sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Dadá: a única mulher a usar fuzil no bando de Lampião

Entenda por que, ainda que ofuscada pela romantização da história de Lampião e Maria Bonita, a Suçuarana do Cangaço foi uma peça importante nas lutas da bandidagem rural

POR FRANCISCA PIRES

Em 1928, aos treze anos de idade, Sérgia Ribeiro da Silva – que mais tarde ficaria conhecida como Dadá – foi raptada pelo cangaceiro do bando de Lampião e seu primo de sangue Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto ou “Diabo Loiro”). A pernambucana foi uma das muitas meninas retiradas violentamente da casa dos seus pais para atender ao desejo do grupo de cangaceiros de ter uma esposa fixa.

Dadá foi levada à força pelo homem que na primeira oportunidade a estuprou violentamente. O ato foi tão cruel que resultou numa grave hemorragia, responsável por quase vitimar a menina ainda tão jovem. No entanto, após intensos cuidados que recebeu na casa dos familiares do próprio cangaceiro, visto que uma vez levada ao cangaço a mulher jamais poderia voltar para casa, Dadá se recuperou. Três anos depois, em meados de 1930, com a entrada oficial de Maria de Déa – que viria a se chamar após sua morte Maria Bonita –,  a cangaceira e mais algumas meninas passaram a integrar o bando de Lampião.


Quando foi raptada, Dadá era tão nova que ainda brincava de bonecas, no entanto foi proibida por Corisco de levá-las consigo para a vida no cangaço (Foto: Benjamin Abrahão Botto)
Sendo obrigada a viver como esposa de um dos membros mais violentos do bando, a então adolescente precisou se adaptar à rotina nômade do grupo, à execução das tarefas domésticas, aos conflitos violentos e ao comportamento machista do companheiro. Segundo relata a jornalista Adriana Negreiros em seu livro “Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço”,  Dadá e Maria do Capitão – outro apelido atribuído à famosa Maria Bonita – não se davam muito bem. A personalidade escandalosa e os privilégios que a rainha do cangaço usufruía a irritavam profundamente: “Ô mulher chata”, disse Dadá se referindo à esposa do capitão em um dos trechos do livro. Quando o bando de Lampião se dividiu em uma espécie de subgrupos, a cangaceira, ainda que muito subjugada como todas as mulheres do bando, passou a ter voz um pouco mais ativa nas decisões do grupo em que Corisco era o chefe.


No bando de Corisco, Dadá era tida como rainha, porém, ao contrário de Maria Bonita, ela não teria muito orgulho do título (Foto: Benjamin Abrahão Botto)

Para que se protegesse, Dadá recebeu do Diabo Loiro uma pistola que servia também de adorno. Além de atirar, o cangaceiro também a ensinou a ler, escrever e contar. Tais conhecimentos bélicos foram muito importantes para contornar o que viria a acontecer em outubro de 1939, quando em um ataque feito por policiais na Fazenda Lagoa da Serra, em Sergipe, Corisco foi ferido em ambas as mãos e perdeu a capacidade de atirar. Dadá, então, torna-se a primeira e única mulher a desempenhar função ativa – e não meramente defensiva – nas lutas do cangaço.

Assim como boa parte dos integrantes do bando, Dadá também ganhou uma espécie de nome de guerra que faria jus à ousadia da cangaceira: "Suçuarana do Cangaço" foi como ficou conhecida. E mesmo que tenha sido descrita como brava e marrenta, existem relatos de muitas pessoas que foram salvas das mãos do impiedoso Corisco graças à intervenção de sua companheira. Dadá e Corisco tiveram ao todo sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram. As crianças nasciam em condições insalubres, enfrentavam frio, fome e sede logo nos primeiros instantes de vida. Por este motivo poucos sobreviveram e os que tiveram essa sorte foram encaminhados para casas de parentes com bilhetes escritos à mão informando quem eram seus pais.

Depois de alguns anos vivendo nessa rotina de fugas e esconderijos, a morte do rei e rainha do cangaço, em 1938, fez com que o bando todo enfraquecesse. A fim de vingá-los, Corisco promoveu uma reação que resultou em ataques sangrentos na região de Alagoas. O cangaceiro fazia questão de decepar a cabeça de suas vítimas da mesma forma que foi feito com seu capitão, a esposa dele e mais nove companheiros de bando. Mesmo assim, o fim se aproximava e em 25 de maio de 1940, seu bando foi cercado em Brotas de Macaúbas e Corisco foi atingido e morto. Dadá foi baleada na perna direita e, impossibilitada de fugir, foi presa.

Na prisão, Dadá precisou amputar sua perna, uma vez que sem as condições ideais de higiene o ferimento se agravou causando uma gangrena. Devido às situações de maus tratos, a mulher consegue sua liberdade na justiça dois anos depois. Livre do cangaço e da cadeia, Sérgia passou a viver em Salvador e passou o restante de sua vida lutando para que a legislação que assegura o respeito aos mortos também incluísse aqueles que foram pertencentes ao cangaço.

Dadá conseguiu desenvolver uma amizade forte com o capitão Lampião. Este gostava da sua personalidade e de seus bordados (Foto: Benjamin Abrahão Botto)

Apesar de não ter ficado conhecida pelo grande público ou ter seu nome estampado em lojas, eventos e obras de arte, assim como foi com Lampião e Maria Bonita, Dadá é inegavelmente uma figura de muita importância para a  história do cangaço. Seja pela denúncia que sua história representa quanto à violência de gênero vivida pelas cangaceiras – independente de ter optado pela vida no cangaço ou arrastada contra sua vontade –, seja pela sua participação ativa nas lutas armadas daquilo que constituía a bandidagem rural.

