quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Confiança e positividade: conheça a proposta artística da loja sem vendedor

A loja exibe obras da artista potiguar Ana Selma Galvão

*Por Ricarla Nobre

(Foto: Ricarla Nobre/Caderno de Pauta)

Em meio a cultura social de insegurança na capital potiguar, é muito difícil encontrar comerciantes que fujam das normas e medidas tradicionais de segurança. É nesse cenário que a artista mossorense, Ana Selma Galvão, 51, ganha destaque com suas obras e inovação. Em um simples passeio pelo Praia Shopping, as obras da artista chamam a atenção de vários consumidores, moradores e mídia de Natal ao serem colocadas à venda em uma loja sem vendedores. 

Além de todo estímulo visual na fachada do estabelecimento, proveniente da diversidade de cores, tamanhos e formatos das obras expostas, a ausência de vendedores chama muito à atenção dos curiosos. “Entrei na loja e fiquei encantada com a iniciativa e a confiança nas pessoas, nunca tinha visto algo assim,” disse a estudante de 22 anos, Sthefanny Ariane. A artista também realiza seu trabalho com material reciclado e tenta transmitir mensagens de positividade e consciência ambiental por meio das suas obras. “Eu considero a loja impactante. Não pensei que as pessoas fossem gostar tanto, e para mim foi muito fácil por que confio nas pessoas e o resultado dessa confiança é muito positivo,” afirma Ana. 

(Foto: Ricarla Nobre/Caderno de Pauta)
Para efetuar uma compra, o cliente deve escolher entre os produtos disponíveis na loja, checar o preço – disponível em etiqueta, e depois colocar o valor simbólico em um envelope, o depositando em uma urna ao final do processo. Tudo isso é bem sinalizado em um passo-a-passo fixado nas paredes do estabelecimento para que os possíveis clientes não fiquem confusos. Segundo Ana, o resultado tem sido positivo e o arrecadamento tem uma perda de apenas 5%, que para ela não apresenta prejuízos em nenhuma hipótese, estes ficariam à critério daqueles que fossem desonestos e não efetuassem o pagamento com consciência. 

A artista potiguar conta que tudo começou quando produziu uma homenagem para o dia das mães, com o reconhecimento do seu trabalho e as demandas, ela viu uma oportunidade de concretizar sua ideia. “Eu produzi algumas obras, em homenagem ao dia das mães, e as coloquei em uma vitrine. Alguns dias depois, as pessoas começaram a procurar o segurança do shopping para compra-las. Eu tinha trabalhado muito e não poderia estar lá toda hora, então já pensei nessa ideia de loja sem vendedores, e o shopping me convidou a colocar isso em prática,” conta.

Trabalho

(Foto: Ricarla Nobre/Caderno de Pauta)
As obras estão à venda há mais de um ano e é a primeira vez que esse projeto foi colocado em prática. As inspirações são em artistas potiguares como Carlos Sergio Borges e Iaperí Araújo. Sendo feito com materiais recicláveis, o trabalho ganha vida em uma parceria de Ana Gusmão, com sua filha, engenheira de materiais e um artesão que completa a formação da equipe.

Gusmão ressalta a unicidade da loja: “Só posso ter essa loja para mantê-la como está. Com essa rotatividade grande, eu não quero ter outra, pois iria perder o conceito da primeira como sendo 100% artesanal”. A artista ressalta que para quem quer empreender e ser artista no Rio Grande do Norte é necessário ser proativo. “O que você quiser ser você precisa buscar, eu saio para buscar, levar, ensinar e eu quero criar mais, passar mais a cada dia a mais. Criei vários projetos em Natal, no interior e fora do país, levando nossa cultura para fora,” conclui. 

Para conhecer mais sobre Ana e seu trabalho artístico, é só entrar acessar suas redes sociais.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Cannes Lions Road Show

*Por Paulo Prado


Cannes Lions Road Show (Foto: Paulo Prado/Caderno de Pauta)


O Cannes Lions Road Show, evento promovido pelo sindicato das agências de propaganda do Rio Grande do Norte, trouxe à Natal os cases mais premiados e criativos no evento de Cannes, que aconteceu na cidade de mesmo nome em junho deste ano. O evento oficial foi apresentado pelo diretor superintendente da Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro), Alexis Pagliarini.

O evento, que procurou entusiasmar a criatividade dos profissionais presentes, sendo uma grande parcela formada por estudantes, foi aberto com os principais cases brasileiros que garantiram o sucesso do país no evento.

A campanha  “Tagwords”, da Agência Africa para Budweiser (AB Inbev), consagrou-se ao estabelecer uma intima relação da cerveja com a história da música ao incentivar a busca por fotos, registradas no Backstage dos shows, onde os astros carregam consigo uma Budweiser, bastando usar as palavras chaves nos mecanismos de busca. A companhia trouxe para o Brasil o terceiro Grand Prix, além de dois leões de ouro e quatro leões de prata. 


Essa Coca é Fanta. E daí?”, foi o tema da campanha realizada pela Agência David São Paulo para a Coca-Cola. A expressão, que foi e ainda é usada como uma conotação homofóbica no Brasil, ganhou uma nova roupagem no case da Coca-Cola ao se estabelecer como uma mensagem a favor a diversidade. Ela mudou a forma de se ver a expressão ao construir uma linha de pensamento que gira em torno de que as pessoas podem ser quem e como quiserem.

A Coca-Cola dá um grande passo a favor da diversidade com bastante ousadia. Alexis Pagliarini discorreu sobre a importância dessa campanha no atual cenário social brasileiro e da coragem da empresa em apoiar o movimento LGBT+, já que esta possui uma variedade bastante extensa de consumidores. O case ganhou três leões de ouro, dois leões de prata e 2 leões de bronze.


Outro case de bastante sucesso foi o “Detector de corrupção”, da Agência Grey para o Reclame Aqui. A campanha se estabelece sobre a ideia de que ninguém é capaz de fazer escolhas se não tiver informações suficientes para uma avaliação adequada. Pensando nisso, a empresa lançou o aplicativo de reconhecimento facial político, o "detector de corrupção".

O aplicativo oferece uma base de dados com informações oficiais e públicas sobre o histórico judicial de políticos, que estão espalhadas nas diversas instâncias como STJ, STF, TJs, TRFs. Além disso, ele também identifica os políticos que ocupam ou ocuparam cargos eletivos nos últimos 8 anos.


Além das campanhas brasileiras, que colocaram o Brasil no terceiro lugar mundial como potência criativa, o superintendente da Fenapro apresentou cases internacionais bastante inspiradores. Uma das campanhas apresentadas foi a “The Trash Isles”.

O projeto foi realizado pela agência britânica AMVBBDO para a ONG canadense Plastic Oceans Foundation. Com o tom de sátira, a campanha reconhece a Ilha de Lixo como o 196º país do mundo. Foi criada toda uma identidade visual, da bandeira à moeda, que foi denominada “detrito”.

A Ilha de Lixo se localiza no Oceano Pacífico e é formada por 1,6 milhão de metros quadrados de detritos e 79 mil toneladas de plástico. O tamanho é equivalente a duas vezes a área da França.


