quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Natureza-morta

*Por Tiago Silva

Odilon Redon, “Orpheus” 

Dormia sempre na cama da mãe. A cama era da mãe e não da mãe e do pai – era da mãe. Ele morava com os pais. A cama era da mãe e ela dormia sempre com o filho. Este, sempre com o braço esquerdo debaixo do travesseiro dela, aquele travesseiro muito recortado e duro e quadrado, aproveitado de um colchão. O pai dormia ali perto daquele cômodo híbrido que também era sala, na rede. A cama, também híbrida, era também sofá – o garoto assistia à TV sempre deitado.

Era noite de quinta muito quente e abafada. O menino já estava na cama da mãe para dormir. Estava tudo apagado, menos a TV, de onde o pai dormia. Não se ouvia nada. A TV iluminava o cômodo com leve luz fantasmagórica. As imagens tremulavam indecisas na parede. Forçou os olhos para tentar enxergar as horas. 11h? Meia-noite? Forçou mais. Mais um pouco...mais um pouco...Nada. Estava escuro. Tentou mais uma vez. Arrastou-se um pouco para o pé da cama. A noite dentro dele gelou – meia-noite e quarenta! Nunca estivera acordado tão tarde. Sentiu um pouco de força e alegria. As imagens não tremiam mais na parede. Que acontecera? Passou o ouvido por toda casa, depois pela rua. Tudo morto. Sentiu um pouco de medo e depois coragem e força de novo. Que passava na TV? Que seu pai assistia? Ele assistia? Ou dormia? Se dormia não roncava. Seu pai roncava muito, muito, às vezes tinha medo. Mas e a TV?

Em um ato de extrema coragem, ele sentou-se na beira da cama. Não podia levantar-se de uma vez, pois a cama rangia e poderia acordar sua mãe. Levantar e circular pela casa à noite e aproveitar aquele instante de liberdade solitária? Levantar e ficar. Demorar-se no escuro, no escuro da noite, de olhos fechados. Ele sorriu. Tocou os pés no chão frio. Fazia tanto calor que queria deitar naquele chão tão fresco. Será, será? Afastou os pés para sentir as outras partes frias do chão. Fechou os olhos de prazer. Precisava levantar!

Jogou então seu peso para os pés e impulsionou o corpo para frente, em um lindo e arriscado movimento acrobático. A cama rangeu levemente. Ele ficou imóvel por alguns segundos, sem respirar. Abriu os olhos. Podia avançar? Precisava esperar. Passou os ouvidos pelo seu fino corpo. Seu coração batia alto, aos pulos. A casa e a rua continuavam mortas.

Que noite secreta. Já deve ser quase 2h. Que faria primeiro? Deitaria no chão sem roupas, ou ia na sala ver o que passava na TV? Percebeu que da soleira da porta escapava uma luz azulada e gelada. Será que ele dormia? Ouvia apenas um leve vibrar de coisa inorgânica. A luz ficava mais gelada. O pai dormia profundo como quem sonha. A TV estava fora do ar. Uma felicidade nova lhe cortou vertical o corpo – desligaria o aparelho. Sim, e seria só ele na noite! Poderia aproveitar aquela liberdade com mais segurança.

Sentou-se no sofá perto da rede do pai, isso não fazia parte do plano. O tecido grosso e áspero aquecia a pele, enquanto colocava os pés no chão frio. Era como se nada existisse, só ele.

Ali, na horizontal, fica sempre atento ao teto, ao que se move. A casa é de telha, então há perigo. Algo pode atravessar as frestas feitas pelos gatos e causar estrondos. Estava deitado certa vez na cama e sem perceber sujou-se com fezes de lagartixa. Lembrou-se de imediato quando seu pai segurou uma perto de seu rosto para ele não gritar mais feito mocinha. Não sei para quem foi mais estressante – se para o menino ou para a lagartixa. Lembra...lembra de seus olhos pequenos e escuros, sem brilho, e de suas unhas muito longas. Dois seres que queriam viver. Sentiu um calor depois um frio. Seu cérebro pulsava. Ela era mais escura do que as outras. Seu abdome parecia estufado – estava grávida? Estava. O mundo parou e eles dois se encontraram! O mundo parou com um shhhhhhhh! muito fino que engole tudo. O ar que saía de seus pulmões era tão pesado e áspero, ardia nas narinas. O ar que entrava era tão seco e poroso que arranhava seus ossos magros. O caos do ar então aos poucos repousou no chão. Um pesado silêncio caiu como um bloco e estalou. O menino só sentiu um cansaço de alma.

Desde então fica atento ao que dizem sobre elas e não esquece. Ouviu que um amigo mata as lagartixas, e de uma que ela morde como a pressão de dois dedos em pinça. A que mais o assustou – que uma menina as abria com a mãe para tirar seus órgãos!

