sexta-feira, 26 de abril de 2019

De repente, crise

POR FRANCISCA PIRES

Cena do filme De repente 30 (Foto: Divulgação)

Você já ouviu falar na tão temida crise dos 30? Aposto que sim. É aquele instante da vida em que boa parte das pessoas dão uma pausa nas suas realizações e projeções futuras para avaliar tudo de bom e ruim que já lhe aconteceram até o presente momento. Ah, aquele bendito momento. Foi estabelecido, culturalmente, um período exato em que você deve se lamentar sobre coisas que ainda não fez e sequer sabe se irá fazer, sendo assim, se essa ideia não lhe parece no mínimo absurda, precisamos conversar.

A verdade é que nessa hora não importa se você conseguiu o emprego dos sonhos ou construiu uma família, sua atenção passa a girar em torno do fato de que poderia ter viajado mais, feito melhores investimentos ou ter realizado um desejo antigo dos seus pais. Nada está bom. O pior é que às vezes a crise dos 30 chega aos 20 ou até mesmo aos 15. Vai dizer que você nunca ouviu sair da boca de um adolescente - que teoricamente não tem problema algum- um profundo e penoso "cara, será que as coisas na minha vida nunca darão certo?".

Por outro lado, existe uma parcela de pessoas que retardam esse processo ou simplesmente se negam a vivê-lo, pois entendem que criar e alimentar um espaço de tempo para fazer análises de perdas e ganhos, como se sua vida fosse uma empresa prestes a falir, não adianta muita coisa. Se por um acaso, você se encontrar imerso nesse momento de repensar sobre sua própria existência, não tome isso para si como uma missão melancólica, triste ou enfadonha.

A reflexão acerca da própria trajetória deveria ser motivo de orgulho e não gerar ansiedade, conflito interno e tristeza. O grande problema está no autojulgamento, a maldita autocrítica que tende sempre a ser injusta. Pare de só olhar a infinidade de coisas em que você poderia ser melhor e apenas avalie tudo de bom que te cerca, considerando maneiras de melhorar o que já se tem. Isso inclui fazer planos e traçar objetivos, mas não de maneira obsessiva e sim prazerosa, como se você tivesse o poder de traçar estratégias para fazer da sua vida a mais incrível, porque na verdade tem mesmo. Portanto, a conclusão do dia é: Banque a Jennifer Garner e tenha uma crise dos 30 todos os dias.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

1964: A retrospectiva do golpe

As faces da ditadura militar e os principais acontecimentos que marcaram o período

POR YLANNA PIRES

(Foto: Evandro Teixeira)
Consumado em 1° de abril de 1964 e planejado pelo levante de tropas de Juiz de Fora (MG), na figura do general Olímpio Mourão Filho, o golpe militar, então instaurado, representaria as duas décadas mais sangrentas e insalubres da história recente do Brasil.

Os 55 anos que marcam o “aniversário” do regime militar, memoram ainda o saldo de quatrocentas e trinta e quatro pessoas mortas ou desaparecidas de 1964 a 1985, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade. Essas pessoas, assim como tantas outras, foram perseguidas pelas forças de extermínio e perseguição da ditadura – Dops e DOI-CODI. 

Tal período, marcado pela institucionalização da violência enquanto força política e pela sublimação dos direitos civis e da liberdade de expressão como artefato de controle humano, é a representação exata do caos estatal que nasce quando não há uma separação clara entre os poderes. E, mais ainda, do que acontece quando o senso de humanidade e o respeito aos indivíduos é secularizado. Em nome de uma narrativa, de uma ideologia, de um projeto de poder. 

Projeto de poder este que, apoderando-se da retórica da ameaça comunista, utilizada para derrubar o presidente democraticamente eleito, João Goulart, perseguiu, matou, torturou e ocultou cadáveres de estudantes, jornalistas, civis e militantes. Em nome do “bem comum” e da civilidade.

A ditadura, tida como “governo” por saudosistas e revisionistas, teve como principal função destruir as entidades democráticas. 

Da ótica da jurisprudência, o regime desrespeitou completamente a tripartição de poderes, atribuindo ao Executivo, sob o comando das Forças Armadas, o poder de legislar. Além disso, também promoveu a aniquilação de direitos primordiais, como o habeas corpus, e a instauração da censura prévia. Tudo isso, previsto pelo quinto Ato Institucional decretado pela ditadura (AI-5), redigido pelo então ministro da justiça, Luís Antônio da Gama e Silva. 

Do ponto de vista econômico, o “milagre” do regime militar, orquestrado pelo terceiro presidente do período, Emílio Garrastazu Médici (1969), com suas obras faraônicas de desenvolvimento industrial – bancadas pelo capital estrangeiro –, enlargueceu a dívida externa, alimentou uma inflação de 15 a 20% ao ano e estreitou as possibilidades de ascensão social. O milagre era falso, ou, no mínimo, fraco, uma vez que não aguentou a crise do petróleo iniciada em 1974.

(Foto: Evandro Teixeira)
Por fim, em uma perspectiva social, a ditadura – em seus 21 anos de existência – foi palco de torturas, exílios e repressão popular. Seu encerramento, em meados de 84, só foi possível graças às mobilizações sociais em prol das “Diretas Já” e da completa falência institucional do regime. 

Diante de tantos fatos, historicamente documentados e testemunhalmente conhecidos, não há o que comemorar. Não existem pontos positivos quando a democracia é suprimida e quando o ódio torna-se moeda política. 

Nesses 55 anos, os únicos “parabéns” válidos vão para quem, dentro das instituições democráticas de direito, defendeu e defende a liberdade, enquanto primazia da condição humana.