quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Ler: viajar, conectar, imaginar, aprender, mudar, viver

Seja para adquirir conhecimento, seja para buscar refúgio, os livros fazem parte da vida de muitas pessoas, e seis delas contam sobre suas relações com obras literárias

POR LUCIANO VAGNO

No dia 29 de outubro é comemorado o Dia Nacional do Livro. A comemoração é uma homenagem à Biblioteca Nacional, fundada em 1810 pela coroa portuguesa. O livro, apesar das evoluções que ocorreram na sociedade, segue sendo um dos principais meios de conhecimento, expressão e refúgio. Não é difícil encontrarmos pessoas das mais variadas idades andando por aí com uma obra literária nas mãos, debaixo do braço ou dentro da mochila.

Como dizia o poeta: “Ler é sonhar pela mão de outrem”. Não importa o gênero ou autor, quem lê viaja pelas palavras e quer sempre saber o que tem na próxima página. Seja através de uma tela digital ou passando as folhas, seja um gibi, ou uma biografia, ao ler, adentramos naquele universo envolvente e saímos trazendo sensações inexplicáveis.

Conheça seis personagens reais e suas relações com os livros:

Suerly encontrou nos livros companhia durante a adolescência (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

A jovem Suerly Araújo, 23 anos, conta que ama ler e que começou a navegar pelas palavras desde os cinco anos de idade. Ela recorda que suas primeiras leituras foram os quadrinhos da Turma da Mônica, os quais colecionava. Porém, posteriormente, passou a doá-los por não ter mais espaço em casa.

Sobre sua relação com os livros, Suerly conta: “Começou com coisas básicas, tipo, o livro Diário da Princesa, nossa, eu amava. E foi crescendo, sabe? Eu não parava de ler. Quando eu estava em um canto, eu lia, porque eu era muito solitária na minha adolescência, e os livros foram, tipo, é meio clichê, mas foram um refúgio, sempre foram. Sempre foram uma companhia”.

A vestibulanda, que sonha em cursar Psicologia, diz que seu livro favorito é, com toda certeza, Harry Potter. Ela comenta sobre o que mais gosta na obra de J. K. Rowling: “O universo da magia... O Harry, sua infância sem os pais, tudo o que ele sofreu, o que ele passou; e ele encontrou a força nos amigos, na escola; isso é tão admirável, sabe? E isso foi tão importante para mim, no meu crescimento”. Suerly conta que ama toda a saga em torno do famoso bruxo, porém seu livro preferido é Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban.

“A leitura nos dias de hoje é essencial, porque, além de você estar agregando conhecimento a si próprio, você conhece palavras novas, você viaja para outros lugares. Tem toda essa magia da leitura. Acho essencial os pais incentivarem, mesmo sendo com gibi, depois indo aumentando o nível com outros mais simples, como O Diário de um Banana, os livros da Thalita Rebouças... Depois vai aumentando, a criança vai adquirindo seu próprio gosto, e por aí vai”, conclui.

O estudante Morvan adquiriu o hábito da leitura há três anos, e vê a Literatura como uma forma de comunicação (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Morvan Willian, 20 anos, conta que sua relação com os livros começou quando estava se preparando para o Enem, há cerca de três anos. “Eu não tinha muito contato com a leitura, não tinha o hábito de ler. Eu meio que fui obrigado a ler alguns livros que me fizeram pegar o gosto. Comecei a ler para melhorar minha interpretação de texto. Li todos os livros do Percy Jackson, Maquiavel e outros”, conta o jovem.

No momento de nossa entrevista, Morvan estava lendo o livro As Afinidades Eletivas, do alemão Goethe. Ele conta que já havia lido Fausto, de mesma autoria, o que lhe fez se interessar pelo autor. O estudante de Ciências Sociais revelou que possui uma lista de livros que serão lidos futuramente.

O jovem diz também que lê muito por conta do seu curso, já que o mesmo possui uma grande carga de leitura. Para Morvan, ler é uma forma de comunicação que vai para além da comunicação do dia a dia. “É uma forma atemporal de se conectar com o mundo”, explica.

Por influência de sua irmã, Nayara desenvolveu gosto por obras literárias (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

A vestibulanda Nayara Oliveira, 20 anos, conta que geralmente gosta de ler livros de romance e ficção. Questionada sobre de onde vem esse gosto, a jovem diz que pela influência da irmã mais velha. “Ela gosta de ler, aí eu comecei a ler os livros dela e passei a me interessar”, conta.

