sábado, 28 de setembro de 2019

Obscura claridade

POR TIAGO SILVA

“Horse, owl and chaise”, Gertrude Abercrombi

Sexta Santa. A primeira sem seu amor balançando na rede. Sem garrafas de cerveja vazias e seu cheiro rançoso pregado no ar, sem pregos e suas batidas, sem laranjas abertas oxidadas na geladeira ou limões abertos oxidados com mosquitos sobre o balcão, sem a boneca de pano bem-vestida assistindo a tudo. Sentada numa cadeira azul de plástico, ela olha a rua. As pessoas parecem esfriar aos poucos, como o asfalto ainda morno. O dia foi pesado e estranho. Alguma coisa tem que cair – ou a chuva ou a noite. Por favor. Por favor!, ela suspira forte, cansada.

Os dois observam o horizonte relampejando longe, em algum lugar da noite.

- Vovó, você não tem medo?

- A vida é um mistério, meu filho. A vida é um mistério.

- Mas você não tem medo do mistério?

- Já vivi todo o horror desta vida na minha idade. Só tenho medo dos castigos de Deus.

Estava mentindo? Por quê? Tinha medo. Não da morte em si, a obscura claridade – o mistério é a vida, não a morte; esta não precisa entender, só viver. Tinha medo de deixá-lo só.

Desequilibrou-se. Parece que caiu de um penhasco. O vermelho constante dentro de si foi apagando, apagando. Ela voltou para a escola. Estava determinada. Queria aprender a ler de uma vez por todas. Já sabe fazer o nome?, perguntou sua vizinha. Essas coisas demoram, pensa que é fácil? Seu neto já sabia. Como aprendeu em tão pouco tempo, Deus? E eu aqui, há quase uma vida. As crianças aprendem rápido, disse a vizinha. É, eu sei. Só pegava no seu caderno quando o neto estava dormindo, escondida. A capa, escolheu a mais bonita – era um rapaz muito jovem e com olhos alegres. Antes de abri-lo, olhava por horas aquele belo homem, sequestrada, tentando absorver sua alegria. O mundo é muito demais – pensou.

– O nome dele pode ser Crocodilo, porque ele comeu os peixes todos – disse o menino. – Quero morar numa casa bonita. Naquele castelo?

– Não é um castelo, é uma igreja.

– Eu só como besteira, né? Só macarrão. Só frango ou só carne. Gosto de pastel às vezes. Quando eu era bebê eu só tomava suco. Lá na praia o caranguejo se enterrou na areia. Será que é menina ou menino? Quero que seja menina.

Voltavam da praia. Os brincos pesados e dourados lhe emprestavam alguma graciosidade. Dizia que eram de ouro porque eram lindas gotas grossas. A verdadeira beleza deles se extraia quando ela andava sem ternura.

Uma paixão sem requinte corria pelo seu sangue febril. De repente, te perdi. O vento úmido da madrugada anunciava as notas iniciais de um dia. Os móveis da cozinha sob aquela luz amarela e seca. A dor da vida se enraizando.

Sentiu cheiro de chuva molhando o solo – era amor novo brotando da terra fértil. Ela criava galinhas. Pobrezinhas, estavam muito magras e ossudas. Ainda viviam? Como? Viviam vida frágil. Como a dela mesma. Aquilo tudo era encenação, já já acabaria. Que azar! Sortudas eram aquelas flores que nasciam no quintal, onde o cano da pia escoava. Lindas. Cor-de-rosa. Olhou o velho quadro de Nossa Senhora Aparecida na parede e desejou adiar a vida.

Ela e a realidade do mundo oxidavam. A pele de frango que jogara em cima de uma pedra escurecia. Envio-te um pedaço de mim, Deus. Carne de minha carne. Sangrando. Intolerável dor!

Ah, o silêncio do rosto. Ela era uma mulher que não costumava sorrir. Digo, sorrir muito. Isso pode? Acho que sorrir largo. Uma mulher que não costumava sorrir largo. Sorria um sorriso tímido, miúdo. Ou às vezes ficava séria mesmo. E gostava disso. O não-sorriso preservava seus mistérios. Mas gostava também de sorrisos rasgados. Que fazer então? Gostava do sorriso rasgado dos outros, não o seu. Adorava. Era uma iluminação que cegava. Ela não gostava de cegar pessoas que não conhecia. Sentia-se inquieta. Sorrir numa manhã prateada lhe doía.

Onde estaria aquela cabra grávida que vira pela manhã quando ia à praia, perto da parada de ônibus? Grávida. Quase fora atropelada. Ela vasculhava as sacolas de lixo na calçada. Seus pelos, úmidos e opacos. Queria ter levado aquele animal vivo para casa, para alimentá-lo. Por que não levou? Também não sabe. A cabra olhou-a com um olhar de que tudo um dia vai acabar, e sumiu pela avenida. Será que já pariu?

Ela sumiu junto. Jura que aquela cabra levou sua vida. Se soubesse, se soubesse! Ou se não soubesse, seria melhor? Viveria mais? Viveria melhor. Só queria viver melhor, não como falha da natureza.

