terça-feira, 25 de junho de 2019

Junho: mês de sabores iguais e diferentes em Natal e Belém

POR VINÍCIUS VELOSO*

Que o mês de junho é um período bastante festivo no Nordeste, todos sabem de cor. Quadrilhas, fogueiras, balões e comidas típicas são as grandes marcas das festividades juninas na região. Mas será que a culinária em Natal, nessa época, é a mesma que em Belém do Pará? Talvez não. Em andanças pela capital potiguar nos últimos dias, pude perceber e comparar a diversidade e a diferença em relação aos pratos típicos do município nortista: alguns são os mesmos, porém no geral, os nomes não.

Além das quadrilhas, as comidas típicas marcam os festejos juninos (Foto: Divulgação)

Por exemplo, em alguns locais de Natal, o que é conhecido por mungunzá (iguaria doce), é chamado de mingau de milho em Belém. Gosto, aparência e textura praticamente idênticos, mas a nomenclatura é o grande xis da questão. Mas há aqui quem chame o mungunzá de canjica, e vice versa, aumentando ainda mais o lastro singular de cada região. Pode parecer confuso, mas uma conversa com vendedores ou cozinheiros que entendem do tema pode ajudar a compreender melhor o nome das comidas.

Continuando o tour gastronômico e linguístico, porém ainda no assunto “canjica”: na capital paraense, o prato é o doce cremoso amarelado com canela. Sem mais. Mas, algumas pessoas que moram no Nordeste chamam a canjica de curau, termo usado nas regiões Sul e Sudeste do país. Massa pastosa de milho verde com pó de canela. Mais uma vez, comidas típicas iguais de nomes distintos.

Outro elemento que chama atenção é a presença marcante do milho assado. Característica forte da culinária nordestina e muito perceptível nas paradas de ônibus espalhadas por Natal. Confesso que, em Belém, isso é atípico. Até mesmo nas festas juninas, não é tão evidente a venda do milho assado. Mas há um prato que é comum lá e não é aqui. Trata-se do bolo podre: doce feito de farinha de tapioca, coco ralado, leite integral e condensado. Gostoso, barato e de fácil preparo também.

Bolo podre (ou de tapioca) é um doces típicos de Belém durante o mês de junho (Foto: Divulgação)

Assim como Natal, Belém tem suas particularidades durante as celebrações de Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). Nesses dias, as mesas são tomadas por pratos da culinária paraense, a exemplo do pato no tucupi, tacacá, maniçoba, caruru, vatapá; além dos doces, creme de cupuaçu e bacuri que se misturam em meio às pamonhas, canjicas, mingaus e bolos de milho.

Presentes no país desde a colonização portuguesa e de cunho religioso, as festas juninas são um verdadeiro exemplo de singularidades no folclore brasileiro, ajudando a contar o passado, presente e futuro e construindo nossa identidade dia a dia.

*Paraense morando em Natal há dois anos e meio.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Tamires Cássia: Desfazendo os mitos Carreira x Maternidade

Subjugada por ter engravidado no auge da carreira, a lateral esquerda da seleção brasileira, é a prova de que ser mãe em nada incapacita a mulher


POR CAMILA EMILY E FRANCISCA PIRES 

Tamires em um dos seus jogos pela seleção (Foto: Divulgação)

Depois de assistir uma partida de futebol feminino na TV, ainda aos 11 anos, a pequena Tamires Cássia Dias Gomes, nascida em Caeté, região metropolitana de Belo Horizonte, decidiu que seria jogadora de futebol profissional. A garota, que sempre gostou de jogar bola, fosse para passar o tempo na companhia dos primos ou para esperar seu pai policial chegar do trabalho, viu na transmissão da partida a oportunidade de mudar de vida através do esporte. Com o sonho bem consolidado em sua mente, quatro anos depois, aos 15 anos, Tamires se mudou para São Paulo para morar com uma tia e tentar seguir a carreira, que na época começou no futsal.

A atleta passou pelas equipes de Guarulhos, Tiger e Estrela. Durante seu tempo no Tiger, Tamires foi levada para fazer um teste de futebol de campo do Juventus, equipe da Mooca, no qual foi selecionada. Atuando na Juventus, ela conheceu seu marido, César, que também era jogador. Dando continuidade a sua carreira, Tamires deixa a Juventus em 2006 e foi para o Santos. Em seguida, mudou-se para os Estados Unidos e lá defendeu o Charlotte Eagles. Voltando ao Brasil, dois anos depois, integrou a equipe do Ferroviária, de Araraquara, São Paulo.

