sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Novembro azul: um mês de intensificação em combate ao câncer de próstata

Diariamente, 42 homens morrem por causa da doença
POR GUILHERME OLIVEIRA


Todos os anos, o mês de novembro é dedicado à conscientização e prevenção ao câncer de próstata. O movimento surgiu em 2003 na Austrália, por iniciativa de dois amigos, Travis Garone e Luke Slattery. Os dois incentivaram outros homens a deixarem seus bigodes crescerem, e associaram o bigode com a conscientização sobre a saúde masculina, especialmente ao combate contra o câncer de próstata. O Movember, como foi chamado, usou das comemorações do Dia Mundial de Combate ao Câncer de Próstata, em 17 de novembro, para dar início à campanha. Hoje, a ação acontece em nível mundial.

Este é o segundo tipo de câncer mais frequente entre os homens, ficando atrás apenas do câncer de pele, sendo também a segunda maior causa de mortes entre eles no país, com o número de óbitos chegando a mais de 14 mil, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

O câncer de próstata se caracteriza pelo surgimento de um tumor que lesiona a próstata, uma glândula que se encontra abaixo da bexiga. A campanha intitulada de Novembro Azul, surge como um meio de alertar os homens acerca dessa enfermidade, e dos cuidado que devem ser tomados no combate à doença e com a saúde em geral.

Como causa de repulsa, o toque retal é um importante exame para a identificação da doença, porém, ainda é um tabu entre os homens. Apesar de ser um exame indolor e que não causa nenhum problema ou reação ao paciente, muitos ainda o veem de maneira preconceituosa. Sendo assim, um dos objetivos da campanha é a quebra do preconceito masculino quanto ao indispensável exame, além de incentivá-los a buscar a ajuda médica.

Fatores de risco

A doença não escolhe sua vítima, logo é preciso que todos se cuidem, com atenção especial a aqueles que já possuem ocorrências em seu histórico familiar: homens cujo o pai, avô ou irmão tiveram câncer de próstata antes dos 60 anos. Homens que se encontram em condições corporais de obesidade e sobrepeso também estão mais propensos, assim como aqueles acima de 55 anos.

Sintomas e Diagnóstico

O câncer de próstata, na maioria dos casos, se desenvolve de maneira lenta e assintomática. Entretanto, também existem outros casos onde é possível que haja um rápido crescimento, podendo o câncer se espalhar para além do seu local de origem, ocorrendo assim uma metástase, na qual outros órgãos são afetados, levando até a morte. A doença só é, de fato confirmada após a realização de uma biópsia por parte de um médico ou cirurgião-dentista habilitado. Dessa forma, é necessário atentar-se para os sintomas que poderão se apresentar, tais como: Dificuldade para urinar, presença de sangue na urina, diminuição no jato da urina e inflamação na próstata, também chamada de Prostatite. A biópsia é indicada caso seja encontrada alguma irregularidade no exame do toque retal ou no nível do Antígeno Prostático Específico (PSA), proteína produzida pela próstata. Os exames são voltados para homens a partir dos 45 anos de idade, fase considerada de atenção, porém, não ainda de risco.

Tratamento

Em caso do câncer ser detectado a partir dos exames realizados, a escolha pela maneira de tratá-lo, vai depender de cada caso, levando em consideração o estágio da doença, os benefícios e os riscos levados ao paciente. Cirurgia, radioterapia ou tratamento hormonal são algumas das diferentes formas de buscar a cura.

Formas de prevenção

Para não precisar chegar ao tratamento, é importante a prevenção. A fim disso, ter uma boa alimentação, fazer atividades físicas regularmente, manter o peso ideal e não consumir bebidas alcoólicas nem cigarros podem reduzir drasticamente as chances do desenvolvimento do câncer, sem contar outras enfermidades e complicações. Além disso, as consultas preventivas são essenciais. O exames do toque retal e a análise do PSA são recomendados a serem feitos um vez por ano, por homens a partir dos 45 anos de idade.


O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou que, no ano de 2018, surgiriam 68.220 novos casos da doença. A cada campanha realizada, há também como propósito, por parte dos que promovem e participam de cada ação, a diminuição do número de novos diagnósticos, bem como uma melhor divulgação e esclarecimentos das informações. Muitos ainda se encontram desinformados sobre o assunto e, portanto, vulneráveis.


Embora estejam faltando poucos dias para o fim do mês de novembro, a ação de prevenir e conscientizar sobre o câncer de próstata deve ser feita durante todo o ano, assim como as outras doenças que possuem um mês de destaque. Elas não escolhem dia nem mês para se manifestarem. Dessa forma, a melhor opção é prevenir ao contrário de apenas remediar, buscando uma boa saúde e viver bem.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Coisas que eu (não) sei

POR MARIA CLARA PIMENTEL

É simples, eu gosto de ficar perto de tudo aquilo que acho certo. Não quero escutar papo furado de quem acha que sabe de alguma coisa. Eu já experimentei bastante da vida e posso lhes contar de tudo que aprendi. Não é pouco para a minha idade, eu asseguro. Além de ser conhecedor das ciências, das religiões, da filosofia e literatura mundiais, aprendi a cuidar de animais de estimação, a cuidar da minha própria casa e a priorizar minha saúde sempre. Posso dizer que todas as coisas que não sabia e sempre quis saber, agora eu sei.

Além disso, eu tenho sempre uma opinião muito forte com relação às coisas que acredito, e não há nesse mundo quem consiga alterar. Considero uma característica polêmica minha, já que, enquanto muitos me invejam por eu estar tão inteirado de tudo que acontece ao meu redor, outros parecem lastimar essa minha habilidade. Isso porque já perdi vários amores desse jeito e supostamente deveria achar essa uma coisa ruim. Para a surpresa geral, eu acho é bom. Só assim me livro logo dessas pessoas ilusórias, que em um minuto dizem sentir coisas por mim, mas, logo em seguida, pisam na bola, e o sentimento se desfaz em questão de momentos.

É claro que também não acho isso a melhor coisa do mundo, é complicado. Sempre que conheço alguém novo, mais cedo ou mais tarde, ele se vai. Minha proeza de adivinhar quando estão fazendo coisas pelas minhas costas é um fardo e também uma vantagem. Adivinho o que acontece antes mesmo de alguém me contar, assim não caio nessas armadilhas de amor e evito de sofrer como um desnorteado. A questão é que as pessoas estão cada vez mais desleixadas com relação a relacionamentos, tudo é tratado com indiferença. Por isso, fico com tanta raiva que nem quero escutar o que eles têm a me dizer, já vou retirando suas coisas da bagunça do meu quarto, pois é assim que a minha confusão deveria ser: fechada para visitação. Os turistas não têm o mínimo de respeito.