Apesar do histórico cruel de abusos, Dadá descreve uma relação romantizada com Corisco: "Nos amamos muito", chegou a relatar em uma de suas entrevistas (Foto: Blog Recanto das Letras/Reprodução)

Sua representatividade foi, em 1980, homenageada pela Câmara Municipal de Salvador e suas historicamente tão importantes memórias exploradas em inúmeras entrevistas, nas quais relatava tudo que viveu a partir do momento em que se tornou Dadá. A Suçuarana do Cangaço morreu em Salvador (1994) sendo a última prova viva do cotidiano de lutas do bando.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Memórias do Holocausto: conheça os relatos de três sobreviventes que moram no Brasil

O genocídio que dizimou milhões de judeus na Europa no século XX teve seu fim há 75 anos, porém as lembranças continuam vivas em quem passou pelos campos de concentração e sobreviveu 


POR LUCIANO VAGNO

Portão do campo de concentração de Auschwitz. No letreiro diz “O trabalho liberta”. (Foto: Pawel Ulatowski/Reuters)
Seis milhões. Esse é o número de vidas que foram dizimadas em um dos episódios mais cruéis, sombrios e desumanos da humanidade – o Holocausto. Judeus que viviam em diversas partes da Europa no século XX foram arrancados de suas casas, obrigados a se separarem das pessoas que amavam e tiveram seus direitos violados. Passaram a ser vistos apenas como números tatuados em braços, pijamas listrados, mão de obra escrava, corpos.



Além de deles, homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais e opositores políticos foram executados nos campos de concentração. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou, em 1º de dezembro de 2005, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, comemorado no dia 27 de janeiro. A data foi escolhida por ser a mesma em que os prisioneiros de Auschwitz foram libertos, em 1945.

Contexto histórico

O Holocausto foi o ápice de uma perseguição racial aquecida pelo ódio que vinha se estendendo na Europa há anos. Contudo, foi no final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a derrota da Alemanha, que esse ódio cresceu ainda mais, como explica o professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Hélder Viana: “Com o final da guerra, surgiu um discurso que foi ganhando força: um discurso que coloca em questão os resultados da guerra, de que poderia ter sido ganha pela Alemanha, se não fosse pela pelos judeus” que passam a ser vistos cada vez mais como os culpados por tudo de ruim que estava acontecendo.

Esse discurso torna-se popular e vai culminar na chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933. É na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que esse sentimento de ódio toma proporções maiores. “Alguns países, sobretudo a Alemanha, vão começar a tomar medidas contra os semitas. Essas medidas vão desde a proibição de casamentos entre judeus e nacionais à perda de cargos importantes e de formação da opinião pública,” detalha Viana.

O antissemitismo cresce e a população judia agora são tidos como um grupo inferior aos alemães e passam a ser obrigados a viver em guetos, perseguidos, torturados e mortos.

O Holocausto

É pensada uma forma de acabar definitivamente com a classe judaica, e a solução encontrada foi o extermínio em massa. São criados campos de extermínio, como Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka, Majdanek e, o mais conhecido, Auschwitz. Hélder Viana explica: “O Holocausto é a medida extrema que vai ser tomada com o propósito de exterminar toda uma população na Europa por volta do início dos anos 1940, que é quando a alta cúpula nazista busca encontrar uma ‘solução final’ para os judeus, que estavam até então confinados nos campos de concentração”.

Chegando lá, os capturados que não estivessem em condições de trabalhar eram levados imediatamente às câmaras de gás e depois tinham seus corpos cremados. Os que sobrevivessem a essa triagem seguiriam trabalhando de maneira escrava, com má alimentação, em péssimas condições de higiene, pressão psicológica e correndo diariamente o risco de serem mortos.

Além dessa forma de extermínio, inúmeras pessoas morreram fuziladas em diversas partes do continente europeu. A aniquilação passou a acontecer de forma industrial e o resultado final foram as cerca de seis milhões de vítimas.


Liberdade

Finalmente, em maio de 1945, os nazistas se renderam e os prisioneiros que haviam sobrevivido ouviram o tão sonhado “Vocês estão livres!”. Apesar de o extermínio nazista ter acabado, milhares de pessoas morreram poucos dias após a libertação por conta das más condições em que se encontravam.

Libertos, os sobreviventes buscaram se reerguer. “Depois da guerra, foi apontada a ideia da criação de um Estado para os judeus, então é oficializado o Estado de Israel. Boa parte deles vai para Israel, mas outros preferem ir para outros países,” explica Viana.

Entre os países escolhidos como destino está o Brasil. Conheça as histórias de três sobreviventes que procuraram recomeçar a vida em solo brasileiro.

Nanette Blitz Koing



Nanette Blitz Koing segura sua estrela de Davi, a qual era obrigada a usar como forma de identificação durante a Segunda Guerra. (Foto: Ramon Modenesi/National Geographic Brasil)
Nascida no dia 6 de abril de 1929, Nanette Blitz Koing teve uma infância como a de qualquer outra criança holandesa: brincava com os amigos pelas ruas de Amsterdã, estudava, viajava com os pais durante as férias e fazia outras coisas comuns à sua idade. Entre suas amigas, um nome soa familiar: Anne Frank. Nanette chegou, inclusive, a ser colega de turma da jovem escritora, vítima do Holocausto, no Liceu Judaico, entre 1941 e 1942, porém o convívio das duas foi interrompido quando Anne e sua família deixaram sua casa para fugir da perseguição nazista.

Em 1943, Nanette, seus pais e seu irmão foram capturados e levados para o campo intermediário de Westerbork, na Holanda. Nesse mesmo ano, seu pai morreu vítima de infarto e sua mãe e seu irmão foram deportados. Nanette foi levada para Bergen-Belsen, também conhecido como “Campo de Horror”, em 1944, aos 15 anos. Lá, a jovem reencontrou sua amiga Anne e sua irmã, Margot Frank. Em uma entrevista concedida à Revista Exame, ela disse: “Ela já não era a mesma Anne de antes e eu não era a mesma Nanette. Havíamos passado por muita coisa”. Anne Frank morreu em Bergen-Belsen em março de 1945, dias antes dos britânicos libertarem os prisioneiros, deixando para trás seu famoso diário.

Nanette, hoje com 90 anos, foi um dos 60 mil sobreviventes que os soldados britânicos encontraram naquele domingo de 15 de abril de 1945. Atualmente mora em São Paulo e guarda objetos da época mais sombria de sua vida, como fotografias, cartas e sua estrela de Davi que servia como identificação dos judeus durante a Segunda Guerra.
Ela se dedica, há mais de duas décadas, a dar palestras em escolas sobre as atrocidades do Holocausto, porém, por conta da idade, o número tem diminuído. Em 2015, foi publicado o livro “Eu sobrevivi ao Holocausto”, onde Nanette narra sua história antes, durante e depois do período que marcou para sempre sua existência.
“Vou morrer lutando para que seres humanos não sofram nem percam sua dignidade como aconteceu com os judeus naquela época, como aconteceu comigo.”
-  Trecho do livro Eu sobrevivi ao Holocausto

Andor Stern
Andor Stern foi o único brasileiro nato a sobreviver ao Holocausto. (Foto: Gustavo Amorim/Aventuras na História)

Dentre as milhões de pessoas que foram deportadas para os campos de concentração e extermínio, estava o brasileiro Andor Stern. Nascido em São Paulo em 1928, Andor é filho de húngaros judeus. Seu pai era médico e trabalhava em uma mineradora em Nova Lima, Minas Gerais e, mais tarde, foi transferido para a Índia. Quando seu contrato chegou ao fim, ele e sua família decidiram visitar seus parentes em Budapeste, capital da Hungria. Na época, Andor tinha de três anos.