O ano seguinte, 2009, foi decisivo na vida dela. Diante de um resultado positivo para gravidez, Tamires se viu aos 21 anos coberta de dúvidas, considerando as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para conciliar carreira e maternidade, somadas ao preconceito das pessoas que desvalorizam a condição de uma atleta que é mãe. A jovem acreditou que teria que desistir do futebol: “Muitas pessoas, quando descobriram que eu estava grávida, falaram para mim: 'agora o futebol para você não existe mais'. Isso entrava na minha cabeça. Pensei: 'é, realmente o futebol está acabado’. Ser mãe é uma coisa tão maravilhosa. A gente aprende, ama muito mais", declarou em entrevista ao programa Encontro com Fátima Bernardes.

Tamires e Bernardo (Foto: Divulgação)

Relacionar carreira e maternidade nunca foi uma tarefa fácil, visto que os nascimentos dos filhos, em geral, representam um grande obstáculo para as mulheres no mercado de trabalho. Segundo pesquisa divulgada pela empresa de recrutamento Catho, as mães deixam o mercado de trabalho cinco vezes mais que os pais. Os dados também mostram que 28% das mulheres deixam o emprego após a chegada dos filhos, versus 5% dos homens, apenas. Além disso, existe um preconceito socialmente enraizado, no qual os homens dificilmente assumem sua responsabilidade e arcam com suas obrigações de pai - enquanto que a mulher é obrigada a ficar em casa cuidado dos filhos, caso contrário não é vista como boa mãe.

Tamires, por sua vez, conta que, apesar de no início a aceitação ter demorado a chegar, foi o apoio de seu marido e da sua família que a motivou a não desistir da sua carreira. A atleta havia passado por quatro clubes quando soube da gravidez do Bernardo e tinha planos de fazer faculdade fora do Brasil. Com a novidade, fez-se necessário um novo planejamento e quase quatro anos inteiramente dedicados à maternidade. No entanto, contrariando todos os comentários negativos, Tamires voltou aos campos e hoje vive seus dias de glória vestindo a camisa da seleção. "Foi realmente a questão profissional. Eu estava jogando e ia aos Estados Unidos para fazer faculdade. Depois disso foi melhorando, fui gostando e fui aprendendo a aproveitar a gestação", disse.

Tamires fazendo homenagem ao seu filho Bernado (Foto: Divulgação)

Mesmo após quatro anos longe dos gramados, o sonho da Tamires de voltar a jogar permaneceu vivo. E seu retorno aconteceu quando ela voltou a São Paulo, onde o futebol feminino é visto com bons olhos e onde há o maior investimento de todo o país. Depois de conseguir a chance de jogar no Centro Olímpico, não demorou muito para que fosse reconhecido todo o seu talento, com dois meses foi convocada para a seleção brasileira. Atualmente, defende o dinamarquês Fortuna Hjorring, e acumula duas convocações com a amarelinha.

Se é difícil conciliar a dupla jornada de trabalho, no mundo esportivo parece ser ainda mais complicado. Para além da vida materna, a atleta precisa conciliar isso tudo a um alto rendimento, que, sem apoio e investimento, torna o processo ainda mais inviável. E, por esses motivos grande, parte das mulheres optam por dedicarem seu tempo integralmente ao esporte. Tamires encarou um de seus maiores adversário fora de campo, causador de medo, ansiedade e incertezas. No fim da partida, contudo, saiu vitoriosa. Desmistificou o mito de que a vida acaba depois da gravidez. Na verdade, a vida começa, duas novas vidas. "Cresci, amadureci, me tornei uma pessoa muito melhor depois que eu fui mãe. No início a aceitação foi muito difícil. Passei três dias chorando, não querendo", entregou Tamires.

A camisa número seis da seleção tem um motivo ainda mais especial, pelo qual entra em campo todas as partidas: Bernardo. Se antes seria um empecilho que a faria parar de jogar, hoje é por quem dá todo o suor dentro de campo. Ela vive o melhor momento da sua carreira e tem ao lado sua maior inspiração. Com confiança, Tamires declara que já ganhou uma das mais significativa dádiva que uma mulher poderia ter, e agora precisa ir em busca do maior prêmio que uma esportista poderia ganhar: a copa do mundo.

