terça-feira, 26 de setembro de 2017

26 de setembro: dia de Marina Colasanti

A escritora faz 80 anos e um sem-número de histórias


Por Tiago Silveira


Marina Colasanti. Foto: Marina Manda Lembranças 



Assim foi nomeada la ragazza de olhar oliva que nasceu, em 26 de setembro, na ex-colônia italiana da Eritreia, nos cornos africanos, país banhado pelo exuberante Mar Vermelho-Sangue de mênstruo de azul tranquilo. Sempre itinerante, nossa Passageira em trânsito saiu de lá por volta dos dois anos e foi para a Líbia. Passou um período na Itália, mas, devido aos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, sua família veio para o Brasil, em 1948. 

“Quando, em conversas, digo que nasci na África, sei que o interlocutor me vê quase entre choupanas, elefantes ao longe, poeira erguida por um jipe, o Sol abrasador recortando a silhueta da savana. A África, para os brasileiros, é sempre um filme da África”, escreveu em Minha guerra alheia, memórias de sua primeira infância. 


Viveu durante seus primeiros anos a ganancia do imperialismo sórdido que culminou na Segunda Guerra, com Mussolini declarando guerra à França e ao Reio Unido na apinhada Piazza Venezia. E lembra: “Várias canções de guerra fizeram parte do nosso repertório infantil”. 


Aos dez anos, foi morar na castelosa casa do Parque Lage, no Rio. Essa construção esteve ligada às questões da Guerra, pois parte de sua família estava no Brasil e outra, em Roma. Morou nessa casa por pelo menos dois anos, junto a seu irmão Arduíno Colasanti, que foi então ator do Cinema Novo, “príncipe submarino”, como declarou o diretor Luiz Carlos Lacerda. 


Sobre seus primeiros tempos no Brasil, escreveu o livro de memórias Minha tia minha me contou, uma história de amor à sua tia-avó, a qual foi responsável por sua vinda a este país. Diva por biografia e personalidade, como diz Marina, Gabriella Besanzoni adorava cantar e percorria o mundo. 


Começou a estudar pintura muito cedo, por volta dos 15. Depois, Estudou Belas Artes, e começou a trabalhar com gravura em metal. Além de artista plástica, trabalhou em TV, revista, jornal, tradução, foi publicitária e ilustradora. Escritora de várias idades, dá preferência a textos curtos, como contos, crônicas, ensaios, poemas. Marina dedica-se também à produção de contos de fada, o que a diferencia dos escritores brasileiros e a faz uma das escritoras mais completas de nossa literatura. 


Com mais de cinquenta títulos publicados, Marina é escritora premiadíssima. Tem coleção de Jabutis e prêmios da Câmara Brasileira do Livro, do Concurso Latino americano de Cuentos para Niños, da Fundação Nacional do Livro Infantil, e é recentemente anunciada como vencedora da XIII edição do Prêmio Iberoamericano SM de Literatura Infantil e Juvenil. 


Apaixonada pelas palavras, escreve também sobre leitura, escrita e literatura, como os ensaios de Fragatas para terras distantes. Ela diz que sua atividade como escritora é consequência de suas leituras, e acredita ser impossível construir alunos leitores sem professores que não são leitores. Atribui o fato de o Brasil ser pouco leitor à pouca importância que damos à leitura como elemento de desenvolvimento, e portanto temos poucas bibliotecas e muitos analfabetos funcionais. 


A escritora diz que nunca pensou chegar aos oitenta, pois alguns parentes morreram muito cedo, e se acha sortuda chegar a essa idade. Para ela, morte – que trancou uma vez no armário em um conto – é um tema que se fala pouco, mas adora entrar por essa “porta escura”. “Eu conto meu tempo, hoje, de uma maneira diferente do que contava antes. Eu não desperdiço tempo nenhum. O tempo se tornou mais precioso do que sempre foi”. 




Menina do


Marina começou sua carreira jornalística no Caderno B do Jornal do Brasil, levada por Yllen Kerr e Millôr Fernades. Leitora atenta e com largo conhecimento de mundo, foi ser copidesque, a primeira daquele jornal, atividade hoje em desuso. O B ganhou repercussão nacional no segmento da cultura, sobretudo do Rio, nas palavras de Marina, espalhando o pólen carioca para todo País. 


Pauteira, lia muitas revistas estrangeiras, como americanas, francesas, italianas, para ver o que estava acontecendo no mundo e então transmitir para a pauta. “Nós não éramos pautados pelos divulgadores. Éramos pautados pela vida cultural não só do País, como de fora”, diz. O jornalista Alberto Dines era o então editor chefe. Criativo, estimulava a criatividade das meninas e meninos do B. Junto com Yllen Kerr na reportagem e Carlos Leonam na coluna social, criaram uma página de verão, com Marina responsável pelas ilustrações e crônicas. 




Marina na redação do Jornal do Brasil. Foto: Marina Manda Lembranças 




Vários textos de Marina não passaram pela censura prévia do período ditatorial. Às vezes, o jornalista Tite de Lemos segurava as crônicas por já saber que não ia passar. No entanto, É, onde lista coisas proibidas sem colocar a palavra “proibido”, apenas no fim, passou. 



"É" passou pela censura ditatorial. Foto: Marina Manda Lembranças


Trabalhar no Jornal do Brasil foi determinante para a carreira de escritora de Marina. Aliou os conhecimentos adquiridos no Jornal e aos adquiridos por meio de muita leitura e se fez jornalista e escritora. “Me fiz escritora no Jornal. Eu aprendi a escrever no jornal, para o jornal. Só depois passei a escrever para mim”. 




