos, sei quando isso começou, pode escrever que não vai mudar, nunca muda”, rebelou-se um antigo morador, sem esperança com a situação. Já o estudante de C&T Maurício Moreira, 19, que reside no bairro há pouco mais de um ano, pensa de forma mais otimista: “Comecei a ver (o esgoto) de uns meses para cá, acho que basta se disporem realmente a vir, analisar e resolverem a situação”.

Foto: Manuela Torres/Caderno de Pauta.
A pessoa mais afetada com a complicação é Augusto Paiva, 48, dono do restaurante “O Poty”, que funciona há quatro anos no local. É com esse negócio que Augusto tira a seu sustento e de seus 14 funcionários e afirma que, nos dias em que a rua está interditada, o faturamento cai em 40%. 

“A gente paga 70% a mais de tratamento de esgoto, já acho um absurdo porque isso deveria ser dever da prefeitura, e é 70% em cima do seu gasto, como aqui é empresa, as vezes é 70% em cima de 400 reais”, lamentou-se o proprietário. “Já fui incontáveis vezes na Caern, tenho todos os meus protocolos anotados, eles dizem que é uma bomba que quebra na lagoa de Preá, mas acho que você devia ter pelo menos duas, para que quando uma quebre você use a outra, pois eu vejo isso já faz quatro anos e ainda não deu para solucionar? ”

De acordo com a assessoria de imprensa da Caern (Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte), o transtorno é fruto de uma falha técnica, decorrente de uma manutenção na estação elevatória de esgotos. A empresa afirmou que até o dia 05 de outubro o problema estaria resolvido. No entanto, para Augusto Paiva, resta saber até quando: “Se continuar a gente não vai aguentar, a gente vai fechar, e as pessoas vão perder 14 empregos”.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Momento do Silêncio

Por Ella Torres
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Guerra Lunar por Isidro Chiculo Sanene. 

Foi num dia como esse que perdemos a guerra.

A água empoçada no chão refletia o grafite do céu, como os escudos do exército, espelhavam a dor nos olhos do último dos rebeldes.

Muita gente que eu conhecia morreu nesta época.

Eu era criança e comecei a perguntar pelo meu avô, que parara de almoçar conosco. Depois pela minha tia Moly, que era professora universitária e cozinhava uma bela torta de frutas no Natal. Perguntei pelo meu primo Tobias, o orgulho da família, que não me chamava mais para andar a cavalo – mas quanto mais gente ia desaparecendo, entre os vizinhos e amigos, e quanto mais eu via minha mãe chorar pelas ideias veementes de meu pai, mais eu parava de fazer perguntas. Porque, criança ou não, uma hora você se dá conta do que de fato é uma guerra e a qual lado você pertence.

Orgulho-me em dizer que, numa manhã sem esperança de março, nasci no lado dos derrotados, como um presságio de glória – ou como um desgraçado que poderia ser morto muito em breve.

Mas os anos se passaram e o fato de terem nos deixado vivos, a meu pai, minha mãe e a mim, talvez tenha feito com que relembrassem o episódio e acreditassem na primeira opção. Porque o homem incumbido da tarefa olhou nos olhos dos dois, disse que a guerra acabou e que era melhor se renderem, pois não gostava de matar na sexta-feira.

E, ainda naquele mesmo dia chuvoso, intrépido e triste de novembro, quando minha mãe me fez acender uma vela para cada pessoa que sumiu nos anos anteriores, eu ainda podia ver no luto dos olhos dela que não havíamos nos entregado de verdade.

– Ninguém rouba de você o pensamento. – Sussurrou ela devagar, como que para eu não me esquecesse.

E não me esqueci.

Nunca. Nem quando ganhei pelos no rosto e botas enormes nos pés, ou quando foi instituído que a moralidade era a conduta, a Igreja era a conduta, a ordem era a conduta. Eu sempre sussurrei em silêncio, enquanto hasteavam a bandeira do novo regime e pediam um minuto pelas vidas perdidas dos soldados. Eu nunca deixei de sussurrar “ninguém rouba de mim meu pensamento”.

E era para ser segredo, um segredo mesmo fácil de guardar. Porque em mim estava esculpido o estigma da família Langue, o que restou de uma família destruída pelo governo, odiada por todos e endeusada nos livros clandestinos dos novos intelectuais.

Eu não tinha amigos, mas tinha acesso a esses livros. Há um ano sei o que discutem em sigilo, enfiados em porões, os novos pensadores. Isso é possível porque, dentro da sala do alto conselho, sob um batom rubi e um chapéu negro de veludo, lindos olhos cinzas faziam vista grossa.

O nome dela é Harmony. E de harmonia só tem o rosto, que parece ter saído das telas de um cinema dos anos vinte. Por dentro, era selvagem e absolutamente doida. Com um par de pernas compridas, enganava o próprio Regente em pessoa e na sequência arquitetava o dia em que o mataria com uma adaga enfiada no abdômen e o sorriso voltaria aos rostos de todos.