Tamires jogando pela seleção Brasileira (Foto: Divulgação)

domingo, 16 de junho de 2019

Alegria de uma solidão

POR TIAGO SILVA  

“Light sea mood”, Emil Nolde (Foto: Divulgação)

O mar me olha por inteiro. Eu não o vejo, mas ele me vê. Ainda não sei ver o mar, eu tento, aprendo todo dia. Por isso eu apenas o olho. Mas olho bem, querendo vê-lo. Sim, pois tento escrever. Escrever é olhar a tentativa. É ser a caça. Por isso escrevo – pela tentativa. É a tentativa que vale. O mar me vê, porém. Ele me sabe, me toma, me tem, me tenta.

Bebo um pouco do mar com sede de senti-lo (ver) e fico com a garganta seca. Tarde demais, ele me bebeu primeiro. Estou nele, mas não sou o mar. Ele é sozinho. Sou um pouco dele: tenho uma serenidade secreta, meio mar.

“Meio mar” escrevi de azul. Tudo até “mar” foi escrito de azul, na verdade. Da cor do mar. Mas este mar não é azul. Não – é verde. Verde-mar. Verde-mar. De novo: verde-mar. Escrevo “verde-mar” com certa alegria, por isso repeti. Estou tremendo agora não porque algo me falta, mas porque escrevi esta parte no ônibus, e se treme quando se está no ônibus, com os solavancos. Se não acreditas, posso te mostrar o manuscrito.

Mas eu não estava no mar? Ainda estou. Acho que não conseguirei sair dele tão cedo, céus. Alguém me salve, ou morrerei afogado, palavras entrando pelo nariz. Até agora escrevi sem pausas, apenas consultando minhas anotações, mas sem pausas – lápis queimando como pedras do sol. Tudo caindo como onda pesada; e não se pode conter as águas do mar, ah não se pode.

Não percebeu? Disse que escrevi com lápis há pouco. Menti quando disse escrevi de azul até “mar”, no segundo parágrafo. Menti para me salvar. Queria acabar tudo em dois parágrafos com vários pontos mudos, assim:.........................................., e entre eles te deixar pedaços de respostas, e te dar autonomia. Encontrar a coisa! Mas isso seria ser covarde contigo. E comigo também. Não me é possível. Na verdade é! Só alguns pontos e me livraria disto.

Mas o mar, mas o mar me olha e tento ouvi-lo. Ele quer me dizer algo, e esse “algo” é o que se chama de texto nesta Terra. Mas para isso é preciso que alguém escreva. Escrever com caneta ou lápis é tão impreciso. Quero escrever com as ondas do mar, com os pés na areia, com os cabelos molhados. Sim, eu quero. Então chegaria à perfeição da escrita – escrever com o movimento das águas. Escrever dentro d’água! Estou tremendo de novo, mas desta vez é por dentro? Sem atropelos – é na alma. Se chover, a chuva vai molhar tudo. O mar é onde escrevo. Escrevo dentro de mim. Tenho uma infinita folha em branco, Deus! Que por aqui? Toda a matéria do mar é meu material de escrita. E ele está assim: mudo. Uma frustração que arde. Até agora estou mergulhado no mar para escrever e nada escrevi. É que procuro a palavra sincera. Ah – acho que tenho outra coisa do mar: a paciência.

O mar já foi escrito várias vezes. Eu mesmo já escrevi sobre o mar. Então por que escrevo de novo? Sempre tem algo a mais para escrever. Já se escreveu muito sobre o mar, mas não tudo, tenho certeza.

Escrevendo sobre o mar o mantemos vivo. Ele respira agora, eu sinto, hálito morno como algo que vive. Também posso escrever gritando, para todo Atlântico. Adiantaria de quê? Prefiro a caligrafia. Este texto está sendo escrito com uma trêmula mancha branca luminosa que aos poucos empalidece. É que a lua afogou-se no mar.

Sinto a sonolência das manhãs. O mar cada vez mais perto, e não sei nadar. Não sei. Parece até que não temo a morte – eu me lanço na fúria das águas. Elas têm um chiado áspero de vidro. Melhor: de espelho estilhaçado, minha imagem refletida mil vezes. Assim seria mais difícil a morte me capturar.

