sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Competição universitária de foguetes inicia neste fim de semana em Natal

Cobruf Rockets 2018 será realizada pela segunda vez no Rio Grande do Norte e reúne equipes de todo o Brasil 

*Por Luiz Gustavo Ribeiro

Equipe Potiguar Rocket Design representa a UFRN na Cobruf Rockets 2018

A Competição Brasileira Universitária de Foguetes (Cobruf), maior do segmento aeroespacial universitário do Brasil, desembarca em Natal neste sábado. Pela segunda vez a capital potiguar será sede do evento que contará com palestras nacionais e internacionais, mesas redondas, lançamento de foguetes, entre outras atividades. A Cobruf Rockets 2018 acontece entre os dias 1 a 7 de dezembro e as atividades vão acontecer no campus central da UFRN e no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. A abertura oficial do evento será realizada neste sábado às 18h no Auditório da Reitoria da UFRN.

Com equipes de todo o Brasil, a Potiguar Rocket Design vai representar a UFRN na Cobruf. O projeto desenvolve foguetes para competições há dois anos na universidade e integra o corpo de equipes das principais apresentações do evento. Um dos fundadores da equipe, o estudante Elder Samuel enaltece a importância da competição e acredita que a presença do público será essencial durante toda a semana. 
A importância do evento se trata de ser realizado novamente aqui no Rio Grande, o que mostra que o estado tem uma vocação aeroespacial. Nós temos um centro de lançamento, um instituto nacional de pesquisa, temos a universidade, enfim, o RN está sendo agraciado com esse evento. Por outro lado, vai ser importante que o público venha para ver esses jovens que são entusiastas do setor e que querem contribuir no futuro com a exploração espacial, está vendo o que eles estão desenvolvendo agora vai ser muito importante para dar incentivo para todo mundo," disse Elder. 
Neste domingo, os membros da Potiguar Rocket Design vão estar no Complexo Tecnológico de Engenharia (CTEC), das 7h às 16h, fazendo a divulgação da equipe. Na próxima quinta-feira, a equipe anfitriã vai realizar o lançamento do motor Poty J na Barreira do Inferno. Para conferir mais informações sobre a Cobruf, acesse o site oficial da competição.

Mês da consciência negra e o racismo estrutural no Brasil

*Por Vanessa Islany 

Monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares na Praça da Sé, Salvador/BA

No Brasil, novembro é considerado o mês da consciência negra, em memória à morte de Zumbi dos Palmares. Zumbi foi um dos maiores líderes negros do Brasil que lutou para a libertação do seu povo e contra a escravidão. A importância da data está no reconhecimento dos nossos descendentes na construção da sociedade brasileira. Esse momento serve para fortalecer a reflexão acerca das bases de um racismo estrutural que estão presentes no nosso cotidiano. 

O racismo constitui em um mecanismo fundamental de poder utilizado, historicamente, para dividir e dominar classes, raças e etnias. A colonização e o genocídio foram ferramentas importantes para o seu desenvolvimento. A desqualificação dos oprimidos é recurso histórico, consciente e inconsciente, dos opressores para racionalizar e consolidar a exploração. Em um país que tem toda a sua história baseada em um sistema de estratificação social, racista e patriarcal, é inevitável que vejamos o reflexo disso no nosso presente. 

A abolição da escravatura brasileira foi um processo lento que passou por várias etapas antes sua concretização. Quando finalmente foi decretada, não se realizaram projetos de assistência ou leis para a facilitação da inclusão dos negros à sociedade, fazendo com que continuassem a ser tratados como inferiores e tendo traços de sua cultura e religião marginalizados, sendo um determinante na história de marginalização que se segue até os dias de hoje.

Ao longo da história, o incentivo às imigrações europeias, os projetos de branqueamento da população, a tomada do racismo como ideologia, a exclusão das populações negras do acesso à terra e o baixo nível de investimento em educação para essas pessoas foram fatores que continuaram produzindo e reproduzindo a marginalidade das populações negras no Brasil. 

Passados 130 anos da abolição, a população preta continua ocupando a base da pirâmide social no Brasil. Negros são a maioria da população brasileira (53,6%), segundo o IBGE. Também são a maioria entre os que têm menor renda. Estima-se que três em cada quatro pessoas entre os 10% mais pobre do país sejam pretas ou pardas. 

A violência também afeta essa parcela da população de maneira diferente. O Atlas da Violência 2017, lançado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou que, a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Outro dado que chama atenção: das 726.712 pessoas encarceradas no Brasil em 2017, mais da metade eram negros. A situação é ainda mais grave no Acre, onde 95% dos presos são negros. No Amapá, são 91% e, na Bahia, 89%.

O racismo, como fenômeno comportamental e social, procura afirmar que existem raças puras, e que estas são superiores às demais, assim busca justificar a hegemonia política, histórica e econômica. Nesse momento de avanço da intolerância, o racismo se escancara nos gritos de uma classe dominante. O discurso de extermínio ganha espaço, as políticas de higienização e branqueamento são defendidas sem hesitação. É necessário, cada vez mais, ter momentos de reflexão acerca desse nosso cenário e do que podemos fazer para que essa estrutura e o racismo institucionalizado seja disseminado no nosso país.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Você não é uma pessoa diplomática

*Por Luiza de Paula 

(Foto: Reprodução)

Após uma longa manhã com a companhia de livramentos condicionais, suspensão condicional da pena, medidas de segurança, ação penal pública e privada, ouvi um sonoro: “Luiza, você não é uma pessoa diplomática.” Soou tão verdadeiro quanto eu verificar que a minha instabilidade emocional se mostra pelo meu corpo desde o tamanho das unhas até os números sanfonas da minha calça. Talvez a minha paixão plena e absoluta pela escrita e pela crônica esteja me deixando um pouco introspectiva e com uma certa incapacidade de praticar a tal de ‘diplomacia’. 

Mentira. Pesquisei no google o que é ser um sujeito diplomático. Realmente não preencho os requisitos. Tem que agradecer sempre pela sinceridade das pessoas. É importante demonstrar autoconfiança e não ser agressiva. Não deve ser direta nos pensamentos e discursos. Deve dar sugestões ao invés de comandos e convencer perfeitamente as pessoas. É importante ser polida, esperar a vez de falar e não interromper os outros. O pior é manter um tom de voz neutro e natural e evitar falar palavrões. Pessoas diplomáticas mantém o controle das emoções. Independentemente do meu flerte profundo com a introspecção momentânea, meu gênio forte não bate um papo muito sadio com essa gente fina, educada, controlada e polida. De certo modo, que alívio! Bom mesmo é ser gente com G maiúsculo, intensa e bem naquela linha oito ou oitenta. Talvez os psicanalistas me condenem, os espíritas intercedam por mim, os empresários não me queiram para chefiar uma grande corporação. Talvez eu me condene, mas quem nunca? Por enquanto, acho chique não ser tida como um ser adepto à diplomacia nas relações sociais. 