Eu sou uma mulher 
Eu sou uma mulherque sempre achou bonito menstruar.
Os homens vertem sangue por doença sangria ou por punhal cravado, rubra urgência a estancar trancar no escuro emaranhado das artérias.
Em nós o sangue aflora como fonte no côncavo do corpo olho-d'água escarlate encharcado cetim que escorre em fio.
Nosso sangue se dáde mão beijada se entrega ao tempo como chuva ou vento.
O sangue masculino tinge as armas e o mar empapa o chão dos campos de batalhar espinga nas bandeiras mancha a história.
O nosso vai colhido em brancos panos escorre sobre as coxas benze o leito manso sangrar sem grito que anuncia a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar. Pois há um sangue que corre para a Morte. E o nosso que se entrega para a Lua.



In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993 




Em um mundo misógino e averso ao feminino, nada melhor para começar a falar da mulher-escritora Marina Colasanti do que evocando imagens do feminino por meio de Eu sou uma mulher. Seria redundante usarmos o termo “mulher-escritora” se não fosse um posicionamento político, pois, historicamente, o mundo das letras foi exclusivamente masculino. 


Para podermos imergir nos textos e desvelar o que está por trás das palavras, é necessário contextualizar a obra, posicionando-a no meu momento histórico. Dessa forma, a literatura feminista de Marina é espelho da condição da mulher atual e também ato de transgressão, pois a cultura também é espaço de lutas sociais, como bem ilustra Virgínia Leal (2010): “ser uma escritora contemporânea é dialogar com a história da inserção das mulheres no campo literário, considerando-se a atuação dos movimentos feministas como força social”. 


Marina e Clarice Lispector no início
da década de 60. Foto: Marina Manda Lembranças

Marina interessou-se por questões de gênero muito cedo, profissionalmente com a escrita de ensaios jornalísticos sobre comportamento, em 1960. Suas primeiras obras em 1970 já apresentavam a temática da mulher, e, entre 1985 e 1989, foi membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. 

“É como se as estatísticas brasileiras de violência contra a mulher não nos cobrissem de vergonha. E se basta uma porta doméstica fechada para legitimar a violência, porque se veria inibida no aperto anônimo de um ônibus ou vagão?”, escreveu em crônica motivada por kit-defesa distribuído pelo Movimento Mulheres em Luta no metrô de São Paulo, para chamar atenção sobre o assédio e a violência machista que ocorre nesses espaços. 






Balada dos casais



Casada com o também escritor Affonso Romano de Sant'Anna, eles completam juntos oitenta anos este ano, uma vida de parceria. Como diz na dedicatória de Passageira em trânsito, partilham dupla viagem de vida e poesia. Estão juntos também no álbum Balada dos casais, do cantor, compositor e poeta mineiro Thelmo Lins, que reúne poemas musicados de Marina e Affonso. 


Marina continua sempre em trânsito viajando o Brasil e o mundo, participando de conferências, palestras e congressos sobre escrita, leitura e Literatura. Continua com seu olhar apurado sobre o mundo e escrevendo para jovens e adultos. Toda quinta, temos uma crônica de primeira em seu site




Marina e Affonso. Foto: Marina Manda Lembranças

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Hemonorte aposta em campanhas universitárias para aumentar doações de sangue

Iniciativas junto a instituições de ensino são parte dos esforços para manter estoque equilibrado para atender demandas transfusionais

Por Henrique Mendes e Tiago Silva

Imagem: Reprodução

A campanha Universitário Bom de Sangue, uma parceria do Hemonorte com o Diretório do Centro Acadêmico da Universidade Potiguar, ocorreu entre os dias 17 e 31 de agosto em todos os câmpus da instituição. Já o projeto Sangue Universitário, ocorre na Escola de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte nos dias 21 e 22 de setembro. Em ambas ações, o Hemonorte objetiva conscientizar a população da importância de fazer doações e manter os estoques do banco de sangue do estado em níveis equilibrados.

Os pré-requisitos básicos para doar, segundo o Ministério da Saúde, são: ter entre 16 e 69 anos, 11 meses e 29 dias de idade, sendo que a primeira doação deve ter sido feita antes dos 60 anos; ter peso igual ou superior a 50 Kg; estar alimentado, mas evitar alimentos gordurosos nas três horas que antecedem a doação. Caso seja após o almoço, aguardar duas horas; ter dormido pelo menos seis horas nas últimas 24 horas. Se o doador tiver entre 16 e 18 anos incompletos, a doação só poderá ser realizada mediante consentimento dos pais ou responsáveis legais. É possível ainda que o hemocentro solicite a presença dos pais para a doação.

Everton Webber, estudante de Engenharia Civil e presidente do DCE/UNP, informa que as doações foram incentivadas por meio de campanha solidária entre os alunos, na qual a turma que mais arrecadasse doadores ganharia prêmios que envolvem desde ingressos para sessões de cinema até entradas em festas e eventos da cidade. Na página criada pelo DCE no Facebook para a campanha, os organizadores dizem que a Spotted Fest, um popular evento universitário semestral, se comprometeu a distribuir alguns prêmios de entrada vitalícia para ser sorteado pela sala vencedora. Everton informou que ainda está sendo feito o levantamento do volume de doações arrecadados com a campanha. 

Brasil precisa de mais doadores regulares

Os índices de sangue abaixo do esperado nos hemocentros brasileiros é um problema.  E a indisponibilidade do brasileiro em doar sangue sempre foi e continua sendo objeto de preocupação. O relatório Blood supply for transfusions in Latin American and Caribbean Countries, da Organização Pan-Americana para a Saúde (OPAS), divulgado em junho deste ano, fez um levantamento em que o Brasil, apesar de obter o maior volume de doações da América Latina em termos quantitativos, aparecia como um doador menor que Cuba e Colômbia em termos percentuais, sendo que apenas 1,8% da nossa população entre 18 e 69 anos era doadora regular de sangue. A ONU considera ideal uma taxa de doadores entre 3% e 5% da população.


