sábado, 30 de março de 2019

Universidade para todas

O Diretório Central dos Estudantes da UFRN (DCE) realizou nos dias 28 e 29 de março a terceira edição do Encontro de Mulheres Estudantes da UFRN

POR FRANCISCA PIRES

(Divulgação)
Conhecido pela sigla EMEUF, o evento já faz parte do calendário de atividades do DCE e pela terceira vez contou com uma programação repleta de mesas, oficinas, exibição e rodas de conversas, tudo sempre pautado em temas relevantes para o público feminino da Universidade. Em entrevista, a atual coordenadora de mulheres do diretório, Beatriz Barbosa, deu detalhes de como se deu a construção do encontro esse ano.

Segundo ela, a construção foi feita em conjunto, a partir de uma reunião com o Conselho de Entidade de Base (CEB). Nesse contexto, o DCE solicitou que cada centro acadêmico escolhesse uma representante mulher, caso existisse uma coordenação específica de mulheres, para que fossem escolhidas as pautas que iam participar do encontro. “Fizemos uma reunião ampliada com os centros acadêmicos e até com alunos em geral que não fazem parte do movimento estudantil da Universidade para a gente deliberar como aconteceria o evento,” explica.

Beatriz Barbosa, coordenadora da
Mulher no DCE
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)
Enquanto coordenadora de mulheres, Beatriz ficou responsável por tomar a frente do evento e conta que recebeu muito apoio dos centros acadêmicos, tanto quanto de outras alunas, que assim como ela fazem parte da gestão do DCE. A organização ressalta a importância de um evento como esse na atual conjuntura em que o país se encontra, visto que seu principal objetivo é reunir a maior quantidade de pessoas para pensar políticas voltadas à mulher, bem como na inserção de mulheres nas universidades e gerar uma discussão acerca das dificuldades e possíveis questões pertinentes a esse assunto.

“Quando eu pensei em como ia acontecer o encontro esse ano, o que mais veio na minha cabeça foi essa intenção de aglomerar, juntar, dar as mãos e compartilhar nossas experiências e problemas a fim de que a gente pudesse estar em sintonia e união. Além disso, é o momento para a gente reivindicar a Universidade também, o que queremos, precisamos e o que acreditamos que é uma universidade, realmente, inclusiva para as mulheres”, conta Beatriz.

Ademais, a execução de um evento dessa natureza dentro dos muros da universidade funciona como um espelho da sociedade como um todo. É uma espécie de um micro no macro, uma vez que todos os comportamentos comuns fora das instituições de ensino ocorrem também dentro delas.

Quando questionada sobre o feedback das pessoas que desfrutaram da programação, Beatriz relata, muito satisfeita, que o retorno em todas as edições sempre foi muito positivo. Ainda durante as atividades, as mulheres costumam fazer colocações elogiando o espaço de fala e os diálogos se estabelecem com muita fluidez e participação de todas. “Uma das mesas era sobre classe, raça e gênero, na bancada tinha uma mulher trans, uma mulher negra e uma comunista para falar sobre esses recortes, mas acabou todo mundo falando sobre tudo e cada uma colocando suas pautas e dialogando muito bem. Esse, por exemplo, foi um espaço de construção muito proveitoso, todo mundo conseguiu estabelecer esse diálogo fluído,” compartilha.

Parte da equipe de organização do evento
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)
Ainda são muitas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres dentro da Universidade. Considerando que o EMEUF é um evento que visa justamente trazer à tona toda essa problemática, o atual contexto de intolerância e misoginia, dentro e fora da UFRN, torna tudo mais complicado. “Dentro da conjuntura que estamos vivendo na qual todo dia é uma decepção diferente, fica difícil para gente até psicologicamente. Recentemente, inclusive, a ex-coordenadora do DCE passou por uma situação de perseguição, isso desestabilizou não só a ela como todos e todas que fazem o movimento estudantil. É muito complicado, ela ia participar de algumas mesas e acabou não tendo condição,” afirma.

Apesar de todas os percalços da caminhada, Beatriz, assim como toda a organização do evento, relatam estar muito felizes e agradecem a participação de todas as mulheres que se disponibilizaram a estar presentes nas mesas compartilhando suas vivências e estudos. Bem como a de todos e todas que participaram das atividades do evento, contribuindo assim pela construção de uma universidade que abrace cada vez mais as necessidades de suas estudantes.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Sem mim ou para mim?