Talvez daqui a cinco anos eu tente fazer todos os malabarismos do mundo, por necessidade, para me encaixar nesse nomezinho aí de cima. Talvez eu comece a fazer yoga e aprenda a lidar perfeitamente bem com o famoso enaltecimento do ego próprio de terceiros, travestido de sinceridade. Talvez em algum momento da minha suada e sublime existência eu tenha autoconfiança e não seja agressiva e reativa. Talvez algum dia eu seja polida, meio covarde e tenha um certo receio de divulgar minhas opiniões por aí. Talvez algum dia eu “adulteça” e aprenda que interromper o coleguinha ou a coleguinha na hora da fala é feio, não soa de bom tom. Talvez eu assimile, com a yoga que falei logo ali, que posso falar com timbre de voz b-e-m c-a-l-m-o e não precise ter quase sempre um quê argumentativo na oralidade. Talvez eu me torne membro da alta cúpula do judiciário, aprenda a falar em Latim, Alemão, Francês e aquele Português do século XIX, e termine por abandonar os meus queridíssimos palavrões – mas porra, o quão chato deve ser uma vida sem palavrão? Eles são adjunto adverbial de intensidade, às vezes. Terei de aprender a celebrar e sofrer educadamente.. Talvez algum dia eu aprenda a controlar àquela raiva impulsiva que sai das minhas entranhas. Talvez eu olhe pra esse texto daqui a alguns anos e me ache patética. Talvez eu permaneça sem os atributos da diplomacia. Talvez eu perca a fé nos sonhos e me torne uma adulta extremamente pragmática, daquelas que acha sonho besteira. Talvez a escrita perca esse lugar sagrado que tem pra mim hoje, a ponto de ser minha psicanálise de urgência e não àquela de toda quarta-feira, lá na Rua Auris Coelho. 

Esse foi um texto da suposição, da hipótese. Amanhã posso não reconhecer o meu eu de hoje, mas deixar de ser por medo de uma eventual mudança drástica, é covardia. O alinhamento dos planetas não me fez com o DNA da covardia. Não sei se isso foi uma maldição ou uma dádiva, e isso nem importa muito. Não fui e não estou diplomática e admito que me dá um certo frio na barriga e um medo de um dia me tornar. Tenho um certo receio dessa gente sempre autoconfiante. “Gente” e “sempre” não combinam muito bem. Quando vejo essa junção, já penso na construção de um humano meio robotizado e, como eu disse, gosto de gente com G maiúsculo. Robôs não me admiram. Adoro minhas unhas curtas-grandes-curtas-grandes-curtas-grandes e meu peso variando por três meses quarenta e nove, três meses cinquenta e dois, três meses quarenta e nove, três meses cinquenta e dois. Há beleza nisso. 

Nota: Gustavo, se algum dia você me olhar e disser: “Luiza, você se tornou diplomática”, saiba que eu vou querer ter uma diplomacia única e exclusivamente a lá Henriques. Outras formas eu dispenso.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Marcas que falam: Branding e Marketing na GGCON

*Por Paulo Prado

Thiago Lajes, Thiago Garcia e Thiago Lins na palestra "Marketing para novas empresas" (Foto: Paulo Prado/Caderno de Pauta)

O mercado comunicacional está em constante mutação, tendo a capacidade de modificar-se do dia para noite. Esse é um dos maiores desafios para o empreendedor inexperiente e com poucos recursos. É sempre preciso compreender as variações para não ficar atrás na corrida do empreendedorismo e foi exatamente esse um dos pontos mais fortes debatidos no painel GGTalk do último domingo (25). 

Em tempos de relações sociais digitais, o consumidor se encontra mais ativo e intimamente ligado às suas marcas favoritas, mas o fornecimento de boas experiências requer uma conexão que vai muito além de um bom produto. 

Entramos em um cenário comercial exigente que não apenas comunicólogos (jornalistas, publicitários e produtores audiovisuais) devam compreender a área da comunicação. Assim, tornaram-se populares duas palavras que colocam medo em qualquer um; as velhas amigas do publicitário: Marketing e Branding. 

A Nubank desenvolve seu branding a partir do posicionamento de liberdade, transparência e amizade (Foto: Nubank/ Divulgação)

Essas palavras não têm absolutamente nada de novas, mas são a bola da vez. Para que o usuário tenha uma relação íntima com a marca é necessário haver diálogo entre ambos. Parece confuso né? Mas não tenha medo, não é tão difícil quanto parece. O branding é o grande responsável por estabelecer a ligação consumidor-empresa, mas antes de adentrar o conceito é preciso estabelecer uma linha de raciocínio do que é uma marca. 

A percepção de marca, apesar do conceito popular, vai muito além da produção da logo e um slogan de efeito. Ela se constrói a partir de ações que estão dentro e fora da natureza física. Para melhor entendimento, a marca é tudo aquilo que contribua para que o público memore a empresa: tudo que a representa, do produto a ações sociais. 

Branding então será o "simples" ato de gestão de marca. É responsável por conceber uma espécie de vida própria a ela, fazendo-se humana para conversar e relacionar-se intimamente com o público, o que envolve todas a ações realizadas para promovê-la. Também está estreitamente ligado ao marketing, capaz até de se confundirem – ação recorrente no painel. 

A doceria Delikata, de Recife, promove a inclusão social e a diversidade a partir dos seus funcionários (Foto: Página Delikata Doces e Salgados/Facebook)

Um dos assuntos mais repetidos no GGTalk foi como colocar em prática o branding e o marketing e uma coisa ficou bastante clara no discurso de todos os palestrantes que ali passaram: não existe fórmula mágica para isso; um passo-a-passo que o empreendedor deva seguir. Como publicitário, devo concordar; mas há indicação para o caminho. 

Antes de mais nada, é preciso se reconhecer como marca e conhecer o seu público alvo. O empreendedor iniciante irá cansar de ouvir isso, mas é a verdade. Isso se dá pelo simples fato de ser um público "pré-estabelecido", o que implica uma ligação sentimental atuante antes mesmo da marca entrar no mercado. 

É bem verdade que o consumidor não compra um produto apenas por sua qualidade; ele o adquire por identificação com a marca, na qual enxerga padrões sociais, sentimentais e políticos. É como se fosse uma espécie de espelho. Um grande exemplo é a Coca-Cola, que não vende o refrigerante, seu produto principal, mas um ideal de felicidade e o conceito de família. A comunicação com o consumidor deve ser feita de dentro para fora; como explica Simon Sinek, autor e consultor organizacional britânico, as pessoas não compram o seu produto, mas valores, razões e inspirações. 

A Coca-Cola tem uma gama muito extensa de consumidores, por isso seu branding está atrelado às emoções, estando entre as mais marcantes a felicidade (Video: Canal oficial da Coca-Cola)

O Marketing irá identificar o tamanho de um mercado e suas potencialidades. A maior dificuldade a se enfrentar é a constante mutação do mercado consumidor. Contudo, as palestras apresentadas – “Monetizando sua criatividade”; “Marketing para novas empresas” e “Experiências reais em tempos digitais” – não conseguiram estabelecer uma linha de raciocínio válida para direcionar a um bom caminho o público ingressante no mercado. 