Meus amigos também têm muitas sugestões sobre mim: muitas das quais, eu acho exagero. Pensam que me conhecem, mas falam tantas besteiras… Dizem que compro aparelhos que não sei usar, que não sei tanto sobre mim quanto penso que sei e que, supostamente, meu medo de relacionamentos mora perto das ideias loucas. Por favor, né? Eu me conheço muito bem, pois convivo comigo mesmo minha vida inteira, e sei que não tenho medo de me relacionar com as pessoas. A minha lei é que são eles que apertam o stop na gente, eles pedem por isso, e aí não tenho o que fazer.

Isso me frustra, de certo modo, ao ponto de achar que estou me afundando em uma areia movediça. Quase trinta anos na cara, formado em duas graduações, algumas especializações na conta, convites em palestras religiosas, pai de um gato e um cachorro, mas ninguém com quem dividir tudo isso. Parece que eu consigo fazer funcionar qualquer coisa, menos uma vida a dois. E eu não entendo! Isso me deixa nervoso e, quanto mais me mexo, mais sucumbo na areia, em um cenário imaginário (mas bem real) em que não preciso nem trocar de roupa. Entro e saio com uma grande facilidade, exatamente quando me convém.

Mês passado estava saindo com esse cara incrível. Pensei que estava tudo indo às mil maravilhas. Conheci-o na casa de um amigo e a atração foi instantânea, parece que meus olhos grudaram nos dele e eu já não conseguia desviar minha atenção. Fomos assistir a um filme e eu tinha que pausá-lo de tempo em tempo para entender bem o que estava acontecendo. E, como já é mania, em cada intervalo desse, fico imaginando como a estória pode se desenrolar a partir daí e como a trama se relaciona com o momento que eu, no papel de telespectador, vivo na minha vida. É o modo como gosto de assistir longas, e eu sei que muita gente não entende, mas eu também gosto de inserir a pessoa com quem estou assistindo nas hipóteses que crio na cabeça.

Ele não parecia muito interessado. Ficava mexendo no celular, e então percebi que estava claramente tirando uma com a minha cara! Por isso, depois de surgirem muitas cenas na minha cabeça, gritei com ele e saí de lá. Com razão, né? Ele não estava nem ligando se eu estava ali ou não, então fui embora. A verdade é que, quando cheguei em casa, não consegui lembrar de um só dos cenários que tinha imaginado. E quando minha irmã me perguntou depois por que não deu certo, simplesmente respondi: “Ah, porque ele não gostava de mim”.

Será que é o meu rádio-relógio que mostra o tempo errado ou estou ficando doido mesmo? Não sei mais o que fazer. Só faço cortar dobrado e acertar os meus pecados, mas ninguém parece ligar depois que eu já paguei. Será que não faz diferença? E meu momento de glória, não vai chegar nunca? É difícil… Eu só quero ficar perto das pessoas que acho que me fazem bem, que me fazem sentir certo. Pelo menos até o dia em que eu mudar de opinião. Eu sou um cientista, mas nem meu conhecimento consegue mais me distrair. O que estou fazendo de errado? Sempre me pego pensando nisso: construí tudo que sou e tudo que sei, conheço e desconheço coisas que antes eu não sabia nem da existência. Mas agora começo a perceber… Talvez, afinal, sejam muitas as coisas que eu não tenho o mínimo conhecimento. Não sei.

*Conto baseado em reinterpretação da música “Coisas que eu sei”, de Jorge Vercillo.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

“Quando minha estrutura não aguenta, Iemanjá vem e me sustenta”

Gabriella Batista, umbandista há mais de uma década, fala sobre sua conversão à religião, o amor aos Orixás e a luta contra o preconceito


POR LUCIANO VAGNO

Surgida no Brasil no início do século passado, a Umbanda completa 111 anos em 2019.  Segundo dados do Censo de 2010, há no Brasil mais de 400 mil adeptos. Gabriella Batista, filha de Iemanjá e Oxalá, tem 20 anos e é um deles. Natural de Parnamirim, a estudante de Enfermagem conta que, embora tenha entrado para a religião por meio da enfermidade, hoje se vê orgulhosa de sua cultura e conta um pouco de sua história.

Gabriella com seu típico traje branco e sua Guia (colar) com as cores de seus Orixás: azul, em referência à Iemanjá, branco, referenciando Oxalá, e algumas pedras verdes que representam seu fundamento com os Erês (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Durante a infância, Gabriella era muito doente e passou por diversas internações com um quadro de colesterol muito alto, porém sem saber o motivo da doença. Depois de mais uma internação, um médico aconselhou à família da paciente que buscasse um centro espírita, pois a causa da doença poderia ser espiritual. A mãe de Gabriella procurou um terreiro de Umbanda. Ao chegar no local, uma entidade informou que tudo aquilo era a espiritualidade da menina aflorando. “A espiritualidade arruma um jeito de chamar a gente. Quando a gente não entra por querer, há uma forma dela nos buscar e a forma que a espiritualidade me buscou foi através da doença”, conta a estudante.

Gabriella recorda que chegando ao terreiro foi atendida por um Erê (entidade infantil), o qual lhe disse que todo aquele processo se tratava de um adoecimento espiritual e seria curado se seguisse os rituais da religião. A jovem relembra que a princípio não quis fazer o ritual, porém a entidade lhe disse que, se não o fizesse, poderia voltar a adoecer e foi o que aconteceu. Dessa vez, ao sair do hospital, Gabriella foi a um centro de Umbanda em sua cidade e, desde então, passou a ter uma vida saudável. “Eu tenho total agradecimento à minha religião, porque eu sei que foi por ela; eu poderia não estar aqui hoje para contar meu relato, então eu sou muito grata às minhas entidades e à minha espiritualidade”, diz.