Esse relatório também aponta que apenas 6 em cada 10 doadores brasileiros o fazem de livre e espontânea vontade, sem se preocupar a quem se destina o sangue. O restante é composto por doadores de reposição, aqueles que doam quando algum parente ou amigo necessita. Especialistas entrevistados por reportagem da BBC de Londres sobre o tema apontam que é preferível a doação voluntária, porque ela aumenta a qualidade do produto oferecido pelos hemocentros, uma vez que é possível monitorar melhor o sangue.

Em torno da doação de sangue no Brasil ocorrem, inclusive, polêmicas relacionadas a regulamentações que podem carecer de revisão, como o impedimento a homens gays “com vida sexual ativa” de doar. A norma já foi abolida em países da Europa e é considerada discriminatória por representantes do movimento LGBT.

Uma mudança no que concerne à consciência do brasileiro quanto à importância de doar se faz necessária nesse sentido e especialistas salientam a necessidade de a conscientização acorrer no âmbito educacional. E esse é um dos caminhos que o Hemocentro Dalton Cunha, banco de sangue do governo do RN, procura manter a estabilidade dos seus suprimentos. O Hemonorte possui até mesmo uma unidade móvel para colher doações em vários pontos, já que o centro conta com apenas duas unidades em Natal e uma em Mossoró. Everton Webber relata que nessa campanha feita junto ao DCE da UNP não foram usadas instalações da unidade móvel por questões de maior praticidade. “É uma agenda logística muito complicada para disponibilidade da unidade móvel, tem que ter espaço adequado e estacionamento privado, mas já houve uma ação assim, no campus Roberto Freire”.

Uma doação de sangue pode ajudar diretamente até quatro pessoas, sendo fundamental para transfusões em cirurgias de pessoas acidentadas gravemente e no tratamento de queimaduras violentas, bem como no tratamento de pessoas portadoras de leucemia, hemofilia e anemias. Para doar em Natal basta se atentar aos pré-requisitos de doação e se dirigir a uma das unidades do Hemonorte munido de documento oficial com foto: no posto Zona Sul, localizado na Avenida Almirante Alexandrino de Alencar, 1800, no Tirol; e no posto Zona Norte, localizado na Avenida Itapetinga, 1430, no Potengi.

A comunidade acadêmica e a população dos bairros no entorno da UFRN poderão realizar a boa-ação nesta quinta e sexta-feira durante o Projeto Sangue Universitário, na ECT, nos Auditórios D e E.





quinta-feira, 21 de setembro de 2017

XIII Semana de Turismo da UFRN e 20 Anos do Curso

Departamento celebra dia do profissional com evento sobre avanços e perspectivas na academia


Por Anna Vale e Germano Freitas

Fonte: Facebook/Universitur

Comemorado no dia 27 de setembro, o dia do turismo e do turismólogo é lembrado, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pela Semana de Turismo, promovida pelo Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), em parceria com a Coordenação (Coortur) e o Departamento de Turismo (Detur) e a Empresa Júnior de Turismo (Universitur), que chega à sua décima terceira edição este ano com o tema “Avanços e Perspectivas dos Cursos de Turismo no Brasil”.
O tema, escolhido pelo corpo docente do curso, propõe a análise do ensino da área tanto no ambiente específico da UFRN, quanto nos âmbitos nacional e internacional. Sua escolha busca integrar a celebração dos 20 anos do curso de turismo na UFRN, permitindo observar a evolução da graduação e pós-graduação de uma área relativamente nova. “Como o curso de turismo da UFRN é um dos mais sólidos e destacados em todo o Brasil, achamos interessante que essa discussão acontecesse aqui conosco”, opina o coordenador do curso, Michel Vieira.
A programação foi montada de forma que melhor representasse a discussão da evolução dos cursos de turismo no Brasil, trazendo como primeira conferencista a Dra. Mirian Rejowski, professora da Universidade de São Paulo (USP), cujo objeto de pesquisa é justamente o ensino e pesquisa do turismo no país; o segundo conferencista, John Tribe da Universidade de Surrey e colaborador do Programa de Pós-Graduação em Turismo da UFRN, traz uma visão internacional, principalmente européia, do ensino do turismo, fazendo uma ponte com a realidade brasileira da área.
Os demais convidados que compõem a programação foram escolhidos de forma a complementar a ideia de evolução, estando entre eles egressos do curso e um professor do Instituto Metrópole Digital, abordando questões como a inserção e perfil do profissional no mercado hoteleiro; o alinhamento entre universidade e mercado; e desenvolvimentos de destinos turísticos. Além das seis conferências principais, a Semana de Turismo oferece minicursos, mesas redondas e oficinas, além de apresentações de trabalhos acadêmicos divididos em dois grupos: “gestão de turismo” e “planejamento e organização do turismo”. A programação completa está disponível no link do projeto de extensão.
A organização do evento se dá por meio de uma parceria entre a coordenação do curso e a Empresa Júnior, a Universitur. Uma das empresas juniores mais antigas da UFRN, foi da Universitur que, em 2010, partiu a iniciativa de retomar com regularidade a Semana de Turismo que, até então, havia sido realizada de forma esporádica. “Foram eles que abraçaram o evento e, aos poucos, o curso e a coordenação foram se envolvendo”, relata Leilianne Barreto, chefe do departamento de Turismo e professora-tutora da empresa. Desde então, sua participação na organização do evento se tornou tradição, de modo a seus participantes estarem envolvidos em todo o processo: desde as primeiras reuniões de discussão do tema à submissão da Semana como projeto de extensão, além de serem responsáveis por toda a parte operacional do evento. A única área da qual ficam de fora, por serem alunos, é a científica que fica a cargo do corpo discente do curso, explica o coordenador do curso.