Como acontece no branding, não existe um caminho que leve o empreendedor direto ao ponto e seja capaz de atingir os objetivos necessários do marketing; entretanto, existe uma solução lógica a se seguir: a pesquisa. Viés praticamente inexplorado no painel, certamente por receio relacionado ao alto custo em produção, a pesquisa é a escolha mais eficaz e com resultados quase perfeitos a se fazer. É por conta disso que, ao ignorar essa opção, os palestrantes cometem o erro de tratar Marketing e Branding como iguais. 

Não é o ideal sentar e seguir o fluxo do mercado, ir se adaptando conforme ele vai mudando. Grandes empresas em ascensão, como a Netflix, se utilizam de uma possível “previsão do futuro” – alcançada a partir de pesquisas em consumo, investimento, monitoramento de mídia, opinião e comportamento – para sair na frente com excelência na disputa e revolucionando o mercado consumidor. 

O futuro é bastante complexo de se prever, mas tudo se torna mais fácil quando são tomadas atitudes de prevenção em relação a ele, as quais podem ser realizadas a partir de uma palavra: planejamento.

sábado, 24 de novembro de 2018

Assédio sexual: silêncio, revolta e medo

País onde mais se mata mulheres por motivos de gênero, o Brasil também se destaca negativamente nos crimes de perseguição contra elas


*Por Gideão Marques


Segundo dados do Datafolha, 42% (quarenta e dois por cento) das mulheres brasileiras dizem ter sofrido assédio sexual pelo menos uma vez na vida. Seja no trabalho, na universidade, na rua ou em transportes públicos, esse tipo de situação desagradável tem se tornado comum em todo o território nacional.  

É muito comum que os assédios sejam frequentemente confundidos no ambiente de trabalho, por causa da hierarquia, onde algumas funcionárias não sabem distinguir o que faz parte do ofício e o que é de fato uma insistência por parte do seu superior. Ainda, existe a necessidade de se manter e se destacar no mercado de trabalho, tendo em vista que o Brasil vive uma intensa crise financeira desde 2008. Por isso, muitas preferem o silêncio para não serem demitidas.

(Infográfico: Datafolha)
O assédio sexual está presente, em sua maioria, em grupos mais vulneráveis: negros, classe social baixa. Devido ao forte racismo e a separação de pobres e ricos – herança deixada pelos europeus durante o processo de "colonização" –, muitas pessoas se utilizam desse pensamento e agem covardemente contra esses grupos. Embora saibamos disso, o assédio sexual não tem cara, cor e nem muito menos classe social. A pessoa pode ser privilegiada ou mais desfavorecida: não importa. A falha no caráter de impor que as pessoas façam aquilo que não querem e se utilizar, por muitas vezes, de poder ou prestígio social para se obter ¨proveito¨ é, no mínimo, doentio e não escolhe pessoas; ele simplesmente acontece.

Neste ano, durante apresentação do programa Teleton, exibido no SBT desde 1998 e que tem como objetivo a causa social de ajudar a Associação de Assistência à criança Deficiente (AACD), Silvio Santos dirigiu palavras para a cantora Cláudia Leitte, onde muitos julgam serem configuradas como assédio: ¨Não posso ficar dando abraço porque eu me excito, e eu não posso ficar excitado. A gente admira você como mulher, mas ver você como está se apresentando dá vontade de…¨, disse o apresentador. 

Claramente incomodada com os comentários, a cantora disse que estava com vontade de sair do palco do programa: “Estou pensando em ‘vazar’”, disse Cláudia durante a gravação. Em suas redes sociais, ela se pronunciou sobre o caso e lamentou o ocorrido: “Senti-me constrangida sim! Quando passamos por episódios desse tipo, vemos em exemplificação o que acontece com muitas mulheres todos os dias, em muitos lugares. Isso é desenfreado, cruel, nos fere e nos dá medo”.

Nas universidades, onde se tem um público feminino muito grande, essas pessoas -maioria composta por homens- veem um ambiente propício para se aproveitar de meninas e mulheres. A universitária J. S. S, moradora do município de Tibau do Sul, fala sobre o transtorno vivenciado por ela em mais um dia comum da sua rotina de ida para a universidade. Ela diz que não esperava que o senhor, de uns 50 anos, fosse ter essa capacidade: “Ele é um conhecido de todo mundo, tirava brincadeiras e conversava normalmente”, afirma. “Em um dia eu estava sentada ao lado dele, no ônibus, indo para a faculdade. Até que ele começou a passar a perna dele na minha perna. Eu fiquei incomodada e afastava, não tive coragem de falar nada [por ser uma pessoa mais velha],” continua.

Na viagem de retorno, a jovem estudante teve de encarar o senhor mais uma vez. Já debilitada psicologicamente e sem reação, ela conta que foi um terror o trajeto de volta: “Ele me encarou e perguntou o que eu tinha, pois eu estava muito estranha [segundo ele]. Eu respondi que estava doente e que não estava me sentindo muito bem, mas era para tentar despistar ele e fazer com que ele ficasse longe de mim.

Universitária vítima do assédio (Foto: Gideão Marques/Caderno de Pauta)

Como o senhor ao qual a vítima se refere também é universitário e morador da mesma região que ela e, por isso, frequenta o mesmo ônibus todos os dias, ela ficou muito assustada e nervosa durante toda a semana pós-trauma: “Eu estava sempre muito assustada e querendo fugir dele, não me sentia confortável. Ficava com medo quando eu ia pegar o ônibus [universitário], porque eu sabia que quando eu chegasse lá, ele estaria lá. Então, foi uma fase muito complicada, até eu conseguir me recuperar e poder encará-lo de uma forma que eu não sentisse medo”, revela a estudante.

Os abusos são cometidos, em grande parte das vezes, por pessoas próximas e onde não depositamos nenhuma aversão ou desconfiança. Dessa forma, quando eles ocorrem, as vítimas ficam com medo, não só do agressor, mas de as outras pessoas não darem crédito ao que elas vivenciaram. “Eu entendo as pessoas que ficam receosas. Até pelo fato de estar fazendo uma acusação contra alguém que você nem imagina e que não tem relatos de outras pessoas que tenham passado por isso. Ou seja, ele é uma pessoa mais velha e respeitada por todos dentro do local. Fiquei com muito medo”, relata a jovem J.S.S.

Na Delegacia da região, quando as mulheres chegam para realizar as denúncias são atendidas por um policial. Algumas se sentem incomodadas e pedem para relatar o caso à escrivã Patrícia Gomes de Oliveira, 41, que trabalha lá há um ano. Questionada sobre a quantidade de mulheres que fazem denúncias na delegacia, Patrícia foi enfática: “Não temos muitos casos de abuso sexual aqui”, diz.   