No quintal encontrou certo dia um ninho de lagartixa. Sim. O medo e a curiosidade o invadiram. Acocorou-se ali perto. Olhou os ovos. Pela primeira vez sentiu-se corajoso diante daqueles ovinhos pequenos e frágeis. Tão belos. Poderia levá-los para casa. Sentiu-se corajoso. Olhou-os novamente. “Ele é muito doce”, “tem coração mole”, diziam quando ele chorava. Foi assim quando suas amigas da escola não quiseram mais sua amizade. Uma era alta, muito alta. A outra era gorda e tinha muitos cravos escurecidos no nariz. As duas eram melhores amigas. Nesse dia, elas o ignoraram durante todo recreio. Quando voltaram do intervalo para o segundo momento da aula, ele não aguentou. Desejou por um momento não se apegar a nada. A professora, com escandaloso perfume, cochichou com alguns alunos. Seu estômago ainda estava pesado do iogurte muito denso de ameixa que bebera no café da manhã. Mas não ia chorar desta vez. Olhou os ovos de novo e sentiu uma espécie de carinho. Era carinho. Algo por resolver ficou.

Sua mãe acordou no meio da noite com fome, com a cabeça fora do lugar e os pensamentos jogados. Foi fazer comida porque não tinha nada pronto. Sonolenta pelo sono e pela fome, pegou a maior panela do armário. Sem se importar com a ordem da vida, acendeu primeiro o fogo antes de colocar a água na panela. Seus olhos caiam pesados. A chama enorme de seu fogão enorme tomou quase todo o fundo da panela; a chama abraçava-a de leve. Algo vivia na panela e não percebeu. Uma barata correu para debaixo do cabo da panela sem ela ver. Encheu a panela de água e esperou. A barata estava em completo desespero – morrer com fogo ou com água? Apenas morrer –lançou-se inteira em voo rasante para a brancura estéril da pequena cozinha com cheiro de cloro.

É noite quente sem lua e ela fez macarrão sem molho, adora. Sentou para comer na beira da cama e puxou conversa com a irmã adolescente do menino.

– Sabe...o amor não se acaba.

– Ah, se acaba o de muitos! O amor de muitos esfria – disse a moça bocejando.

Não gostava muito da irmã do seu filho. Sim, não era sua filha, mas não era por isso. Talvez um pouco. Ela tinha piolhos e os catava sobre a mesa de madeira, a única que tinham. E sempre urinava na rede. Sempre o mesmo líquido quente sobre o chão frio. Tão grande...,pensava.

Moravam num poro da rua. Na vila, as casas eram muito coladas e estreitas. O calor era de um sol diabólico à espreita na sombra, esperando, esperando. Logo cedo, o pai disse que iria sair. “daqui pra pouco”, respondeu à mulher quando voltaria. Ela não entendeu e retrucou, em cólera amarela: “Acabe com essa história de ‘daqui pra pouco’, é ‘daqui a pouco’! Você vai voltar para o almoço!”. Ela estava preparando peixe porque era domingo e só comiam peixe no domingo, quando não era Semana Santa. A irmã foi para a cozinha onde estava a mulher e disse que teve pesadelo simples e horrível, mas ela não ligou. Estava preocupada. Algo verde saíra dela pela manhã.

– Não coma peixe – orientou a moça. – A amiga da minha mãe estava com esse problema e teve que fazer cirurgia.

– Vira tua boca pra lá!

Já passava da hora do almoço e a mãe foi para a casa da vizinha. Era uma mulher antiga, que já viu de tudo um pouco. O que as ligava na vida era que quase foram madrasta e enteada. Ela tinha namorado com seu pai pouco antes dele suicidar-se. Ainda expunha na sala uma foto dele emoldurada lindamente, com sua camiseta favorita, a azul e branca, de listras. Olhando a camiseta, quase conseguia sentir o cheiro do pai. Ela gostava quando sua quase enteada ia à sua casa para contar-lhe segredos, pois se achava digna de ouvi-los, mesmo que depois quando ela saísse fosse contá-los, todos, até os mais íntimos. A mãe sabia que sua vizinha não guardava segredos, mas ela precisava desabafar, não conseguia ficar com eles dentro dela. E contava.

– Não coma peixe.

– Não, Deus me livre.

– Ele já chegou?

– Saiu às 8h. Até agora. Estou morrendo de fome e ele não vem! Fiz peixe como ele gosta, parece aqueles pratos da praia! Só você vendo... – desabafou. E chorou.

Lembrou-se do seu primeiro namorado, do primeiro encontro. Alongando o caminho de volta para casa, deitou-se com paixão numa calçada ainda quente e contemplou o céu. Era um céu ainda baixo e miúdo que estava se fazendo, mas não importava. Aquilo era a verdade e era quase noite. Cantarolou baixinho sua música favorita em inglês, que não sabia o nome nem quem cantava. Mas não importava. Como disse, aquilo era a verdade e já era noite. Sentiu estrondos sucessivos de estrela morrendo – era Aquilo. Não entendia ainda e não sabia nomear, era apenas “Aquilo”, tinha certeza. Aquilo crescia, crescia. Crescia no côncavo do corpo. Estava pronta para saber. Rompeu casulos de horrenda beleza. Pálidas mariposas bateram asas e lhe subiram pelas pernas. Desejou o impossível, quis um instantâneo daquele momento. Metal riscando metal.

– Eu chorando é de desgosto, e desgosto mata. Eu morri há dez anos!

– A gente fala coisas às vezes que não quer falar, mas vêm.

– A cor é de limão.