O Cannes Lions Road Show trouxe para o mercado publicitário de natal uma perspectiva de incentivo para os publicitários já ingressados no mercado e os que estão na academia. Influencia ver a publicidade e a propaganda não só como uma forma de vender um produto, mas adentra em uma perspectiva social oferecendo valores morais, emoção, empatia, afeto e criatividade aos comunicólogos potiguares.

Cannes Lions Road Show chega a Natal

*Por Paulo Prado

Cannes Lions Road Show Natal (Foto: Imagem de divulgação)

Os cases vencedores do Festival Internacional de Criatividade de Cannes 2018, o “Oscar” da propaganda mundial, serão apresentados pela primeira vez aos publicitários do Rio Grande do Norte nesta quarta-feira, dia 28 de novembro. 

O evento surgiu em 1953 na cidade de Cannes, na França. Criado pela Screen Advertising Worlds Agencies, pertencendo hoje à Ascential plc, é o mais importante espetáculo da publicidade mundial. Suas premiações são divididas em Grand Prix, Leão de Ouro, Leão de Prata e Leão de Bronze. Suas categorias estão classificadas em Filmes, Mídia Impressa, Mídia Outdoor, Lions Direct, Media Lions, Internet, Rádio, Titanium Lions, Promo Lions e Young Creatives. 

Festival Internacional de Criatividade de Cannes 2018 (Foto: Imagem de divulgação)

Os filmes premiados serão apresentados e comentados por Alexis Pagliarini, superintendente da Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro), com o apoio do Sindicato das Agências de Propaganda do Rio Grande do Norte (Sinapro-RN), buscando trazer a proposta do festival internacional para o mercado publicitário potiguar. 

Com o excelente desempenho, desde sua primeira vitória em 1974 com o filme Homem com mais de quarenta anos, o Brasil se encontra entre as três principais potências mundiais em criatividade. Ficando atrás apenas dos Estados Unidos e Reino Unido. Este ano, o país conquistou 101 Leões e dois Grand Prix (prêmio máximo) – não conseguindo superar o recorde de 2014, com 116 leões ganhos. 

Um dos Grand Prix foi dado à agência Africa pela produção do case para a cerveja Budweiser da AB InBev, onde ele incentiva os consumidores a pesquisar palavras no sistema de busca da Google levando a imagens de estrelas da música bebendo a cerveja. A ação ganhou, além do Grand Prix (Print & Publishing), 2 Ouros (Print & Publishing e Direct) e 4 Pratas (2 em Direct, 1 em Media e 1 em Outdoor). 

Case Budweiser (Vídeo do canal Grupo DDB Latina)

Outro case que fez grande sucesso – levando 3 ouros (2 em PR e 1 em Media), 2 Pratas (PR e Direct) e 2 Bronzes (Design e Direct) – foi o da agência David para a Coca-Cola intitulado como: “Essa Coca é Fanta. E daí?”. A ação promoveu o ideal de que todos nós podemos ser quem quisermos. 

Case Coca-Cola (Vídeo do canal David The Agency)

O Cannes Lions Road Show será realizado na Arena das Dunas, às 18h30, com 150 vagas limitadas e abertas ao público interessado.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dezenove é bonito

*Por Luiza de Paula

(Foto: Reprodução)
Agora você está inquieta. Agora, não. Há dias. Há semanas. Há 20 anos. Próximo domingo é dia dos pais. Você pensa coisas trágicas, o que não é privilégio do doze do oito, mas sim de todas as datas comemorativas e, por sinal, daqui a três dias é o seu aniversário de vinte anos.

“Vinte” é a junção de cinco letras que parece carregar consigo todo o fardo do mundo. A pronúncia do “v-i-n-t-e” é uma poucas a não cair no automatismo diário e, absolutamente todas as vezes que é pronunciada, gera uma reflexão de modo que não sei se alguma vez vou me acostumar com a sua sonoridade e significâncias. É a segunda parte da vida e parece que foi ontem que li o convite de uma amiga dizendo: “venha comemorar comigo a minha primeira década!”. Do nada, caí de paraquedas na segunda – ou não. Morri de ouvir que “depois dos quinze... Ah, minha filha, depois dos quinze...  Tudo passa tão rápido.” Suspeito que não dei a devida importância, mas qual diferença iria fazer? O correr do tempo é irremediável para os vivos. De toda forma, “vinte” é difícil de ser deglutido. E mais difícil ainda quando nos últimos dias dos seus dezenove, você ainda não fez tantas coisas que deveria ter feito e tem uma espécie de dívida consigo mesma. Entrar no segundo tempo com o nome no SPC/SERASA? Mas, quem nunca? Viver é, basicamente, dívida e incompletude. E tudo bem.

O “Dezenove” carrega consigo uma certa complacência e permissividade. É uma espécie de proteção para quase todas as eventuais cagadas que um ser humano possa fazer, o que dá um certo confortinho na alma. Dezenove é sonoro. Aconchegante. É aquele café com bolo. É amor. É cerveja gelada na praia ao som de Caetano e Los Hermanos. É até permissão pra poder ser de esquerda de modo relativamente sossegado, caso contrário, você ultrapassou a quota etária para acreditar na justiça social  e para ser fã dos idealismos em geral. Dezenove prevê sucesso em qualquer área da vida e isso quem está dizendo não sou eu, pessoa física, é a numerologia.

“Vinte” me obriga a ser adulta e disso não há escapatória, é tipo o colágeno caindo com a idade, as marcas de expressão fazendo morada, a obsolescência programada do iPhone – aproximadamente 3 anos – e a ida ao generalista com mais frequência. Vinte parece palavra posta na prateleira usada apenas por gente grande e eu, no auge de cento e cinquenta e três centímetros, calçando trinta e cinco, não me sinto nesse lugar de fala. “Vinte”, dizia Marcelo Camelo, é só o começo do fim da nossa vida e prepare uma avenida que a gente vai passar. Vamos passar sim. Com ou sem medo. Saudando ou não o passado. Compreendendo ou não o presente. No nosso lugar de fala ou não.  Com o nome no SPC/SERASA ou não. Estamos imersos nessa roda de samba lindíssima que é a vida. Está decretado que “vinte” também é bonito. Está definido. Com prego batido e ponta virada.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Das ruas à universidade: uma tentativa de crescer enquanto tenta sobreviver

Ex-morador de rua aprovado em segundo lugar no curso de administração da UFRN tenta, no presente, compensar os erros do passado investindo em sua própria educação 

*Por Francisca Pires

Mário Batista, 36 anos
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)
“A partir do dia de hoje, Mário Batista da Cruz Júnior não é mais uma boa associação para nós nem para nossos filhos. Segundo a bíblia, uma fruta podre estraga todo cesto e um pouco de fermento leveda toda massa, portanto devemos evitar aproximações com tal indivíduo, visto que más associações estragam hábitos úteis”, decretou no púlpito o líder religioso. Nesse dia, aos 15 anos, Mário foi expulso da igreja onde seus pais eram missionários, acusado de apostasia e fornicação: “E era tudo verdade,” declara sem arrependimentos. 