Ainda é Sexta Santa. Não quer deixá-lo só. Juntou os desenhos de giz de cera dele que estavam no chão. Meu Deus, o que é isto, pensou ela. O que era? Ela sabia. Aquelas linhas amarelas grossas se cruzando no horizonte do papel, sobre uma mancha vermelha. Alguns pontos azuis. Era uma pessoa que via naquele verde? Talvez. Isso não importava. Gostou deste: uma menina com um cesto de frutas ao lado de um enorme peixe. Tão sem título. Sou um animal aquático no ar. Alguém a observa da janela. Aquele surrealismo primitivo era sua vida. Como pode? Ela não queria deixá-lo – nem se pudesse levar todos aqueles desenhos que eram sua vida.

Sexta santa de gesso quebrada. Não aguenta mais, a casa urge. Quer um jejum de si mesma. Não me quero mais, queria telefonar para alguém e dizer. Perdeu a cabeça, riscou o chão com o corpo. E chorou. Por que fora traída? Logo ela, tão devota! Cheiro morto de vela no ar. Comeu frango e chupou os ossos. Magras costelas amargam dentes tortos. A mordida imprecisa fere o peito e suas fibras. Será que...será que..., ela estava assim, repetindo as coisas.

Está em seu mais alto precipício, em êxtase. De novo uma luminosidade que cega. Assentou-se em sua face um sorriso de liberdade. Sua alma é pungente, de aço, alma viva, com cheiro de floresta, madeira verde cortada, jogada no rio. É sábado.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Preconceito musical: barreiras a serem quebradas

O fenômeno atinge não somente o meio social, como também o acadêmico

POR GABRIEL MASCENA E LIVIA SOUZA

Entrada da Escola de Música da UFRN (Foto: Gabriel Mascena/Caderno de Pauta)
O preconceito musical não é um acontecimento, em sua totalidade, recente. Suas raízes carregam consigo processos históricos tão antigos quanto a origem dos denominados "estilos musicais", que influenciam diretamente na vida, comportamento e representação dos mais diversos grupos sociais existentes. Tanto no meio comum quanto no acadêmico, o julgamento e a estereotipação estão presentes quando se trata do âmbito da música. São moldados, então, critérios que tentam impor juízos de valor, gerando, além de conflitos e rejeições, a crença na capacidade de qualificar e desqualificar produções musicais.

Ao ser entrevistado, o professor de música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Tiago Carvalho, 34, evidenciou suas principais visões sobre as problemáticas envolvendo a questão musical e suas extensões sociais. "Quando falamos em gosto musical, ou, em um âmbito maior, na valorização que se dá a certo estilo musical, eu penso que esses processos, além do cunho mercadológico, vêm através de construções que são históricas e sociais no geral”, comenta. “Não faz muito sentido compreender tradições musicais tão diferentes, com suas próprias funções e propósitos, em uma mesma linha evolutiva," denota o docente. E finaliza: "A estética de uma música não está separada do contexto social em que ela se insere, assim como as pessoas não aderem aos estilos musicais somente por seus gostos, mas pela identificação e representação que esses gêneros promovem”.

Professor de Música da UFRN, Tiago Carvalho
(Foto: Gabriel Mascena/Caderno de Pauta)
Durante seu discurso, ele também demonstra a apropriação de saberes específicos como um motivo gerador de preconceito musical no meio acadêmico. “É muito comum encontrarmos profissionais que partem do pressuposto de que o conceito de música é baseado apenas em um repertório estudado, por intermédio de um particularismo histórico”, pronuncia o educador. “Eu entendo música a partir de duas formas: a primeira pelo significado social que ela promove e a segunda pelas diversas variáveis que compõem a música para poder formular meu próprio conceito,” acrescenta. Em seguida, o professor discorre sobre a existência de critérios técnicos para categorizar músicas como boas ou ruins, tratando tal fenômeno como natural no meio acadêmico, porém dependente do campo de conhecimento que está sendo estudado, onde os métodos se diferenciam.

Assim como observado pelo docente, o bacharelando em música Tiago Ferreira, 19, crê na existência de critérios técnicos para seu curso focado no estudo do piano clássico, apesar de não ter sido instruído sobre esses métodos. Ele também relata ter experienciado situações de preconceito com seus gostos musicais. "Acredito que isso vem pela falta de conhecimento das pessoas, pois elas não conhecem o repertório de música clássica, que é composto por milhares de compositores, além dos mais famosos", complementa o estudante. Já o professor, por sua vez, ao expôr seu trabalho com a etnomusicologia (área que estuda a música em suas múltiplas dimensões), explica que está aberto a qualquer estilo musical, afirmando acreditar que o respeito e a compreensão podem ser a chave para a intolerância e supervalorização no ramo da música dentro e fora do meio acadêmico.

Sala musical da Escola de Música, na UFRN (Foto: Gabriel Mascena/Caderno de Pauta)
Após um levantamento realizado pelos repórteres, em diferentes locais da UFRN, foi apontada unanimidade nas respostas ao questionamento sobre possíveis experiências com preconceito musical, onde todas as pessoas abordadas afirmaram já terem sofrido alguma intolerância pelos estilos que apreciam. O foco da pesquisa, no perímetro da universidade, voltou-se para todos os gêneros e idades, visando abranger a maior diversidade de pessoas possível.