Na juventude, Andor conseguiu emprego em uma fábrica de eletrônicos. Logo os nazistas ordenaram que os judeus passassem a viver no gueto, separados do restante da população, mas, o brasileiro decidiu ficar e morar na fábrica em que trabalhava. Dias depois, ele soube que o gueto havia sido bombardeado. Andor entrou em desespero, pois era onde a sua família estava.

No dia seguinte, um oficial nazista foi até a fábrica com o propósito de levar metade dos judeus que ali trabalhavam – dez no total. Andor questionou se o oficial os levaria para o mesmo local para onde os moradores do gueto foram levados. A resposta foi incerta, porém, mesmo assim, ele se ofereceu para ir, aos 15 anos. O plano de reencontrar a família deu certo e eles se abraçaram novamente em Auschwitz. Entretanto, não demorou muito para que fossem separados de novo, e desta vez, para sempre.

Em meio ao cenário de morte em que vivia, Andor construiu uma linda amizade com Luis Berger, também sobrevivente. Ele recorda que um ajudava o outro durante os dias nos campo. Em um momento de sua vida, o brasileiro pensou em cometer suicídio, mas lembrar que seu avô o chamava de “brasileirinho” lhe deu força e o fez querer retornar a sua terra natal.

Por fim, no dia 1º de maio de 1945, Andor Stern foi resgatado por oficiais americanos. Retornou ao Brasil em dezembro de 1948, aos 20 anos. Sua história está documentada no livro “Uma Estrela na Escuridão – A Incrível História de Andor Stern, o Único Brasileiro Sobrevivente do Holocausto”, escrito pelo professor e historiador Gabriel Davi Pierin.
“O ser humano é uma coisa fantástica. Ele é capaz dos gestos mais lindos, mais altruístas, mas também dos mais ordinários.”
- Andor Stern, em entrevista ao Aventuras na História, do Uol
George Legmann

George Legmann é hoje um dos mais jovens sobreviventes do Holocausto. (Foto: Iara Morselli/Glamurama)

O engenheiro George Legmann, de 76 anos, possui uma particularidade em relação aos demais sobreviventes: ele nasceu em um campo de concentração.

Em abril de 1944, sua mãe, seu tio e seus avós maternos, naturais da Transilvânia, na Romênia, foram capturados e deportados para o campo de extermínio Auschwitz. Seu pai havia pulado do trem em movimento para poder buscar ajuda e salvar sua família, mas foi preso e levado a um campo de trabalhos forçados, na Hungria. Sua mãe, Elisabeta Török Legmann, estava no início da gestação.

Ao desembarcarem em Auschwitz, os guardas nazistas orientaram aos doentes, idosos, grávidas e aqueles que não estivessem em boas condições que subissem em um caminhão e os demais seguiriam a pé. O avô e o tio de George, que estava machucado, embarcaram, porém Elisabeta disse a sua mãe: “Você não é velha e eu não estou grávida” e foram caminhando como a maioria. Aqueles que entraram no caminhão foram encaminhados diretamente para as câmaras de gás.

Mãe e filha foram deportadas para campo de concentração Dachau, o primeiro a ser construído na Alemanha. Elisabeta conseguiu esconder sua gravidez até a última semana de gestação, quando foi descoberta. Além dela, encontraram mais sete grávidas. O médico residente entrou em contato com o chefe do campo de Auschwitz e perguntou o que deveria fazer com as mulheres.

Como as tropas soviéticas e americanas avançavam, e os crematórios de Auschwitz já estavam sendo demolidos, o médico recebeu permissão para fazer o que quisesse com elas. Decidiu salvá-las, pois, caso fosse julgado, poderia usar isso em sua defesa. Elisabeta foi a primeira a dar a luz.
Cinco dos sete bebês que nasceram no campo de concentração de Dachau. À direita está Elisabeta segurando George no colo, em maio de 1945. (Foto: Reprodução/Museu do Holocausto)
George Legmann nasceu em 8 de dezembro de 1944, com a ajuda de um médico judeu, também aprisionado. Ao final da guerra, Elisabeta saiu de Dachau carregando nos braços seu filho George. Sua mãe também sobreviveu. Meses depois, o pai de George, que também havia sido libertado, reencontrou sua família, e em 1961 se mudaram para o Brasil.
“Acho importante a iniciativa de contar para as novas gerações o que aconteceu [...] para não se repetir [...], porque é inadmissível que no século XXI ainda tenha mandatários que negam a existência do Holocausto e que também negam os direitos humanos.”
- George Legmann, em entrevista à TV Senado
Relembrar para não esquecer

Após 75 anos do genocídio que horrorizou a humanidade, as lembranças daqueles dias estão gravadas em fotografias, escritas em livros e eternizadas na memória dos que os viveram. Contudo, Hélder Viana explica que relembrar este período da história divide opiniões: “Alguns grupos defendem certo esquecimento da memória desses dias, não por compactuarem com o nazismo, mas por ser uma memória muito traumática e dolorosa para quem passou por aquilo. Para outros, deve, sim, haver essa lembrança, justamente para não ocorrerem os erros do passado”.