Família 

Filho de Hilda da Cruz e Mário Batista, o garoto nascido em 1982 recebeu o nome do pai e, junto a ele, a missão de ser dele “uma versão melhorada”. A intensa projeção do filho perfeito rendeu ao homem uma infância constituída por duas facetas: a família religiosa modelo e sessões constantes de espancamento. A esta parcela de sua vida, Mário opta por usar o termo tortura: “Existia até um ritual: primeiro, nós liamos juntos o trecho da bíblia que dava aos meus pais o direito de me bater como forma de castigo, depois eu tomava um banho para que minha pele ficasse mais macia e então pegava uma tira de couro bem grossa que ficava na sala como enfeite e a entregava para com ela apanhar”, relata. 

As constantes surras deixavam cicatrizes expressivas pelo seu corpo, tão expressivas que Mário chegou a mostrá-las na diretoria da escola onde estudava em uma tentativa de pedir ajuda. Os responsáveis pela escola, por sua vez, chegaram a chamar seus pais para uma conversa e ameaçaram comunicar ao Conselho Tutelar caso as agressões continuassem. No entanto, elas continuaram de forma mais silenciosa, porém ainda muito intensas. A essa altura, o garoto passou a apanhar nas mãos e pés, lugares onde há dor, mas não marcas. 

Em paralelo ao papel de agressores, o casal também desempenhava a função de incentivadores à leitura e estudo. Filho único, ele conta que seus pais sempre o incentivaram a buscar conhecimento através da leitura, ler tudo o que aparecesse na sua frente. Contudo, apesar da relação turbulenta e de não manter contato com seus pais há cerca de um ano, Mário faz questão de destacar: “Meus pais fizeram muito por mim e por mais que meu pai quisesse que fosse um cara ainda melhor que ele, isso era impossível”. 

Nessa relação de amor com os estudos, o jovem considerado “nerd” pelos amigos, cresceu com o sonho de cursar psicologia para aplicar seus conhecimentos na área gerencial das empresas, formando equipes, trabalhando com projetos ligados a motivação e gestão de pessoas. “Por isso acabei escolhendo administração, olhando a grade curricular percebi que essa era a área mais condizente com o que eu queria para minha vida, além de ser extremamente amplo, com uma variedade incrível de atuação”, explica. 

No entanto, o sonho que está sendo retomado agora em 2018 foi interrompido lá atrás, logo após sua expulsão da igreja. O ocorrido fez com que sua família automaticamente começasse a se preparar para sua expulsão de casa; fato que veio acontecer três anos depois, quando Mário completou a maioridade. 

Expulso de casa, ele decide ir morar com uma namorada da época, o relacionamento dura pouco mais de um ano e não resulta em filhos. Porém, esses viriam mais a seguir: ao todo, são cinco, frutos de três casamentos diferentes. Quanto a sua relação com eles, Mário prefere não falar muito, abaixa a cabeça e conclui que é complicado demais. No entanto, não hesita em descrever com orgulho sua escadinha: “Tenho o Mário Neto de 17 anos, a Moana de 14, o Moabe de 13, o Isaac com quatro e minha pequenininha Maria Valentina que está agora com dois anos”. 

A complicação pela qual o homem se refere fica evidente quando ele relata que atualmente seu pai terminou o casamento de 29 anos com sua mãe e casou-se novamente com a sua segunda ex-mulher, mãe do seu filho mais velho. Com a atual esposa do seu pai, Mário revela ter tido constantes brigas com até mesmo casos de violência física. O primeiro por ela ter persuadido seu pai a não lhe entregar um dinheiro referente à separação do casamento e o segundo quando ele alega ter visto essa mulher agredindo sua mãe. “Na primeira vez, eu fiz por raiva. Iria usar aquele dinheiro para comprar uma casa simples, um carrinho usado e nessa casa eu montaria uma bodega que seria o pontapé inicial da minha vida. Já na segunda, ela agrediu minha mãe na minha frente e eu não poderia deixar. Dessas agressões eu não me orgulho, mas também não me arrependo”, conclui depositando confiança em cada palavra. 

Vida nas ruas 

Segundo Mário, são raras as pessoas que ficam na rua o tempo todo. Geralmente, maior parte delas tem passagens pela rua, ficam lá durante um tempo, quando a situação melhora, saem, mas depois, pela própria falta de medo da rua acabam voltando sem se preocupar muito com a situação, afinal, através das vivencias já puderam constatar que conseguem sobreviver. 

O primeiro contato com as ruas aconteceu logo após o fim do seu terceiro casamento: “Quando acabou meu relacionamento, eu pensei que Natal não tinha mais nada a me oferecer. Decidi que iria aonde o vento me levar, coloquei uma mochila nas costas, cem reais no bolso e fui até o posto Dudu. Fiquei lá observando o tempo passar, esperando algo acontecer”, conta. Foi assim que, vendendo passagens em um carro de lotação, Mário se deparou com seu primeiro destino: a cidade de Mossoró. Três dias depois já se encontrava em Canoa Quebrada no Ceará e nesse ritmo, com ajuda de caronas e juntando o pouco que recebia, ele percorreu Fortaleza, Feira de Santana, Salvador, Aracajú, Maceió, Recife e João Pessoa. 

Foram dois anos como nômade até ele decidir voltar para Natal. Esse tempo fez com que Mário perdesse o medo da rua e do mundo, uma vez que após vivenciar situações como um ocorrido em Salvador, viver nas ruas da cidade do sol não lhe causava mais nenhuma angústia. “Lá uma vez me roubaram tudo. Roupa, dinheiro, documento, me deixaram com a roupa do corpo e cinco reais no bolso. Nesse dia, comprei uma lata de cachaça, alguns cigarros e fui beber enquanto chorava sozinho na praia”, desabafa. 

Mas essa não foi a única situação crítica que ele enfrentou enquanto estava em situação de rua, outra época difícil, segundo Mário, foi o período em que ele viveu na chamada “casa do terror” localizada no Juvino Barreto. Sem dar muitos detalhes do que viveu no casarão, o homem limita-se a contar que o dono do imóvel se suicidou após reunir o maior número de moradores de rua que conseguiu e define como uma época terrível que ele prefere esquecer.

Um dos seus passatempos no Centro Pop de Parnamirim era jogar com os amigos (Foto: Reprodução/InterTV Cabugi)

Durante o tempo em que viveu nas ruas de Natal, Mário dormia em albergues e utilizava serviços básicos como saúde, educação e atendimento jurídico do Centro Pop de Parnamirim. Sobre esse período, ele afirma que existe muito preconceito por parte dos prestadores de serviço. “Se um morador de rua precisar de atendimento médico, ele vai levar um chá de cadeira grande. Colocam todo mundo na frente como se quem estivesse precisando não fosse uma pessoa como as demais”, lamenta. 

Dependência química 

“Existe um termo usado no NA (Narcóticos Anônimos) que fala sobre uma série de comportamentos compulsivos. Eu nasci assim, compulsivo. Tudo comigo precisava ser muito, seja droga, bebida, comida, sexo ou até mesmo trabalho e estudo”, detalha Mário enquanto come o segundo lanche no intervalo de uma hora. Além de comida, ele carrega sua garrafa de água sempre cheia e um maço de cigarros, pois conhecendo sua condição psíquica melhor que ninguém, o homem precisa estar sempre preparado para suprir suas compulsões e não demonstra desconforto algum ao falar ou lidar com elas. 