Edição passada da Semana de Turismo (Fonte: Reprodução/SIGAA)

José Matheus Silva, 19 anos, responsável pela organização do evento dentro da Universitur, clarifica que, apesar da empresa se especializar em eventos acadêmicos, a Semana de Turismo difere dos projetos usualmente realizados por eles no ponto de vista estratégico, uma vez que não está nas mãos da empresa, e sim dos professores. “Essa é a diferença, lidamos muito mais com o estratégico, nos nossos eventos, do que só com o operacional, como é o caso da Semana de Turismo”.
É a empresa que busca patrocínios e parcerias para o evento; faz a seleção e distribuição de material para os participantes; lida com a logística de espaço e decoração para o coffee break e administra as inscrições, tanto na Semana, quanto no pós-evento – sendo que, por ser o realizador do último, recebe também os pagamentos para o mesmo. Nos dias do evento, os vinte membros da Universitur atuam ainda como monitores, gerenciando listas de presença e credenciamento, além de realizarem toda a assessoria da recepção e cerimonial do evento.
A viabilização de serviços, trabalhos e ações operacionais por parte da Universitur, em uma espécie de terceirização, facilita a coordenação da parte científica/estratégica do evento, uma vez que a equipe já tem o know-how necessário e trabalha na área de organização de eventos.
Apesar da atuação de alunos na organização da Semana ser limitada aos integrantes da empresa júnior, outros alunos têm a possibilidade de participar como ouvintes do evento; submeter trabalhos para apresentação ou inscreverem-se para participar de minicursos e oficinas. Professores também participam de forma ativa, mediando mesas redondas; avaliando trabalhos enviados; coordenando grupos de trabalho; ministrando minicursos ou oficinas.
O evento é direcionado à comunidade acadêmica do curso de turismo, mas a programação tende a atrair também, uma pequena demanda de outras instituições. A expectativa para esse, explica Leilianne, é de 130 pessoas; uma baixa das 150 pessoas que compareceram no ano anterior, apenas “em função do espaço físico que nós temos a nossa disposição”.
Aluno do quarto período do curso, José Matheus participou da última Semana de Turismo como aluno, sem envolvimento na organização, e aponta a importância do evento para movimentar o Departamento de Turismo, estimulando participação e interatividade entre alunos e professores. Exemplifica ainda, seu papel em apresentar ao aluno as várias possibilidades de carreira a serem exercidas pelo turismólogo: “para muitas pessoas pode ser um divisor de águas, porque é uma área que é muito ampla. [A semana] é essencial para somar conhecimento”.

20 anos do curso de Turismo na UFRN

Idealizado em 1996, com a expansão do mercado turístico brasileiro do Sudeste para o Nordeste e subsequente febre de cursos na região, o curso de Turismo da UFRN, vinculado ao Departamento de Administração, teve sua primeira turma em 1997, contando inicialmente com apenas 30 vagas e professores “emprestados” de outros departamentos. Em 1999, foi criada a Universitur, uma das primeiras empresas juniores da UFRN, “fundamental para proporcionar a prática da atividade para os alunos” dada a característica teórica das aulas ministradas, justifica Leilianne Barreto.
Por volta de 2004, o curso passou a ter maior importância dentro do departamento, conquistando maior espaço e com isso, maior volume de concursos específicos para a área, tendo especialistas assumirem disciplinas anteriormente ministradas por professores “emprestados”.
Criado em 2007, o Programa de Pós-Graduação em Turismo (PPGTur) da UFRN foi o primeiro da área na rede pública do país, que hoje conta com os cursos de Mestrado e Doutorado. “Em 2014, nós criamos o Doutorado, sendo mais uma vez pioneiros com o primeiro Doutorado público em Turismo do Brasil, e formamos o primeiro Doutor que fui eu”, declara Michel Vieira, formado no último mês de março.
Em 2010, houve a desvinculação do curso do Departamento de Administração, e criação de um Departamento de Turismo. “Foi uma vitória muito grande, porque para expandir, para crescer e nos consolidarmos, precisávamos do nosso próprio departamento”, adiciona Michel.
Tanto a chefe do Departamento de Turismo, quanto o atual coordenador do curso são egressos da UFRN. Graduada em 2005, Leilianne Barreto, que acompanhou os últimos quinze anos do curso, primeiro como aluna, e os últimos sete como professora, expressa satisfação e otimismo com a evolução e o vigor do curso. “Ainda tem muita coisa para avançar, muitos caminhos a serem trilhados, muita coisa para crescer e melhorar, mas é satisfatório perceber que o curso não está estável, não está no comodismo da linearidade. Percebe-se que ano a ano, a situação está melhorando.”
Michel Vieira, graduado em 2003, expressa felicidade em relação ao progresso alcançado pelo curso, comparado com a sua época, destacando as dificuldades de ordem estrutural de um curso que ainda se encontrava em processo de formação. “Ao olhar para aquela época e para agora, é uma evolução muito grande”, afirma.
O coordenador é o responsável por um documentário sobre a trajetória do curso e as perspectivas para o futuro, a ser exibido no primeiro dia da Semana de Turismo, para comemorar a data importante. Foram cerca de seis horas de entrevistas coletadas entre ex-gestores, servidores e egressos, com o objetivo de entender como era o curso, o que pensam sobre ele e como foram suas experiências, além dos seus marcos históricos. “Fomos muito honestos em tentar buscar as pessoas que tenham uma contribuição histórica para o curso e convidamos todos os professores atuais a falar”, confessa Michel.