“A Umbanda é paz e amor
É um mundo cheio de Luz
É a força que nos dá vida
É a grandeza que nos conduz”

O trecho acima é uma estrofe do Hino da Umbanda, escrita por José Manoel Alves e oficializada como hino em 1961. Perguntada sobre o que a religião significa para ela, Gabriela declara: “Tudo o que eu sou, a minha identidade, construí dentro de um terreiro de Umbanda, e eu sou muito grata a isso. Eu não sei como seria se eu não fosse de um terreiro. Lá, a gente aprende a amar, respeitar as pessoas... A gente aprende a conhecer antes de julgar”.

A universitária conta que, por iniciar sua caminhada espiritual muito jovem, os costumes referentes à sua religião sempre foram tratados com naturalidade, e cita o exemplo da época da escola: quando os colegas diziam “Eu sou católico”, “Eu sou evangélica”, ela dizia “Eu sou umbandista”. Quando havia festinhas escolares e as pessoas diziam que haveria a presença de outros representantes religiosos, a Gabriella de oito anos falava: “Também vai ter meu pai de santo, porque se todo mundo vai ter seu representante, eu quero o meu”.

A união entre os fiéis é uma característica marcante na Umbanda, como diz Gabriella: “A gente trabalha muito essa questão da família. Pode não ser de sangue, mas depois que você entra no terreiro, todo mundo vira sua família. Nós nos protegemos não só dentro do terreiro, mas também fora das quatro paredes do Sagrado. A gente sempre procura estar ligados uns aos outros. Acreditamos que cada um de nós tem sua espiritualidade, seu Orixá”.

Orixás são guias e personificações de elementos da natureza e, segundo a crença umbandista, todas as pessoas possuem a proteção de dois deles: o Orixá de frente e o junto. Sobre isso, Gabriella acrescenta: “Eu sou filha de Iemanjá, Senhora das Águas, mãe de todas as cabeças. E, como filha de Iemanjá, trago muito essa questão do amor, do acolhimento, de abraçar as pessoas... De, às vezes, deixar os meus problemas de lado para tentar solucionar os problemas dos outros”.

Vários foram os momentos que marcaram a vida de Gabi, como é conhecida pelos familiares e amigos, nestes quase 12 anos de umbandista. Contudo, um que relembra com carinho foi o Ritual de Confirmação de Sete Anos na religião, em 2016. Ao se tornar adepto da Umbanda, o fiel é batizado; três anos depois, é realizada uma cerimônia de confirmação e quatro anos mais tarde, outra cerimônia, totalizando sete anos.

Em 2016, Gabriella estava no auge dos seus 16, 17 anos, cursando o terceiro ano do Ensino Médio, e nutria o sonho de entrar na Universidade Federal. Estudante de escola pública, ela ouvia os colegas dizendo que iriam fazer cursinho para entrar na Federal, então conversou com sua mãe, dizendo que queria muito entrar na universidade e que também gostaria de fazer um cursinho preparatório.

Entretanto, nesse ano, a jovem tinha o processo de confirmação dos seus sete anos e isso exigia tempo e dinheiro. Então ela teve que fazer uma escolha: o cursinho ou juntar dinheiro para cumprir sua obrigação na religião. “Minha escolha foi não fazer o cursinho e estudar por conta própria, para assim guardar o dinheiro para minha obrigação. Tinha tudo para dar errado, mas deu tudo certo”, recorda.

Naquele mesmo ano, Gabriella pôde realizar diversos sonhos: “Eu também tinha muita vontade de trabalhar no Jovem Aprendiz, mas ainda não tinha conseguido. Na esquina da minha casa tinha uma lan house, e do nada a dona me fez a proposta de trabalhar lá das 8h às 11h da manhã, assim eu continuaria estudando e eu amei. Não era o Jovem Aprendiz, mas não deixou de ser uma forma de ganhar dinheiro, que era o que eu queria: trabalhar pela manhã, estudar de tarde e à noite ter minha vida social e estudar para o Enem”, relata. O ritual de confirmação de Gabriella aconteceu no dia 16 de julho de 2016, dia especial na Umbanda, onde se comemoram Oxum (Orixá do amor). Além do Enem, a estudante fez mais duas outras provas e foi aprovada em todas.

O carinho, devoção e gratidão pelos Orixás é visível toda nossa conversa. Sobre Iemanjá, a jovem declara: “Eu costumo dizer que quando minha estrutura não aguenta, Iemanjá vem e me sustenta, porque quando penso que ninguém está olhando por mim, fecho meus olhos, acendo uma vela e falo com Iemanjá. Eu sinto o abraço do mar. Quando tudo está mal, digo ‘Eu vou na praia, só para ficar lá, sentada, ouvindo o balanço do mar e Iemanjá vai me dar uma resposta; mesmo que ela não me dê uma resposta, vai me trazer a tranquilidade e serenidade’”.

Ao sentar na grama, a umbandista tirou as sandálias em respeito, como diz ela, ao solo sagrado (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Militante, Gabriella explica que compõe a Rede de Jovens de Matriz Africana e Terreiros do Rio Grande do Norte (Rejomate-RN) e que também já fez parte da Associação de Mulheres de Axé (AMA). Ela diz que a fé tem um papel fundamental em sua vida, pois é nela que encontra forças para continuar lutando e seguir acreditando em seus ideais. “Eu preciso de fé. Se não tenho fé naquilo que professo, no que faço, não vou conseguir estar bem comigo e com as outras pessoas. Eu tenho que ter fé ao acordar e ao dormir”, acrescenta.

Umbanda, como o nome já diz, é união de todas as bandas, e tem em sua essência elementos de outras religiões. No entanto, muitas pessoas a confundem com o Candomblé. Gabriella explica que a Umbanda é a única religião cem por cento brasileira, ao contrário do Candomblé, que tem seu berço no continente africano. A estudante de Enfermagem segue explicando que sua religião surgiu no dia 15 de novembro de 1908, em São Gonçalo, RJ, fundada pelo médium Zélio Fernandino de Moraes, aos 17 anos de idade, e que, assim como Gabriella, também estava doente e a medicina não conseguiu solucionar seu problema.

A parnamirinense conta que acredita no poder da natureza e fala sobre a relação dela com os Orixás: “Nós protegemos e saudamos a natureza, porque somos a natureza; acreditamos no poder das folhas e das ervas de Oxóssi, Senhor das Matas; acreditamos no poder das águas do mar e do rio, nos ventos de minha Mãe Iansã; acreditamos na justiça, e que ela está sendo feita a todo o momento por Xangô, que traz a balança que pesa o certo e o errado. Ogum, para a gente, traz a coragem e a força; Iemanjá é grande Senhora do mar. Saudamos a Oxum, que é doçura, a Grande Mãe, que traz não só a riqueza, mas também fertilidade e amor. Temos Omolu, Senhor da cura, aquele que está sempre coberto por palhas; temos também Exu, que, quando falamos sobre ele, muita gente fica com medo, achando que ele é algo do mal, muito pelo contrário, para a gente, é ele quem abre caminho, quem mais chega próximo do ser humano; e temos também Oxalá, o criador”.