Seu primeiro contato com o álcool aconteceu em uma festa de ano novo em família, quando ele tinha apenas nove anos. Sozinho e escondido, ele tomou quase um garrafão inteiro de vinho. Falando sobre esse consumo altamente exagerado, Mário diz acreditar que sua dependência química não foi desenvolvida ao longo dos anos, mas sim sempre esteve presente com ele. A maconha, por sua vez, surgiu no seu décimo terceiro aniversário. Na ocasião, ele conta que sabia com quem conseguir a droga e, como queria muito experimentá-la, assim o fez. 

“Além da curiosidade normal do jovem, o abuso que eu sofria dos meus pais também me fez sentir esse desejo por buscar o que era proibido. Usar as drogas era uma forma de quebrar aquele padrãozinho em que estava submetido, mas isso daí é material para muita terapia”, brinca Mário. Por causa do vício, o homem de 36 anos contabiliza 16 internações em clínicas de reabilitação e para manutenção dele, cometeu crimes como assaltos, furtos e estelionato, que resultaram em cinco passagens pela cadeia. Somando todas as entradas, tem-se o total de quatro anos e meio de pena. 

A Universidade 

Mário Batista na UFRN
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)
Após viver tantos anos em situação precária e enfrentar os mais diversos tipos de dificuldades, através de pessoas que faziam trabalhos de assistência social como distribuição de alimentos e um padre chamado Murilo, Mário começa a perceber que tinha potencial e vontade de mudar sua história. “As pessoas sempre falavam que eu era inteligente e muitas me incentivaram a concluir o Ensino Médio que parei no primeiro ano”. Ao saber que fazendo a prova do ENEM poderia conseguir seu diploma de Ensino Médio, ele resolve estudar sozinho e realizar a prova. 

Aprovado em segundo lugar no curso que tanto queria, Mário conta que ficou surpreso e, claro, muito feliz por poder retomar seus planos antigos, consequentemente mudando o rumo da sua vida. Porém, ele enfrentou mais algumas dificuldades dentro da universidade. Seu pedido de moradia na residência estudantil foi negado, pois, segundo o sistema, ao ser atendido pelo Centro Pop de Parnamirim, ele não tinha perfil socioeconômico para ocupar a vaga. 

Por causa disso, Mário se viu obrigado a alugar um kitnet em Potilândia, porém o aluguel custava 500 reais, quantia inviável para sua situação financeira. Vendo suas opções diminuírem cada vez mais, foi passar uma temporada em Mãe Luiza, na casa do primo de um amigo. Nesse local, ficou sabendo sobre a Casa do Estudante, local onde mora atualmente e que corre o risco de ser fechado por causa de uma ação civil pública aberta pelo Ministério Público. 

Mário sobre a sua história na Casa do Estudante (Foto: Reprodução/Facebook)

“Ser ambulante não é uma novidade na minha vida, mas hoje estou fazendo isso para custear minha morada na Casa do Estudante e assim tentar de alguma forma impedir que ela feche. Caso contrário, terei que voltar para as ruas e estando lá, fica inviável me manter na faculdade”, desabafa. Para Mário, a UFRN é sinônimo de oportunidade, a partir dela pretende fazer um bom networking e trabalhar com empreendedorismo social. Ele conta que pretende compensar todo mal que já pode ter feito aos outros, investindo em formas de trabalhar para construir uma sociedade melhor. 

Quando questionado sobre como sua história pode inspirar e influenciar positivamente a vida das pessoas, Mário responde humildemente que não quer ser visto como herói, tampouco como exemplo, visto que reconhece todos os erros cometidos durante sua trajetória. “Não existe só o Mário perfeito, nem só Mário mau. Existe o Mário de verdade que é a junção dos dois”, afirma. 

Dono de seu destino, o ex-morador de rua agora cursa o segundo período de administração e logo mais será um grande empreendedor social. A vida desenhada pelos pais e entregue a ele como modelo a ser seguido foi condenada ao fracasso quando ainda pequeno o Mário Junior revelava traços de sua forte personalidade. Seu caminho foi redesenhado por ele mesmo a cada decisão tomada. O curso da sua história tomou a direção de suas próprias vontades quando ele suportou as surras, foi expulso da igreja, de casa, decidiu ir morar na imensidão da sua incerteza e depois voltar para a certeza que só o conhecimento traz, provando que ele não se resume a uma má associação, uma fruta podre ou um fermento capaz de levedar toda uma massa. Mário não se resume a nenhum título como ele mesmo faz questão de definir: “Eu sou o Mário e pronto. Isso basta”.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Mídias Digitais para todos: o futuro da comunicação na GGCON

*Por Paulo Prado 

Erika Zuza, Lilian Muneiro e André Torquato no painel GGtalk (Foto: Paulo Prado/Caderno de Pauta)

A GGCON apresentou um dos temas mais importantes a serem debatidos no painel GGTalk: o futuro da comunicação e de seus profissionais. Os convidados Lilian Muneiro, Erika Zuza e André Torquato discorreram sobre o assunto e demonstraram que acreditam no desenvolvimento da profissão a partir da evolução tecnológica. 

“O futuro da comunicação é agora”, foram essas as palavras da palestrante Lilian Muneiro, professora e atual vice coordenadora do curso de Comunicação Social  Publicidade & Propaganda da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ao ser indagada sobre qual seria o futuro da comunicação no Brasil. 

Com a capacidade de mutação constante, a comunicação social entra em um caminho sem volta. Agora, mais democrática do que nunca, ela não se concentra mais na velha forma (emissor – canal – receptor), existem “ruídos que interferem e influenciam nesta linha comunicacional”, afirma a professora. 

O interesse sobre o mundo da comunicação vem aumentando cada vez mais devido à grande necessidade de autopromoção em redes sociais e estímulos empreendedores. A comunicação agora não está concentrada apenas na figura do comunicólogo, ela se espalhou e se apoderou de todas as áreas, da medicina a engenharia. 

Esse novo cenário abre um espaço para que os consumidores tenham um grande poder de influência sob as marcas. Elas se encontram sob recorrente vigilância, não podendo haver espaço para erros. O uso pessoal também não deve fugir de cuidados, existe uma necessidade de conhecimento em como, quando e onde usar cada meio. Por isso, como explica a comunicóloga, o futuro da comunicação é imediatista, deve ser levada para a vida e utilizada com moderação, consciência e respeito. 

Erika Zuza, jornalista e professora, discorre sobre a importância da democratização comunicacional. Ela entende que a alta demanda de profissionais de outras áreas em busca de conselhos em Branding e Marketing para mídias digitais demonstra esse fator democrático e afirma que o futuro da comunicação está na prevenção da mutação, na busca por conhecimento. 

Outro tema bastante discutido no painel foi sobre o futuro do profissional de comunicação (jornalistas e publicitários) perante os parâmetros atuais, se um dia a tecnologia chegaria a substituí-los e se, consequentemente, as agências publicidade chegariam ao fim. As duas palestrantes acreditam que isso talvez nunca chegue a acontecer. Segundo elas, o futuro é comunicacional e que, ao contrário de extinguir, aumentará a demanda por profissionais especializados. Apesar do grande interesse na área, é muito importante entender que sempre haverá um “guia” que indique o caminho. 