Day Use - Pós-evento é realizado pela empresa júnior do curso, Universitur (Fonte: Facebook/Universitur

As inscrições para a XIII Semana de Turismo devem ser feitas através da plataforma SIGAA, na aba “Extensão”, ao selecionar a opção “Eventos”. Para efetivar a inscrição, deve ser paga a taxa de 25 reais até o dia 22 de setembro, o valor sendo modificado para 35 reais a partir do dia 23. O evento ocorre de 27 de setembro (dia do turismo e do turismólogo) à 29 no Auditório do Centro de Educação, ocorrendo um pós-evento no Hotel Vale do Mar. Aqueles que desejam participar da tarde de lazer, oferecida pela Universitur, devem pagar o valor adicional de 20 reais, direto com a empresa júnior, havendo a opção “casadinha” de 40 reais pelo pacote científico mais a tarde de lazer.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Álbuns póstumos: o som que se eterniza

A música é uma das provas que a morte não é o fim para os grandes artistas


Por Luiz Gustavo Ribeiro e Vinícius Veloso

capa da matéria- divulgação do álbum "Scream" de Michael Jackson, via twitter

Culturalmente é comum que os grandes artistas continuem faturando muito dinheiro com novas obras e remakes após a morte. No final de setembro, Scream o terceiro álbum póstumo de Michael Jackson, chegará aos serviços de streaming. Desse modo surge o questionamento, você já se perguntou  de onde vem essas músicas ou qual é a fórmula desse sucesso?

foto de Chester Bennington, ex-vocalista do linkin park 

Em julho de 2017, o mundo da música recebeu a triste notícia do suicídio de Chester Bennington, líder e vocalista da banda Linkin Park. O disco One More Light, lançado em maio pelo grupo, subiu suas em vendas em cerca de 461%, alcançando marcas importantes das paradas de álbuns como o 17º lugar da Billboard 200, logo após uma semana da tragédia. Esse fenômeno de faturamento está relacionado com a psicologia e devoção dos fãs, além da cobertura midiática e propagandística aliada ao repertório musical, que continua sendo ouvido mundo afora. A arrecadação por parte das celebridades falecidas, chega a alcançar a casa dos milhões de dólares.

Anualmente a Forbes, renomada revista norte-americana, faz um balanço das personalidades que mais lucraram após a morte. Em 2016, entre os doze primeiros estão seis músicos, são eles: Michael Jackson - R$ 2,7 bilhões (1), Elvis Presley - R$ 87,8 milhões (4), Prince - R$ 81,3 milhões (5), Bob Marley - R$ 68,3 milhões (6), John Lennon - R$ 39 milhões (8) e David Bowie - R$ 34,1 milhões (11).

capa do disco póstumo "Sabotage" do rapper Sabotage

Esse rentável sucesso, na maioria das vezes, é proveniente de álbuns póstumos. Casos como Jimi Hendrix que com apenas três álbuns lançados durante sua vida, deixou muito material gravado e desde sua morte já foram lançados 12 álbuns póstumos. Também é o caso do renomado rapper Tupac, que havia lançado 5 álbuns até ser assassinado, após sua morte mais 5 discos foram lançados, o que gerou a polêmica de que ele teria fingido a própria morte. Outros grandes artistas deixara material bruto gravado, nomes como: Amy Winehouse, John Lennon, Freddie Mercury (Queen), Bob Marley e Kurt Cobain (Nirvana).

No Brasil, esse fenômeno não é diferente. O rapper Sabotage, que foi assassinado em 2003, na zona sul de São Paulo, devido a uma vingança relacionada à disputa de tráfico de drogas, deixou arquivos que foram lançados em um álbum póstumo em 2016, cujo nome é Sabotage. Na época da sua morte, ele vivia o auge da carreira, e já tinha lançado o disco Rap é compromisso (2000). Treze anos depois, Daniel Ganjaman, produtor musical, estava com as músicas gravadas pelo cantor, do período de 2001 à 2003. O produtor trabalhou com afinco para homenagear o rapper, e contou com a participação de músicos, amigos e produtores como Negra Li, BNegão, Tejo Damasceno, DJ Cia, Quincas Moreira, Céu, Tropkillaz, Rappin Hood e entre outros artistas. O disco conta com 11 faixas inéditas do cantor, e está disponível em serviços de streaming para os fãs de Sabotage. “Sabota” contribuiu muito para a cultura do rap e hip-hop nacional, e é tido como um dos maiores ícones do gênero no país.

foto de Renato Russo


Dentro desse contexto, em 2003, a gravadora EMI, lançou o álbum póstumo Presente, de Renato Russo, em que o jornalista Marcelo Froés, teve permissão dos familiares de Renato, para vasculhar os arquivos pessoais do cantor, sete anos após sua morte. O disco contém 13 faixas, além de trechos de entrevistas com Renato Russo, e músicas com participações de outros cantores e compositores, como Flávio Venturini e Leila Pinheiro. O nome do álbum, foi parte de uma homenagem em referência à data de aniversário de nascimento do cantor.

Já em 2014, Matt Forger que foi engenheiro de música de Michael Jackson afirmou que o cantor costumava gravar mais músicas do que o necessário para os seus discos. Então após o sucesso de Michael (2010) e Xscape (2014), foi revelado que o rei do pop teria material suficiente para lançar cerca de mais 8 álbuns póstumos, sem contar com o que poderá ser encontrado ao longo dos anos.

Portanto, o mundo conhecerá Scream o terceiro álbum póstumo de Michael Jackson - que tem o mesmo nome do single que o cantor fez com sua irmã Janet Jackson em 1995. O álbum será basicamente uma junção de grandes sucessos, contando com 13 faixas e chegará aos serviços de streaming no dia 29 de setembro, enquanto suas versões físicas em CD e LP, serão lançadas em 27 de outubro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

As cores da loucura

“A arte chega de alguma forma, em algum tempo e de alguma maneira”.