Quando o avô do menino morreu, tudo ficou empoeirado e opaco. Densa névoa de lentidão caiu sobre a casa da sua avó, e entrou pelas frestas. O tempo se arrastava. Os relógios, quase parando. A ferrugem era apenas ferrugem, ninguém tinha levado a sério ainda. Mas, agora, as palavras eram cruas e sem sal, impalatáveis como o amargo da vida.

– É de amargar... – ele dizia.

Ele nunca chorava. Nunca. Nem mesmo quando a irmã morreu afogada numa enorme piscina após saciar-se com vermelhos morangos maduros. Ele era mais velho e ela, adolescente. Ela morrera após saciar um desejo. Morrera com o gosto do doce prazer da vida na boca. Por que tão cruel, Deus? Embriaguez de jovem cessada.

De dentro de seus tecidos moles, do seu corpo curvo e tenso, de suas células gordas, de sua língua grossa e amarela, dos dentes sem raiz brotou, porém, um soluço molhado. Era um choro que vinha. Cheiro de terra úmida aos poucos exalou.

As lágrimas pesadas como gotas de primeira chuva o cegaram. Estava afogado no escuro. Que aconteceria agora? Sabia que mesmo afogar-se no orvalho era perigoso. Mas a flâmula da vida parecia tão frágil.

O mar à noite é ainda mais imenso. É infinito. É a ideia mais concreta de infinito que consegue formular. A borda do nada, onde tudo se perde. Tem quase certeza que consegue iluminá-lo com a lanterna amarela que seu avô lhe deu antes de ir. Neste momento olha para o nada com alguém e alguém os olha. É o mar que os olha, suas imagens refletidas sobre um espelho sujo? Não, quem dera. É Marte ou Vênus que os olha lá de cima com seus núcleos quentes? Não, há uma enorme nuvem entre eles. Ah, então é o coqueiro. Não, não. Alguém os olha. Uma pessoa com olhos rápidos e brilhantes. Por que não olha o mar? Ela os olha. Disfarçadamente. Uma pessoa os olha disfarçadamente na praia à noite, num domingo. É domingo, ele sente. As ruas estão desbotadas, os ônibus, vazios. Domingo é tão estranho e uma pessoa os olha.

– Por que estás triste?

– Não estou triste – respondeu.

Ele estava, sim. Não conseguia esconder e o outro notou. Pela segunda vez – depois de passarem o dia juntos –, quando está indo embora de sua casa, ele o pergunta a mesma coisa. Saem sempre pela porta da cozinha, que dá para o quintal. Antes de sair, seus olhos correram vazios pelos vasos, pela areia úmida, pelo varal, pelas pedras. Tudo quieto e triste. Seus olhos subiram pelo céu pobre de estrelas e triste. Foi nessa hora que ele se denunciou – procurou algo no céu que faltava em seu coração.

– Por que estás triste?

– Não estou triste.

Deixa eu acender teu cigarro.

Ele estava triste, sim. A pergunta o estremeceu. Deixou cair o cigarro quando foi estourar a esfera de sabor e ele apagou.

Deixa eu acender de novo – disse encostando o dele no seu.

Foi então que viu seus olhos frescos e úmidos, muito castanhos e penetrantes. Seu hálito, doce e alcoólico. Seus olhos se encontraram. Seus olhares são de quando nos olhamos no espelho quando queremos pensar, sem excessos ou vaidades, apenas para ver. É. Olharam-se assim. Acho que abriram uma fissura no tempo. Foi tudo tão forte. Demorou tanto que deu sede. E ah! – tudo ocorreu sob o mais profundo silêncio. Só havia toque. Abriram uma fissura no tempo e isso os fechou num vácuo. O impossível – um som neutro e orgânico de coração, apenas.

– Por que estás chorando?

Durante o caminho de volta para casa, sentou-se numa calçada morna. O céu se revelou para ele de uma forma que jamais vira e jamais verá. Revelou-se inteiro, puro, como as múltiplas faces de um prisma. O mundo revelou-se. Viu tudo, tudo, violento e ameaçador. Com sua jovem liberdade, via tudo através de um tecido limpo e novo, como o novo tecido da vida. Carne crua ainda para salgar. Olhava com medo por entre as frestas de suas pálpebras nesgas de mundo que até então desconhecia. Discos pálidos como hóstias brotavam fartos do céu. Via um pedaço da sua própria galáxia acenar. Outras também se projetavam em espiral. As estrelas pareciam ter enorme necessidade de amor profundo e se juntavam em constelações – era amor com asas.

Com o véu da noite já posto, ela se distribuía inteira na Terra, como uma ordem – essa era a ordem secreta. E ela continuava a se quebrar – destampou-se algo, rompeu-se lacres. Um zumbido muito forte bzzzz! invadiu a atmosfera. Bzzzz!, meu Deus! Correu para sua casa energizado pelo medo. Correu para sua casa como quem foge da chuva. Algo cairia, sim, mas não sabia o quê. Pela porta de madeira, triste de dele!, entraram as abelhas. Era tarde demais. Gritos de ninguém em outra floresta. Correu para a cozinha à procura de algo para bater, bater em insetos? Mas ele, de carne doce, foi alvo fácil. Os insetos o picavam por todo corpo, ele gritava em agonia diabólica, não tinha o que fazer. Depois da luta perdida, deitou exausto na rede, sem vida. O que ficou depois da guerra foram alguns frutos bizarros com espinhos, daqueles que grudam na roupa ou no pelo, invenção da natureza para mamíferos. Bizarras sementes-bicho. Quase rosnavam.