A jovem, que está estudando para ingressar no curso de Fisioterapia, relata que hoje não possui tanto tempo para leitura, entretanto está constantemente comprando novas obras e tentando lê-las quando pode.

Nayara revela que seu livro preferido é Quem é Você, Alasca, de John Green, autor conhecido, sobretudo, pelo público jovem. Sobre o livro, ela comenta: “Ele é muito bom. Graças a ele eu fiz amizades, e eu sempre estou emprestando pra todo mundo. Eu acho uma história muito bonita. E é muito chocante, porque não é um romance normal – o garoto fica com a garota no final – tem um impasse no meio. É a vida real. Ele demonstra a vida real de adolescentes”.

Para Nayara, a leitura é importante, pois através dela é possível adquirir conhecimento: "Não importa qual livro você leia. Instiga a imaginação, também”, diz a jovem. “Eu não sei como seria um mundo sem os livros. Não consigo imaginar”, acrescenta.

Joana cresceu rodeada de livros e hoje enxerga neles a maneira de adquirir conhecimento (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

A estudante de Jornalismo Joana Teles Ferreira, 20 anos, diz que nunca leu muito, embora goste da prática. Ela conta que sempre esteve rodeada obras literárias em sua casa. No Natal, por exemplo, sua família tem o costume de presentear com livros.

“Meu pai nunca me obrigou a ler. Por exemplo, eu sei que muitos pais estipulam horas do dia para que seus filhos leiam, e ele nunca fez isso. Ele simplesmente me deixava à vontade com os livros que comprou durante a vida dele e os deixou para mim e meu irmão”, explica.

A portuguesa, natural de Coimbra, revela que na infância não aproveitou tanto os livros que seus pais lhe deram. No entanto, ela diz que, na medida em que foi crescendo, começou a ler os livros de seu pai, e passou a cultivar sua própria estante de obras literárias.

Um livro que gostou muito de ter lido foi Ensaio Sobre a Cegueira, do escritor português José Saramago, sobre o qual a jovem comenta: “Gostei muito. Acho que é um livro muito bem escrito. Saramago é conhecido por ter uma escrita bem autônoma, ele quebra as regras. O livro tem uma história bem interessante, intensa; não é real, obviamente, mas me interessou muito”. Joana diz que atualmente está lendo os livros O Homem Mais Rico da Babilônia, Pai Rico, Pai Pobre e 1808, e busca, através deles, aprender de forma autônoma, e não, como diz, por influência dos outros.

Eliabe ao lado de geloteca, no Centro de Convivência, onde encontrava-se folheando livros (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

E quem pensa que só aluno de Humanas é que gosta de ler está enganado. Eliabe dos Santos, 21 anos, estudante de Ciência e Tecnologia, fala sobre sua relação com os livros: “Eu gosto muito de ler, principalmente livros de psicologia. Ainda que eu seja de Ciências Exatas, gosto muito de psicologia, filosofia... E livros de matemática também”.

Perguntado sobre qual foi o primeiro livro que leu, Eliabe confessa não lembrar do nome, porém recorda que tinha 15 anos, que a obra era sobre inteligência artificial e se tratava de um relacionamento entre um robô e um ser humano. Além disso, o rapaz revela que foi nesse momento que despertou o interesse pelos livros e passou a ler outros.

Eliabe conta que a obra literária que marcou sua vida foi A Menina que Roubava Livros e explica que a história se passa durante o Nazismo, e que uma menina, Liesel Meminger, gosta de ler, porém, naquela época, o Partido Nazista queimava os livros. O jovem diz que a obra pôde lhe mostrar como as pessoas viviam naquela época.

“Eu acho que a leitura abre novos horizontes, tipo, no meu caso, quando comecei a ler livros de filosofia e psicologia, isso abriu muito a minha cabeça. Eu era muito fechado às Ciências Exatas e, quando comecei a ler esses livros, me senti uma pessoa diferente, minha cabeça mudou bastante. Então, eu acho que os livros servem para abrir as cabeças das pessoas, para sair da bolha”, conta.