Por Beatriz Nascimento, Maria Beatriz Araújo, Ricarla Nobre e Sthefanny Ariane

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Foto: Sthefanny Ariane 

As expressões artísticas estão por toda parte, inclusive na psicologia. O que acontece quando os artistas e os “loucos” se encontram? Foi a partir de questionamentos como esse, e do interesse em unir arte e psicologia em uma dissertação de mestrado, que surgiu o projeto “Cruor Arte Contemporânea”. É no hospital psiquiátrico Dr. João Machado, em Tirol, onde tudo acontece. “Loucure-se” e “Des-amparo”, são os nomes das performances mais recentes realizadas pelo grupo. O objetivo é propiciar aos pacientes formas de se expressar e interagir de modo espontâneo. Apesar de toda complexidade atrelada à mente humana, quem faz o projeto acontecer busca despertar reações simples, que muitas vezes, ficam adormecidas pelos excessos de remédios e seus efeitos colaterais.

É através de trabalho voluntário que o projeto ganha vida. Contando com participações autônomas, cada um contribui com sua habilidade artística para trabalhar com os pacientes. Estudantes de artes cênicas, promovem oficinas de música, teatro, maquiagem e figurino, assim como voluntários do curso de artes visuais oferecem oficinas de pintura e moda. Também são realizados exercícios de dança na quadra, terapia ocupacional e atividades extramuros, como passeios. Além disso, no projeto, os pacientes têm a possibilidade de participar de aulas com alunos da UFRN, colaborando, interagindo e aprendendo. Sendo estas formas de tirá-los do ambiente hospitalar e do confinamento, promovendo a oportunidade de socialização.

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Foto: Sthefanny Ariane
O primeiro trabalho, Loucura-se, foi apresentado ano passado, e foi realizado de forma independente. Os estudantes discutiam as cenas e lapidavam o que seria colocado na apresentação, tornando-se, no final, um espetáculo itinerante. “Eu ia tocando e fazia o cortejo, parava em um ponto do hospital, elaborava uma cena e continuava. Era uma forma de mostrar as pessoas como é o local do João Machado!”, contou Francisco de Assis Alves Júnior, 24, estudante do último período de Teatro. “No segundo trabalho, Desamparo, utilizamos além da autonomia o texto de Walter Benjamin, trazendo obras para as composições das cenas [...]”. 

A professora da UFRN Nara Salles é antropóloga, atriz, bailarina, psicanalista e coordenadora da residência artística do projeto. Segundo ela, a proposta tem como objetivo o estímulo à criatividade dos pacientes; tirá-los da monotonia dos dias e melhorar a rotina deles, para que sejam desviados do turbilhão do cotidiano maçante do hospital, podendo viver o poético. A arte é utilizada como meio terapêutico e de sociabilidade entre os pacientes e profissionais que trabalham no João Machado - isso mostra o quanto a arte é fundamental, pois traz consigo formas de expressão e poder de cura e resgate da identidade e subjetividade de cada pessoa. Possibilita que o sujeito se encontre novamente como ser humano.

O projeto influencia diretamente na melhora dos pacientes. Um deles apresentava comportamento agressivo e não conseguia interagir com as pessoas, dificultando qualquer tipo de aproximação. Foi só depois de sua participação no projeto que ele começou a se expressar melhor, até mesmo por meio de conversa, o que não acontecia antes. Segundo Nara, graças a isso, ele recebeu alta e pôde voltar para casa. 

Ponto de vista social

Em conversas cotidianas, quando alguém menciona a palavra “manicômio” as pessoas começam a fazer piadas de mau gosto ou ficam incomodadas. O interessante é que mesmo hoje em dia, quando a maioria deixou muitos dos estereótipos e preconceitos no passado, a loucura ainda é considerada perigosa e repugnante, como se fosse algo que não deve-se se misturar com o resto da sociedade. “A visão que têm é que são pessoas perigosas, mas a realidade é muito diferente. São pessoas muito carinhosas, você nota que elas são carentes, tem uma história de vida com muito sofrimento”, afirmou a estagiária de psicologia Amanda, de 26 anos, emocionada. 

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Foto: Sthefanny Ariane


Quantos filmes de terror e histórias macabras existem com um hospício como cenário principal? A partir disso, entre outras coisas, a sociedade constatou que um manicômio não é um local de tratamento psicológico, e sim uma instituição onde pessoas perigosas devem ser jogadas e excluídas do meio social. Pessoas gritando, escuridão, olhares vazios, prisão, paredes brancas, pacientes nus e até mesmo mortes - essa é a ideia que grande parte das pessoas têm desse lugar que foi criado com o objetivo de ajudar alguns que são considerados loucos, mas que nem sempre é isso que acontece. A sociedade tem medo deles mas na maioria dos casos eles são as verdadeiras vítimas. 

Muitas vezes o que também acontece quando alguém tem um transtorno psicológico, como depressão, ou até mesmo não tem doença alguma, os familiares se cansam daquela pessoa, apenas a largam no hospício, pois "o fardo é grande demais”. Segundo uma das estagiárias que trabalham no João Machado, há algum tempo atrás um casal havia adotado uma jovem e depois de alguma convivência cismaram que ela era uma psicopata e simplesmente jogaram a menina no hospício, pois não podiam devolvê-la ao orfanato. São histórias como essa que chocam e mostram quão o ser humano pode ser, de fato, desumano.

Se ao menos começássemos a dar uma chance aos “loucos” iríamos descobrir o quão indefesos e carentes eles realmente são. Essas pessoas, muitas vezes, estão perdidas, abandonadas por quem amam, e esquecidas tanto por eles quanto pelo resto da sociedade. Dar atenção aos excluídos e talvez se dar o prazer de ser um pouquinho louco também, pode trazer uma visão completamente diferente da superficialidade que temos do chamado “manicômio”. 


Relato de experiência - Repórteres 

A primeira impressão que as pessoas tem quando se fala em manicômio é a de que todos os pacientes estarão gritando, completamente fora de si e sem roupa alguma. A vida dentro dos grandes muros que cercam o Hospital Psiquiátrico João Machado é bem mais do que a sua imaginação pode te fazer pensar, e acredite, lá não é o dizem por aí. 