Abriu os olhos. Chuviscos o molhavam molemente. A vida era uma natureza-morta sonâmbula. Parecia que ainda estava em estado de sonho. Acordou mais exausto ainda. Levantou e, na cozinha para onde correra, bacias cheias de água repousavam mudas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A lama não é só mais uma metáfora

Três anos após o desastre de Mariana, o Brasil se encontra diante de um mar de lama que vai além do  sentido figurado. Quantas vezes vamos repetir esse erro?

*Por Vanessa Islany

(Imagem: Motoka)

Dizer que nosso país está em um mar de lama deveria ser apenas uma metáfora. Três anos após o desastre de Mariana, com o rompimento da barreira entre metáfora e o real, o Brasil se encontra de joelhos diante das falhas de segurança e proteção ambiental.

Em relação ao rompimento de barragem da Vale em Minas, ainda chove questionamentos, mas o certo é que o ocorrido fomentou discussões sobre a abordagem do atual governo para a gestão e proteção ambiental. Enquanto afirma em Davos, que somos o país que mais preserva o meio ambiente, Bolsonaro sempre demonstrou desdém pelo assunto, até que chegou a cogitar o fim do ministério do Meio Ambiente e prometia acabar com o "ativismo ambiental".

A responsabilidade desse desastre é de todas as instituições e pessoas que se omitiram diante do crime de Mariana. É também daqueles que agiram para que o crime de Mariana não fosse devidamente punido e providências fundamentais fossem tomadas. É de quem defende, paralelo a isso, a FLEXIBILIZAÇÃO da legislação ambiental. É de todos aqueles que descumprem a legislação ambiental, assim como faz o atual presidente e o ministro do meio ambiente.

Enquanto tudo isso acontece, a lama avança. Não só como metáfora. Enquanto escrevo, a lama avança. Piscamos, a lama avança e vai levando vidas. Ninguém pode afirmar até aonde a lama vai chegar. A lama continua avançando não apenas como metáfora, a lama avança matando Jonatas, Marcelle, Fabrício, William, Leonardo. Pelo menos 34 mortos!

Não podemos tratar esse tipo de tragédia como acidentes, são crimes! Esse tipo de acontecimento deve estimular o governo a abrir os olhos para tratar com mais atenção questões ambientais. Meio ambiente é algo sério, respeito à vida das pessoas e cuidado com nosso país.

Não são os ambientalistas que produzem crime e sofrimento, mas as empresas, as bancadas que "agilizam licenciamentos ambientais" irresponsáveis, presidente que criminaliza ações do IBAMA e ministros que favorecem empresas de exploração. O capitalismo acima de tudo e a lama matando vidas. Quantas vezes vamos repetir o erro para mostrar que esse modelo econômico predador é insustentável e atenta contra nossas vidas? O Brasil precisa avançar, mas é a lama que avança por aqui!

Potigoiana, que ri e encanta

Nascida em Goiás e residente no RN, Natália Beatriz usa de paixão e de gargalhadas para encarar a vida e suas adversidades

*Por Maria Clara Pimentel 

Um grande sorriso me acolhe na porta da casa 22. Estou na Residência Universitária Biomédica da UFRN e ela cheira a cuzcuz. Natália Beatriz França de Lucena, goiana de vinte e dois anos e estudante do 6° período de Fonoaudiologia, me recebe suada da aula de capoeira e me pede para entrar. Ela termina de preparar o bolo de milho que faz para mim – tradição de família – e me dá um tour pela habitação, enquanto me conta das meninas com quem mora. Com seu ‘R’ puxado, apresenta cada uma com que nos deparamos, seguindo um certo padrão determinado: “olha, essa é a Fulana, ela faz Fisioterapia” ou “ah, essa é a Beltrana, é de Serviço Social”.

Aos 22 anos, na cozinha de sua casa, na Residência Universitária (Foto: Arquivo/Natália Beatriz)

São 120 pessoas morando na residência e é bem possível que conheça os nomes e cursos de cada uma delas. Parece chocante, só não para quem a conhece. Nada realmente surpreende vindo de Natália, que gosta de se fazer atuante em qualquer mínima coisa que faça – a gente acostuma. Ela faz parte do Conselho da Residência, por isso é sempre chamada “pra resolver os rebuliço”, acolher pessoas novas nas moradias e receber reclamações em geral. É até alvo de brincadeiras de suas companheiras de quarto, que dizem que, por conhecer todo mundo, sairá candidata nas próximas eleições. Eu não duvido.

A goiana faz parte da Coordenação de Articulação e Saúde da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Fonoaudiologia (Denefono), é representante da saúde no Diretório Central dos Estudantes da UFRN (DCE) e é a coordenadora geral do Centro Acadêmico Lourdes Bernadete (CALB). Com ela, não há tempo ruim. Natália está sempre participando das coisas. Já fez curso técnico de impressão gráfica; pequena formação de corte e costura humano; trabalhou na confecção de arranjos de flores para vender na feira; assim como participou de um encontro para aprender a fazer sorvete, também para comercializar. Quando mudou-se para o interior do RN, vendia CD, DVD, cabo, controle, pendrive, trufa... Chegou até a vender uma cartela premiada do Natal Cap, quando para lá trabalhava, e hoje é revendedora da Avon.