O professor conclui ressaltando: “É importante relembrar e refletir sobre isso, justamente para abominar as políticas desses estados autoritários, segregacionistas e genocidas, como foi o da Alemanha nazista. O Holocausto mostra bem o que o extremismo político é capaz de fazer: criar uma realidade tão tenebrosa como foi o Holocausto”.




sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

BECO DA LAMA: palco da boemia, cultura e gastronomia da capital potiguar


POR ANDRÉA FORTUNA, CARLOS SATURNINO, RODRIGO SANTOS E SÁVIO SANTOS

Localizado no bairro da Cidade Alta, na capital potiguar, o Beco da Lama é um lugar conhecido dos natalenses e dos frequentadores de um dos mais antigos bairros da cidade. Em outros tempos, a avenida Rio Branco e a rua Vigário Bartolomeu abrigavam grandes casarões da classe média e da elite natalense; entre essas duas ruas paralelas, nascia ali o “beco da lama”, um pequeno beco de serviço que dava acesso ao fundo dos casarões desses dois importantes logradouros. As pessoas que trabalhavam nessas residências utilizavam o beco (oficialmente, rua Vaz Gondim) tanto para acesso ao trabalho, como para dispensa de lixo e de água servida, água essa que escorria entre as sarjetas da rua até um canto mais baixo da cidade, daí a “lama” do “beco”.
(Foto: Rodrigo Santos/ Caderno de Pauta)
(Foto: Andréa Fortuna/ Caderno de Pauta)

Hoje, o Beco da Lama é um local plural. De dia, funciona como uma ruela comum do centro da cidade, com diversos tipos de comércios, em sua maioria sebos e restaurantes, além de bares e vendedores camelôs e ambulantes. Durante a noite, salvo alguns dias da semana, o beco ganha sua cara de carnaval e suas vestes de boemia, mais precisamente nas redondezas do bar da Nazaré e do bar da Meladinha, onde grupos de samba, trios de forró e DJ´s dando forma de festa ao antigo beco natalense.


(Foto: Andréa Fortuna/ Caderno de Pauta)
(Foto:  Andréa Fortuna/ Caderno de Pauta)
Recentemente, o beco passou por uma revitalização estética, realizada pela prefeitura municipal em parcerias com artistas locais, sob o comando de “Dicesarlove”, artista paulistano famoso por suas intervenções no Beco do Batman na cidade de São Paulo. Paredes pintadas, algumas artes e gráficos impressionantes ilustraram o folclore e a cultura brasileira nas paredes do lugar, dando uma rejuvenescida no local que entre altos e baixos vem construindo sua história dentro dessa cidade tão diversa.


(Foto: Andréa Fortuna/Caderno de Pauta)
(Foto: Andréa Fortuna/Caderno de Pauta)

Berço da música potiguar, o beco conta ainda com diversas atrações culturais diariamente, como a tradicional roda de samba, que acontece todas as quintas-feiras há doze anos, organizada por dona Nazaré, proprietária do famoso bar da Nazaré. A novidade fica por parte das atrações e eventos realizados pela atual gestão municipal, que realiza aos sábados, junto aos comerciantes da região, o projeto “Viva o Centro”. Além disso, produtores independentes e DJ’s promovem também o “Sabadaço” e o “SounDJ”, eventos que trazem ao beco o público mais jovem e descolado da capital, por contarem com atrações de funk e música eletrônica.


(Foto: Andréa Fortuna/Caderno de Pauta)
Dentre os eventos que o Beco da Lama sediou em 2019, destacamos o Festival da Meladinha, evento idealizado pelo produtor cultural Marcelo Veni em parceria com Neide, do Bar da Meladinha, que ocorreu no mês de novembro. Além da Meladinha, o festival também contou com a parceria de 14 outros bares, que incrementaram o evento com uma diversidade de sabores e petiscos próprios da comida de boteco. Foram 03 sábados de pura cultura e diversão, com shows musicais, gastronomia e muita descontração.




domingo, 19 de janeiro de 2020

O poeta da passarela

Ele foi garçom e trabalhou em almoxarifado
Hoje, vende poesia

Seu Manoel, vendedor de cordéis
(Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta)

*Por Camila Emily 

Lá pelas cinco da tarde, quem atravessa a passarela logo vê, sempre muito bem trajado com roupa social que é uma de suas características; o poeta que carrega um pente no bolso da camisa e cordéis em suas mãos. Quando perguntado como se chama, ele responde sem pensar muito: “Manoel dos Santos e Silva, poeta nascido no marco colonial. Touros”. Trata-se de Seu Manoel, 68, vendedor de cordéis na passarela em frente ao Shopping Via Direta, zona sul de Natal. É bastante conhecido e fica sempre no mesmo local, na dobradiça da passarela que é onde lhe cabe e tem espaço. E nos dias que ele não aparece, o canto que o pertence parece vazio: “Ela é como minha mãe, apesar de ser um ser inanimado, eu gosto dela,” afirma sobre a passarela. O senhor de camisa social vermelha parece nem se importar com o calor potiguar. Todas as vezes que pedia para fotografar o momento ele rapidamente retirava o pente do bolso da camisa e passava em seu cabelo grisalho.

Não conseguimos conversar sem sermos interrompidos, no mínimo, umas cinco vezes ao longo da entrevista. Foi muito cumprimentado por todos que ali passavam. “Opa, Seu Manoel” e “Como vai, Seu Manoel” eram os mais dito pelos que passavam pela suspensão de concreto. A todo momento perguntavam quanto custa um cordel e ele respondia “um é dois, e três é cinco”, com um largo sorriso no rosto de quem já estava tirando uma quantia razoável naquela noite. Vende cordéis desde 1985 e o primeiro foi sobre o Plano Cruzado, um plano econômico do governo de José Sarney, porém perdeu a matriz do que havia escrito na época. Criado ao som da viola, sua infância foi ouvir violeiros desde os sete anos de idade. Aos treze já começava a fazer seus primeiros versos desmantelados e sem métrica. Ele diz ser um autodidata porque aprendeu tudo sozinho – “Nunca fui à escola de poesia,” conta, deixando claro que é de natureza ser poeta.

Recorda que na época em que começou a escrever, os vendedores de cordéis se davam muito bem por não haver internet e nem televisão. A primeira vez que assistiu televisão foi em 1970, em Macau. “O cordel não predominava, ele dominava”, diz com um olhar saudoso. Tinha pais analfabetos que trabalhavam no campo e teve que começar a trabalhar desde muito jovem. Ele lembra que quando chegou a estação ferroviária de João Câmara leu o nome do jeito errado: “Eu li a palavra João Câmará, mas não tinha ninguém com quem eu pudesse corrigir. Minha mãe era analfabeta e meu pai também. Após três anos, voltei, e agora já sabia ler muito bem”. A cada pergunta ele parecia voltar no tempo e contava com exatidão como aconteceu. Nunca leu Castro Alves e nunca gostou de ler livro de ninguém, pois, para ele, um verdadeiro poeta precisa ser original, criar e inventar sozinho. Por isso o apelidaram de autodidata.