André Torquato, publicitário e empreendedor, acredita que o fim das agências publicitárias é uma realidade ainda muito distante. De acordo com ele, “sempre haverá alguma empresa que ofereça seus serviços comunicacionais e que as agências não sobrevivem, mas se adaptam a realidade. Quanto a substituição do profissional pela tecnologia é uma realidade pouco provável pois a capacidade e criatividade humana é algo único que nenhuma máquina jamais conseguirá replicar”. 

Na fila do SUS, de quem é a vez?

*Por Manuela Torres 


Febre alta, dor de cabeça, palpitação e medo de morrer. É uma boa hora para ir ao hospital, onde, teoricamente, há quem possa fazer algo por você. Na prática, também teria, se a quantidade de profissionais e de salas fosse condizente com o número de pacientes. Mas as estatísticas não são boas, e no Brasil, a cada cinco minutos, três pessoas morrem por falhas médicas ou falta de estrutura nos hospitais. São 819 mortes por dia. Mais de 300 mil por ano. 

Ainda que isso pareça uma matéria jornalística, não é. Está mais para um desabafo, um testemunho. O Sistema Único de Saúde, vigente no país desde a Constituição de 1988, é lindo e acolhedor, um exemplo universal. O artigo 196 considera a saúde como um “direito de todos e dever do Estado”, tornando tudo mais justo, visto que o dinheiro que movimenta a nação provém dos impostos sobre os esforços de todos os civis trabalhadores. No entanto, a Constituição não previu a sua mais desrespeitosa inimiga: a corrupção, a própria. 

É como se você tentasse fazer algo certo, mas no meio do caminho tudo desse muito errado. No Brasil é assim sempre. Isso porque o Estado foi fundado no pior contexto possível, em meio às atrocidades éticas mais condenáveis, e, após quinhentos anos, o que temos é uma nação em sua maioria corrupta, com representantes em sua maioria corruptos, sendo que os atos destes últimos impactam em proporções astronômicas, capazes de revoltar a todos os demais. Porém, corrupto ou não, todo mundo adoece. A diferença está no atendimento, e se você pode ou não pagar por ele. O preço é tão alto que a maioria da população não pode custear, e os políticos sequer precisam, pois o plano de saúde vem junto ao mandato. Logo, se um trabalhador assalariado sem condições para um plano de saúde sofre um acidente ou adoece, é bom que não tenha sido tão ruim, senão pode sim, morrer. 

Digo isso porque qualquer um que já tenha posto os pés dentro de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de uma grande cidade ou capital, diria o mesmo. Desde o irônico “pronto atendimento”, que dura em média seis a doze horas, passando pelo vômito de uma criança no chão há mais de trinta minutos, até a humanidade que há muito já se foi dos funcionários... Tudo é um verdadeiro circo de horrores. Nos olhares dos pacientes se lê medo, chateação e desesperança. Nos olhares dos enfermeiros se traduz impotência, e no dos médicos, eu não sei; nenhum sequer olhou para mim. Então se pensa no Reino Unido, que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2014 investiu 16,52% dos seus recursos em saúde e pagou 83,14% dos gastos totais do setor; ou no Canadá, com tecnologia de ponta e profissionais capacitados, onde o serviço privado existe apenas para complementar o público. O Brasil dedica apenas 4,66% de seu PIB à saúde e 75% da população depende dessa porcentagem. 

Não estou a escrever para os maus políticos, pois são conhecedores do assunto e conseguem dormir plenamente à noite com os travesseiros repletos de propina. Também não escrevo para os ricos, eles diriam que sentem muito. Muito menos escrevo para os fanáticos, com seus longos discursos de ódio em redes sociais. Escrevo eu apenas para a moça em convulsão aguardando a sua vez em uma fila parada porque a máquina de medir pressão pifou, e porque a burocracia exige que ela seja formalmente medida, ainda que claramente a paciente não aguente muito mais. Escrevo para a mulher que curava a outra com seus cabelos, em nome de Jesus. Escrevo para a enfermeira que cortou o dedo e torceu para não contrair uma superbactéria. Escrevo para a garota que tomou uma injeção na bunda em pé, apoiada em uma maca imunda, e começou a chorar porque não conseguia vestir sua roupa de novo, e ainda tinha gente olhando. Escrevo para a senhora que já havia sido liberada, mas permaneceu na unidade para, voluntariamente, organizar a vez honesta de atendimento dos pacientes, visto que não havia quem o fizesse. E escrevo para a moça que começou a gritar e exigir que fosse atendida até que seu namorado precisasse inventar que ela possuía um diagnóstico de distúrbios cerebrais. Eu poderia escrever para sempre para essas pessoas, mas isso seria muito triste. 

Poetas, jornalistas ativistas, artistas e intelectuais, essa gente não gosta de trabalhar com o eterno, ainda mais quando é ruim. Preferimos acreditar que amanhã bem cedo uns professores milagrosos, como o do livro de Augusto Cury, irão aparecer nas escolas brasileiras e transformar o lugar em um recanto da educação; ou que milhões de notícias falsas não sejam capazes de eleger pessoas de valores horrendos para governar suas nações; que 11 mil médicos a menos em um país tão adoentado pela ignorância não seja motivo para comemorar; e, ainda, que a atendente entenda que não há tempo para medir pressão, já que a máquina quebrou e os seus segundos de tranquilidade são quem decidirão a vida da paciente. Então ela corre até a médica e esta faz o possível para salvar a moça cujo espírito se agarra já sem forças à fronteira da existência e do oculto. Só havia ela para atender a todos, e as pessoas ao redor percebem que isso precisa mudar. Elas vão para suas casas pensando nisso. 

Hipoteticamente, um grupo de pessoas que lá estava se reune para estudar e traçar propostas que façam sentido. Em determinado outubro, a população acolhe tais propostas. O sistema muda ao longo dos anos seguintes. Sem propina, educação e saúde ganham vez. O país começa a se transformar. Um belo dia um político chega em uma UPA, onde é atendido dentro de uma hora, como todos os demais cidadãos. No dia seguinte, está pronto para trabalhar e cumprir seu dever. 

Então os poetas, os jornalistas ativistas, os artistas e intelectuais acordam. É preciso fazer algo além de sonhar, nem que seja escrever uma crítica idiota. E o texto termina assim: “Se perguntarem pelo Brasil, diga que está morto, pois o esfigmomanômetro quebrou”.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Competição universitária de foguetes inicia neste fim de semana em Natal

Cobruf Rockets 2018 será realizada pela segunda vez no Rio Grande do Norte e reúne equipes de todo o Brasil 

*Por Luiz Gustavo Ribeiro

Equipe Potiguar Rocket Design representa a UFRN na Cobruf Rockets 2018

A Competição Brasileira Universitária de Foguetes (Cobruf), maior do segmento aeroespacial universitário do Brasil, desembarca em Natal neste sábado. Pela segunda vez a capital potiguar será sede do evento que contará com palestras nacionais e internacionais, mesas redondas, lançamento de foguetes, entre outras atividades. A Cobruf Rockets 2018 acontece entre os dias 1 a 7 de dezembro e as atividades vão acontecer no campus central da UFRN e no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. A abertura oficial do evento será realizada neste sábado às 18h no Auditório da Reitoria da UFRN.