Para contar sua história ela vai desde antes dos seus pais saírem de Lagoa Nova, município localizado na região central do estado, onde se conheceram e para onde voltaram, anos depois. Por uma proposta de emprego, foram viver em Goiás e construir sua família. A gravidez foi de risco. Sua mãe se alimentava muito mal porque trabalhava em uma fábrica de refrigerantes e, na função de lavar as garrafas, bebia os restos quando tinha fome. Natália queria sair da barriga com sete meses, mas a mãe tomou remédio para que esperasse mais um mês, e deu certo. Veio ao mundo com baixo peso e prematura: a bebê mais feia de lá, segundo a mãe. “Eu era toda engelhada, pequena e só tinha cabelo,” ela ri alto. Também nasceu com uma pequena má formação: o pé direito torto e menorzinho que o outro.

Não achando o suficiente – como gosta de brincar – sofreu um acidente aos 12 anos que retirou 3 centímetros do osso da mesma perna. Saindo de uma lan house e com pressa para chegar em casa, aceitou a carona de um amigo que a deixaria de moto. Ao tentarem fazer uma ultrapassagem, uma outra Natália, de 14 anos, aprendendo a dirigir um carro, atingiu os dois. Teve duas costelas trincadas, a bacia e os dois fêmures quebrados. Queimou boa parte da barriga, machucou bastante a boca (já que estava de capacete e usava aparelho), entre outras coisas, como ralar as pálpebras e deixar os dedos das mãos em carne viva. Quando sua mãe chegou, ela estava estendida em cima do meio-fio da calçada, mas, em vez de no joelho, suas pernas dobravam no meio das coxas.

Natália, aos cerca de 5 meses, com o pézinho enfaixado (Foto: Arquivo/ Natália Beatriz)

“Foi bem tenso”, ela diz, mas relata que não foi o pior período de sua vida. “Foi uma época que aprendi muito. Perdi uma parte da minha adolescência mas acho que soube dar valor às pequenas coisas.” Ela reflete e comenta: “Se eu tivesse morrido ali, o que teria deixado?” Pausa. Talvez isso diga mais sobre ela do que qualquer outra coisa que tenha me contado esta tarde. Por fim, Natália revela que seu maior sonho é “ser mais conhecida que pedra”, e de preferência por alguma coisa boa. “A gente nunca espera que seja em um escândalo ruim, né?”, ela gargalha.

A jovem faz o curso de Libras e gosta de ensinar algumas palavras, a quem queira aprender, sempre que possível; ama poesia, dançar forró e usar óculos (pois esconde as olheiras). É cordelista e apaixonada por saraus poéticos. Também gosta de aleatoriedades e ama contar histórias. Para toda e qualquer uma, gesticula ao ritmo da narrativa e faz pausas teatrais. Do nada, diz que vai contar a história do seu pai, por exemplo, e se põe a relatar sobre um tal carro que fazia parte da família, e de como todos só o conhecem por seu apelido – ninguém sabe o seu nome. Do mesmo modo, dispara sobre como seu irmão é “gato” e como é injusto ele, cinco anos mais novo que ela, ter uma namorada há mais de um ano - enquanto ela só tem breves relacionamentos com “os novinho”, sua especialidade. Natália brinca que será muito bem-sucedida no futuro, para bancar o seu próprio.

Paramos a conversa por um momento e outra surpresa. “Minha cor favorita é vermelho”, ela joga e, mais uma vez, começa a rir. Diria que a risada é outro dos seus passatempos favoritos – ela o faz com tanto gosto e frequência. Particularmente, é uma das mais contagiantes que já ouvi. Além de me chamar de “muiézinha”, me cozinhar um bolo de milho maravilhoso e terminar nossa entrevista dizendo que vai “banhar”, a goiana comenta que escolheu Fonoaudiologia por ser a ciência da comunicação, e não esconde que ama se comunicar. Também se interessa muito por movimentos estudantis, e diz que fará seu Trabalho de Conclusão de Curso virado a essa vertente, para reivindicar maior credibilidade à Fono no processo de saúde coletiva.

Natália é uma mistura potiguar e goiana, onde só habitam energias positivas. Nem mesmo acidentes terríveis são capazes de a pôr para baixo a longo prazo. Quando a conheci, ela insistia em narrar sua história: “Não me importo, eu gosto de contar”, dizia com o sorriso no rosto. Apesar disso, não se considera uma pessoa que pensa demais no passado: “Só em época de TPM, sentar na janela no ônibus, naquelas insônias...”, ela comenta, rindo. Tampouco gosta de pensar no futuro. “Eu deixo um rascunhozinho ali, mas nada de ficar apagando e escrevendo”. Prefere se manter no presente e, aos 22 anos, é uma das únicas pessoas que conheço que vive intensamente, à sua maneira. Ela realmente encanta.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O melhor que o homem pode ser

A nova campanha da Gillette promove o combate à masculinidade tóxica, mas sofre com críticas decorrentes de má interpretação

*Por Paulo Prado

Ação criada pela agência Grey incentiva homens a botar em prática o melhor de si (Foto: Divulgação/Gillette)
O novo filme publicitário da campanha “The Best a Man Can Get”, da Gillette, incentiva os homens a serem melhores diantes de comportamentos como o bullying e o sexismo. A ação se aproxima do movimento #MeToo, esse que denunciou casos de assédio e abuso sexual na indústria cinematográfica e incentivou mulheres do mundo todo a denunciarem casos de violência, e ainda comemora trinta anos de lançamento do slogan da marca.