Foi com ela que eu soube o que é pecado.

Nessa nova era, mesmo os dicionários possuem censura... e a essa omissão é que eu atribuo a significância do pecado.

O pecado do desconhecimento. Da repressão.

Bastou uma noite para que Harmony me provasse que o imoral era nossa morada. Em como todos estavam tristes e desamparados, vivendo sob a mira dos fuzis do governo, com medo de respirar. E ali, a gente, ofegantes, histéricos, sem pensar em se casar, mas não querendo que aquilo tivesse um fim, com o risco de termos as testas atravessadas pelas balas do regime, há quem ache mesmo que iríamos nos calar?

– Eu gosto é do barulho – ela dizia. E no dia seguinte me ajudava a traficar os livros e marcar as reuniões. Começamos com cinco e, em um ano, já éramos tantos com as mãos esticadas para a bandeira e sussurrando que ninguém nos roubaria o pensamento que passamos a precisar de um líder.

Aquele sentimento precisava ser liderado.

E um magérrimo professor, comunista, com óculos circulares, chamou-me de soslaio e disse que precisávamos estudar o que deu errado no passado, que era incabível que houvesse outro líder senão eu: a semente que germinou no cemitério da resistência. O último Langue, sensato, vivo, saudável e capaz de liderar almas enferrujadas. E antes que eu lhe desse minha resposta, Harmony, com suas curvas de Vênus e os cabelos oxigenados, apareceu bem a tempo de pôr os lábios próximos do ouvido do homem e dizer que, se fôssemos traídos, ela sabia exatamente o que faria com as tripas depois de arrancá-las.

O professor deu um salto de indignação, jurou lealdade, afirmou que a única capaz de ser acusada de traição por parte do regime era a espiã que lhe ameaçava agora. Mas eu entendi onde Harmony queria chegar.

– Professor, ninguém lamenta mais a derrota dos rebeldes do que meu velho pai. Porque ele estava lá quando fomos traídos, quando na madrugada, antes do ato, entregaram nossa localização e planos. Eu digo “nossa”, porque não fujo da minha origem. Quer estudar as minúcias dos erros da guerra civil anterior? Tem total liberdade, mas se quer mesmo nos ajudar a ganhar esta, certifique-se que não seremos delatados. – Dito isso, dei as costas e saí com Harmony dali.

Exalto esse episódio por ser fundamental. Porque por debaixo daqueles óculos redondos, o professor tinha mais vivência que todos os outros ditos intelectuais, e mais contatos também. Se alguém fosse nos trair e repetir a crueldade do passado, então quem saberia me dizer era esse tal professor.

É claro que ainda assim segui seu conselho inicial, eu estudava a guerra passada e a mudança no cenário. O regente, que antes era forte e viril, agora tinha os ossos e a pele castigados pelo tempo, mas, quanto ao cérebro temeroso e vil, temo que tenha engrandecido a agilidade.

Os dias se passavam e riscávamos o calendário. Ficava cada vez mais difícil manter as reuniões em sigilo, porque nas ruas já haviam rumores sobre uma nova investida dos rebeldes.

Harmony não acreditava nas pessoas, mas no medo delas. Dizia que, apesar da insatisfação, habituaram-se a essa realidade de repressão e sentiam pavor em viver sem ela. Sua fé definitivamente não era na humanidade, até porque ninguém com menos de trinta anos sabia o que era isso.

– Ainda insisto que adiantemos a data... – murmurava.

– Meu bem, esse dia que você está sugerindo é suicídio.

– É suicídio esperar mais, eles já desconfiam…

– Então você sugere que matemos o regente no aniversário do novo regime?! É o dia em que toda a guarnição do Estado estará na rua! Terão milhares de pessoas fazendo falsas homenagens por aí, vamos pôr em perigo inocentes…

Ela pôs as mãos de um lado e de outro no meu rosto.

– Arthur, me escute, ninguém vai morrer. A única pessoa que vai morrer é o regente. E nós vamos matá-lo.

– Sozinhos?

– Sozinhos.

– E o que fazemos com o plano? – Apontei para o calendário riscado.

– Seguimos com ele. Avançamos no dia e hora marcada. Três dias depois da festa. Mas... – e reduziu o tom de voz – quando nossa equipe alcançar o palácio, o regente já vai estar morto e, quando alcançarmos a janela central, nós queimaremos essa maldita bandeira…

– E como saberei a hora de matá-lo?

– Porque meu bem, não vamos fazer barulho e eu vou pôr a boca em você.

Ela com aquele olhar neurótico e com uma proposta dessas na ponta da língua me fez pensar que eu aceitaria facilmente matar o regente todos os dias.