A umbandista conta que ao nascermos, um Orixá é designado a tomar conta de nosso Orí (cabeça), e que não podemos o escolher, porém, segundo ela, nós que somos escolhidos, e isso envolve o dia e horário de nascimento, e o Orixá que estava regendo o ano. “Nós acreditamos que quando uma criança nasce, ela é amparada por Iemanjá, que entrega a criança para a divindade que será seu pai ou sua mãe”, explica Gabriella.

Também feminista, a universitária conta que aprendeu dentro do terreiro a lutar pelas causas femininas: “Aprendi com as Iabás (Oxirás femininos); mulheres tipo Iansã, uma mulher de guerra no tempo em que só homens estavam na frente das lutas, ela estava lá para guerrear. Então aprendi isso com ela, com a minha mãe Iemanjá, com a Pomba Gira, que são mulheres à frente de seu tempo e com quem aprendi que o lugar da mulher é onde ela quiser”, diz.

Uma realidade vivida quase que diariamente pelos adeptos de religião de matriz africana é a intolerância religiosa. “Eu acho que a gente sempre passa pelo preconceito, não só eu, mas todos os meus irmãos, e é muito triste”, diz a umbandista. O terreiro que Gabriella frequenta fica em sua cidade, Parnamirim, e ela conta que o mesmo já foi apedrejado por um morador da comunidade: “A gente não está fazendo nada de errado, estamos dentro de nosso direito.  Em um Estado que se diz laico, eu sou impedida de professar minha religiosidade”. A jovem ainda relata que já foi vítima de preconceito e relembra um episódio de quando ia para a escola com vestes e pano de cabeça brancos, nas sextas-feiras, dia sagrado para a religião, e os colegas ficavam olhando feio para ela.

A futura enfermeira prossegue contando outros casos de intolerância vividos por conhecidos e fala sobre a necessidade de uma sociedade que respeite a diversidade: “Nós temos outros religiosos que já foram apedrejados aqui em Natal, outros já foram espancados com a Bíblia... Um jovem já foi agredido ao ponto de ir parar na UTI e eu acho isso muito incoerente. Nós não andamos dentro dos ônibus cantando nossos pontos nem batemos nossos tambores, mas somos obrigados a ouvir a palavra das outras religiões. Então eu acho que do mesmo jeito que nós respeitamos, também queremos ser respeitados”, desabafa. A jovem conta que no ambiente universitário a situação é mais positiva. Além de encontrar outros irmãos de fé, a umbandista diz que pode andar livremente com seus trajes sem sofrer com os olhares tortos e preconceituosos, entretanto reconhece que outros fiéis não têm a mesma sorte.

No dia 20 de novembro de 2019, Gabriella recebeu a comenda Zumbi dos Palmares, que tem como objetivo evidenciar a força e resistência da cultura negra (Foto: Arquivo pessoal)

Gabriella fala ainda sobre a importância de que mais umbandistas ocupem espaços: “É importante que cada vez mais nós afirmemos nossa religiosidade. Dessa forma, a gente vai desmistificando. A gente vai apresentando, mostrando para as pessoas o que é nossa religião, que não é nada desse bicho de sete cabeças que o povo fala; e dessa coisa de macumba, que não passa de um instrumento musical. Quando me chamam de macumbeira, eu digo ‘Com muito orgulho, mas infelizmente não sei tocar a macumba’. Eu tento, em todos os espaços, desmistificar isso”. Para ela, a melhor maneira de acabar com a intolerância é na base da conversa e do ensinamento, tratando com calma e educação aqueles que falam mal da religião.

Um desejo que Gabriella revela é que o Rio Grande do Norte se torne um estado com intolerância religiosa zero; acrescenta que gostaria de ver o povo negro e umbandista ocupando mais as universidades e os espaços de poder, além de ter um representante defendendo suas pautas também na política. “Eu quero uma sociedade com mais amor. Que as pessoas possam se respeitar mais. Nós trabalhamos com o respeito e quero que esse respeito saia de dentro dos nossos terreiros e vá para todo Brasil e que se torne um país com mais respeito, um país com mais amor”, finaliza Gabriella.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A luta em dobro da mulher no jornalismo esportivo: a necessidade de se impor para ganhar reconhecimento


Mesmo com o aumento da presença na área, a mulher ainda não é vista como um personagem comum quando se trata do jornalismo esportivo, sendo vítima de barreiras quando tenta aparecer


POR LARISSA DUARTE

Ana Karla Martins em uma palestra para turmas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Foto: Fernando Amaral)


“Eu não fico próxima a essas pessoas, apenas passo por eles. Teve uma vez que eu fiquei muito nervosa. O sujeito gritou meu nome e disse que ia me encontrar na rua e me estuprar”, relatou Ana Thais Matos, repórter da Rádio Globo e comentarista do SporTV.

Há alguns anos, era extremamente fora do comum encontrar uma figura feminina, seja na televisão ou no rádio, como repórter esportiva. Hoje se tornou mais corriqueiro assistir uma mulher entrevistando jogadores na beira do campo após uma partida de futebol, mas o preconceito contra elas continua existindo.

Sem segredo, mulheres sempre foram tratadas como objeto e como se não tivessem competência. Qual é a mulher que nunca disse que gostava futebol e foi questionada incansavelmente acerca de elementos básicos como “o que é impedimento”, perguntas essas que dificilmente são direcionadas a homens? É como ganhar na Mega-Sena: quase impossível.

Ana Karla Martins, jornalista de 35 anos, natural de Natal, é uma das repórteres esportivas que mais possui prestígio no cenário futebolístico do Rio Grande do Norte. Já atuou no canal Esporte Interativo, onde ficou conhecida, e chegou a cobrir a seleção brasileira quando esta jogou na Arena das Dunas.