O delegado da região, que está no comando há cerca de um mês, Everaldo da Silva Fonseca, 50, reitera a fala da escrivã e confirma serem poucas as denúncias. Ele ainda disse que esses casos acabam não entrando para a estatística, por se tratarem de crimes da esfera privada.

A J.S.S diz que não realizou Boletim de Ocorrência (B.O) por medo e por não querer se expor. Assim agem muitas vítimas. Não denunciar os casos faz que as autoridades não saibam da frequência com que esses crimes estão acontecendo, e isso impossibilita o trabalho de prevenção e de detenção do criminoso. É demasiadamente importante que essas mulheres realizem o B.O. para que as providências necessárias sejam tomadas.

Aproximadamente 4 meses após o assédio, a vítima diz não ter medo, mas sente nojo ao olhar para o senhor. Além disso, suas atitudes mudaram e ela diz estar muito mais cautelosa: “Eu sempre fui uma pessoa muito extrovertida com todo mundo. Sempre abri as portas da amizade. Quando isso aconteceu, eu comecei a ter mais cuidado com as pessoas que a gente não pode confiar, e prestar mais atenção naquelas que passam por isso. Se colocar no lugar de alguém que passou [ou está passando] por essa situação; de como que elas se sentem em um momento como esse; se colocar, de fato, no lugar das pessoas”, conclui a estudante.

Disque 100: funcionando 24 horas por dia, as ligações são gratuitas e podem ser feitas de qualquer lugar do Brasil. A denúncia é anônima e as demandas são encaminhadas para as autoridades competentes.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Velhice, poesia e abandono: uma visita ao Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio

Vidas humanas em sua melhor fase

*Por Ylanna Pires

O Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio é uma organização não governamental, situada em Currais Novos (RN), e tem como missão, desde 1963, acolher idosos de dentro e de fora da cidade que se encontram em situação de vulnerabilidade ou abandono parental.

O “Lar”, como é carinhosamente chamado pelos moradores e funcionários, leva o nome de um sacerdote cuja obra na região transcendeu as fronteiras da religiosidade – sendo, antes de tudo, humanitária – e carrega consigo o preciosismo e a complexidade de lidar, diariamente, com mais que pessoas idosas; vidas humanas. E, de quebra, em sua melhor fase.

Fachada do Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio (Foto: Facebook)

A instituição pensada há 55 anos atrás para acolher idosos do Seridó e região, conta atualmente com seu maior contingente de internos. São 37 pessoas da melhor idade e diversas regionalidades – de norte-rio-grandenses à sulistas – vivendo sob os cuidados de 16 profissionais de várias áreas (limpeza, saúde, assistência social e etc) contratados pelo município em uma parceria, os quais auxiliam os moradores em sua rotina e convívio.

Um dos corredores da instituição (Foto: Ylanna Pires)
Mas, como até nas melhores fases há espinhos, as histórias encontradas em um abrigo de idosos projetado para uma parcela carente da sociedade, apresentam, por via de regra, resquícios de abandono afetivo e negligência parental. Tais fatores são numericamente confirmados por dados do IBGE, que apontaram um salto de 33% no número de idosos morando em asilos ou albergues públicos entre os anos de 2012 e 2017, os quais, em sua maioria, não recebem visitas dos familiares.
Entretanto, para fugir do esperado – que seria tratar o tema com toda a tristeza que o envolve – gostaria de apresentar duas personas que usam da sabedoria adquirida para driblar a solidão e a melancolia, e fazem jus ao título dessa matéria.

Das letras, as mais bonitas; As que revigoram

Dona Alice Eunice Dantas, a poeta de 79 anos
que escreve para melhorar a vida
(Foto: Ylanna Pires)

Natural de Laranjeiras, sítio do município de Acari, Alice Eunice Dantas, mora no abrigo com sua irmã Aliete, desde junho de 2016. Na juventude, atendendo aos chamados vocacionais, saiu do interior para dedicar-se ao convento, mas a saudade de casa e a forte ligação com os pais, trouxeram-na de volta.

“Eu só podia estar no país das maravilhas quando decidi isso,” brinca a leitora assídua e escritora fervorosa.

Alice, que dedicou-se a cuidar dos pais, não casou nem teve filhos. Morou até os 76 anos com a irmã em uma casinha na cidade, até sofrer uma fratura no fêmur e decidir, por conta própria, mudar-se com Aliete para o Lar. Aliete, por sua vez, é viúva há muitos anos e não tem contato com os filhos, que já não moram mais na cidade. 

Dona Alice conta que, depois do sonho de ser freira, sempre almejou tornar-se escritora: “Escrever eu sempre gostei; me ajuda, me revigora. Quando eu era menina, escrevia na areia do sítio, vinha a brisa e apagava. Eu ficava triste”.

A poeta explica que desde que se mudou para o abrigo, não passa um dia sequer sem escrever seus versos e juntá-los em seu “caderno-livro” intitulado “Poesias da Alice”.

“A poesia me ajuda a superar a solidão. É terapia. Eu leio elas e me encontro com Deus,” explica. Atualmente, dona Alice escreve para um programa televisivo da pastoral de Currais Novos, onde semanalmente seus poemas são declamados.

Máquina de escrever de Dona Alice (Foto: Ylanna Pires)
O processo de criação da poetisa acontece em uma máquina antiga de escrever – um presente dos seus amigos clérigos –, na qual ela redige apressada os versos que, por vezes, fogem na memória, mas que fazem-se presentes como válvula de escape para uma realidade tão dura. 

Pergunto a ela sobre a convivência no abrigo, sobre como ela se sente naquele lugar: “Aqui não é minha casa, mas se tornou. Casa é o lugar que a gente se sente bem em estar; eu tenho muito carinho por todos aqui, fiz um caderno para ter a assinatura de cada um dos meus amigos daqui. Agora você é minha amiga. Assina?”.

Caderno para assinaturas de amigos (Foto: Ylanna Pires)

Seu José, resiliente

Do alto dos seus 86 anos, na época, José Garcia, natural da zona rural de Currais Novos, decidiu trocar a sua casa pelo Lar de idosos: “Não é que fui jogado, como muitos aqui. Eu vim porque não cabia mais lá”.

Viúvo há dez anos, seu José conta que morava com uma das suas três filhas, mas não se sentia em casa; isso o motivou a também tomar a iniciativa de procurar o abrigo. “Eu conheço quando não sou bem vindo em um lugar. E olhe, a gente cria filho para o mundo, não pra gente”.

Apenas uma das filhas do pedreiro aposentado reside na cidade e segundo ele, não o visita muito. O último encontro de seu José com a mesma foi há um ano atrás. 

José Garcia Sobrinho, 88 anos (Foto: Ylanna Pires)
“Se eu sinto falta? Sinto, e muita. Mas as coisas de Deus ninguém explica. Família é muita coisa: igreja, parente, amigo. Aqui eu tenho família porque tenho muitas amizades… Inimizades também; aí o homem só para de ter quando morre. E morto, eu não tô”.