Quando saiu da sua cidade natal, se sentiu como um pássaro que chega numa floresta sem ninguém. Mais difícil do que viver lá, foi viver aqui. Pois não tinha amigos e tampouco parentes. Chegou no Alecrim quase sem roupas e sem nenhum tostão. Vindo do interior, ficou encantado com as coisas que encontrou na capital: “Cheguei na porta de uma cidade e me perguntei ‘O que é isso aqui?’ Eu, muito vivo com medo de perguntar a alguém. Para mim era uma Nova York, para quem veio de uma cidadezinha lá fora”. Casou-se duas vezes e tem seis filhos; atualmente ele mora sozinho. Vive com a renda que recebe do governo e um trocado que ganha na venda de cordéis. Já chegou a tirar trezentos reais por mês, mas ultimamente tira no máximo cento e cinquenta. Isso quando não sai no fim da noite sem lucrar nada. Apesar de muito desiludido com a realidade ele acredita que um dia suas obras possam voltar a ter valor. Quanto vale um verso. Quanto será que vale os versos de um poeta?

​Cartaz de anúncio dos seus cordéis (Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta)

Uma das coisas que inspirou suas obras foi o seco do sertão e a vida do sertanejo. Seus versos são criados a partir de sua sensibilidade poética, muito mais que palavras. Um poeta cujo talento, para muitos, não tem valor. E a sua maior fonte de criação é o sentimento humano, do que vê e do que vive, que para os não-poetas é imperceptível. Uma certa vez, quando declamava seus versos, o questionaram que a lua não chora e ele afirmou: “É a imaginação do poeta” .

Eu ia para Juazeiro do Padre Cícero Romão

Ia com a mãe santíssima no coração

Eu via a lua chorando quando passei no sertão
[...]”
Uma de suas obras (Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta)

Um senhor que só estudou o primário deixa até mesmo doutores de universidades boquiaberto. Dentre uma declamação e outra, ele se perde nas poesias que cria sem estudo algum. O talento vem de um esconderijo secreto onde homem algum consegue ver, nem com microscópio. E, depois de declamar, conta entusiasmado: “Era um dotô. Ele bateu palmas e chamou o amigo para ouvir,” em seguida, o homem para quem declamava completou sorrindo “Você vai dizer de novo, porra”. Seu Manoel tremia todas as vezes que pronunciava uma palavra iniciada em R; tremia tanto que dava para sentir a vibração que o som fazia em sua boca. E gesticulava, tocando em mim enquanto declamava uma de suas criações sobre a medicina. Apesar de já estar bastante habituado às evoluções com o passar do tempo, ele leu muito cordel na lamparina, sob a luz do querosene. E era feliz. Ele tem alma nobre e conduz cada palavra como um maestro com sua orquestra. É que poeta a gente não só conhece; poeta a gente sente. O sertão não só transpira, ele também inspira, e no marco colonial jamais se viu igual depois dele. Poeta, de onde é que vem seu verso?

sábado, 18 de janeiro de 2020

Imprescindível: a importância da Residência Universitária para Camila Rodrigues

Ela saiu de Santa Cruz interior do RN, e veio morar em Natal. Camila Rodrigues está realizando um dos seus objetivos, cursar Publicidade e Propaganda na UFRN, e isso só foi possível graças ao apoio da Universidade.


POR PABLO ZANCA 

A maioria dos estudantes que moram na residência universitária fazem o sacrifício de sair de casa e deixar suas famílias para seguir o objetivo. O sonho de estudar em uma universidade conceituada e ter perspectivas melhores para o futuro, Camila Rodrigues (20), estudante do 4° período de Publicidade e Propaganda, deixou sua cidade, Santa Cruz no interior do Rio Grande do Norte para ir morar na residência universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo a estudante, os residentes são pessoas muito sonhadoras e determinadas a transformar suas vidas, por meio da educação.

Aluna Camila Rodrigues (Foto: Pablo Zanca/Caderno de Pauta)
Apesar da família de Camila não possuir grandes condições financeiras, ela conta que nunca faltou motivação e apoio por parte de sua família em relação aos seus estudos, e que a fragilidade financeira nunca foi um fator determinante em sua educação, talvez uma dificuldade, mas não um empecilho. Diante desse cenário, a estudante afirma que as “minhas necessidades me deram a consciência necessária para enxergar que através dos meus estudos e de uma educação de qualidade eu também posso chegar onde tantos privilegiados chegam diariamente, de igual pra igual.”. Camila aponta que um dos principais fatores que contribuiu para ela conseguir chegar a UFRN, foi ter estudado no Instituto federal do Rio Grande do Norte (IFRN), Instituto o qual torna-se ponto de partida para estudantes do ensino médio chegar a universidade federal.


A residência universitária acomoda 512 estudantes, os quais foram selecionados de acordo com os critérios determinados pela Universidade por meio da condição social financeira e a distância de locomoção. Contando a seleção, e também o objetivo de um futuro melhor, há outra rigorosa semelhança entre esses estudantes, a condição social e financeira de cada um.


A palavra que pode definir todo esse grupo de colegas de residência no entendimento de Camila é: Diversidade, visto que são recebidas pessoas de todo o Brasil, de diferentes raças, gêneros e costumes.


Ao ser perguntada se, sem o benefício da residência Camila conseguiria dar continuidade aos seus estudos e se manter em natal, ela disse:

“com certeza não, a residência desde o início é imprescindível para que eu continue minha graduação, porque além da moradia em si, nós temos todo um suporte, desde limpeza, alimentação garantida pelo Restaurante Universitário, mais as cestas básicas mensais”. Para ela, o auxílio moradia que é disponibilizado para aqueles que não conseguem a vaga nos aposentos da universidade, no valor de 250 reais, não seria o suficiente para se manter na Capital.


Além desses suportes básicos que a residência oferece, a entrevistada destaca que, o contato com essas pessoas é muito enriquecedor para o convívio social, embora também considera que ao mesmo tempo é desafiador, porque em um ambiente com tantas diversidades, alguns problemas de convivência podem ocorrer. Outro ponto positivo abordado é que, com todos esses suportes, o estudante possui a preocupação com seus estudos, e isso faz com que se dediquem cem por cento nisso, como também podem aproveitar oportunidades que a universidade oferece, como bolsas e projetos.