POR MARIA CLARA PIMENTEL

(Foto: A. Favali)

Terminei de escutar a música que você disse representar perfeitamente seu sentimento por mim. Eu estava em choque. Apesar do ritmo suave e da letra extremamente romântica, eu não conseguia me sentir bem com aquilo. Você continuava repetindo: “É pra acabar com esse negócio de você viver sem mim”. Sou só eu que identifico o teor de um amor tóxico aqui?

Você vive dizendo que está farto de sentir saudade de mim; que, quando estou fora, você só faz sofrer, pois só sente melancolia e tristeza. E lhe falta paz. Quanto a isso, particularmente, sempre acho estranho, já que é normal me sentir muito leve e feliz toda vez que estamos separados. Não me leve a mal, eu também gosto muito de você, mas fazer o quê se amo viajar? Ser liberdade em locais diferentes e não viver de rotina, não há nada melhor.

A vibe do Tom Jobim que nos embala é ótima, isso não dá para discordar, mas, convenhamos, a letra está mais para psicótica. Claro, eu não me nego a receber os milhões de abraços apertados, colados e calados assim. É algo que adoro receber. E nunca faria cara feia dos beijinhos em maior quantidade que os peixinhos a nadar no mar, acho a coisa mais linda. Só que viver separado pode ser bom, sim, e ter saudade é quase essencial para manter a chama acesa. Qual é o mal nisso?

Há paz e há beleza. A tristeza e a melancolia podem, sim, sair de você, é só fazer um esforço. Sai de você, sim, sai! Tenha isso em mente, aproveita a vida, dá valor às suas coisas também. Para de me fazer o centro do seu mundo, eu literalmente não mereço. Sem mim, pode ser, sim; você consegue fazer qualquer coisa, tenho certeza. Se eu me dou tão bem sozinha, por que motivos você não se daria também? Que coisa linda seria se aprendêssemos a viver sem um ao outro. Que coisa louca...

Na real, não precisa fazer prece para que eu regresse, estou pensando mesmo é em ficar por aqui. O que tivemos foi especial, mas prefiro ficar longe de alguém que pensa que não é ninguém sem mim. É muito peso nas minhas costas, eu não dou conta da responsabilidade, tenta me entender. Você nunca precisou de todas aquelas coisas para me ganhar: todas as serenatas, os buquês de flores, as declarações. É triste saber que você acha que precisou disso tudo para que eu ficasse contigo. Talvez não me conhecesse direito, afinal.

Agora sou eu quem te digo: é pra acabar com esse negócio de você viver pra mim. E te asseguro, é pro seu próprio bem.


Conto baseado em reinterpretação da música “Chega de Saudade”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Quem mandou matar Marielle?

Um ano desde a morte de Marielle e não me sinto melhor

Quem mandou matar Marielle? (Foto: Ana Luiza Vila Nova)


Por Manuela Torres 

Os supostos autores do crime contra Marielle Franco e Anderson Gomes já foram presos, mas não me sinto melhor. Talvez pela desconfiança das investigações ou talvez pela lacuna vazia, na qual deveria estar o nome do mandante de tamanha brutalidade, mas suspeito mesmo é que seja pela ausência de conquistas. Faz um ano desde que Marielle partiu sem se despedir, e se ela soubesse que um não adepto aos direitos humanos foi eleito presidente? E se soubesse que apenas uma governadora mulher foi eleita em todo o Brasil? E se soubesse que continuam nos matando? Nós, mulheres, negros, não héteros, não religiosos, não conservadores. Nós, que acreditamos que a realidade pode ser diferente dessa intolerância que se vê a cada lado que se olha. Nós, que, apesar de divergimos em alguns aspectos, concordamos que direitos humanos são para todos, sem distinção. Nós, que tentamos explicar que a educação é a saída e o começo para um novo mundo. Desde que Marielle partiu, outra barragem rompeu em Minas Gerais e novamente nada foi feito. Desde que Marielle partiu, as poucas terras indígenas foram retiradas novamente dos primeiros habitantes desse continente. Desde que Marielle partiu, o Ministério da Cultura foi extinto e o Museu Nacional queimou por negligência. Mataram outro homossexual. Alguém chorou calado em seu quarto por racismo. Mais uma mulher foi espancada. Não é que essas coisas não acontecessem quando Marielle estava aqui, mas ela era uma voz. A gente sabia que podia contar com alguma representatividade, que é tão, tão difícil de conseguir. Mas o mundo deu voltas, a pouco já era carnaval outra vez.

Hoje são 14 de março. Faz um ano. Nós sempre soubemos o porquê, mas ainda queremos saber: Quem mandou matar Marielle?

Vocês me dizem que os supostos autores do crime já foram presos, mas eu não me sinto melhor.