José Garcia dedica seus dias a cuidar da saúde, jogar dominó e ir para as festas religiosas e quermesses do município. Sendo um dos moradores com mais idade da casa, alega: “Velhice não é triste; a gente que deixa triste, ou feliz. A derradeira parte da vida tem que ser a melhor. Existe aquele ditado, não sabe? ‘O melhor vem sempre por último’”.

Sobrevivendo ao tempo, apesar das dificuldades econômicas e sócio-administrativas, o Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio conserva-se intacto em seu propósito principal: doar-se, em forma de morada e abrigo, para aqueles que já doaram-se tanto ao longo da vida.

O Lar é aberto para receber visitas todos os dias: pela manhã, das 9h às 11h, e à tarde, das 15h às 18h. Além disso, a instituição organiza, anualmente, uma campanha de Natal para arrecadar presentes para os internos, a qual pode ser acompanhada pela página do Facebook.

Diante de tantas vidas humanas que se revigoram nas simplicidades do cotidiano, o choro do poeta Vinícius faz todo sentido quando diz: 

“Um velhinho com uma flor assim falou; 
O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando chega sangrando
Aberta em pétalas de amor”.

Alecrim

*Por Tiago Silva

Praça do Relógio, Alecrim (Foto: Tiago Silva/Caderno de Pauta)

Cheguei, enfim. Preciso descansar porque meu corpo exige, mas não consigo. Preciso escrever, este é meu fim. Fui ao bairro do Alecrim e preciso escrever sobre isso, o quanto antes. Preciso escrever enquanto tudo ainda está fresco em minha alma. 

Eis um trecho do que vivi. Não tudo, porque isso é impossível, sempre algo se perde no meio do caminho. E mesmo antes de escrever tenho certeza que algo já se perdeu. Tenho pressa. Meus pés estão cansados e minha pele ainda está quente de sol. 

Vibra novembro da janela do ônibus. Sem entender o que acontece dentro de mim, passo a olhar o que acontece lá fora. Lá fora é dentro do mundo. Eu estava dentro de mim e estava fora do mundo. Tudo é caos, suor, concreto. O asfalto corre áspero e escamoso, tão réptil. Carregar o sol na cabeça é tão pesado, quanto será que ele pesa às 11h da manhã? Minha mãe dizia que se você carregar peso demais você abre o peito. Nunca entendi. Todos iriam ver meu coração então? Até meus sentimentos? Meu coração estaria vivo ou morto? Eu estaria vivo ou morto? Isso me assustava. Como este coração quase vivo bovino sobre uma lona branca. Quase vivo, porque brilha, quase pulsa, e sangra. Sangra como os rins e o fígado. O vendedor de peito grisalho expõe sua mercadoria que sangra com orgulho e espanta as moscas de suas vísceras mornas. 

Aquelas tripas brancas salgas como o mar morto não estão no meu pescoço mas me sufocam. Um cheiro de órgão, uma náusea, um afogamento. Deve ser a fome. Lâminas, gumes, corte preciso. A serra serra sem dó um membro amputado fora do corpo. E dói como cócegas em pé alheio. Suar no rosto é entender como é ter um rosto. Sob esta tenda, a primavera arde. Sim, é primavera. Cajus e abacaxis perfumados seduzem quem passa, enquanto o tempo absorve o presente. 

Da barbearia dá para ver todo movimento da feira. O barbeiro ignora o caos, olha para o nada, em operação delicada corta com tesoura enorme pelos do nariz. Sequer olha-se nos espelhos sujos. Pombos gordos de peito quente bicam a sarjeta, famintos. Mal sabem que ali perto alguns frangos estão mortos e frios e roxos, puro arcabouço de intimidade violada. 

O brilho de joias falsas sob este sol é tão verdadeiro! Tão perfeita e verdadeira a falsa beleza daqueles manequins prateados, descartáveis como um universo sucede outro. 

Ainda tomado por um estremecimento, um menino olha com paixão um pequeno cavalo laranja de plástico que galopa em torno de si. Seu viver agora é aquele cavalo. O grande da vida está perto e cresce. Ele tem uma certeza de anjo pesado na terra – quer o cavalo. Talvez fosse aquele dia, talvez fosse aquele sol, mas sua mãe estava apressada e não iria comprar o cavalo. 

- Mãe, eu quero!, chora o menino. 

- Pare de chorar! Ou ninguém vai gostar mais de você, nem eu mesma! 

- Não, mamãaaae!, ele exclama. 

Mas sua mãe estava apressada, e o menino ficou em estilhaços. 

Na Praça do Relógio, o tempo de multiplica com esplendor, se esconde na finura da areia de uma ampulheta. Tudo nela ocorre ao mesmo tempo: arte, comércio, prostituição. Homens velhos palitam os dentes mesmo sem ter comigo. Riem da vida e absorvem todo o frescor que uma alegria pode proporcionar. Alguns vendem relógios dourados, e isso é tão importante. Aqueles senhores conversam e vendem relógios na Praça, um prazer glorioso. 

Tomado de religiosa paz, um senhor ouve seu radinho de pilha e compartilha seu êxtase com os amigos. 

- Isso que é música!, diz seu coração. 

Alguém diz que o céu é imperfeito, e um morador de rua guarda sua flauta verde na bolsa. 

Encontrei um pequeno buraco negro, é onde a paz começa. No escuro da morte, o que cresce não se vê. Morrer é o fim ou é o início? Quero a eternidade destas flores de plástico, ah como quero. No cemitério às 2h da tarde o granito é quente. Rosinha Palatnik, oh moça judia, te deixaram rosas escoradas com uma pedra sobre tua lápide e velas para iluminar teu caminho para a eternidade. Espero que nesse eterno frio teu coração esteja quente. 

Este silêncio, esta sede... só o sol grita. Será que estou aqui? Sei que escrevo. Portanto, existo. Ainda bem. Escrevi algo sobre o Alecrim e sem aviso acabei me escrevendo.

domingo, 18 de novembro de 2018

Existe vida pós-relacionamento abusivo?

*Por Francisca Pires


A resposta parece óbvia. Afinal, nos é ensinado que existe vida pós tudo que não seja a morte. Simples assim. Mas a vida que me refiro tem relação com o tão aclamado “seguir em frente”, estando completamente cicatrizado e curado dos abusos da relação anterior. 

Primeiro é necessário entender o conceito de seguir em frente e como ele funciona de modo diferente para cada pessoa. Você pode voltar a frequentar bares e boates sem estar curado. Você pode se relacionar, casual ou de maneira séria, novamente sem estar curado. Você pode gritar sua cura pelos quatro cantos da cidade, redes sociais e rodas de amigos sem estar de fato curado. Isso porque o processo de cura vem de dentro, é um ato de amor feito por você para você mesmo, de forma particular, sem nenhuma influência exterior. 