Depois de contar sobre os muitos benefícios que a residência do campus da UFRN oferece aos alunos, Camila também ressaltou que nem tudo é perfeito em relação a moradia universitária, e para ela, o ponto a ser ressaltado de maneira negativa é sobre a infraestrutura física do local, principalmente os espaços e a acessibilidade, “poderíamos ter uma cozinha maior já que ela é compartilhada, nós não temos elevador, e isso é complicado porque uma pessoa com deficiência não pode ter acesso ao quarto piso por exemplo”. Esses tipos de problemas para ela, é muito desconfortável, visto que há pessoas que não podem voltar para suas casas no final de semana por causa da distância.


Para encerrar a entrevista, perguntei qual seria a principal preocupação dos residentes sobre o benefício e, sem hesitar, ela afirma: “com certeza o medo de não termos mais o direito a esse auxílio, porque várias residências estão sendo fechadas, e as poucas vagas que ainda existem a galera está lutando muito para conseguir”. Diante de sua afirmação e com a conjuntura política atual, o receio de Camila e de muitos outros é cada vez mais real. Se os cortes financeiros de 30% sobre as despesas não obrigatórias, previstas pelo Governo Federal realmente acontecer, a luta de Camila e de seus colegas de residência irão se perder como lágrimas de tristeza na chuva.

            

O carisma e competência por trás do nome que apresentou a Logística ao Rio Grande do Norte

Trabalhando desde a adolescência, Karla Motta dedicou sua vida a buscar meios que tornassem as empresas do estado mais competitivas, mantendo o foco no cliente, reduzindo custos e preservando a natureza


*Por Francisca Pires 
Karla com seus primos durante a infância
(Foto: Arquivo Pessoal)
Neta de um dos fundadores da primeira indústria do estado, o Curtume J Motta, Karla nasceu em uma família engajada no meio empresarial. Filha de Álvaro e Marisa Motta, é a mais velha de três irmãos e herdou dos pais não só o bom humor e a alegria de viver, mas também o gosto incessante pela leitura e a busca por conhecimento. Com cinco anos já tinha aprendido a ler, adorava histórias em quadrinhos e por causa do gosto pela leitura desenvolveu uma facilidade de memorização. “Eu sempre adorei ler. Acredito no princípio de que não precisamos partir do zero em nada na vida, então, se algo está acontecendo e eu não consigo entender muito bem, busco ler sobre aquilo. Essa característica sempre me foi útil na vida pessoal e profissional”, declara. 

Ainda durante sua adolescência, com dezesseis anos, ela passa a dedicar, nas férias escolares, um turno do seu dia para trabalhar ajudando seu pai no Curtume J Motta. Ele que atuou não só no ramo empresarial, mas também na vida pública como deputado estadual, deputado federal, suplente de senador e secretário de estado no RN durante muitos anos, passou a contar com ajuda da filha nas questões administrativas. Segundo Karla, sua responsabilidade era organizar os arquivos, dar um suporte de auxiliar administrativa e orientar o desenvolvimento do sistema de informações da empresa.

Com visível amor, respeito e admiração, ela declara que muitas posturas dos seus pais tiveram influência positiva na sua vida. “Papai sempre repetia e repete até hoje que a única coisa que ninguém nos tira é o conhecimento, por isso é algo que merece o investimento”, conclui. Declarando-se uma curiosa nata, Karla afirma que gostar de conversar e ter a humildade necessária para perguntar ou admitir que não sabe sobre algo, também são características que contribuíram para o seu crescimento pessoal e sua carreira.

Mesmo tendo começado a trabalhar muito cedo na grande empresa da família, Karla, também aos dezesseis, prestou vestibular e foi aprovada no curso de Engenharia Civil da UFRN. No entanto, a grade curricular da época não permitia um contato com as práticas da área, o que com pouco tempo de curso fez com que ela prestasse outro vestibular no meio do ano. “Eu não queria ficar estudando só química, física, álgebra e cálculo. A falta de prática na parte inicial do curso de Engenharia acabou me desmotivando e eu prestei vestibular novamente para Arquitetura, passei e apesar de ter percebido, com um ano de curso, que também não era o que eu queria, neste segundo acabei me formando”, relata.

Karla Motta casou-se em 1985, aos dezenove anos, foi mãe da primeira filha Talita aos vinte um, da segunda filha Camilla aos vinte e dois, e da caçula Rebecka aos vinte e seis: “As duas primeiras gestações ocorreram no percurso do curso de arquitetura e ainda neste período eu comecei a participar de cursos de capacitação pela Federação das Indústrias do RN”. Ela conta que sua família tinha muita proximidade com a Federação, justamente por serem os fundadores da primeira indústria do Rio Grande do Norte, e foi durante um desses cursos que surgiu, através do interesse em questões relacionadas a gestão da qualidade, a ideia de continuar estudando depois de formada, para fazer um mestrado. “Eu me inteirei dos mestrados que haviam na época e descobri um de engenharia mecânica com área da concentração e gerência da produção, fiz um processo seletivo e fui aprovada”, conta.

Conclusão do seu doutorado em Engenharia da Produção
na UFSC (Foto: Arquivo Pessoal)
Seu objetivo a partir daí era montar um programa de gestão da qualidade para implantar no Curtume. Porém, ainda no primeiro semestre, Karla é apresentada à disciplina de logística, ministrada na época pelo professor Domingos Campos que tinha acabado de voltar da Espanha após concluir seu doutorado. “Até então eu me sentia em busca de algo, mas nas primeiras aulas da disciplina tive um sentimento de encontro muito grande. Eu realmente me apaixonei pela logística, esse sentimento virou amor e dura até hoje”, afirma.

Após esse contato inicial com o conceito e os princípios da logística, ela conta que desenvolveu uma admiração por esse foco no serviço ao cliente com redução de custo, visto que entende essa dinâmica como uma questão de fazer o melhor para a empresa, mas cuidando sempre do ambiente, assim como a logística reversa propõe. Além disso, tem a otimização dos recursos, a capacitação das pessoas para fazer o melhor e desse modo, trabalhando com a logística, os indivíduos são estimulados a se desenvolverem da melhor forma.