Por trás de todos aqueles portões não se encontram só pessoas com problemas psicológicos, muito menos pessoas fora de si. Na verdade o que existe lá são vidas que só querem ser vividas, histórias que não veem a hora de encontrar um ouvido para repousar. São abraços reprimidos que não encontram abrigo em outro alguém, ouvidos ansiando por elogios e gentilezas, tão capazes de mudar a vida quanto o dia de alguém. 

É chocante perceber a sociedade em que vivemos. Estamos tão absorvidos em nossas rotinas e problemas que deixamos de compreender o próximo. Esquecemos de sermos empáticos e compreensíveis. Afinal, recebemos mais elogios e gestos de gentileza de pessoas “loucas” do que daquelas consideradas “sãs” que encontramos no cotidiano.

Percebemos que não temos problemas se comparados aos das pessoas que vivem no hospital. Um lugar esquecido não só pela falta de investimento, mas também pela sociedade, que insiste em criar padrões e estereótipos. Se você não se encaixa em nenhum deles, querem te diminuir, prender e excluir.

Sociedade essa que não está preparada para loucura, que não sabe lidar com a loucura, ou melhor, com o ser humano! Estamos sujeitos a ter um surto e enlouquecer a qualquer momento, e por não sabermos lidar - por não queremos lidar - podemos acabar abandonados num hospital. 

Toda a experiência faz refletir como não sabemos nada sobre a loucura, e que é preciso tentar entender ao invés de julgar. Porque muitas vezes o medo que sentimos não condiz com a realidade. O que pudemos perceber é que o mundo precisa de muito mais amor e doação do que imaginávamos. 

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Foto: Sthefanny Ariane


A loucura que tanto assusta, não deveria nos assustar. Na verdade, cada um de nós carrega um pouco de loucura dentro de si. Talvez não seja esse o problema, talvez o problema seja a forma como o enxergamos tudo. Afinal a loucura está nos olhos de quem vê.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

As experiências universitárias dos estudantes estrangeiros na UFRN

Por Ana Flávia Sanção e Marcelha Pereira
Foto: Divulgação
Uma das grandes possibilidades que a universidade pode oferecer são as conexões interculturais que ela nos permite criar durante nosso período acadêmico. Não indiferente a isso, a UFRN, considerada uma das melhores universidades do Norte-Nordeste brasileiro e entre as 50 melhores da América do Sul, recebe todos os anos uma média de 30 alunos intercambistas. São eles estudantes europeus, norte-americanos, latinos, nórdicos, africanos e asiáticos, que procuram uma ampliação de seu conhecimento e cultura.


Entre os principais programas de intercâmbio está o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que traz alunos de universidades de países em desenvolvimento que possuem acordos educacionais e técnico-científicos com a UFRN, principalmente da África e da América Latina. Além de outros programas, há também a mobilidade acadêmica, que permite que alunos de universidades parceiras venham estudar durante períodos limitados, normalmente de seis meses a um ano.


No ranking das nacionalidades mais frequentes estão Portugal, França, Espanha, China e Argentina. Já os cursos que mais recebem, segundo Dr. Márcio Barbosa, Chefe do Escritório de Relações Internacionais, são Letras e Arquitetura. Só no intervalo de 2007 a 2017, a UFRN recebeu 421 estudantes internacionais. sendo 2012 o ano de maior acolhimento, com 62 alunos.


Márcio Barbosa. Foto: Tribuna do Norte
A Universidade enxerga com grande importância esse recebimento dos estudantes de fora do país. Barbosa diz que a internacionalização é fundamental porque ela permite à UFRN conhecer novas culturas e, através desse conhecimento, conhecer a si mesma. De acordo com ele, cada aluno internacional que entra em contato com alunos brasileiros em sala de aula traz consigo um mundo diferente, um problema diferente com soluções diferentes.


“Conhecer essas culturas diferentes é importante para promover também a paz entre os povos. Parece muito utópico dizer isso, mas eu vou pensar diferente de um país como o Iraque, por exemplo, se eu tenho um colega iraquiano na minha sala; o qual vai me dizer como é a vida lá, o dia-a-dia, o que as pessoas sofrem. Então os estereótipos que fazemos de outras culturas podem ser combatidos através do conhecimento interpessoal”, comenta o Chefe do Escritório de Relações Internacionais.


Como forma de oferecer um suporte aos intercambistas e ainda ajudar na interação deles com os nativos, cada aluno que chega deve receber um padrinho. Esse tipo de suporte integra o programa chamado Exchange Fellow, no qual um estudante brasileiro da UFRN, preferencialmente do curso daquele aluno que está chegando e obrigatoriamente que fale a mesma língua que ele, torna-se seu padrinho.


A função desse padrinho é dar uma espécie de alicerce ao intercambista até que ele seja capaz de se orientar bem pela universidade e cidade. “Não é que o padrinho vai fazer as coisas pelo outro, mas vai dar informações e ajuda ao novato a chegar a um local específico, por exemplo”, explica Barbosa.


Mansour Gakou. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta
Contudo, ao conversar com alguns alunos intercambistas, é observada certa falta de alunos para serem Exchange Fellows voluntariamente. Nem todos os intercambistas recebem o padrinho, como idealizado. O estudante de Arquitetura Mansour Gakou conta que, como secretário da Associação dos Estudantes da PEC-G, ele encara frequentemente esse tipo de situação.