E aceitei. Aceitei seguir o plano de Harmony e passamos a madrugada discutindo-o, esquematizando como adentraríamos no palácio e o que faríamos durante os três dias seguintes ao assassinato. Concordamos que precisávamos confiar em alguém. Alguém do conselho rebelde, alguém que temesse por suas tripas tanto quanto temia pelo futuro do Estado.

Esse alguém só podia ser o professor. Foi por isso que contamos a ele nosso plano, que iniciaria na manhã seguinte, quando Harmony modificasse o cardápio do líder com gotículas de arruda composta, o suficiente para deixá-lo indisposto em uma semana, e culminaria justamente no dia da festa do governo.

– Se é capaz de deixá-lo doente então é capaz de matá-lo de vez! – Alterou-se o professor.

– E ser morta na sequência? Acha que nunca pensei nisso? Que nunca senti nojo do meu próprio corpo enquanto analisava o poder da guarnição daquele monstro e não tinha outra escolha a não ser aceitar fazer o que faço? Acha que como filha de um capitão traio o regime por birra professor?

O professor afrouxou o colarinho angustiado.

– Não quis dizer isso, madame…

– Se eu pudesse, já teria cortado…

– Calma – e pus as mãos envolta do corpo dela, a dor de Harmony mesclava-se com sensações ainda piores. – Nós temos um plano professor. Só precisamos da sua ajuda para comandar os rebeldes enquanto estivermos no palácio.

– Mas não sou soldado... eu sou o sujeito que pensa, não o que atira.

– Vai precisar se passar por mim – informei – e ser os dois.

Expliquei, então, ao professor como ele agiria quando o terceiro dia após o último aniversário do novo regime rompesse no Leste. Ele diria a todos que eu, Arthur Langue, havia saído horas antes com Harmony para seguir nosso plano e adentrar no palácio com antecedência, onde me posicionaria no único ponto capaz de acertar a cabeça do regente com um tiro quando este fosse à janela central, localizada em seu domicílio. Minha garota já me informou que tal localização é de difícil acesso e isso justificaria minha saída antecipada.

É claro que o regente já estaria se contorcendo nas labaredas do inferno há três dias, com a desculpa de estar repousando em seu quarto por conta de uma misteriosa febre. Como Harmony já havia me dito que o líder detestava médicos, isso agraciava ainda mais os planos.

A loira seria capaz de circular pelo palácio e me fornecer comida, sob o disfarce de uma serviçal, e a mim cabia a tarefa de me passar pelo regente durante setenta e duas horas em seu aposento. No quarto dia, quando nosso plano inicial fosse executado e os soldados saíssem para conter a revolta da população, Harmony entraria na sala proibida, onde é alojada a rádio do governo, e teria exatos cinco minutos para anunciar a todos a queda do novo regime. Eu sairia até a janela central e queimaria a então vigente bandeira do terror. Quando arrombassem a porta do quarto, o cadáver do antigo ditador estaria deitado sobre a cama segurando a mensagem “A guerra acabou”.

E revisei aquilo centenas de vezes, detalhe por detalhe, e parecia tudo tão perfeito em minha mente que soava como se já tivesse acontecido.

Mas, no sétimo dia, quando o líder se adoentou a ponto de não conseguir comparecer às tradicionais cerimônias da festa mais importante do ano, este se retirou para o seu aposento, na esperança de estar melhor à noite, no baile em sua homenagem. Tal como supúnhamos, chamou a Harmony para lhe fazer companhia.

Não fora nem um pouco fácil para mim, o último Langue, no dia do aniversário do novo regime, me passar por técnico de hidromecânica e adentrar no palácio, quem dirá no quarto do regente, mas, quando a hora finalmente chegou e precisei ficar estático sob os colchões de pena de cisne, senti um calafrio na espinha.

Algo não estava certo.

Lá fora, ardiam em música e vivas a população de atores do nosso estado, fingindo serem gratos por viverem em uma ditadura. Ao meio-dia, os soldados desfilariam e se posicionariam em frente à janela central, onde o regente apareceria e acenaria feito um monarca. Isso era dali a dez minutos. Quando o líder voltasse à cama nós o mataríamos. Porque matá-lo diante de todos acabaria por culminar na nossa morte também. E se isso dependesse apenas de mim, já estaria feito, mas jamais ousaria perder Harmony.

A loira, por sua vez, acalmava o líder com frases gentis e eu sabia que ele estava sentado sobre o colchão. Prendi a respiração. Os segundos se rastejavam torturantes e o cômodo foi cada vez mais adentrando em um silêncio profundo. O som que ouvia provinham apenas do exterior do palácio, oriundos da praça. Era como se Harmony houvesse se esquecido de dar o sinal.

Era isso.

O sinal.