Mas, ainda assim, ela se ocultaria firme no meu corpo e expulsaria minha alma aguada, molusco sem concha. Então ela olharia triste o corpo que não mais é seu. A alma é do mundo; o corpo é do mar.

Mar oculto, descubro: oráculo de infinitas vidas. O esquecimento tirando tudo de mim. O que está sendo agora é o mítico real, riso alto de criança, gaivotas com cicatrizes, caçando alimento numa praia de seixos. Eu, arfante, entrego a mim mesmo antúlios vivos. Orvalho grosso secando.

O céu é um penhasco azul que desaba. O horizonte se dissolve na penumbra e se perde no mar. Não sei há quanto tempo estou aqui. Oh, aquela centelha luminosa correndo no sangue. O mar me dá toda sua energia trêmula na borda do infinito. Vem, segura minha mão! Minhas raízes estão cada vez mais profundas. Estamos nos encarando no escuro por horas. Fala alguma coisa!

As constelações me contam segredos de centauros feridos de guerra. Preciso recolher os murmúrios que deixei até aqui para que algo seja dito. Eles são tão delicados. Lâminas finíssimas de prata. Que difícil seria! Aquele halo lunar me distrai. Por favor, não acendam a luz.

Acho que agora estou de alma pura, lavada. Sente-se o sal quando vem o esvaziamento. Ele me leu! Tudo isso foi um banho de mar? Não – foi uma ideia boiando na água, sobre a alegria de uma solidão.

Eu vi.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Futebol feminino: um sucesso subestimado

O histórico da garra das mulheres no esporte ilustra sua competência e o sexismo no país

(Foto: Museu do Futebol)
POR KAMILA TUENIA E MARIA CLARA PIMENTEL

Começou no último final de semana a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019. Sediada na França, esta edição conta com 24 equipes, que disputam organizadas em 6 grupos. Apesar de ser um evento global, que existe desde 1991 (mais de sessenta anos depois do início de sua versão masculina), esta é a primeira vez que os jogos serão transmitidos ao vivo na TV aberta brasileira.

Na década de 1920, têm-se as primeiras referências de partidas de futebol jogadas por mulheres no país, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e até Rio Grande do Norte. No entanto, não era levado a sério: tais disputas eram vistas com grande teor performático na época. Com efeito, não existiam seleções ou grandes times femininos: a modalidade era jogada apenas em periferias.

A sociedade via a prática com maus olhos e, por isso, no ano de 1941, o governo de Vargas a proibiu. O artigo 54 do Decreto-Lei 3199, imposto pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), dizia que "as mulheres estavam proibidas de praticar qualquer esporte que fosse contra sua natureza". O futebol se enquadrava na legislação e o sexismo se fazia imperante nos primórdios da modalidade.

Mais tarde, no governo militar, no ano de 1965, houve uma legislação mais detalhada sobre o impedimento do futebol para as mulheres. Quatorze anos depois, a proibição oficialmente teve um fim, mas, na prática, ela permanecia – ainda que velada. A sociedade não apoiava, a televisão não transmitia e as marcas não patrocinavam. Somente em 1983 é que houve uma regulamentação da prática do futebol feminino. Assim, foi permitido que se pudesse competir, criar calendários, utilizar estádios e ensinar a modalidade nas escolas, para meninos e meninas.

Em 1988, a Fifa realizou um mundial de caráter experimental na China, chamado de Women’s Invitational Tournament (Torneio de Convite às Mulheres, em tradução livre). O evento levou a seleção brasileira baseada nos times Radar (RJ) e Juventus (SP), este último o mais forte do país na época. Com isso, em sua primeira competição oficial, o Brasil conseguiu o bronze nos pênaltis, dentre as 12 equipes que participaram. O evento serviu para alavancar a modalidade feminina no mundo, acarretando, em 1991, na primeira versão da Copa Mundial de Futebol Feminino. A equipe brasileira nunca faltou uma edição do evento, contudo, chegou às finais somente em 2007, quando perdeu para a Alemanha.

Todo esse histórico já é capaz de transmitir a resistência feminina em um esporte que sempre foi pensado por e para homens. Ser mulher e conquistar espaço no futebol é fruto da luta de muitas. 