Ana Karla Martins e Andréia Freitas (da TV Ponta Negra, afiliada do SBT no Rio Grande do Norte) preparadas para trabalhar no Frasqueirão, estádio do ABC (Foto: Augusto César)



“Quando eu era jovem, já tinha essa afeição por esporte e eu sempre gostei muito, tanto de futebol, quanto de Fórmula 1. [...] Meu sonho era fazer jornalismo porque eu queria cobrir aquelas coisas, eu queria estar no meio daquelas coisas. Foi natural”, contou a jornalista.

Com a experiência de Ana Karla Martins, muitas mulheres acabaram sendo inspiradas a seguir pelo jornalismo esportivo. No Rio Grande do Norte nunca foi muito comum encontrar a figura feminina na beira do campo. Sem dúvidas, ver uma mulher cobrindo esporte, em um grande canal por assinatura nacional, mostrou que é possível seguir os sonhos pela área.

Iniciando sua carreira pela Rádio Clube, por meio de uma campanha em busca de uma mulher para entrar na equipe, Ana Karla agradece a quem lhe ajudou: “Jorge Aldir foi quem realmente me abriu essas portas, a quem eu sou muito grata pela oportunidade que me deu. [...] Ele me contratou sem eu ter experiência alguma”.

Quanto ao preconceito comum na área esportiva e que ela também enfrentava na empresa, a jornalista fala sobre o receio das pessoas com que ela trabalhava: “Eu sentia da equipe um certo ‘com ela a gente faz assim’. [...] Eu sempre tive que me impor mais. O que para os homens acabava sendo natural, eu tinha um trabalho dobrado. O público tinha um certo preconceito. Hoje eu acho que já diminuiu muito pela quantidade [de mulheres] que se tem”.

“Foi uma coisa que eu tive que me impor para chegar ao ponto de ouvir que eu estava ali porque tinha algo a oferecer. Esse começo foi meio difícil”, indica Ana Karla Martins sobre as dificuldades do seu início de carreira.

Bolsa Redonda foi um dos primeiros programas a serem veiculados em rede nacional que tinha foco na figura feminina para falar sobre o mundo da bola. Apesar disso, a atração comandada em 2013-2014 por Fernanda Gentil não ganhou o alcance suficiente para desmistificar a mulher no meio esportivo. Com pautas superficiais, onde a beleza dos jogadores era posta sob análise constantemente, a verdadeira conversa de futebol e debates pouco existia.

Comprovando ainda mais a ideia da mulher como objeto, no programa Extraordinários, da SporTV, em meados de 2015, a atriz Maitê Proença surgia como um gancho humorístico. A superficialidade era esbanjada a todo custo, como em um determinado episódio, no qual ela realizou um strip-tease em homenagem ao retorno do Botafogo à primeira divisão; também já chegou a fazer comparações entre fotos de jogadores pelados, como Pelé e Maradona. Foram raras as vezes na qual fez comentários com seriedade. Infelizmente situações como essa só ajudam a manchar a presença das mulheres no ramo do jornalismo esportivo.

Ana Karla Martins realizando entrevistas pelo Esporte Interativo, na Arena das Dunas, na partida do América x Remo, pela série C (Foto: Divulgação)





Sobre relatos de preconceito direto em campo, Ana Karla Martins confessa que nunca houve nenhuma ofensa relacionada a ser mulher que lhe recordasse, admitindo que usava os dois lados do fone para se manter informada em campo e, assim, ficava alheia aos possíveis comentários direcionados a ela.

“Uma vez eu estava entrevistando um jogador e ele disse que eu era muito bonita, mas, do jeito que eu estava, terminei a pergunta e fui embora. Faz muito tempo, foi em 2008 quando eu ainda trabalhava na rádio”, falou a jornalista sobre a situação.

Houve ainda, segundo ela, uma época no ano de 2018, em que passou um mês de jogos do ABC sendo ofendida com palavras de baixo calão, como “rapariga”, pois torcia para o time rival e teria, supostamente, deferido críticas a respeito do alvinegro.

“O Esporte Interativo me proporcionou experiências únicas na minha vida, foram 5 anos dedicados. Eu abdiquei de muita coisa. Quando eu entrei no canal, meu filho tinha 6 meses de vida, para você ter uma ideia. Foi nessa época que eu cobri a seleção brasileira, era 24 horas de vida durante uma semana, e foi uma experiência muito boa. Fiquei ao lado de grandes nomes do jornalismo, como Mauro Naves”, contou Ana Karla, feliz sobre a sua realização.

Mesmo com a televisão carente de representatividade feminina no esporte, Ana Karla Martins ainda indica que houve uma figura de exemplo quando decidiu ser jornalista veiculada a esportes, e o nome era Glenda Kozlowski. Para ela, suas matérias inspiravam, e era uma das poucas mulheres que tinha holofotes na época, realmente passando informações válidas a quem lhe assistia.

Isso apenas mostra o quão necessário é ligar a televisão e poder encontrar um rosto feminino em um programa de esportes. Assim como Ana se inspirou em Glenda, muitas jornalistas podem ter usado da potiguar um exemplo e referência para seguir o que sempre quiseram.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Curso Marielle Franco auxilia preparação para o ENEM e pensamento crítico dos alunos

Realizadas todos os sábados, as aulas proporcionam a dezenas de alunos a oportunidade de se preparar para a prova com uma educação de qualidade

POR LARISSA DUARTE E VITÓRIA MEDEIROS


A Rede Emancipa é um projeto de educação popular que atende a estudantes pré-vestibulandos e alcança, principalmente, os de escola pública. Iniciado em 2007, no estado de São Paulo, o movimento funciona ao redor do Brasil e no Rio Grande do Norte possui três filiais: em Natal, Ceará-Mirim e Mossoró.

Na capital potiguar, a rede ainda é recente, está no seu terceiro ano de funcionamento. A sede está localizada na UERN, situada na Zona Norte, região próxima a lugares periféricos da cidade. Em Mossoró, o diferencial é que a Emancipa acontece como um projeto de extensão da UERN e possui o maior número de alunos entre todas as filiais do país.

Já em Natal o projeto leva o nome da vereadora carioca Marielle Franco, conhecida por defender os direitos humanos e ter sido assassinada em 2018. A escolha surgiu a partir dos próprios estudantes em conjunto com a coordenação.

O foco do projeto não limita-se a conteúdo para o ENEM, mas também envolve o desenvolvimento do senso crítico dos alunos. Além das aulas no formato tradicional - que acontecem todo sábado em período integral -, os professores promovem debates e rodas de conversas. Os assuntos variam, mas o enfoque é sempre questões sociais e os mecanismos para combater, como racismo e feminismo.