Ao lado do professor Wattson, Karla ministrou uma
oficina de planejamento de vida profissional na UFRN
(Foto: Arquivo Pessoal)
Outra coisa que a encanta muito é essa visão macro de cadeia de suprimentos, pois enquanto algumas pessoas têm mais facilidade ou mais habilidade para questões focadas e específicas, sua percepção sempre foi mais macro, estratégica. Por gostar muito de planejamento, Karla viu na disciplina uma oportunidade de desenvolver algo que aplicasse essas estratégias em uma grande indústria. Assim, decidiu trocar de orientador, de tema da dissertação e trabalhar no desenvolvimento da proposta de um projeto lógico de um sistema de informações logísticas para ser aplicado em uma empresa e no caso a indústria objeto do estudo foi o Curtume, local onde trabalhava.

Ao concluir o mestrado, em meados de 1998, Karla observa que o ambiente empresarial não era muito receptivo às questões da logística. Tal resistência se dava porque o conceito era ainda muito novo na época. “As questões da logística proporcionavam uma visão inovadora de integração de fluxo de materiais e fluxo de informações transversal à organização toda. E eu vi o benefício que poderia trazer, principalmente por causa da localização estratégica do Rio Grande do Norte, mas pelo contato pessoal com muitos empresários, notei que os conhecimentos de logística não eram aproveitados por que as pessoas nem sabiam do que se tratava”, constata. Afim de mudar esse cenário, ela começou uma movimentação para trabalhar com logística e disseminar suas práticas no meio empresarial.

Karla em uma Feira de Mini-empresas com amigos
do SEBRAE e IFRN (Foto: Arquivo Pessoal)
“Ainda em 1998 fiz um processo seletivo para ser consultora no SEBRAE, fui aprovada e no ano seguinte eles trouxeram para Natal a EMPRETEC, que é um programa de formação de empreendedores que também participei”. Karla conta ainda que nessa época se sentia muito confusa, pois muitas oportunidades haviam surgidos para ela. Seu orientador do mestrado a convidou para trabalhar com ele em uma consultoria de logística em uma empresa, ela aceitou o trabalho e gostou muito da experiência. Além disso, tinha as demandas da empresa de sua família, as necessidades do programa de qualidade do SEBRAE e a empresa em que estava fazendo consultoria queria a contratar como gerente de logística. Mesmo com tantos convites e oportunidades, o chamado que mais a inspirava era a missão e o desejo de disseminar as questões de logística no estado.

“O EMPRETEC me ajudou a enxergar isso com clareza, a perceber o que era prioridade e relevante para minha vida. Essa questão da logística para mim ela é muito munida de sentido e no EMPRETEC eu montei uma estratégia de cinco anos, que visava disseminar o conceito e as práticas de logística no Rio Grande do Norte”, relata. Nesse contexto, essa disseminação precisava ser feita de maneira abrangente. Para tanto, Karla montou o projeto de um curso de especialização em logística empresarial que foi o primeiro do Nordeste, com a primeira turma no ano 2000. Segundo ela, quem estava participando também do EMPRETEC era Kelermane Martins, na época diretor de extensão da pós-graduação da UNP, então, em conjunto eles fizeram um convênio das Federações da Indústrias com a UNP para assim possibilitar a realização desse curso de especialização em logística empresarial.

Karla acompanha uma entrega da UPS em San Diego (Foto: Arquivo Pessoal)

No entanto, os únicos professores de Natal especializados na área eram ela e o Domingos Campos. Para resolver tal problema, Karla montou o projeto do curso e foi com as disciplinas e a ementa na mão para um evento de logística em São Paulo, onde contou com a indicação do precursor da logística no Brasil, Antônio Galvão Novaes, à época orientador da amiga Mônica Luna no doutorado na UFSC. A estrutura do curso era baseada nos princípios Bowersox e ela ia para as palestras referentes aos temas das disciplinas. Analisava o perfil dos palestrantes e caso julgasse que se encaixava no que ela pretendia trazer para seu curso, fazia o convite. Todos os convidados aceitaram fazer parte da equipe e desse projeto pioneiro.

Paralelamente nesse processo de disseminação da logística, além do curso de pós-graduação, Karla montou também um ciclo de palestras que aconteciam nas Federações das Indústrias para os presidentes de industrias e dirigentes do sindicato, uma vez que seu foco era disseminar os conceitos para os gestores empresariais. As palestras aconteciam uma vez por mês e contavam com a presença de empresários que, após uma introdução conceitual feita por ela, contavam suas experiências com as práticas logísticas e como era a realidade da empresa dele em termos logísticos.

Alunos do curso de Especialização em direito e gestão do judiciário (Foto: Arquivo Pessoal)

Outro fator que ajudou nesse processo de disseminação foi o fato de Karla ter sido convidada pelo Ricardo Alves, o diretor da Tribuna do Norte para escrever artigos no caderno de economia do jornal. “Teve em 2008 um seminário chamado Motores do Desenvolvimento do RN e eu fui convidada para apresentar o perfil da logística do estado. Nisso, fiz um mapeamento da infraestrutura, contei o que tinha e o que não tinha e apresentei nesse evento. Após a palestra o Ricardo Alves me procurou e fez o convite. Eu passei um ano escrevendo artigos todos os domingos, falando sobre vários aspectos da logística e procurando os associar a questões do dia a dia, o que ajudou muito na disseminação dos conceitos. Então eu procuro sempre levar a logística de maneira muito simples, porque ela é assim”, conclui. Ela acredita que quando as pessoas passam a ler sobre o assunto, entendem que sua agenda semanal, sua ida ao médico, os suprimentos que compram para suas casas, a forma com que administram seu tempo e recursos, tudo isso é logística. O desconhecimento é que distancia as pessoas do conceito de logística, e quando elas entendem, o abraçam.

Workshop The Future of Education, com a professora
do IFRN Renata Guidi e do pesuisador Henry Etzkowitz
(Foto: Arquivo Pessoal)
Nesse período em que montou o curso de especialização em logística, as grandes empresas do estado que participavam da Federação das Indústrias começaram a demandar serviço de consultoria. Karla explica que esse era mesmo seu objetivo, fazer com que as pessoas conhecessem o que era logística e querer aplicá-la. Desse modo, seus alunos acabavam tornando-se seus clientes e assim ela atuou dos trinta aos quarenta e sete anos como autônoma. “Trabalhei nesse sentido por muito tempo e criei minhas filhas, fiz tudo sempre com muita alegria, emoção e gostando muito do que fazia”, relata. Ademais, através do contato com as microempresas do SEBRAE, ela percebeu como coisas simples poderiam salvar e evitar que muitas empresas fechassem. Pensando nisso, resolveu criar um programa de logística chamado PROLOG e foram realizadas no SEBRAE várias rodadas com a participação de quatrocentas e vinte empresas do estado inteiro.