Com equipes de todo o Brasil, a Potiguar Rocket Design vai representar a UFRN na Cobruf. O projeto desenvolve foguetes para competições há dois anos na universidade e integra o corpo de equipes das principais apresentações do evento. Um dos fundadores da equipe, o estudante Elder Samuel enaltece a importância da competição e acredita que a presença do público será essencial durante toda a semana. 
A importância do evento se trata de ser realizado novamente aqui no Rio Grande, o que mostra que o estado tem uma vocação aeroespacial. Nós temos um centro de lançamento, um instituto nacional de pesquisa, temos a universidade, enfim, o RN está sendo agraciado com esse evento. Por outro lado, vai ser importante que o público venha para ver esses jovens que são entusiastas do setor e que querem contribuir no futuro com a exploração espacial, está vendo o que eles estão desenvolvendo agora vai ser muito importante para dar incentivo para todo mundo," disse Elder. 
Neste domingo, os membros da Potiguar Rocket Design vão estar no Complexo Tecnológico de Engenharia (CTEC), das 7h às 16h, fazendo a divulgação da equipe. Na próxima quinta-feira, a equipe anfitriã vai realizar o lançamento do motor Poty J na Barreira do Inferno. Para conferir mais informações sobre a Cobruf, acesse o site oficial da competição.

Mês da consciência negra e o racismo estrutural no Brasil

*Por Vanessa Islany 

Monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares na Praça da Sé, Salvador/BA

No Brasil, novembro é considerado o mês da consciência negra, em memória à morte de Zumbi dos Palmares. Zumbi foi um dos maiores líderes negros do Brasil que lutou para a libertação do seu povo e contra a escravidão. A importância da data está no reconhecimento dos nossos descendentes na construção da sociedade brasileira. Esse momento serve para fortalecer a reflexão acerca das bases de um racismo estrutural que estão presentes no nosso cotidiano. 

O racismo constitui em um mecanismo fundamental de poder utilizado, historicamente, para dividir e dominar classes, raças e etnias. A colonização e o genocídio foram ferramentas importantes para o seu desenvolvimento. A desqualificação dos oprimidos é recurso histórico, consciente e inconsciente, dos opressores para racionalizar e consolidar a exploração. Em um país que tem toda a sua história baseada em um sistema de estratificação social, racista e patriarcal, é inevitável que vejamos o reflexo disso no nosso presente. 

A abolição da escravatura brasileira foi um processo lento que passou por várias etapas antes sua concretização. Quando finalmente foi decretada, não se realizaram projetos de assistência ou leis para a facilitação da inclusão dos negros à sociedade, fazendo com que continuassem a ser tratados como inferiores e tendo traços de sua cultura e religião marginalizados, sendo um determinante na história de marginalização que se segue até os dias de hoje.

Ao longo da história, o incentivo às imigrações europeias, os projetos de branqueamento da população, a tomada do racismo como ideologia, a exclusão das populações negras do acesso à terra e o baixo nível de investimento em educação para essas pessoas foram fatores que continuaram produzindo e reproduzindo a marginalidade das populações negras no Brasil. 

Passados 130 anos da abolição, a população preta continua ocupando a base da pirâmide social no Brasil. Negros são a maioria da população brasileira (53,6%), segundo o IBGE. Também são a maioria entre os que têm menor renda. Estima-se que três em cada quatro pessoas entre os 10% mais pobre do país sejam pretas ou pardas. 

A violência também afeta essa parcela da população de maneira diferente. O Atlas da Violência 2017, lançado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou que, a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Outro dado que chama atenção: das 726.712 pessoas encarceradas no Brasil em 2017, mais da metade eram negros. A situação é ainda mais grave no Acre, onde 95% dos presos são negros. No Amapá, são 91% e, na Bahia, 89%.

O racismo, como fenômeno comportamental e social, procura afirmar que existem raças puras, e que estas são superiores às demais, assim busca justificar a hegemonia política, histórica e econômica. Nesse momento de avanço da intolerância, o racismo se escancara nos gritos de uma classe dominante. O discurso de extermínio ganha espaço, as políticas de higienização e branqueamento são defendidas sem hesitação. É necessário, cada vez mais, ter momentos de reflexão acerca desse nosso cenário e do que podemos fazer para que essa estrutura e o racismo institucionalizado seja disseminado no nosso país.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Você não é uma pessoa diplomática

*Por Luiza de Paula 

(Foto: Reprodução)

Após uma longa manhã com a companhia de livramentos condicionais, suspensão condicional da pena, medidas de segurança, ação penal pública e privada, ouvi um sonoro: “Luiza, você não é uma pessoa diplomática.” Soou tão verdadeiro quanto eu verificar que a minha instabilidade emocional se mostra pelo meu corpo desde o tamanho das unhas até os números sanfonas da minha calça. Talvez a minha paixão plena e absoluta pela escrita e pela crônica esteja me deixando um pouco introspectiva e com uma certa incapacidade de praticar a tal de ‘diplomacia’. 

Mentira. Pesquisei no google o que é ser um sujeito diplomático. Realmente não preencho os requisitos. Tem que agradecer sempre pela sinceridade das pessoas. É importante demonstrar autoconfiança e não ser agressiva. Não deve ser direta nos pensamentos e discursos. Deve dar sugestões ao invés de comandos e convencer perfeitamente as pessoas. É importante ser polida, esperar a vez de falar e não interromper os outros. O pior é manter um tom de voz neutro e natural e evitar falar palavrões. Pessoas diplomáticas mantém o controle das emoções. Independentemente do meu flerte profundo com a introspecção momentânea, meu gênio forte não bate um papo muito sadio com essa gente fina, educada, controlada e polida. De certo modo, que alívio! Bom mesmo é ser gente com G maiúsculo, intensa e bem naquela linha oito ou oitenta. Talvez os psicanalistas me condenem, os espíritas intercedam por mim, os empresários não me queiram para chefiar uma grande corporação. Talvez eu me condene, mas quem nunca? Por enquanto, acho chique não ser tida como um ser adepto à diplomacia nas relações sociais. 

Talvez daqui a cinco anos eu tente fazer todos os malabarismos do mundo, por necessidade, para me encaixar nesse nomezinho aí de cima. Talvez eu comece a fazer yoga e aprenda a lidar perfeitamente bem com o famoso enaltecimento do ego próprio de terceiros, travestido de sinceridade. Talvez em algum momento da minha suada e sublime existência eu tenha autoconfiança e não seja agressiva e reativa. Talvez algum dia eu seja polida, meio covarde e tenha um certo receio de divulgar minhas opiniões por aí. Talvez algum dia eu “adulteça” e aprenda que interromper o coleguinha ou a coleguinha na hora da fala é feio, não soa de bom tom. Talvez eu assimile, com a yoga que falei logo ali, que posso falar com timbre de voz b-e-m c-a-l-m-o e não precise ter quase sempre um quê argumentativo na oralidade. Talvez eu me torne membro da alta cúpula do judiciário, aprenda a falar em Latim, Alemão, Francês e aquele Português do século XIX, e termine por abandonar os meus queridíssimos palavrões – mas porra, o quão chato deve ser uma vida sem palavrão? Eles são adjunto adverbial de intensidade, às vezes. Terei de aprender a celebrar e sofrer educadamente.. Talvez algum dia eu aprenda a controlar àquela raiva impulsiva que sai das minhas entranhas. Talvez eu olhe pra esse texto daqui a alguns anos e me ache patética. Talvez eu permaneça sem os atributos da diplomacia. Talvez eu perca a fé nos sonhos e me torne uma adulta extremamente pragmática, daquelas que acha sonho besteira. Talvez a escrita perca esse lugar sagrado que tem pra mim hoje, a ponto de ser minha psicanálise de urgência e não àquela de toda quarta-feira, lá na Rua Auris Coelho. 