Roda de conversa que aconteceu no sábado (12 de outubro) sobre personalidades negras que foram apagadas na história do país. Zumbi dos Palmares e Teresa de Benguela foram alguns dos escolhidos para a discussão (Foto: Larissa Duarte/Caderno de Pauta)

Para a coordenadora nacional da Rede Emancipa, Tatiane Ribeiro, 30, a importância do curso ser localizado na Zona Norte está no maior alcance ao público de baixa renda:. “A gente sempre tenta se instalar em periféricas. Aqui começamos numa escola pública e a convite da UERN nos mudamos”, contou a responsável.

Uma história marcante para Tatiane, foi a de uma aluna de mesma idade que estava “super engajada” com o Enem, mas iria abandonar o curso porque conseguiu um emprego de auxiliar de cozinha e na época estava desempregada:. “Ela me mandou uma mensagem e eu fiquei super emocionada [...]. Ela é negra, então é o nosso chamado: eu estou voltando para a cozinha, estou voltando para a senzala. A gente tenta sair dela, mas sempre somos puxados de volta”, falou a coordenadora.

Nesse caso, um grupo se reuniu e impediu que a aluna trabalhasse nesse serviço. No momento estão ajudando com suas despesas e ela permanece estudando no Curso Marielle Franco, apesar da difícil situação.

A história da estudante não é um caso isolado. Devido a situação financeira da maioria dos estudantes inscritos no Emancipa é comum que hajam desistências. As aulas serem nos sábados foi uma das ideias pensadas para conciliar a vida dos alunos com o projeto, trabalho, escola ou família, pois dessa forma haveria maior frequência de participação.

O perfil dos alunos variam de jovens a adultos. Alguns ainda cursam o ensino médio, já outros abandonaram o estudo há anos e buscam no curso uma chance de retornar a sala de aula e tentar ingressar em uma universidade.

Como exemplo tem a aluna Nicole Holanda, 28, que passou anos distante do ambiente escolar e agora sonha em cursar algo na área da saúde. Para ela, o mais complicado é a adaptação na sala de aula. Por vezes ela relata ter dificuldades nos conteúdos apresentados por nunca tê-los visto na escola ou na vida: “A gente tem aprendido muito, aqui com eles. Não só sobre as matérias, né? Mas sobre tudo que tá acontecendo”, diz a estudante.

Turma atenta na aula de biologia ministrada pelos professores Dalvan Henrique (24), Carla Tatiane (20) e Renata Clicia (30) sobre divisão celular (Foto: Vitória Medeiros/Caderno de Pauta)

De acordo com as informações, todos os professores que lecionam no curso Marielle Franco são voluntários. O perfil desses educadores varia de acordo com cada filial da Rede Emancipa. Em Natal a maioria são estudantes, já em Ceará-Mirim são professores de rede pública. O máximo de gratificação que eles recebem são horas complementares nas grades curriculares, caso ainda estejam cursando algo.

Para a professora voluntária Renata Clicia, licenciada em Biologia pela UFRN: ‘’Aqui é uma forma, tanto de contribuir, quanto receber’’. A bióloga, que entrou no Emancipa no segundo semestre de 2018, avalia sua participação no projeto como um meio positivo de ganhar experiência, realizando o seu desejo pessoal de ser voluntária: ‘’Tem muita gente que entra, na Universidade, todos os anos, e eles acabam encontrando professores do Emancipa e agradecem bastante, dizem que o projeto mudou a vida deles. [...] O que mais me marca é essa gratificação. Saber que a gente plantou uma sementinha ali, que a gente contribuiu de alguma forma’’, completa Renata.


Tatiane fala sobre debate com os alunos sobre uma experiência de racismo estrutural que aconteceu no seu ambiente de trabalho (Foto: Larissa Duarte/Caderno de Pauta)

Mesmo com tudo que é realizado pela Rede Emancipa, ainda há muita resistência das famílias em apoiar aqueles que são alunos. Existem casos em que preferem ver o jovem procurando um emprego do que tentar uma vaga no ensino superior público.

“Nós não individualizamos nenhum fracasso e nem nenhum sucesso. [...] A gente tem que pensar quem é o perfil do nosso estudante. Ele não acredita que pode passar na universidade. E tem muita pressão externa para ele largar o cursinho: da família e dos amigos”, falou a coordenadora nacional Tatiane. “Você não vai passar, a universidade não é para a gente (as pessoas externas dizem). Elas não fazem por mal, porque não é totalmente mentira. A universidade não foi feita para os nossos alunos”.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Recortes da Venezuela: uma Natal para refugiados

Contando com a generosidade do povo natalense, seis famílias venezuelanas chegam à capital


POR CAMILA EMILY, FRANCISCA PIRES E LUCIANO VAGNO

Os pobres em sua cabana chamada liberdade”, diz um verso do hino venezuelano. Outro trecho complementa: “Tremia de medo um egoísmo vil”. Um hino nacional talvez nunca tenha falado tanto sobre o seu povo: prefere o medo do desconhecido ao medo do que já conhece. Não existe perspectiva de vida, de quando chegará o aniversário, quando irá ver a família ou até mesmo a chegada do ano novo; o tempo parece não ter cronologia e a única prioridade é conseguir se manter vivo ao fim do dia. A situação aqui no Brasil não é boa, mas oferece os subsídios necessários à sobrevivência. Os refugiados venezuelanos procuram apenas um lugar para chamar de lar. Dos filhos deste – e de outros solos – és mãe gentil. Essa luta por uma vida mais digna é o que marca os dias de quatro famílias que tivemos a oportunidade conhecer: os estrangeiros que pedem ajuda nos semáforos das grandes avenidas de Natal passam a ter rosto, nomes e histórias.

Abrigo em meio ao caos

Apesar da pouca idade, Ioranda precisa passar o dia
no sinal com sua família
(Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta)
Uma íngreme e já desgastada escada marca a entrada do local que estávamos procurando. O único som que se ouvia era o do silêncio, parecia não haver ninguém. Constituída por um conjunto de quartos pequenos e paredes cobertas por um cal capaz de esbranquiçar nossas roupas, a kitnet localizada na Cidade da Esperança, em Natal (RN), encontrava-se bagunçada e repleta de olhares que acompanhavam desconfiados nossa chegada. Eloisa Mata, 17 anos, foi a primeira a nos receber, trazendo seus documentos para uma apresentação mais formal, e com um riso envergonhado contou que não podia soletrar seu nome, pois em seu país natal não teve oportunidade de estudar.