O vídeo “The Best Men Can Be” aborda temas advindos do machismo para fazer pensar e questionar a masculinidade tóxica no papel social. Entretanto, apesar de bastante educativo, dividiu opiniões e está sendo alvo de constantes ataques. Argumentos que traduzem a campanha como generalista e que  desvirtua o papel do homem na sociedade são os mais comuns nas redes sociais.

Apesar disso, a campanha não toma partido de desvirtuar o papel do homem, mas usar os poderes que lhe são atribuídos para provocar mudanças e mostrarem o que de melhor eles podem oferecer para o meio social.

O filme se concentra em apresentar dois tipos de pessoas: homens que assumem posturas um tanto questionáveis e os que repreendem essas atitudes. Então, qual o papel que o consumidor da Gillette se propõe a assumir? Por incrível que pareça, mesmo com a criação de uma personificação heróica no corpo da campanha, um numeroso público se identifica com o perfil do qual o projeto propõe distanciamento.

Um grande problema: a revelação de uma realidade que muitos se negam a enxergar. A massa, que critica veementemente, exclui a possibilidade de tratar o comercial como algo que convide o público a se identificar com os personagens que tentam fazer o bem.

A publicidade entrou em uma nova era, onde ela não mais se coloca no simplório papel de vender produtos. O público requer um posicionamento maior do que uma mera competição para mostrar quem possui um produto de excelência e com o melhor custo-benefício. As propagandas artificiais que, muito se acreditava, “imitavam a vida real” são agora contestadas e colocadas à prova de fogo.

É o que explica a diretora da Gillette Venus – subdivisão da marca, destinada a produtos femininos –, Elena Valbonesi, em entrevista ao The Drum – site e revista especializada em comunicação e marketing. Ela reafirma o posicionamento ao explicar que a marca já vinha realizando um trabalho de comunicação em que incentiva os homens a assumirem papéis diferentes dos estereótipos.

A marca lançou o site TheBestMenCanBe.org que se propõe a doar, anualmente, 1 milhão de dólares para instituições americanas. O objetivo é promover projetos que ajudem na conscientização de homens, para que assim eles possam alcançar o melhor de si todos os dias.

Chega o momento em que estereótipos precisam cair ao chão. O anúncio da Gillette renova um conceito há muito corrompido. Propõe, incentiva e mostra que a verdadeira masculinidade não está na opressão e imposição de valores deturpados, mas na empatia ao próximo.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

“Levante a cabeça e faça o que você tem vontade de fazer”

Sem nunca ter entrado em uma escola para estudar e ter se tornado uma das empresárias mais bem realizadas da praia mais famosa do Rio Grande do Norte, Dona Branca é a mulher que desde cedo luta para conquistar seus sonhos

*Por Gideão Marques


Nos tempos atuais, muito se fala sobre feminismo. Termo relativamente novo mas que sempre esteve presente na vida de muitas mulheres. Aqui no Rio Grande do Norte, nós temos um grande exemplo do movimento, que foi a escritora Nísia Floresta. 

Contudo, há várias outras mulheres que, mesmo no anonimato, se destacam e são exemplos de força, coragem e resistência para enfrentar o machismo e lutar por direitos iguais. Uma dessas mulheres vive no interior do Rio Grande do Norte, é mãe de 6 filhos e é empresária. Severina Sérgio Guedes, 65 anos, mais conhecida por Dona Branca na Praia da Pipa.

Natural de Nova Cruz (RN), vinda de uma família de três irmãos, Severina foi criada com a avó materna e a mãe no município de Canguaretama (RN) e encontrou muitas barreiras desde muito cedo. Aos três anos de idade, enfrentou a separação de seus pais e todos os conflitos que vêm com isso. Foi levada para morar com a sua avó materna; com ela, começou a trabalhar precocemente. Aos oito anos de idade iniciou as atividades laborais na feira: “Todos os dias, às 5h da manhã, nós estávamos nas feiras. Vendíamos cocada, tapioca, beiju, bolo,” conta. 

Dona Branca (Foto: Gideão Marques/Caderno de Pauta)



Com uma infância muito sofrida, Dona Branca, se viu obrigada a sempre ter de “se virar” para sobreviver. Ela conta que nunca teve lazer. Aprendeu a viver só com o que a terra lhe dava e, mesmo assim, ainda falta. 

Pelo fato de os pais não terem estudo e serem muitos pobres, eles nunca tiveram o interesse de colocar os filhos na escola. Por isso, Dona Branca nunca teve a oportunidade de estudar. Mesmo com toda dificuldade, uma madrinha comprou um caderno e uma “cartilha de abc” e a ensinou a ensinou algumas poucas coisas: “Na hora da lição eu chorava que era uma beleza. Eu achava que não ia aprender nunca,” diz emocionada. 