Desde criança tenho gosto pela leitura. Hoje, tento passar isso para meu irmão menor e pretendo passar para meus filhos (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

E eu. Não lembro com exatidão quantos anos tinha quando ganhei meu primeiro livro, talvez uns cinco. Embora eu não recorde o nome da obra, lembro perfeitamente da primeira frase dela: “No Bosque dos Cem Acres, o Tigrão conversava com o Pooh”. Eu lia e relia aquele livro de poucas páginas constantemente, até que o perdi. Sempre gostei de ler. Ninguém nunca me disse “Leia”, eu que busquei esse prazer para mim.

Mais recentemente, me vi apaixonado por uma obra literária: O Diário de Anne Frank. Eu aguardava impaciente o dia em que entraria em uma livraria e diria “Quero ele”. No entanto, tive uma surpresa. Nas vésperas do meu aniversário de 20 anos, uma amiga me disse que o havia comprado e eu pedi emprestado para ler. Mergulhei naquelas palavras criadas pela jovem judia e tudo que eu pensava era “Uau!”. Dias depois, outra surpresa: minha amiga pediu o livro por uns minutos e, quando me entregou, estava escrito: “Espero que aproveite o presente.” Mal podia acreditar que agora eu tinha o livro que me imaginei tendo um dia.

Assim como os entrevistados para essa matéria, reconheço que ler é uma forma de se conectar consigo, crescer, encontrar abrigo e viver de forma mais leve. Lendo, é possível adentrar uma porta e viver, por breves momentos, outra época, em outro lugar, outra vida... “Sonhar pelas mãos de outrem”. Ao sair, levamos saberes, referências, questionamentos, respostas, sorrisos, lágrimas e a vontade de ler mais um pouquinho. Até a próxima leitura.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O mundo é um moinho

Girar com ele é condição para enfrentá-lo

POR MARIA CLARA PIMENTEL

Meu pai sempre teve um quê de melodramático. Quando lhe contei da decisão de começar a tomar meu próprio rumo, seja ele qual fosse, ele dizia que ainda era cedo, que minha vida cairia um pouco a cada esquina, que em pouco tempo eu já não mais seria quem era. É verdade, papai, disse-lhe, quase não tenho experiência e eu pouco conheço da vida, mas não será escondida do mundo que aprenderei a enfrentá-lo.

Ilustração com base na história de Dom Quixote de La Mancha (Foto: Divulgação)

Você sempre me contou as histórias de Dom Quixote e Sancho Pança, as quais, incrivelmente, sempre se referiu de forma pouco convencional. Papai, nunca foram as aventuras dos dois espanhóis que apreciava me relatar, se não o fato de, às buscas de lutar suas batalhas, confesso - quase sempre infundadas e desnecessárias - acabavam com seus sonhos triturados pelos moinhos da vida. Mas não será essa a graça de estar vivo?

Eu sei, o risco que tomo de acabar com minhas ilusões a pó, como ambos, é grande. Também percebo que as chances de ter meu coração quebrado e de herdar apenas o cinismo de cada amor não são pequenas. Mas, ao meu ver, vale a pena tentar. É um sonho que realizo enquanto outros, provavelmente, serão jogados à beira do abismo. Mas, pelo que já ouvi falar da vida nesses poucos anos de experiência, é exatamente assim que ela funciona! E não posso esperar para vê-la em ação, acontecendo diante de meus olhos, fazendo pulsar meus instintos e subir minha adrenalina.

Para o abismo que supostamente cavo com meus pés para quando a vida me derrubar, te digo que já tenho outra função. Tem sido uma ótima motivação prepará-lo enquanto penso em todos os medos que desenvolvi para com as pessoas, as situações e os desconfortos que muitas vezes nem tive o desprazer de vivenciar. Claro, sempre me esquivei de toda e qualquer mínima possibilidade que pudesse me levar até essas incomodidades. Sim, papai, serão todas essas coisas que sempre evitei, todos os meus medos e aflições sem fundamento, que irão parar no fundo do poço.

Entendo que a vida pode ser constituída de infindáveis moinhos de vento, prestes a me estraçalhar a cada esquina. Mas eu não só quero, como preciso, viver isso. Toda a minha infância e adolescência fui cerceada de vontades bestas de uma garota que só almeja brincar de moinhos, dragões e o que seja. Mas não me entenda mal, pai, todas essas privações não foram resultado de pedidos seus unicamente, mas de minhas próprias fobias também.