Apesar da baixa estatura, Eloisa aparenta ser bem mais velha do que realmente é. Essa característica é comum a todos os personagens que conhecemos, como se o sofrimento e a luta diária para conseguir sobreviver conseguissem adiantar o tempo e envelhecê-los dez, quinze, até vinte anos mais rápido. Ainda assim, nossa primeira anfitriã traz consigo um olhar esperançoso de menina, até mesmo enquanto fala sobre a grave crise da Venezuela; afirma que não consegue se recordar de uma época em que a vida no seu país foi boa. Eloisa faz essas tristes constatações, enquanto amamenta a filhinha Suleme, de dois anos.

Aos poucos, aproximaram-se o casal Yurleni e Daniel Mata, tios de Eloisa. Ele, aos 29 anos e ela, 24, chegaram a Natal com o grupo há cerca de 20 dias, trazendo seus dois filhos. Os dois são casados desde 2010 e viviam na cidade de Tacupita, pertencente ao estado de Delta Amacuro. O estado natal da família é conhecido pelas suas belas paisagens e basta uma pesquisa breve para ficar admirado com as riquezas naturais do local. No entanto, não é assim que Yurleni o descreve: “Os governantes de lá não fazem nada, nunca. Vimos crianças morrendo de fome, pessoas morrendo sem ajuda, não tem nem remédio,” desabafa.

O preço da liberdade

Yurleni e seu marido, Daniel, preferem viver no Brasil a voltar para sua terra natal (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta

O grupo composto por mais ou menos seis famílias chegou ao Brasil dois meses atrás, entrando no país por Roraima e passando por Manaus, Belém, Maranhão e Caicó antes de chegarem à capital do Rio Grande do Norte. Uma parte dessas pessoas está hospedada no hotel de baixo custo “Hotel Cidade do Sol”, onde a diária custa em média 20 reais. Porém, a família com que conversamos está abrigada em frente ao hotel e ao lado de um restaurante, pagando quinzenalmente o valor total de R$ 400 pelo aluguel de um quarto – R$ 200 e depois mais R$ 200. O valor que é, de fato, muito alto tem sido motivo de preocupação para os venezuelanos que, mesmo recebendo doações de anônimos e pedindo no sinal, não conseguem apurar o suficiente para lidar com todas as despesas: “Aqui se não trabalhar muito, não come,” diz Yurleni.

Vale destacar que muitos deles sequer falavam espanhol, boa parte foi apenas alfabetizada em uma língua indígena local, cujo nome não conseguimos descobrir através das árduas conversas em portunhol. Por este motivo, a comunicação com as pessoas que vivem perto é difícil, dando margem a algumas situações abusivas, como superfaturamento na compra de comida ou outros serviços básicos que precisam utilizar. Yurleni, Daniel e Eloisa contam que são acordados pelo proprietário da casa para irem trabalhar, mas não souberam especificar o tempo de trabalho que realizam durante o dia. Essa versão foi negada pelo proprietário da casa, João Pereira.

“Nunca trabalharam para mim, isso é mentira. Inclusive, me arrependo de ter alugado [o quarto], porque eles são barulhentos e bagunceiros. Já me deram prejuízo quebrando uma porta,” conta João. O senhor lamenta a decisão de ter oferecido abrigo aos venezuelanos, porque, segundo ele, acreditava ser uma única família e não várias, como vieram. Por causa do grande número de crianças, a desordem e barulho são os fatores que mais o incomodam enquanto locador. O homem se mostra muito contrário à permanência dos estrangeiros, afirmando que eles são muito espertos e chegam a apurar até R$ 300 em um dia pedindo no sinal.

O taxista, Lourival da Silva, cujo ponto de trabalho é próximo ao local, completa a fala afirmando que o grupo recebe ajuda “até demais” – pessoas anônimas costumam promover sopões beneficentes e doam roupas para eles: “O brasileiro é solidário né? Fazer o que,” finaliza.

Sob o olhar do senhor Custódio 

Curioso para saber o que estava acontecendo, surgiu o carismático senhor Custódio Jaime, 56. As mãos calejadas indicam que os dias não lhe foram fáceis. O venezuelano nos conta que está com sua esposa e seus dois filhos há duas semanas na capital potiguar. Eles fazem parte do grupo indígena Warao, e vêm do município de Antonio Díaz, também localizado no estado de Delta Amacuro. Sua entrada ao Brasil foi pelo estado do Pará, depois pelo Maranhão, em seguida, Ceará e, por fim, Rio Grande do Norte. Olhando pela janela sem vidro, o senhor conta o motivo que o levou a sair de seu país natal: “O preço dos alimentos está muito caro; não tínhamos dinheiro para continuar morando lá. Por isso chegamos aqui buscando um melhoramento na vida”. Ele prossegue dizendo que encontrou na capital natalense essa melhora, e a maneira de consegui-la é indo para as ruas: é de lá que eles conseguem dinheiro para comprar alimento e pagar o aluguel.

Apesar das dificuldades, o senhor Custódio mantém o bom humor (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Perguntado sobre o que mais sente falta da Venezuela, se prontifica a dizer: “Nós não conhecemos nem andamos com políticos, mas um presidente ajudava bastante: o presidente-comandante Hugo Rafael Chávez Frias. Ele ia por toda a Venezuela – toda, até o município Antonio Díaz”. O carinho por Hugo Chávez é compartilhado por diversos venezuelanos, pois, de acordo com Custódio, Chávez fazia o país evoluir. “Quando o presidente morreu [em março de 2013] entrou esse, como chama? Nicolás Maduro. Aí ficou mal,” acrescenta.

Custódio declara que, em Natal, até o momento, ele e os demais refugiados não receberam nenhuma ajuda do governo do estado, porém, contam com a solidarização das pessoas que lhes trazem sopa durante a noite. O venezuelano explica que, atualmente, ele e a família não possuem cozinha, nem cama. Mesmo passando por momentos de dificuldades, o homem mantém o bom humor e revela que, apesar de estar há alguns dias em solo potiguar, só agora está conhecendo a cidade.