Alguns dados falam por si só quando trazemos à tona a desigualdade entre os times masculinos e femininos, como por exemplo, o fato de os uniformes das jogadoras sempre terem sido “herdados” dos times masculinos. A Copa deste ano é a primeira em que as brasileiras vão jogar com vestimentas feitas especialmente para elas. Não só por esse motivo, este é um Mundial de estreias; como já dito, será o primeiro Mundial de Futebol Feminino a ser transmitido em rede aberta nacional. Mas quantas competições masculinas já assistimos na televisão?

O exemplo da melhor jogadora do Brasil, Marta, escancara e revela perfeitamente a prática da desigualdade salarial entre homens e mulheres, observada em diversas profissões no mundo inteiro. A alagoana, eleita seis vezes a melhor futebolista do mundo (recorde entre homens e mulheres), não tem o tratamento e nem o salário de jogadores que nunca trouxeram prêmio nenhum para casa. A desigualdade se estende também no comando dos times, onde apenas 8 das 24 seleções que disputam o Mundial este ano são treinadas por mulheres. 

A proibição da prática do futebol para o sexo feminino por 42 anos mostra que a sociedade tenta ditar desde sempre o que as mulheres podem ou não fazer. Baseiam-se em argumentos de que elas têm “talento nato” para atividades domésticas e maternidade e, por isso, não poderiam jogar ou fazer algo fora desse padrão.

Hoje em dia, assim como há quarenta anos, a proibição não existe mais no papel, mas é possível observar um preconceito encoberto. Ainda existe quem reforça o estereótipo de que futebol é só para homens, quando desde criança nos dizem que brincar de bola é “coisa de menino”. Para as mulheres que são profissionais do esporte, a invisibilidade é como uma porta batida na cara: as barreiras são silenciosas.

Cristiane Rozeira, jogadora que marcou três gols contra a Jamaica na estreia da seleção na Copa do Mundo 2019 (Foto: Museu do Futebol)
O time brasileiro estreou no último domingo (9) contra as jamaicanas, mostrando desenvoltura e entrosamento entre as meninas. A vitória em um 3x0 tremeu a torcida, mas também se tornou mais um episódio que ilustra o machismo. Cristiane, autora dos três gols da partida, foi chamada de “Cristiane Ronaldo”, referência ao jogador português. Por que não aceitar o sucesso e o bom desempenho de uma mulher sem compará-la a um homem? 

Em um universo que lhes diz todos os dias que aquele espaço não foi feito para mulheres, elas mostram que são incríveis, sem comparações, e isso deve ser celebrado e valorizado. Nós, mulheres, somos treinadas todos os dias para sermos melhores e mostrarmos que somos. É isso que as jogadoras estão fazendo na França: mostrando que jogam como mulheres e provando que lugar de mulher é onde ela quiser.

Leia Mulheres: grupo incentiva a leitura de obras escritas por mulheres

Clube realiza encontros mensalmente para discutir acerca de obras de autoras femininas e estimular debates

POR VANESSA ISLANY

No último sábado de maio, aconteceu mais um encontro do Leia Mulheres Natal. O grupo faz parte de uma iniciativa nacional, nascida em 2014, quando a escritora Joana Walsh propôs na internet o projeto, cujo objetivo é estimular a leitura e dar visibilidade às obras femininas, visto que o mercado editorial ainda é muito restrito às mulheres.

Na edição de maio, os participantes contaram com a presença de Regina Azevedo, jovem mulher potiguar e autora do livro da vez, Pirueta. O livro traz uma narrativa que perpassa as teorias sobre o que é o amor, os dilemas dos desejos carnais, os estigmas sociais, a família, a afetividade, o amadurecimento e o autoconhecimento.

Último encontro do clube Leia Mulheres, em Natal, onde foi discutido sobre o livro Pirueta (Foto: Vanessa Islany/Caderno de Pauta)

Contamos com uma conjuntura que, histórica e sistematicamente, silencia a produção literária feminina. A opressão patriarcal marca a vida das mulheres nas mais diferentes áreas e somos obrigadas a pensar alternativas para resistir e conquistar representação na esfera da literatura. Diante disso, a finalidade dos encontros vai além da simples leitura - torna possível criar uma esfera que traz à tona diversos debates contemporâneos, os quais ainda são pouco discutidos no cotidiano. Propiciar visibilidade a iniciativas como o Leia Mulheres é um importante meio de ampliação de voz e valorização da literatura feminina.