Entenda que não tenho a criatividade de Dom Quixote, nunca tive. Não vou sair por aí lutando contra monstros e saindo de aldeia em aldeia arranjando confusões sem necessidade. Mas você bem que podia, uma vez que fosse, bancar o Sancho Pança e me acompanhar em pequenas aventuras. Eu só quero aprender a viver sem medo, sem me privar da tentativa de erro e também de acerto. Eu agradeço por todo o cuidado, de verdade, sei que sempre teve as melhores intenções. Mas não sou mais sua princesa que deve ser mantida em segurança em uma torre gigantesca, protegida por dragões e fadas. Não vê que as tais criaturas são puro fruto da sua imaginação?

Estou resolvida. Deixei de aproveitar muitas coisas na vida, e sei que o senhor também. Ao te contar tudo isso, enfrento meu primeiro moinho de vento, e surpreendentemente ele não é tão assustador quanto parece. Papai, agradeço pelo carinho por todos esses anos, mas agora me toca o papel de tentar ensinar a você a possibilidade de verdadeiramente viver. O que me diz?

*Conto baseado em reinterpretação da música “O mundo é um moinho”, de Cartola.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

“São mães que estão correndo atrás de seus objetivos por uma moradia”

As histórias de quem decidiu viver em uma ocupação no Centro Histórico de Natal

POR EDERSON LEVI, ÍTALO BRUNO, ANTUNES MOISÉS E VALCIDNEY SOARES

Numa rua estreita à margem da Praça Augusto Severo, na Ribeira (zona leste da capital), um prédio de cor bege e verde anuncia: "Albergue Municipal José Augusto da Costa”. Dividindo espaço na viela com bares e pequenos comércios, o prédio de responsabilidade da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (SEMTAS) abrigava pessoas em situação de rua e foi desativado em dezembro de 2013 pela Prefeitura do Natal, quando se mudou para um endereço no bairro de Cidade Alta, na mesma região. Desde então, foram cinco anos de abandono até que cerca de 40 famílias decidiram tornar o espaço seu lugar de moradia.

(Foto: Ederson Levi/Caderno de Pauta)

A Ocupação Pedro Melo iniciou em 22 de dezembro de 2018, quando as 39 famílias organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) se mudaram para o imóvel desprezado pelos órgãos públicos. A edificação possui 20 quartos divididos em dois andares, que comporta as famílias que residem permanentemente no local. Outra parcela dos ocupantes ainda vive de aluguel ou em casa de parentes, frequentando a ocupação durante as reuniões.

(Foto: Ederson Levi/Caderno de Pauta)

“Quando chegamos aqui era só sujeira e mato. Acho que o pessoal já estava utilizando como ponto de droga. Muita sujeira, muitas fezes. Então organizamos o ambiente para melhorar um pouco até chegar a verdadeira moradia”, comenta a balconista Francisca Medeiros, 35, que também é uma das coordenadoras da ocupação.

Segundo ela, existe na sociedade uma visão errada sobre os integrantes de movimentos sem-teto. “Algumas pessoas veem e acham que são ‘noiados’, ou que foram expulsos de casa, mas não. Está muito alto o custo de vida. Eu sou trabalhadora, ganho um salário mínimo, mas não tenho mais condição de manter uma família com um salário mínimo”.

(Foto: Antunes Moisés/Caderno de Pauta)

Em busca de uma vida melhor, Francisca saiu de sua cidade natal, Patos-PB, em direção a Natal. “Vim justamente por falta de emprego, foram cinco anos na luta para conseguir um trabalho. Então, depois que o meu filho veio morar comigo e que eu conheci uma mulher que já fazia parte do outro assentamento, eu disse a ela: ‘estou no desespero porque não tem mais como manter o aluguel’. Foi quando eu comecei a participar do movimento e vim parar aqui na ocupação”, ressalta a paraibana.

(Foto: Ítalo Bruno/Caderno de Pauta)

"Até os corrimões eles levaram, nós colocamos essa lâmpada aqui porque era muito escuro, muito escuro mesmo", afirma Francisca enquanto subia as estreitas escadas do prédio. Com dois andares, o edifício é dividido por uma escada sem corrimões que, de acordo com ela, foram levados. Segundo a coordenadora, cada andar do prédio recebe diariamente uma mulher [apenas mulheres participam da limpeza do ambiente] que será responsável pela faxina e manutenção da área.