Custódio e seus familiares confeccionaram placas em português para pedir ajuda nas ruas de Natal (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Enquanto estávamos conversando com o senhor Custódio, uma outra família venezuelana chegava ao lar temporário após mais uma manhã pelas ruas de Natal. Orlando, sua esposa e seu filho de um ano e três meses nos cumprimentaram com sorrisos tímidos, acompanhados de um “buenos días”. O senhor Orlando, cujo sobrenome não pudemos entender, não soube nos dizer sua idade, entretanto declarou: “A vida aqui em Natal é boa; nós precisávamos vir para Natal. Precisamos ir à rua para poder comprar comida, roupa para a criança e pagar esse aluguel. Os outros venezuelanos não ajudam. O presidente é muito mau. Então, depois que aqui chegamos, o povo de Natal tem nos ajudado um pouquinho na compra de comida, fralda para a criança e remédio”.

Orlando e sua família costumam pedir ajuda nas ruas de Natal das 8h às 13h (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Orlando e sua família estão há três noites no local – são naturais da cidade de Tucupita, que fica no mesmo estado do senhor Custódio e das outras famílias que conhecemos. O venezuelano conta que estudou apenas quatro anos, mas apesar do pouco tempo em território brasileiro, ele diz já compreender algumas palavras em português. Na porta de seu minúsculo quarto, Orlando nos mostra, com um sorriso no rosto, o cartaz improvisado que levou à rua. Subitamente, surge atrás dele sua mãe, carismática e com um vestido “chamativo”. Logo, toda a família está reunida na porta do quarto.

As famílias entrevistadas vivem em situação precária na Grande Natal (Foto: Luciano Vagno/Caderno de Pauta)

Os semáforos que trazem esperança 

Dona Esperanza afirma não ter comido nada
desde a hora que acordou
(Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta)
Debaixo do agressivo sol das 11h em Natal, um grupo composto por três mulheres e duas crianças pedia ajuda no movimentado semáforo da Avenida Engenheiro Roberto Freire. Carregando características placas que explicam sua situação, as mulheres aproveitavam o sinal vermelho para se aproximar dos carros na esperança de serem ajudadas com doações de objetos ou dinheiro. No momento de nossa chegada, avistamos Maria aproveitando a sombra – uma adolescente de 15 anos que carregava em seus braços cansados seu primeiro filho, José Davi, de seis meses; ao lado deles estava a pequena Ioranda, de quatro anos.

A mãe das meninas, dona Esperanza, 40, aproxima-se falante e animada. Com seus muitos adereços no pescoço e pulsos, reclama da pouca ajuda que recebeu naquela manhã e mostra suas poucas moedas como prova da insatisfação. Apesar disso, se mostra forte e ao ser perguntada se estava cansada responde convicta que não e que está longe de ficar. Assim como todos os outros personagens, a senhora bem-humorada diz não ter saudade da Venezuela, afirmando que apesar da dificuldade, estar no Brasil é muito melhor. Esperanza reclama do valor do táxi que as leva para casa, aquela mesma dos outros entrevistados na Cidade da Esperança, pois todos os dias pagam cerca de R$ 30 para ir e mais R$ 30 para voltar. Seu horário de trabalho nas ruas vai sempre das 8h da manhã às 13h. As mulheres nos contam que, até aquele presente horário, não tinham comido nada e que compram todos os dias seu almoço perto de casa. Apesar de gostarem muito de Coca-cola não a compram mais, porque da última vez o litro saiu por R$10.

Mesmo passando o dia nas ruas, o apurado ainda costuma ser pouco (Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta)

A jovem Maria, bem mais desconfiada e tímida que a mãe, conta que o pai do seu filho ainda está na Venezuela, mas que pretende vir em breve para o Brasil, pois a situação lá, segundo ela, só piora. A irmã, Ioranda, vestida com uma roupa contendo a bandeira do Brasil, não saiu um minuto do lado dela e do sobrinho. A pequena não considerou falar muito, se deteve a alguns gestos e risadas contidas diante das nossas tentativas de aproximação. Aos poucos, vendo a desinibida fala da mãe que faz jús ao nome que tem, as meninas foram ganhando confiança, perdendo a timidez e interagindo mais diretamente com os nossos questionamentos. Um pouco mais distante do sinal, estava a terceira mulher. Também filha de Esperanza, muito calada, ela não parecia falar espanhol nem entender o que tentamos dizer; dessa, infelizmente, não conseguimos captar sequer o nome.


O que diz a história


Boa parte dos membros das famílias
refugiadas são crianças
(Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta)
Com a crise política e econômica que assombra a Venezuela, os filhos dessa terra se veem obrigados a deixar o país. Pela proximidade com algumas cidades, Rondônia é o principal destino – seja de moradia ou de compras. São seis anos de um caos que só aumenta e uma miséria que se alastra pelas classes mais vulneráveis da sociedade.

Se outrora fora um dos países mais ricos da América Latina, atualmente não há mais resquícios da “Venezuela Saudita”, apelido que faz referência a Arábia Saudita. Hoje, a alusão faz um pouco mais de sentido apenas se levarmos em consideração que em ambos os casos existem questões geopolíticas envolvendo o petróleo. A crise, que deu os primeiros indícios já no governo chavista, ficou ainda pior com o atual presidente, Nicolás Maduro.

O historiador Thiago Morais explica que a ascensão de Maduro e a queda no preço do petróleo arruinaram a economia local e que não há como entender esse momento histórico da Venezuela sem entender o contexto geopolítico no qual o país vive. “Tal crise levou o Estado venezuelano a ser acusado de ter se tornado uma ditadura, cometendo crimes contra a humanidade. Nesse momento, [a crise] parece estar longe de ser solucionada e Maduro longe de ser afastado,” afirmou.

No nível regional, entramos em contato com a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal, que não pôde nos conceder uma resposta concreta; apenas afirmou estar apurando quem de fato é responsável pelo caso em Natal. A Procuradoria da República do Rio Grande do Norte foi citada como uma das possíveis responsáveis por viabilizar ações voltadas a estas pessoas.

O caso ainda é tido como muito recente e talvez dentro de alguns dias possamos obter respostas. Por enquanto, nossos amigáveis personagens seguem na luta pelo pão de cada dia. Segundo um dos taxistas que realizam seu transporte diário, o próximo destino será a capital pernambucana. Talvez em Recife, eles continuem contando com a solidariedade e hospitalidade de um povo que é, em sua maioria, caloroso o suficiente para estender a mão.