Eu revisei o plano inteiro, detalhe por detalhe, menos em como seria esse sinal. O que ela quis dizer com pôr a boca em mim?

Comecei a sufocar em uma crise de ansiedade e ficou ainda mais impossível conter o barulho da respiração.

Agora chegara a hora. Os dez minutos se passaram e eu não via os solados do regente sobre o assoalho. Harmony não emitia som algum e lá fora a população clamava pelo nome do ditador.

Mais cinco minutos e tudo permanecia igual, mais cedo ou mais tarde alguém bateria à porta.

Angustiado, incapaz de me manter imóvel, rolei para o exterior da cama, sobre o piso e me levantei para ver o acontecia.

O regente encarava Harmony, parecendo exausto e ela, com uma pistola apontada levemente para seu abdômen, sussurrou:

– Um senhor inchado, que miseravelmente reza, em uma paródia perfeita. Eu achei uma paródia perfeita para você e sabe o que eu disse para ela? Eu disse “meu bem, eu vou pôr a boca em você”.

E puxou o gatilho com um ruído estridente saindo pela boca da arma. O regente caiu sobre a cama, com a cabeça pendendo de lado, absolutamente morto.

– Harmony? Ficou louca!? Era para ser em silêncio, agora vão nos matar!

– Não, querido – ela sussurrou calmamente –, só o regente vai morrer, o resto de nós, o povo, podemos viver agora!

– Harmony…

Ouvimos investidas sobre a porta de carvalho e, na terceira tentativa, a guarda pessoal do ditador adentrou no aposento. Harmony havia puxado a bandeira lambuzada que trazia em sua bolsa e, com os olhos mareados de lágrimas, mas a boca erguida em um sorriso gentil, ela disse:

“Agora sim, meu amor, a guerra acabou” e correu para a janela central.

Diante de toda a população, a absurda jovem então incendiou a bandeira banhada de óleo de baleia e gritou a plenos pulmões “A RESISTÊNCIA VENCEU” e então a jogou sobre um complexo de madeira, que imediatamente começou a queimar.

– HARMONY, NÃO!

Mas, tarde demais. Um tiro, bem no centro das costas, empurrou o corpo da moça para lá da murada e minha corajosa Harmony caiu no céu.

Sem perder tempo, puxei a pistola que ela deixara sobre a cama e apaguei os três guardas que haviam entrado no aposento. No que matou Harmony, atirei ainda três vezes mais, com a lágrima salgada ardendo nos olhos, o coração dilacerado e a camisa cada vez mais manchada de sangue.

O fogo impiedoso se alastrava por todo o aposento e soube que precisava correr. Vindos de fora, já podia ouvir um movimento de guerra que eu conhecia bem desde a infância. Os rebeldes já percebiam o que acontecera e se mobilizavam contra os soldados. E eu, sozinho naquele imenso palácio, guardava o choro para quando parasse de correr, das chamas e da guarda.

Perdido, apenas seguindo as escadas, dobrei em um corredor e fui finalmente capaz de enxergar a luz, e com ela o som de gritos e armas de fogo.

Foi quando se fez ouvir um chiado e, na sequência, a voz do professor em todos os alto falantes do palácio e da cidade.

“Arthur Langue e Harmony Brum, nós, a resistência, salvamos este povo. A guerra finalmente acabou”. Houve um som de tiro e um novo chiado, então nada mais se ouviu.

Quando alcancei a praça, ninguém sabia por que lutavam ou por quem. Ao me verem ali, exposto, alguém gritou “Lá está, é o Langue” e em um momento dezenas de armas de soldados estavam apontadas para mim. Outras dezenas imediatamente apontaram para tais soldados e meus homens, no fim, estavam armados, prontos para o combate.

Houve um silêncio mortal e todos me olhavam aflitos, esperando que eu fizesse algo. Que eu simbolizasse algo. Oficializasse algo.

Mas tudo em que eu conseguia pensar era naquele corpo inerte, que jazia sobre o chão. O mundo dos vivos esperou muitos anos para ver tamanha bravura em alguém e o mundo dos mortos seria agora contemplado pelo mais belo cadáver já existente.

Harmony era o centro, a divisa entre o bem e o mal naquele momento, entre a dúvida e a verdade. Ninguém sabia a quem reverenciar e ela não teria se assustado com isso, pois sua fé não era nas pessoas.

E quando eu me ajoelhei ao lado dela e toquei seus cabelos tingidos, senti vontade de beijá-la, porque era esse o sinal. Quando nossas bocas se encontraram a história viva e passada estava feita.

As armas, uma a uma, se abaixaram e, em um momento praticamente sem som, já sabiam a quem o Estado estava entregue.

E, olhando para ela fixamente, torcendo para que a qualquer momento ela abrisse aqueles olhos cinzas, eu confessei-lhe que ela me era o sinal mais lindo de todos.