“Tem um amigo meu que na hora de chegar em Natal foi para a SRI com as malas. A SRI ligou para a gente perguntando se alguém poderia ir lá recebê-lo. Eu saí de aula e fui, mas sem saber o que fazer. Então tivemos que deixá-lo em nossa casa até que ele pudesse ter as condições de procurar um apartamento ou kitnet”, desabafa. O caso é parecido com o de Océane Le Gouareguer, francesa da Ilha Reunião, que, apesar de conhecer o programa, não possui um Fellow. “Não, eu sei nada sobre isso. Minha faculdade apenas me mandou para cá e disse ‘divirta-se’. A administração de lá é a mesma daqui - terrível”.



As experiências universitárias dos intercambistas


A vinda desses estudantes significa uma troca. Eles trazem uma bagagem com suas experiências dos seus países de origem e ao mesmo tempo que ensinam, aprendem com os alunos brasileiros. Com diferentes contextos sociais, eles se integram a um novo ambiente de socialização. O Caderno de Pauta para conhecer mais um pouco de suas experiências, sentou para conversar com quatro deles.


Adrian Makowski. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta
Adrian Makowski é polonês, tem 23 anos e veio da Escola Superior de Arquitetura e Urbanismo de Marselha, na França. Escolheu o Brasil porque queria conhecer a América Latina e optou pela nossa cidade por ela ser litorânea e pela sua vontade de conhecer o surf.


Está aqui há seis meses e vai ficar até o final do ano. A principal diferença que sentiu da França foi a maneira de ensinar. “Aqui tem uma relação estudante-professor mais perto, aqui somos mais cooperativos. Na França, há uma distância entre professor e estudante. Aqui somos um pouco mais juntos, somos mais perto de outros estudantes também”.


O polonês prefere não comparar muito as culturas, segundo ele, não dá para dizer exatamente o que é melhor ou pior.  “É apenas diferente, mas é realmente interessante”, finaliza. A respeito das pessoas, diz que elas são muito gentis, principalmente as da Vila de Ponta Negra, seu lugar preferido da cidade.  


Mansour Gakou. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta
Mansour Gakou tem 22 anos e vem do Senegal, África. Lá, ele fazia Biologia, mas parou o curso para vir para o Brasil estudar Arquitetura pelo programa PEC-G. Está aqui há três anos e conta que tentou oito cidades antes de decidir vir para Natal: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador, Fortaleza, Recife e Minas Gerais. Nenhuma dessas cidades tinham vagas disponíveis para o programa, então ele acabou optando pela Cidade do Sol.


Sobre sua experiência como estudante estrangeiro, revela que há muitos pontos culturais semelhantes e que aprendeu muito com o país. “Tem muita riqueza em termos de cultura, paisagem, construção. Agora, o lado negativo é o choque de você sair de um país, vir para um outro e enfrentar a violência”, diz.


Antes de chegar ao Brasil, Mansour não entendia o que era racismo e não soube que estava sendo vítima de uma ação racista quando, em um bar de Salvador, duas mulheres mudaram de mesa para não sentar perto dele. Só veio saber um tempo depois, quando falou sobre o ocorrido com um amigo. “Eu saí de uma realidade onde a gente não conhece o racismo, não encara o racismo, não entende o conceito de racismo”, comenta.


Quando perguntado sobre a recepção que as pessoas brasileiras tiveram com ele, o estudante de Arquitetura diz que é difícil julgar porque depende de pessoa para pessoa. Durante esse tempo em Natal, ele encontrou muita gente. Tanto pessoas que o acolheram bem, quanto pessoas que não foram assim tão receptivas. No geral, Mansour Gakou se demonstra feliz por estar no Brasil, especialmente em Natal, apesar dos desafios cotidianos.  


Océane Le Gouareguer. Foto: Rede social
Océane Le Gouareguer é natural da Ilha Reunião, território francês no Oceano Índico. Aos 22 anos, decidiu fazer intercâmbio para Brasil após um de seus professores dizer que as pessoas eram “mais legais e mente abertas”. Até então ela não sabia muito sobre a América do Sul - mas mesmo assim não se arrependeu. Há um mês morando na Vila de Ponta Negra, ela elogia o carisma a simpatia de seus conhecidos brasileiros.


“As pessoas aqui são sempre receptivas. Apesar de eu não falar português muito bem, elas me ajudam. Na França, é completamente diferente. Quando você é um estranho, as pessoas não perdem tempo explicando. É muito difícil se você não fala francês. Mas aqui é maravilhoso”, conta.


A socialização para ela é a parte mais importante. Apesar de não ter um Exchange Fellow, Océane mora com duas brasileiras na Vila de Ponta Negra, ela diz que é feliz e que isso a ajuda a aprender o português, a cultura e “como ser brasileira”.


Boris Alcaraz. Foto: Rede social
Boris Alcaraz, de 21 anos, é um boliviano que adora o mar; esse foi o principal motivo por ter escolhido a cidade do Natal. Ainda novato na UFRN, estando aqui há apenas duas semanas, já começou a entender o português, apesar de não conseguir falá-lo ainda. Para ele, as principais mudanças foram o clima e o tamanho do campus universitário. “É a primeira vez que eu visito um campus universitário tão grande. Eu me perdi no meu primeiro dia. Eu tive de pedir ajuda e foi bem difícil entender para onde eu deveria ir”, revela.


Ainda sobre as diferenças culturais, Boris relata que as pessoas são mais amigáveis e abertas aqui do na sua cidade de origem, Sucre, na Bolívia. Ele se sente como se estivesse na sua nova casa. “A universidade é muito legal e as pessoas estão sempre abertas para tudo, são muito sociáveis”.


Outro ponto importante para ele é o aprendizado que o contato com a nova cultura trás. “É uma grande mudança de maneiras, comportamentos, clima e lugares. É uma oportunidade de aprender novas coisas, novos hábitos, novos locais e a conhecer a cultura brasileira”.

*Algumas entrevistas foram traduzidas do inglês para o português

Mais informações: http://www.sri.ufrn.br/