O processo de cura vai muito além de esquecer o ex-relacionamento e, portanto, a pessoa que te oprimiu. Até porque, em maior parte dos casos, quando a vítima entende a situação a que estava submetida muitos sentimentos vem à tona: raiva, angustia, nojo e desprezo. Todos esses sentimentos emergindo junto com o luto, tristeza e a consciência de que o relacionamento acabou, te coloca em um conflito que precisa ser administrado por você e mais ninguém. 

Demora um tempo até que todo esse conflito se torne aprendizado. Não se culpe. Seu tempo faz parte de quem você é, ele não é seu inimigo. Pelo contrário, o tempo é responsável pela construção do seu autoconhecimento e a busca pela paz interior só pode se tornar efetiva através dele. Não se sinta pressionado a recomeçar. O recomeço vem a cada pequena vitória do dia a dia, ele vem através do perdão que você dá aos outros e a si mesmo. E principalmente, o recomeço é algo bom. E totalmente seu. Não deixe que as pessoas influenciem negativamente nessa construção, afinal, aqueles que comentam coisas do tipo “Já deu de sofrer”, “Supera isso”, “Já faz muito tempo”, não viveram o abuso. Você viveu. 

Por fim, se reconquiste. Tenha orgulho do que viveu. E isso, ao contrário do que muitos pensam, não significa apagar da memória seu passado ou menosprezar a dor que sentiu. A relação abusiva prejudica sua autoestima para que você não enxergue que tem qualidades suficientes para sair dela, por isso, sinta orgulho de ter sido forte o bastante para se livrar do que te fazia mal e continuar tentando ser feliz. Sinta orgulho da pessoa que segurou a barra junto com você: você mesmo. Se olhe no espelho e veja o quanto é lindo estar de pé carregando todas as marquinhas e cicatrizes da guerra que enfrentou. Sinta orgulho de ter amado e de poder continuar amando. Amando os outros, mas primeiramente e principalmente, amando a si. 

A vida pós-relacionamento abusivo existe sim e é linda. Ela vai acontecer no seu tempo, do seu jeito, através do seu processo de cura. Ainda que você procure ajuda profissional para entender e se conhecer mais profundamente, o que é louvável e extremamente recomendado, o mérito continua sendo seu. Seus sentimentos estão pouco a pouco se organizando para te tornar a melhor versão de você mesmo. Agora, enquanto você lê esse texto, quero te pedir para seguir sendo forte. Tenho orgulho de você, assim como hoje aprendi a ter orgulho de mim.

sábado, 17 de novembro de 2018

Aguardente feita a partir do melão pode se tornar a mais nova bebida do barzinho

Um dos patrimônios culturais brasileiro, por definição e até decreto de lei, produto feito só no Brasil, a cachaça foi inspiração para a pesquisa na Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ), Campus da UFRN 


*Por Anthony Matteus

A aguardente é produzida na EAJ
em parceria com o Sebrae,
que cede o equipamento de destilação
(Foto: Arquivo pessoal)
A cachaça é a segunda bebida alcoólica mais consumida do Brasil, atrás apenas da cerveja. A bebida de cana-de-açúcar é uma marca cultural brasileira. Mas engana-se quem pensa que aguardente só pode ser feita a partir da cana. Sabendo disso e com um desejo antigo em trabalhar com bebidas destiladas, o técnico do Laboratório de Processamento de Frutas e Hortaliças da Escola Agrícola de Jundiaí, Tiago Coelho, que é bacharel em agroindústria, resolveu produzir uma aguardente a partir do melão. 

Não é qualquer unidade da fruta utilizada no processo de produção, mas aquelas chamadas de refugo, que não atendem a um padrão específico de qualidade e não podem ser comercializadas. O Rio Grande do Norte é o maior produtor de melão no Brasil, das mais de 500 mil toneladas da fruta colhidas no estado, aproximadamente, dez por cento desse total é refugo. “É uma alternativa que busca utilizar um subproduto que até então não era aproveitado no campo. Uma aguardente agrega muito valor a um produto que era desperdiçado”, destaca Tiago sobre o uso da fruta. 

O processo de produção da bebida é semelhante ao da cachaça. O primeiro passo é a fermentação, prepara-se o mosto (um caldo do melão) e adicionado fungos do tipo levedura - eles são os responsáveis por consumir o açúcar do caldo e transformá-lo em álcool. Depois, o produto dessa mistura é levado ao alambique, equipamento que o destila, concentrando e por consequência aumentando o teor alcoólico da bebida. 

Um cuidado importante durante o processo é o descarte dos dez por cento iniciais e finais do caldo do melão já fermentado, também conhecido como cabeça e cauda, respectivamente. São partes que contém álcoois nocivos aos seres humanos, como explica o técnico de laboratório: “Uma preocupação com as aguardentes de frutas é que elas têm um carboidrato chamado pectina. A degradação dessa substância gera o metanol, prejudicial ao nosso organismo”. 

O alambique usado na pesquisa foi cedido pelo Sebrae. A parceria firmada entre o pesquisador e o órgão produziu uma amostra para a expofruit (Feira Internacional da Fruticultura Tropical Irrigada), que aconteceu no mês de agosto deste ano. A recepção do público no evento foi boa, o que aprovou a ideia. Um dos degustadores da aguardente de melão é o pizzaiolo Terciano da Silva. “É uma bebida que eu compraria. Não tem um aspecto forte, o cheiro é agradável e tem o gostinho do melão no fim”, conta. 

A garrafa da aguardente de melão: o design do rótulo também foi confeccionado por Tiago Coelho (Foto: Anthony Matteus/Caderno de Pauta)

A operadora de telemarketing Tailande Coelho também aprova o destilado: “É bem suave e com o gosto docinho do melão. Eu recomendo”. 

A produção da aguardente de melão ainda não pode ser feita em grande escala, isso porque a pesquisa ainda está em fase de testes e de aperfeiçoamento da bebida. Essa etapa faz parte dos últimos passos para que o destilado se torne viável em termos de qualidade. Dos testes em andamento, está a busca por uma coloração amarelada do destilado, para dar um quê característico ao produto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Escuridão Permanente

Uma movimentada Avenida do bairro Parque das Dunas, zona Norte de Natal, passou a ter como característica uma escuridão constante que causa insegurança nos moradores e em quem precisa passar pelo local 

*Por Francisca Pires


(Fonte: Arquivo pessoal)
Na noite do dia 26 de março de 2018, um casal de policiais militares de Santa Catarina, sofreu uma tentativa de assalto enquanto jantavam na pizzaria Barychopp, localizada no conjunto Parque das dunas IV. Segundo a PM, enquanto recolhiam os pertences das vítimas, os bandidos perceberam que o policial Marcos Paulo da Cruz, de 43 anos, estava armado. A partir disso, iniciou-se uma intensa briga que terminou com os criminosos efetuando dois disparos no sargento Marcos e um no peito da esposa dele, a soldado Caroline Pletsch, que aos 32 anos morreu ainda no local. O casal residia em Chapecó e estava passando férias em Natal quando o crime aconteceu. 