Esse foi um texto da suposição, da hipótese. Amanhã posso não reconhecer o meu eu de hoje, mas deixar de ser por medo de uma eventual mudança drástica, é covardia. O alinhamento dos planetas não me fez com o DNA da covardia. Não sei se isso foi uma maldição ou uma dádiva, e isso nem importa muito. Não fui e não estou diplomática e admito que me dá um certo frio na barriga e um medo de um dia me tornar. Tenho um certo receio dessa gente sempre autoconfiante. “Gente” e “sempre” não combinam muito bem. Quando vejo essa junção, já penso na construção de um humano meio robotizado e, como eu disse, gosto de gente com G maiúsculo. Robôs não me admiram. Adoro minhas unhas curtas-grandes-curtas-grandes-curtas-grandes e meu peso variando por três meses quarenta e nove, três meses cinquenta e dois, três meses quarenta e nove, três meses cinquenta e dois. Há beleza nisso. 

Nota: Gustavo, se algum dia você me olhar e disser: “Luiza, você se tornou diplomática”, saiba que eu vou querer ter uma diplomacia única e exclusivamente a lá Henriques. Outras formas eu dispenso.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Marcas que falam: Branding e Marketing na GGCON

*Por Paulo Prado

Thiago Lajes, Thiago Garcia e Thiago Lins na palestra "Marketing para novas empresas" (Foto: Paulo Prado/Caderno de Pauta)

O mercado comunicacional está em constante mutação, tendo a capacidade de modificar-se do dia para noite. Esse é um dos maiores desafios para o empreendedor inexperiente e com poucos recursos. É sempre preciso compreender as variações para não ficar atrás na corrida do empreendedorismo e foi exatamente esse um dos pontos mais fortes debatidos no painel GGTalk do último domingo (25). 

Em tempos de relações sociais digitais, o consumidor se encontra mais ativo e intimamente ligado às suas marcas favoritas, mas o fornecimento de boas experiências requer uma conexão que vai muito além de um bom produto. 

Entramos em um cenário comercial exigente que não apenas comunicólogos (jornalistas, publicitários e produtores audiovisuais) devam compreender a área da comunicação. Assim, tornaram-se populares duas palavras que colocam medo em qualquer um; as velhas amigas do publicitário: Marketing e Branding. 

A Nubank desenvolve seu branding a partir do posicionamento de liberdade, transparência e amizade (Foto: Nubank/ Divulgação)

Essas palavras não têm absolutamente nada de novas, mas são a bola da vez. Para que o usuário tenha uma relação íntima com a marca é necessário haver diálogo entre ambos. Parece confuso né? Mas não tenha medo, não é tão difícil quanto parece. O branding é o grande responsável por estabelecer a ligação consumidor-empresa, mas antes de adentrar o conceito é preciso estabelecer uma linha de raciocínio do que é uma marca. 

A percepção de marca, apesar do conceito popular, vai muito além da produção da logo e um slogan de efeito. Ela se constrói a partir de ações que estão dentro e fora da natureza física. Para melhor entendimento, a marca é tudo aquilo que contribua para que o público memore a empresa: tudo que a representa, do produto a ações sociais. 

Branding então será o "simples" ato de gestão de marca. É responsável por conceber uma espécie de vida própria a ela, fazendo-se humana para conversar e relacionar-se intimamente com o público, o que envolve todas a ações realizadas para promovê-la. Também está estreitamente ligado ao marketing, capaz até de se confundirem – ação recorrente no painel. 

A doceria Delikata, de Recife, promove a inclusão social e a diversidade a partir dos seus funcionários (Foto: Página Delikata Doces e Salgados/Facebook)

Um dos assuntos mais repetidos no GGTalk foi como colocar em prática o branding e o marketing e uma coisa ficou bastante clara no discurso de todos os palestrantes que ali passaram: não existe fórmula mágica para isso; um passo-a-passo que o empreendedor deva seguir. Como publicitário, devo concordar; mas há indicação para o caminho. 

Antes de mais nada, é preciso se reconhecer como marca e conhecer o seu público alvo. O empreendedor iniciante irá cansar de ouvir isso, mas é a verdade. Isso se dá pelo simples fato de ser um público "pré-estabelecido", o que implica uma ligação sentimental atuante antes mesmo da marca entrar no mercado. 

É bem verdade que o consumidor não compra um produto apenas por sua qualidade; ele o adquire por identificação com a marca, na qual enxerga padrões sociais, sentimentais e políticos. É como se fosse uma espécie de espelho. Um grande exemplo é a Coca-Cola, que não vende o refrigerante, seu produto principal, mas um ideal de felicidade e o conceito de família. A comunicação com o consumidor deve ser feita de dentro para fora; como explica Simon Sinek, autor e consultor organizacional britânico, as pessoas não compram o seu produto, mas valores, razões e inspirações. 

A Coca-Cola tem uma gama muito extensa de consumidores, por isso seu branding está atrelado às emoções, estando entre as mais marcantes a felicidade (Video: Canal oficial da Coca-Cola)

O Marketing irá identificar o tamanho de um mercado e suas potencialidades. A maior dificuldade a se enfrentar é a constante mutação do mercado consumidor. Contudo, as palestras apresentadas – “Monetizando sua criatividade”; “Marketing para novas empresas” e “Experiências reais em tempos digitais” – não conseguiram estabelecer uma linha de raciocínio válida para direcionar a um bom caminho o público ingressante no mercado. 

Como acontece no branding, não existe um caminho que leve o empreendedor direto ao ponto e seja capaz de atingir os objetivos necessários do marketing; entretanto, existe uma solução lógica a se seguir: a pesquisa. Viés praticamente inexplorado no painel, certamente por receio relacionado ao alto custo em produção, a pesquisa é a escolha mais eficaz e com resultados quase perfeitos a se fazer. É por conta disso que, ao ignorar essa opção, os palestrantes cometem o erro de tratar Marketing e Branding como iguais. 

Não é o ideal sentar e seguir o fluxo do mercado, ir se adaptando conforme ele vai mudando. Grandes empresas em ascensão, como a Netflix, se utilizam de uma possível “previsão do futuro” – alcançada a partir de pesquisas em consumo, investimento, monitoramento de mídia, opinião e comportamento – para sair na frente com excelência na disputa e revolucionando o mercado consumidor. 