(Foto: Ederson Levi/Caderno de Pauta)

Para manter a organização e o bom convívio nos ambientes, o movimento mantém algumas regras ao longo de suas ocupações. Entre elas, a obrigação de manter o silêncio nos espaços, limpar tudo aquilo que foi sujo, não trazer estranhos, não andar de toalha no ambiente e outras. Tudo é discutido em reuniões, que acontecem quinzenalmente. “Temos um regimento. Como vocês podem ver, tem as plaquinhas, a lei do silêncio, ‘sujou, limpou’, porque estamos tentando manter o ambiente da gente em harmonia”, acrescenta Francisca.

(Foto: Ederson Levi/Caderno de Pauta)

Gilvânia, 20, mora há seis meses na ocupação. A filha dela, Sarah, sorridente e brincalhona, tem dois anos e cinco meses. No seu quarto, moram ela, a filha e o marido. “Eu acho muito bom, porque assim, quando eu vivia na casa da família do meu marido éramos muito humilhados, agora que viemos pra cá temos nosso cantinho, está sendo muito bom”, afirma a mãe sobre morar na Ocupação Pedro Melo, que renomeia o prédio da SEMTAS em homenagem a um morador já falecido. Seu marido hoje em dia está trabalhando em uma peixaria próxima à Ribeira. Ao ser perguntada sobre as dificuldades no espaço, responde categoricamente “Nenhuma. Hoje em dia temos nossa privacidade, minha filha pode dormir, ao contrário de nossa antiga casa onde ela não conseguia dormir devido aos gritos do meu sogro”. Ela conheceu o movimento graças à tia, que lhe falou sobre outra ação de ocupação realizada pelo MLB.

(Foto: Ítalo Bruno/Caderno de Pauta)

Um abrigo para todas as gerações. Desde dona Teresa, 62 anos, até os que nem sequer nasceram ainda. "Dona Teresa sempre vai aos movimentos, aos atos, sempre está com a gente", declara Francisca com ares de otimismo. "A tendência é só crescemos”, completa. Nos corredores do primeiro andar pode ser observado a nova geração de lutadores da Ocupação Pedro Melo. A pequena Sarah, de dois anos, brinca apenas com um recipiente vazio de spray enquanto a mãe, Gilvânia, a observa. Dona de canções famosas do carnaval carioca, a Salgueiro conclamava em 1986 para abusar da criatividade. Assim como o samba-enredo da escola dizia, a criança “tira da cabeça o que do bolso não dá”. E a vida segue feliz.

(Foto: Antunes Moisés/Caderno de Pauta)

Teresinha Gomes, 62, e sua filha Terciana, 35, moram no antigo albergue desde o início da ocupação, quando saíram de uma casa de aluguel nas Rocas. “O motivo foi a falta de emprego, eu pagava aluguel lá e estava sem condições de pagar, e a oportunidade que a menina me chamou pra vir e como eu não tinha casa própria decidi vim pra cá pra lutar por uma moradia. A partir do MLB foi que eu fui pra rua pra lutar.”

(Foto: Antunes Moisés/Caderno de Pauta)

Terciana conta que se engajou em manifestações a partir da organização sem-teto. “Eu comecei a ver as coisas de outra forma, porque quando eu vivia lá [nas Rocas], como eu sou manicure, eu vivia no meu canto, trabalhando, lutando, pagando minhas contas, mas a partir do momento que eu vim pra cá foi que eu vi que as coisas têm que ser com muita luta, muita garra”.

(Foto: Antunes Moisés/Caderno de Pauta)

Assim como sua filha Terciana, Teresinha Gomes começou a viver na ocupação por não possuir casa própria e pela falta de dinheiro para custear o aluguel mensal de uma moradia, estando na ocupação desde dezembro de 2018. Ela relata que é a primeira ocupação que participa e que a convivência entre as pessoas é tranquila.