Como muitas pessoas do interior do estado, Severina, aos 11 anos de idade, foi até à capital em busca de melhorar de vida. Foi quando apareceu uma oportunidade para trabalhar na casa de uma família na capital: “Sofri muito. Tinha um rapaz que deu uma de louco e queria me estuprar. Ele era o filho mais velho da família,” revela Dona Branca. “Ele falou assim: ‘Você vai contar? Pode contar. Ela não vai acreditar em uma empregada como você. Conta para ver se ela não vai dizer na tua cara que é mentira’. Fiquei na minha e fui embora,” conclui.

Como acontece com muitas pessoas vulneráveis economicamente, Severina se viu como um objeto para aquelas pessoas: “Eu dormia na cozinha perto do bojão de gás. Eu dormia e acordava sentindo o cheiro de gás,” revela. 

Dona Branca, então, decidiu retornar à casa da avó, onde vivia com ela e a mãe. Foi quando, mais uma vez, surgiu a oportunidade e o desejo de estudar. “Aos 12 anos umas amigas me perguntaram se eu não queria estudar, mas eu não tinha nem certidão de nascimento,” diz a empresária. As amigas tentaram ajudar Severina e foram conversar com a diretora, que indicou que a sua mãe fizesse a certidão e fosse fazer a matrícula na escola. 

Com o desejo muito forte de estudar e entrar em uma sala de aula pela primeira vez aos 12 anos, Dona Branca pediu a sua mãe que fizesse o que a diretora orientou. Porém, foi contrariada e recebeu palavras de reprovação por parte da mãe: “Você vai se criar burra se depender de mim. Eu não tenho dinheiro para comprar uniforme de ninguém’. Eu chorei e fui para a reunião com os pais das minhas amigas,” conta. 

Diante dessa triste realidade, Dona Branca se viu obrigada a trabalhar em uma refinaria de sal. “Eu trabalhava enchendo os pacotes de sal. Quando tinha vários, a gente juntava trinta e fazia um fardo. E assim ia,” diz a empresária.

Em seguida, ela conta que havia chegado o tempo da puberdade e o desejo que querer namorar: “Aos 14 anos, fugi. Fui embora para a casa do meu namorado,” relata Severina. 

Sempre destemida, Severina foi ao cartório da cidade e falou que queria fazer sua própria certidão de nascimento para que ela pudesse se casar. Não conseguiu fazer, pois ainda tinha 14 anos. ”Eu mentia para a moça do cartório; disse que tinha 18 anos, mas na hora em que ela perguntou o ano em que eu nasci, falei a data errada e ela descobriu,” conta às risadas sobre o feito sem sucesso. Segura do que queria, ela pediu para que sua mãe o fizesse. 

Acreditando que a vida fosse melhorar, ela se casou com seu primeiro marido e pai de dois dos seus seis filhos. “Com dois meses [de relacionamento], eu casei; aí veio o sofrimento do casamento. Passava uma fome danada, porque a gente não tinha recurso nenhum. Meu marido [da época] era aratuzeiro [pessoa que pesca aratu – espécie de caranguejo]. Eu não trabalhava. Vivia isolada,” conta Severina. 

Após a separação do primeiro marido, ela se viu na necessidade de correr atrás dos seus objetivos e sustentar as duas filhas. “Ele era uma pessoa que gostava de brigar demais, mas não me batia, porque eu nunca abaixei a cabeça para nenhum homem que viveu comigo,” diz Dona Branca, com tom forte na voz. 

Ela que, depois de ter se separado do primeiro marido, foi trabalhar como empregada doméstica mais uma vez, disse aos seus familiares: “Não sei o que vou fazer da minha vida, mas na gandaia, ou em cabaré, eu tenho certeza de que ninguém vai me ver”.

Muito esforço e pouco recompensa, foi assim que Dona Branca sempre viveu, mas não se acostumou com o fracasso que vida insistia em lhe impor. “Eu trabalhava para mim, para minha mãe e para minhas duas filhas. O pouquinho que eu ganhava, eu dividia para nós quatro. Sempre partia para a luta. Nunca quis ser dependente de ninguém, e até hoje eu não sou dependente de ninguém,” exclama Severina. 

Foi quando conheceu o seu segundo marido, e com ele teve seus outros quatro filhos. Mais sofrimento estava por vir: como muitos nordestinos, ela foi para a região Sudeste do Brasil, em busca de uma vida melhor, com o seu marido. Dona Branca, fazendo jus à canção do saudoso Luiz Gonzaga, foi “com a coragem e a cara”. Viajou três vezes para o Rio de Janeiro e São Paulo. Lá, ela conta, conseguiu juntar mais dinheiro. Com a intenção de viver em Canguaretama com a família, ela sempre voltava para tentar se estabelecer. No entanto, sempre retornava ao Sudeste, pois o dinheiro acabava e ela não conseguia se manter por aqui. Seis filhos, 15 netos e 15 bisnetos, Dona Branca não se considera avó, mas, sim, uma segunda mãe: ”Eu tenho certeza que os pais deles vão falar: ‘Filho, você teve uma segunda mãe que lutou muito para eu estar aqui’. Eu acho que eles vão ter orgulho quando souberem da minha história,” conta Severina, que não segurou as lágrimas.