Oito meses após ser cenário desse crime brutal, a Avenida Mar do Caribe, localizada no Parque das Dunas IV, continua sendo alvo de bandidos. Os moradores atribuem a insegurança ao fato do local há muito tempo não receber iluminação adequada, visto que os dois postes que eram para clarear o trajeto não funcionam. Para completar o cenário de abandono, uma locadora próxima ao ponto de ônibus está abandonada e a pizzaria, onde ocorreu o crime em março, encontra-se fechada. 

Fachada da pizzaria Barychopp e escuridão na avenida (Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)

Em entrevista, uma moradora que preferiu não ser fotografada, conta que a COSERN (Companhia Energética do Rio Grande no Norte) já foi acionada diversas vezes pelas pessoas que moram no local e nas proximidades. No entanto, os postes de luz não duram nem uma semana completa sem voltarem a apagar: “Tenho quinze anos e já moro aqui há seis, posso dizer que esse problema é recorrente, ligamos para lá com frequência e eles até vem aqui, mas a questão nunca é resolvida de uma vez. O pessoal costuma evitar pegar ônibus nessa parada, eles preferem andar mais e ter a segurança de um lugar mais iluminado”, lamenta a estudante Maria Eduarda que no momento da entrevista aguardava o transporte público junto a um amigo.
A estudante relata também que de manhã, apesar de mais iluminado, o trecho não costuma ser muito seguro. Isso porque a avenida é pouco movimentada e, assim como durante à noite, as pessoas costumam evitar esperar ônibus no local: “Eu, inclusive, já fui assaltada aqui nesse mesmo ponto de manhã quando estava indo para escola. Sempre evito ficar aqui sozinha. À noite quando minha vó vem do trabalho fico esperando com o portão de casa aberto para que ela consiga correr no caso de uma emergência”. Maria Eduarda destaca que a locadora abandonada é um facilitador para a ação dos bandidos, uma vez que eles costumam se esconder dentro do local à espera de suas vítimas: “Além da locadora abandonada que é só um pretexto para os bandidos e do Barychopp fechado, essa escuridão só vem a prejudicar ainda mais a nossa segurança. No dia da morte da soldado Caroline, por exemplo, os postes estavam apagados como sempre”. 

Lateral da pizzaria Barychopp completamente sem iluminação (Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)

Dona de uma loja de conveniência há oito anos, Ednalva Dantas, 59, diz que a falta de iluminação é uma velha conhecida dos moradores e comerciantes do local. A senhora relata que a informação repassada pela COSERN é de que o problema dos postes está em um cabo especifico que quebrou e precisa ser trocado, segundo ela nunca foram dados maiores detalhes acerca do procedimento de troca ou prazo para conserto definitivo da iluminação. Assim como explicou Maria Eduarda, dona Ednalva reclama que as vindas da Companhia ao local não resultam em soluções duradouras e o reflexo pode ser visto na insegurança que vem afetando até suas vendas: “O movimento aqui ficou fraco, o pessoal tem muito medo de assalto e depois que o Barychopp fechou diminuiu ainda mais a vinda de clientes. Graças a Deus, apesar dos vários casos que fiquei sabendo, em nenhum deles estava com a loja aberta, porque geralmente as ações acontecem à noite ou de manhã cedo”, comenta.

Ednalva Dantas em sua loja
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)
Um dos postes com defeito
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)

Além do problema da iluminação, os moradores também apontam a locadora abandonada como facilitadora da ação de bandidos. Os relatos denunciam que, além do acúmulo de lixo no local que pode ocasionar o surgimento de vetores e proliferação de doenças, por estar com a porta principal quebrada, o acesso ao interior da locadora é muito fácil e acaba servindo de abrigo para criminosos que ficam à espreita esperando por novas vítimas. Por telefone, a assessoria de imprensa da SEMURB (Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal) informou que apesar de constar no sistema uma denúncia sobre o caso, a pessoa que a realizou se confundiu ao informar o número do imóvel. Esse equívoco é apontado por eles como provável causador da não resolução do problema que, segundo os moradores, tem mais de dez anos. Com a denúncia renovada e o número do imóvel atualizado, a SEMURB garante que o caso será levado até a fiscalização ambiental para que seja devidamente investigado. O proprietário da locadora será notificado quanto a poluição do local e, dependendo da análise do estado em que se encontra, o imóvel pode ser interditado e fechado permanentemente. 

Locadora ML Vídeo Locadora, abandonada há cerca de 10 anos
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)

Uma das portas da locadora completamente quebrada, mostrando o acúmulo de lixo (Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)


A COSERN, por ligação, informou que não se responsabiliza pelo problema dos postes, visto que o órgão responsável pelas questões de serviços urbanos e iluminação é a SEMSUR (Secretaria Municipal de Serviços Urbanos) e que só ela poderia dar maiores esclarecimentos, bem como um prazo para resolução do problema. A SEMSUR, por sua vez, não atendeu as ligações. A torcida é que medidas contundentes sejam adotadas o mais rápido possível, mas enquanto a questão não tem um desfecho, os moradores da Avenida Mar do Caribe seguem tendo que conviver com o fantasma da insegurança que se fortalece todos os dias quando o sol se põe e a escuridão toma conta do lugar.

Moça-velha

*Por Luiza de Paula

(Fonte: Spiritfanfiction)

“Moça-velha” era como me chamavam no auge dos meus seis anos. Transitava com mais facilidade pelo universo dos adultos e achava o suprassumo da liberdade falar palavrão abertamente, receber a hóstia na igreja e ir à farmácia comprar absorventes e Prestobarba. O mundo dos maiores de dezoito anos me parecia, à época, tão mais interessante do que brincar de boneca, tica-tica ou bandeirinha, embora eu adorasse sem nem me dar conta. Acho que sempre gostei das coisas por contraste. 

Como soava bonito o tal do adultecer! Toda gente grande que eu conhecia era forte, segura de si, cheia de certeza e parecia sempre saber conduzir qualquer situação. Adultos não choravam e o terreno em que pisavam parecia sempre firme. Havia em cada um deles uma espécie diferente de autossuficiência e tudo aquilo me encantava, mais do que passar o dia inteiro na cômoda da minha avó paterna procurando suas melhores maquiagens para maquiá-la. Me encantava mais do que abrir seu closet, tirar todos os saltos e ficar caminhando pelo casarão da Rua Praia Ponta do Mel, tentando ter uma vocação para modelo ou atriz que, coitada, nunca tive. 

Acreditava com veemência que aquele medo miserável que senti aos cinco, ao me perder em meio ao espetáculo de Ballet lá na Escola Crescer, jamais se repetiria. Achava que os cuidados dos meus pais ficariam ultrapassados. Acreditava que usar sutiã era chique e cursar Direito seria o único caminho possível, e bater o meu martelo de juíza seria o ápice da minha vida. Eu realmente fazia jus ao “Moça-velha.” 