(Foto: Ítalo Bruno/Caderno de Pauta)

Luz no fim do túnel. Para muitos daqueles que moram em ocupações, lutar e ocupar é a única possibilidade de conquistar um espaço próprio. Não há comodismo, falta de vontade para trabalhar, nada do que prega o senso comum sobre as ocupações é real. Nos imóveis adquiridos através da luta pela reforma urbana, ou até mesmo reforma agrária, o que reina é o sonho de seguir a vida com dignidade. É importante lembrar que a ocupação de imóveis que não cumprem sua função social —estabelecida pelo Plano Diretor de Natal— é um direito previsto na Constituição Federal e no Código Civil Brasileiro.

Mentor Espiritual e cartomantes sofrem censura nas ruas de Natal, Rio Grande do Norte

Ao decorrer de toda a cidade, é possível encontrar lambes rasgados e pintados em forma de X


POR GABRIELLE BORGES, GUILHERME DE OLIVEIRA E HANNA ARAÚJO 

Avenida Capitão Mor Gouveia, em frente a parada do Setor 2/UFRN (Foto: Guilherme de Oliveira/Caderno de Pauta)

A Cartomancia é um sistema de adivinhação que utiliza cartas (baralho) para prever o futuro, muito usado por povos no passado na tomada de decisões importantes. Para alguns historiadores, ela surgiu na China por volta do ano de 1100 depois de Cristo, onde era um dos métodos utilizados pelo imperador S’uen-ho. Também conhecida como tarô, começou a ser estudada definitivamente pelos grandes ocultistas e, no século XX, se popularizou entre os esotéricos. Chegando ao Ocidente pelos povos ciganos.

Uma cultura antiga, mas que ainda hoje sofre com preconceitos. Em Natal, ao decorrer não só da Avenida Senador Salgado Filho, mas também de diversas outras partes da cidade, é possível perceber uma censura com os cartomantes que promovem seu trabalho através de cartazes. A ação evidencia intolerância religiosa, que nada mais é do que a falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças ou crenças de terceiros. No Brasil, ela é considerada crime de ódio, sendo classificada como inafiançável e imprescritível.

De acordo com Rita de Cássia (19), estudante de Gestão Hospitalar da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), “ter uma crença e ver uma pichação como essa é falta de amor e respeito”.

Para a estudante de jornalismo, Beatriz Araújo (21), algo que chama atenção é o fato dos cartazes que divulgam os jogos de cartas e búzios estarem danificados precisamente nos locais que informam o número de contato. A estudante acredita que é uma forma de dificultar as pessoas de chegarem até os profissionais que prestam o serviço. "Acredito que isso está ligado à intolerância religiosa, intolerância a crenças e práticas diferentes, divergentes das dominantes (cristãs). Eu sou agnóstica, e acredito que todas a religiões e crenças devem ser respeitadas. Todos têm o direito de acreditar no que querem e isso deve ser respeitado, como também deve ser respeitado o direito de não acreditar em nada", encerra Beatriz.

A cartomante Madame Carlota de 54 anos, conta que desde da infância sofre com a intolerância por partes das pessoas. Quando morava no Amazonas, Manaus, alguns moradores daquela região jogavam pedras na porta de sua casa na época da Semana Santa. Para aquelas pessoas, ela e a família simbolizavam o Judas Iscariotes, o que traiu Jesus e foi digno de condenação.

Tiragem de cartas de Tarô
(Foto: Arquivo pessoal da Carlota)
Carlota começou a prática da quiromancia, leituras das mãos, ainda criança, sendo ensinada pela avó. Aos de 10 anos, já lia cartas para suas amigas na escola. Além de ser cartomante, ela ainda encontra preconceito por ser "cigana", que segundo ela é um termo pejorativo, o correto seria "Romi".

"A intolerância é algo terrível, quando chegava em locais públicos sentia preconceito e olhares de discriminação, desde criança senti na pele a intolerância”, desabafa. Hoje sua família conta com proteção judicial, mantendo-se de certa forma segura de crimes de intolerância. Faz 35 anos que é cartomante e ver os cartazes pintados e rasgados na Av. Bernardo Vieira, segundo ela, "é triste”.

Infelizmente, a falta de reconhecimento e respeito às diferentes crenças ainda está presente na sociedade, e constantemente ouve-se falar, assim como são presenciadas, ofensas e ataques tanto a indivíduos quanto a grupos. Porém, a decisão de dar o primeiro passo ao respeito e empatia ao próximo deve ser sempre particular, e com o testemunho da atitude, transformar mentes e alcançar uma harmonia.