O futuro é bastante complexo de se prever, mas tudo se torna mais fácil quando são tomadas atitudes de prevenção em relação a ele, as quais podem ser realizadas a partir de uma palavra: planejamento.

sábado, 24 de novembro de 2018

Assédio sexual: silêncio, revolta e medo

País onde mais se mata mulheres por motivos de gênero, o Brasil também se destaca negativamente nos crimes de perseguição contra elas


*Por Gideão Marques


Segundo dados do Datafolha, 42% (quarenta e dois por cento) das mulheres brasileiras dizem ter sofrido assédio sexual pelo menos uma vez na vida. Seja no trabalho, na universidade, na rua ou em transportes públicos, esse tipo de situação desagradável tem se tornado comum em todo o território nacional.  

É muito comum que os assédios sejam frequentemente confundidos no ambiente de trabalho, por causa da hierarquia, onde algumas funcionárias não sabem distinguir o que faz parte do ofício e o que é de fato uma insistência por parte do seu superior. Ainda, existe a necessidade de se manter e se destacar no mercado de trabalho, tendo em vista que o Brasil vive uma intensa crise financeira desde 2008. Por isso, muitas preferem o silêncio para não serem demitidas.

(Infográfico: Datafolha)
O assédio sexual está presente, em sua maioria, em grupos mais vulneráveis: negros, classe social baixa. Devido ao forte racismo e a separação de pobres e ricos – herança deixada pelos europeus durante o processo de "colonização" –, muitas pessoas se utilizam desse pensamento e agem covardemente contra esses grupos. Embora saibamos disso, o assédio sexual não tem cara, cor e nem muito menos classe social. A pessoa pode ser privilegiada ou mais desfavorecida: não importa. A falha no caráter de impor que as pessoas façam aquilo que não querem e se utilizar, por muitas vezes, de poder ou prestígio social para se obter ¨proveito¨ é, no mínimo, doentio e não escolhe pessoas; ele simplesmente acontece.

Neste ano, durante apresentação do programa Teleton, exibido no SBT desde 1998 e que tem como objetivo a causa social de ajudar a Associação de Assistência à criança Deficiente (AACD), Silvio Santos dirigiu palavras para a cantora Cláudia Leitte, onde muitos julgam serem configuradas como assédio: ¨Não posso ficar dando abraço porque eu me excito, e eu não posso ficar excitado. A gente admira você como mulher, mas ver você como está se apresentando dá vontade de…¨, disse o apresentador. 

Claramente incomodada com os comentários, a cantora disse que estava com vontade de sair do palco do programa: “Estou pensando em ‘vazar’”, disse Cláudia durante a gravação. Em suas redes sociais, ela se pronunciou sobre o caso e lamentou o ocorrido: “Senti-me constrangida sim! Quando passamos por episódios desse tipo, vemos em exemplificação o que acontece com muitas mulheres todos os dias, em muitos lugares. Isso é desenfreado, cruel, nos fere e nos dá medo”.

Nas universidades, onde se tem um público feminino muito grande, essas pessoas -maioria composta por homens- veem um ambiente propício para se aproveitar de meninas e mulheres. A universitária J. S. S, moradora do município de Tibau do Sul, fala sobre o transtorno vivenciado por ela em mais um dia comum da sua rotina de ida para a universidade. Ela diz que não esperava que o senhor, de uns 50 anos, fosse ter essa capacidade: “Ele é um conhecido de todo mundo, tirava brincadeiras e conversava normalmente”, afirma. “Em um dia eu estava sentada ao lado dele, no ônibus, indo para a faculdade. Até que ele começou a passar a perna dele na minha perna. Eu fiquei incomodada e afastava, não tive coragem de falar nada [por ser uma pessoa mais velha],” continua.

Na viagem de retorno, a jovem estudante teve de encarar o senhor mais uma vez. Já debilitada psicologicamente e sem reação, ela conta que foi um terror o trajeto de volta: “Ele me encarou e perguntou o que eu tinha, pois eu estava muito estranha [segundo ele]. Eu respondi que estava doente e que não estava me sentindo muito bem, mas era para tentar despistar ele e fazer com que ele ficasse longe de mim.

Universitária vítima do assédio (Foto: Gideão Marques/Caderno de Pauta)

Como o senhor ao qual a vítima se refere também é universitário e morador da mesma região que ela e, por isso, frequenta o mesmo ônibus todos os dias, ela ficou muito assustada e nervosa durante toda a semana pós-trauma: “Eu estava sempre muito assustada e querendo fugir dele, não me sentia confortável. Ficava com medo quando eu ia pegar o ônibus [universitário], porque eu sabia que quando eu chegasse lá, ele estaria lá. Então, foi uma fase muito complicada, até eu conseguir me recuperar e poder encará-lo de uma forma que eu não sentisse medo”, revela a estudante.

Os abusos são cometidos, em grande parte das vezes, por pessoas próximas e onde não depositamos nenhuma aversão ou desconfiança. Dessa forma, quando eles ocorrem, as vítimas ficam com medo, não só do agressor, mas de as outras pessoas não darem crédito ao que elas vivenciaram. “Eu entendo as pessoas que ficam receosas. Até pelo fato de estar fazendo uma acusação contra alguém que você nem imagina e que não tem relatos de outras pessoas que tenham passado por isso. Ou seja, ele é uma pessoa mais velha e respeitada por todos dentro do local. Fiquei com muito medo”, relata a jovem J.S.S.

Na Delegacia da região, quando as mulheres chegam para realizar as denúncias são atendidas por um policial. Algumas se sentem incomodadas e pedem para relatar o caso à escrivã Patrícia Gomes de Oliveira, 41, que trabalha lá há um ano. Questionada sobre a quantidade de mulheres que fazem denúncias na delegacia, Patrícia foi enfática: “Não temos muitos casos de abuso sexual aqui”, diz.   

O delegado da região, que está no comando há cerca de um mês, Everaldo da Silva Fonseca, 50, reitera a fala da escrivã e confirma serem poucas as denúncias. Ele ainda disse que esses casos acabam não entrando para a estatística, por se tratarem de crimes da esfera privada.

A J.S.S diz que não realizou Boletim de Ocorrência (B.O) por medo e por não querer se expor. Assim agem muitas vítimas. Não denunciar os casos faz que as autoridades não saibam da frequência com que esses crimes estão acontecendo, e isso impossibilita o trabalho de prevenção e de detenção do criminoso. É demasiadamente importante que essas mulheres realizem o B.O. para que as providências necessárias sejam tomadas.

Aproximadamente 4 meses após o assédio, a vítima diz não ter medo, mas sente nojo ao olhar para o senhor. Além disso, suas atitudes mudaram e ela diz estar muito mais cautelosa: “Eu sempre fui uma pessoa muito extrovertida com todo mundo. Sempre abri as portas da amizade. Quando isso aconteceu, eu comecei a ter mais cuidado com as pessoas que a gente não pode confiar, e prestar mais atenção naquelas que passam por isso. Se colocar no lugar de alguém que passou [ou está passando] por essa situação; de como que elas se sentem em um momento como esse; se colocar, de fato, no lugar das pessoas”, conclui a estudante.

Disque 100: funcionando 24 horas por dia, as ligações são gratuitas e podem ser feitas de qualquer lugar do Brasil. A denúncia é anônima e as demandas são encaminhadas para as autoridades competentes.