Adulteci. Mas que grande merda! Não sou forte, muito menos segura de mim. Cheia de dúvidas, poucas respostas e não sei conduzir quase nenhuma situação. Choro mais do que quando tinha cinco anos, afinal, as atribulações, responsabilidades e incertezas dos vinte doem mais do que não ser escalada para integrar o time desejado da polícia e ladrão. Percebi que nada há de extraordinário durante às compras de absorventes, a não ser a cólica e o inchaço corporal. E que usar lâmina de barbear não é considerável uma boa indicação para se pôr em prática. Reparei que, assim como aos seis, continuo sem compreender muito bem a “transubstanciação” de Cristo e a relação direta com a hóstia. Descobri, olha só, que autossuficiência não existe! Assim como toda visão que a “moça-velha” tinha. 

Aos seis eu não sabia que os adultos tinham que pegar três ônibus para chegar ao trabalho e mais três para voltar. Não sabia, também, que um salário mínimo não corresponde ao trabalho despendido por cerca de oito horas diárias laborais. Não sabia que você precisa pagar para ter acesso à saúde e olhe lá. Não sabia que eles não sabiam de tudo e, tão somente, tinham uma vergonha descomunal de dizer “não sei”. Não sabia que fazer amizade não era apenas perguntar: “quer brincar?” Não sabia que os adultos precisavam se preocupar com a política, com a coisa pública e com a democracia – sempre tão posta em risco. Não sabia, também, que os adultos pudessem ser tão cruéis ao ponto de simpatizar e colocar na presidência do país um sujeito com discursos horripilantes de extrema-direita. Não sabia que muitos adultos não são apenas crianças envelhecidas, e que a peculiaridade da vida transborda, e que absolutamente nada é como parece ser. 

Ainda assim, o universo dos adultos me encanta e acho o suprassumo da liberdade falar palavrão e comprar absorventes. Os descontentamentos e angústias do "adultecer" me fazem perceber o pulsar da vida, como dizia Heidegger. Ser gente grande ainda assim é legal, eu juro. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sororidade

*Por Maria Clara Pimentel


Me pego escrevendo sobre esta bonita palavra porque acabei de a conhecer. E mesmo só sendo oficialmente apresentada a ela neste minuto, é como se já fôssemos amigas de longa data - essa é a sensação que tenho, ao menos. Para você que também não sabe sua definição, eu te explico um pouco melhor. Sororidade quer dizer a união entre as mulheres, baseada essencialmente no companheirismo e na empatia. Significa nos protegermos entre si, como irmãs. Sentimos na pele os preconceitos que sofremos e as imposições que nos são feitas, diariamente, pela sociedade, devido à simples condição de sermos mulheres. E eu nem falo daquelas que sofrem em dobro ou triplo, dificuldades das mais diversas - negras, faveladas, trans, lésbicas. Não tenho nem mesmo propriedade para tratar tais assuntos, então me limito às mulheres, como um todo, sendo mulheres “somente”. 

O termo expressa a institucionalização, digamos assim, de uma fraternidade só nossa. Reflete uma aliança simbólica feminina. Quer dizer, entre outras coisas, não contribuir para os preconceitos que ainda persistem na nossa sociedade, apesar de serem constante e veementemente negados. São os estereótipos que muitas pessoas dizem “não mais existirem”, porque “não acreditam mais neles”, mas que continuam sendo reproduzidos em conversas afora e piadas de mal gosto. Eles permanecem na mentalidade de muitos e muitas - e é aí onde mora o problema. As mulheres (mais do que os homens), por serem as principais vítimas, deveriam compreender a necessidade de aniquilação de tais discursos.

Em redes sociais, acompanho diversas contas de pensamentos e lutas feministas. Basicamente, são meninas ao redor do mundo que defendem a urgência de nos unirmos frente a todas as dificuldades que as mulheres ainda têm de passar nos dias de hoje. Não importa de onde venha, a cor da sua pele ou sua religião. Elas postam sobre conquistas - grandes e pequenas - de mulheres que não conhecem, mas que admiram, porque entendem que a vitória de uma vale um prêmio para todas. É lindo de se ver, realmente, e é algo que deveríamos incorporar à nossa realidade. 

O que me frustra é que vejo o quão distante essa dimensão está, de fato, da nossa vida. Acredito que isso acontece, fundamentalmente, quando mulheres deturpam os valores do feminismo e o rejeitam. Permanecem à margem do movimento e ajudam a corroborar para estereótipos sexistas. A falta de empatia de algumas de nós acaba fazendo-as reproduzir discursos machistas e que, além de depreciar a imagem, ajuda a encarcerar a liberdade de muitas mulheres de agir, vestir-se, portar-se e ser. O ideal é entender que nós apenas queremos respeito e igualdade de direitos. Por isso, digo: o que falta é sororidade.

Criticar o tamanho da saia da transeunte, chamar de “homem” a menina que tem cabelo joãozinho e falar que a colega que decidiu sair de casa sem sutiã “só está querendo se exibir” são exemplos recorrentes advindos da carência de empatia. Assim como maldizer a prima que só veste roupas largadonas, chamar de “puta” a garota que gosta de sair com a barriga pra fora ou achar que a menina é lésbica só por usar piercing e ser tatuada. É absurdo fazer suposições e pré-julgamentos acerca da sexualidade, do gênero ou dos valores de alguém tendo como base sua postura, a cor do seu cabelo ou seja qual for o elemento superficial que analisar. Dizer que mulheres se vestem como se vestem ou são como são para chamar atenção ou qualquer outro motivo absurdo do tipo é censurar a maneira delas de se expressar. É, dura e especificamente, ser burra também. Principalmente se você quer para si o direito de se manifestar livremente, usar a roupa que quiser, o cabelo do modo que preferir, os acessórios que gostar no seu corpo - sem ser repreendida por ninguém ou receber comentários repugnantes assim. É o velho “não faça com o outro o que não desejaria para si”. Sem competitividade, sem diminuir pessoas por se expressarem diferentemente de você, sem intolerância.

O que deveríamos fazer, na realidade, é exaltar as mulheres de quem falei anteriormente, achar lindas suas atitudes e tomá-las como exemplo. Nos inspirar nelas no modo como não ligam para a possibilidade de julgamentos alheios e como escolhem a sua liberdade de modo prioritário. Elas têm todo o direito de se vestirem como querem e agirem como preferirem, assim como você tem o seu. Não vê que até essa separação machuca? Nós, todas nós - nem uma a mais e nenhuma a menos - somos livres. A ideia é, em vez de dizer que tais mulheres não merecem ser censuradas, se incluir nessa linha de pensamento. Nós todas temos esses direitos. Sororidade é essencialmente isso. Não fragmentar, não distinguir as mulheres entre si, mas assumir o seu papel como tal e não tratar mais desse assunto se não estiver usando a primeira pessoa do plural. Nós somos lindas, nós temos direitos e nós merecemos respeito. Entre nós mesmas, frente aos homens, e na sociedade em geral. Simples assim.