Ainda no Rio de Janeiro e com o desejo latente de estudar, se trancava no quarto sozinha para que ninguém pudesse ver e tentava fazer as atividades que a madrinha havia ensinado. “Eu pegava um caderno, uma caneta e fazia [as letras] bem devagarinho, uma por uma,” diz. Mesmo sendo destemida, Dona Branca não esconde que tinha vergonha de não saber ler e escrever: “Eu tinha vergonha. Sempre tive,” revela Severina.

Dona Branca diz que mudou muito em 40 anos. Sendo reflexo da criação difícil que teve, ela diz que era muito ignorante: “Eu era muito malcriada, ignorante. Mas acho que todo mundo é. Hoje eu sou feliz com quem eu sou e com as coisas que conquistei”. 

Mesmo com essa dificuldade de não saber ler e escrever, ela se tornou uma mulher de sucesso. O segredo é, segundo ela, mesmo diante dos problemas, levantar a cabeça e fazer o que se tem vontade. “Eu me sinto vitoriosa em tudo. Eu acho que meus filhos têm orgulho de mim,” mais uma vez, conta com lágrimas nos olhos. 

Dona Branca no seu restaurante na Praia da Pipa. (Foto: Gideão Marques/Caderno de Pauta)


A Churrascaria Dona Branca, localizada no centro da Praia de Pipa, é um dos restaurantes populares mais famosos da região; mas o início não foi fácil. Dona Branca conta que veio para Pipa com seu atual companheiro quando ainda não tinha quase nada por ali. Ela começou com uma quitanda de frutas nos anos 2000. Alugou um local e assim começou; fazia abastecimentos de frutas e verduras para as pousadas, hotéis, restaurantes: “A gente sempre procurou trabalhar com uma boa qualidade da nossa mercadoria para conquistar a clientela,” diz Dona Branca. Passaram-se nove anos e eles decidiram aumentar os negócios, foi quando decidiram abrir a Churrascaria Dona Branca. Fundado em 2009, Severina ainda continuou com a quitanda por um mais um ano. Todas as comidas do buffet da churrascaria foram aprendidas por Dona Branca. Segundo ela, aprendeu tudo trabalhando em “casa de madame”. 

O novo negócio se tornou tão famoso que os mochileiros sempre pedem ajuda de alimentação para ela. “Começou com um e depois falava para outros e assim foi. Eles me pediam ajuda. Aí, foram espalhando para os outros e hoje, às vezes, são mais 20 pessoas que vêm aqui me pedir comida. Eles dizem: ‘Não, gente, aqui ninguém passa fome, não. Pelo menos a comida Dona Branca dá’,” conta sorridente, a empresária de sucesso. 

“Eu lutei muito para ver meus filhos estudarem”. Severina sabe das dificuldades que teve durante toda a vida e espera que seus netos e bisnetos sigam os caminhos dos estudos. “Eu não tive estudo não, mas todo mundo vai ter, se Deus quiser,” exclama esperançosa a empresária.

Religiosa, ela revela um amor muito forte pelo catolicismo. Ela acredita que a sua história com a religião vem de berço. “Minha mãe me batizou com Frei Damião, em Nova Cruz, aos 3 meses de idade, mas eu frequentava a igreja com as minhas amigas. Eu vim sentir o que é a igreja agora. Eu me sinto bem quando estou na igreja,” conta. Doba Branca sempre trabalhou muito e nunca teve tempo de fazer coisas que lhe fizessem bem, e a igreja era uma dessas coisas. Porém, mesmo a igreja, hoje, trazendo tantas alegrias para a mulher que tanto sofreu, ela revela uma grande ferida que espera um dia sarar: “Eu não posso me comungar, porque eu não sou casada. Mas eu preciso. Eu sinto essa necessidade,” diz soluçando. Mesmo tendo tempo para frequentar às missas, ela sabe que tardou muito para despertar para a sua fé: “Eu converso muito com Deus: “Por que eu demorei tanto? Quero frequentar a Igreja mais e mais,” conta Dona Branca. Para isso, porém, ela diz que precisará dar uma diminuída no ritmo de trabalho. 

Aos 65 anos, ela se mostra e se sente muito forte e jovem: Não me sinto velha. Me sinto com muita saúde e vigor, apesar do trabalho, do cansaço...”, conta Dona Branca. Para comprovar sua boa saúde e memória, ela diz que não faz uma lista de compras para ir ao mercado. “Eu nunca fui de ficar com lápis e papel na mão. Isso fica para os empresários, que têm que fazer muita conta”. 

A mulher que no início dizia não ter nenhum sonho, se rende e revela seus maiores sonhos: “Izabele Pinto de Vasconcelos, 23, [sua filha mais nova] não é batizada. Ela só vai poder casar e batizar Armando [seu neto] quando ela se batizar. Para mim, esse é um sonho muito grande: batizar minha filha”. Também, mesmo tendo sofrido muito com a mãe, revela um carinho enorme por ela: “Eu ainda vou realizar o desejo de ter a minha mãe perto de mim. Por mais que a minha mãe fosse ignorante, eu quero ela perto de mim. Porque mãe a gente só tem uma na vida. Antes que ela morra, eu vou tê-la perto de mim, para dar o carinho que ela não me deu,” conclui Severina.