Com relação a uma atuação do ponto de vista mais macro, no ano de 2006 participando de um Fórum Internacional de logística no Rio de Janeiro, Karla teve oportunidade de conhecer, casualmente durante um almoço, outra pessoa muito relevante na sua vida. O engenheiro Marcelo Perrupato que na época era secretário nacional de políticas de transporte, e estava coordenando o plano nacional de logística e transportes (PNLT) e após uma conversa, a convidou para participar do seminário. Voltando para Natal, Karla entrou em contato com ele para organizar mais alguns detalhes e descobriu que o Rio Grande do Norte não havia enviado nenhuma demanda de infraestrutura a ser incluída no plano nacional.

Ela, então, começou a se mobilizar, foi até o DER- Departamento de Estradas e Rodagens, depois até a secretaria de infraestrutura e, por fim, entrou em contato com a Federação das Indústrias. Toda essa articulação resultou na reunião de um conjunto de obras necessárias no estado que foi levada e apresentada nesse evento: “Isso foi um marco bastante significativo, porque fizemos parte de um momento da história da logística do país. E partir daí nós começamos a uma mobilização para que o estado do RN tivesse seu plano estadual de logística e transportes”, conta. Segundo Karla, na época, a governadora Vilma de Faria chegou a fazer uma licitação visando contratar uma empresa, aquela que venceu iniciou o estudo, mas o governo não teve condição de continuar pagando e até hoje nós não temos esse plano.

Karla e seu amigo Bento Herculano, atual
presidente do TRT21, no dia de sua posse
(Foto: Arquivo Pessoal)
Atualmente, Karla encontra-se diante de um novo desafio de sua carreira: um convite para assumir a coordenadoria de gestão estratégica do Tribunal Regional do Trabalho durante os próximos dois anos. O convite resultou em um pedido de cessão feito pelo TRT ao IFRN, e ela diz que “A partir de janeiro estarei no TRT conhecendo pessoas, aprendendo coisas novas, aplicando a visão macro da estratégia e procurado contribuir para o desenvolvimento da sociedade, das pessoas com que me relaciono e me divertindo, porque é assim que gosto de trabalhar.”, comenta com muita felicidade.

Todos os acontecimentos supracitados se deram em paralelo ao crescimento das três filhas. Nesse ínterim, Karla se separou do primeiro marido e cinco anos depois se casou com Miguel Josino, que faleceu em um acidente em 2014. Porém, como acolhe bem os fatos da vida e mesmo o imponderável, Karla conta que com sua inquietude logo voltou a trabalhar e a rotina ajudou a lidar com a perda. Assim como ela, suas filhas sempre foram muito estimuladas a buscarem conhecimento e aproveitarem o que o mundo poderia oferecer. Nesse sentido, as meninas já fizeram um grande mochilão juntas quando eram bem novas e estudaram fora do Brasil: “Papai sempre disse que viagem ruim é aquela que a gente não faz ou faz por motivo de doença. Por isso, sempre que possível viajei e as minhas filhas também”, conta.

Família de Karla reunida (Foto: Arquivo Pessoal)
Karla relata que seu primeiro neto, filho de Talita, se chama Bernardo e nasceu no mês anterior a morte de seu marido: “Esses são os sincronismos de Deus. Ele me trouxe um amor muito grande para depois me tirar um grande amor, é como se Ele se fosse arrumando a vida”. Dois anos depois, nasce seu segundo neto, o Felipe. Além da forte ligação com as filhas e os netos, Karla o tempo todo demonstra ser muito ligada aos pais. Eles foram os principais incentivadores de todos os aspectos de sua vida, além de serem donos de uma alegria e bom humor que ela afirma ter herdado deles.

Na sala de aula, Karla costuma dar aulas como se estivesse contando uma história, assim consegue facilitar o entendimento por parte dos alunos. Afirma que apesar de existir uma parte conceitual que precisa ser exposta, é associando os conceitos ao dia-a-dia que o aluno consegue aprender de fato a matéria e entender o porquê ele precisa estudar aquilo. Dona de um enorme carisma, ela conta que é feliz por que se sente muito abençoada, é saudável, tem muitos amigos e sempre se sentiu amparada nos momentos de dificuldade.

Ela afirma também que procura lidar com tranquilidade com os problemas, pois dificuldades todos passamos, mas depois de um baque vem alguma coisa que ressurge, o que segundo ela é uma grande benção. Praticante assídua da musculação, Karla conta que adora se exercitar, além de praticar também, ainda que com menos frequência, ioga no núcleo da UFRN. Em 2004, aprendeu a fazer planejamento pessoal e desde então procura repassar a prática para as pessoas. Hoje ela ensina aos seus alunos a planejarem, porque acredita que definir esse planejamento ajuda a dar um rumo para vida e a fazer com que as pessoas entendam se o que estão fazendo tem sentido e vai levá-las até onde desejam chegar.

Karla com o corpo docente do campus IFRN - São Gonçalo do Amarante (Foto: Arquivo Pessoal)


Além de um constante sorriso no rosto, a professora sempre está muito elegante. Maquiada e de salto alto, sua postura é de quem sempre está disposta a fazer o que precisa ser feito. “Eu tenho uma alegria nata que é uma grande característica minha. Adoro dançar, sempre fico muito feliz quando danço. Também adoro cantar e por mais que não cante muito bem, quando todos cantam eu canto junto”, confessa. De perspectiva para o futuro, Karla destaca o desafio de trabalhar no TRT e conta que deseja nesse período continuar trabalhando com logística, em paralelo, escrevendo sobre o tema e disseminando informações, pois segundo ela é importante que a logística tenha uma voz no estado. Ademais, Karla segue no intuito de conseguir desenvolver o plano estadual de logística do RN. Mesmo com tantas contribuições para sociedade, a mulher que nasceu para ser pioneira segue usando sua alegria e competência para encher sua vida de planos e reunir forças para realiza-los, buscando sempre otimizar a logística da vida e a do Rio Grande do Norte.