Realizados mensalmente, os encontros são abertos a quem se interessar. A obra a ser discutida em junho será “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, cujo autora, Maya Angelou, relata sua vida difícil, enquanto explora a literatura como possibilidade de superação.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

#30M: Tsunami pela Educação

Ato contra os cortes nas Instituições Federais de Ensino acontece em Natal, este é o terceiro convocado só neste mês


POR KAMILA TUENIA


“Estamos de novo contra esse governo
para que a educação tenha mais investimento
por mais permanência e democracia
a nossa saída é a luta todo dia”.
Ato do dia 30 de maio contra os cortes nas instituições federais (Foto: Clarice Nascimento)

Esse foi apenas um dos versos de canções e palavras de ordem entoados no último dia 30 nas ruas da capital potiguar por estudantes e trabalhadores que, mais uma vez, foram às ruas protestar contra os cortes nas Universidades e Institutos Federais de todo o país. Em algumas instituições, - como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), maior universidade federal do país - o corte de verbas chega a ser de 40% e o risco dessas instituições terem que interromper suas atividades ainda este ano é iminente. No caso da UFRN, a demissão dos funcionários terceirizados compromete o funcionamento da instituição, que só teria recursos até o mês de setembro. Juntos, IFRN, UFERSA e UFRN somam $101,8 milhões de orçamento bloqueado.

O ato foi conduzido e protagonizado por estudantes e representantes de entidades locais e nacionais. Cartazes e faixas que pediam a valorização do ensino público, da pesquisa e da extensão coloriram o cruzamento das Avenidas Bernardo Vieira e Salgado Filho.

Ato contra os cortes na educação (Foto: Clarice Nascimento)

"Nós sabemos da responsabilidade que temos com a nossa escola, é por isso que os estudantes de todo o Brasil ocupam as ruas neste momento, diferente do ministro da educação que demonstra tamanha irresponsabilidade com a pauta que ele dirige, quando se recusou a ouvir os maiores porta-vozes dos estudantes brasileiros", disse Lauanda Pedrita, presidente da Associação Potiguar dos Estudantes Secundaristas (APES), se referindo ao episódio em que os presidentes da UNE e da UBES foram agredidos e impedidos de falar na presença do atual Ministro da Educação Abraham Weintraub.

Além dos cortes de verba nas instituições federais, a reforma da previdência também tem sido alvo nesses protestos. De acordo com os manifestantes esse é um projeto cruel, desumano e excludente. Na área rural por exemplo, é possível que muitos trabalhadores nunca cheguem a usufruir do benefício previdenciário, tendo que contribuir no mínimo desde os 20 anos de idade, para consegui-lo.

Cartaz de estudante do IFRN (Foto: Clarice Nascimento)
Abraham Weintraub já declarou abertamente que os cortes podem ser revertidos caso a reforma seja aprovada. Para Paulo Jales, coordenador geral do Diretório Central dos Estudantes da UFRN, essa medida é pautada numa forma de chantagem. "Eles são contra as universidades federais e querem acabar com a autonomia dos estudantes, implementando uma política perversa tanto para nós, quanto para os trabalhadores. Essa chantagem deixa claro que eles querem nos colocar uns contra os outros", afirmou o coordenador.

“A aula hoje é na rua” foi um dos motes de mobilização da manifestação, fazendo alusão ao fato de que assim como se aprende dentro das escolas e universidades, também é possível aprender fora do ambiente de estudo convencional. A presidente da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Norte, Yara Costa, também esteve presente no ato e ressalta a importância da luta pela educação: "Quando a gente chega pra essa aula que não é no conforto de uma sala de aula, a gente vê que vale a pena lutar pelo modelo de educação pública que a gente quer, por liberdade, autonomia e mais investimento".

As Universidades são lugar de transformação, de liberdade e democracia, por meio da ciência, pesquisa, extensão e das oportunidades geradas para a juventude brasileira. O desenvolvimento da sociedade depende da educação, setor imprescindível para o crescimento do país.

Uma nova greve geral está convocada para o dia 14 de junho, ainda para reivindicar a revogação dos cortes orçamentários e alertar a população sobre os possíveis riscos advindos da aprovação da reforma da previdência. Os estudantes e trabalhadores prometem não deixar o atual governo em paz enquanto suas pautas não forem atendidas.

Cartaz de repúdio ao governo e seu corte na educação (Foto: Clarice Nascimento)