O genocídio que dizimou milhões de judeus na Europa no século XX teve seu fim há 75 anos, porém as lembranças continuam vivas em quem passou pelos campos de concentração e sobreviveu
POR LUCIANO VAGNO
Nascida no dia 6 de abril de 1929, Nanette Blitz Koing teve uma infância como a de qualquer outra criança holandesa: brincava com os amigos pelas ruas de Amsterdã, estudava, viajava com os pais durante as férias e fazia outras coisas comuns à sua idade. Entre suas amigas, um nome soa familiar: Anne Frank. Nanette chegou, inclusive, a ser colega de turma da jovem escritora, vítima do Holocausto, no Liceu Judaico, entre 1941 e 1942, porém o convívio das duas foi interrompido quando Anne e sua família deixaram sua casa para fugir da perseguição nazista.
Em 1943, Nanette, seus pais e seu irmão foram capturados e levados para o campo intermediário de Westerbork, na Holanda. Nesse mesmo ano, seu pai morreu vítima de infarto e sua mãe e seu irmão foram deportados. Nanette foi levada para Bergen-Belsen, também conhecido como “Campo de Horror”, em 1944, aos 15 anos. Lá, a jovem reencontrou sua amiga Anne e sua irmã, Margot Frank. Em uma entrevista concedida à Revista Exame, ela disse: “Ela já não era a mesma Anne de antes e eu não era a mesma Nanette. Havíamos passado por muita coisa”. Anne Frank morreu em Bergen-Belsen em março de 1945, dias antes dos britânicos libertarem os prisioneiros, deixando para trás seu famoso diário.
Nanette, hoje com 90 anos, foi um dos 60 mil sobreviventes que os soldados britânicos encontraram naquele domingo de 15 de abril de 1945. Atualmente mora em São Paulo e guarda objetos da época mais sombria de sua vida, como fotografias, cartas e sua estrela de Davi que servia como identificação dos judeus durante a Segunda Guerra.
Ela se dedica, há mais de duas décadas, a dar palestras em escolas sobre as atrocidades do Holocausto, porém, por conta da idade, o número tem diminuído. Em 2015, foi publicado o livro “Eu sobrevivi ao Holocausto”, onde Nanette narra sua história antes, durante e depois do período que marcou para sempre sua existência.
Em 1943, Nanette, seus pais e seu irmão foram capturados e levados para o campo intermediário de Westerbork, na Holanda. Nesse mesmo ano, seu pai morreu vítima de infarto e sua mãe e seu irmão foram deportados. Nanette foi levada para Bergen-Belsen, também conhecido como “Campo de Horror”, em 1944, aos 15 anos. Lá, a jovem reencontrou sua amiga Anne e sua irmã, Margot Frank. Em uma entrevista concedida à Revista Exame, ela disse: “Ela já não era a mesma Anne de antes e eu não era a mesma Nanette. Havíamos passado por muita coisa”. Anne Frank morreu em Bergen-Belsen em março de 1945, dias antes dos britânicos libertarem os prisioneiros, deixando para trás seu famoso diário.
Nanette, hoje com 90 anos, foi um dos 60 mil sobreviventes que os soldados britânicos encontraram naquele domingo de 15 de abril de 1945. Atualmente mora em São Paulo e guarda objetos da época mais sombria de sua vida, como fotografias, cartas e sua estrela de Davi que servia como identificação dos judeus durante a Segunda Guerra.
Ela se dedica, há mais de duas décadas, a dar palestras em escolas sobre as atrocidades do Holocausto, porém, por conta da idade, o número tem diminuído. Em 2015, foi publicado o livro “Eu sobrevivi ao Holocausto”, onde Nanette narra sua história antes, durante e depois do período que marcou para sempre sua existência.
“Vou morrer lutando para que seres humanos não sofram nem percam sua dignidade como aconteceu com os judeus naquela época, como aconteceu comigo.”
- Trecho do livro Eu sobrevivi ao Holocausto
Andor Stern
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| Andor Stern foi o único brasileiro nato a sobreviver ao Holocausto. (Foto: Gustavo Amorim/Aventuras na História) |
Na juventude, Andor conseguiu emprego em uma fábrica de eletrônicos. Logo os nazistas ordenaram que os judeus passassem a viver no gueto, separados do restante da população, mas, o brasileiro decidiu ficar e morar na fábrica em que trabalhava. Dias depois, ele soube que o gueto havia sido bombardeado. Andor entrou em desespero, pois era onde a sua família estava.
No dia seguinte, um oficial nazista foi até a fábrica com o propósito de levar metade dos judeus que ali trabalhavam – dez no total. Andor questionou se o oficial os levaria para o mesmo local para onde os moradores do gueto foram levados. A resposta foi incerta, porém, mesmo assim, ele se ofereceu para ir, aos 15 anos. O plano de reencontrar a família deu certo e eles se abraçaram novamente em Auschwitz. Entretanto, não demorou muito para que fossem separados de novo, e desta vez, para sempre.
Em meio ao cenário de morte em que vivia, Andor construiu uma linda amizade com Luis Berger, também sobrevivente. Ele recorda que um ajudava o outro durante os dias nos campo. Em um momento de sua vida, o brasileiro pensou em cometer suicídio, mas lembrar que seu avô o chamava de “brasileirinho” lhe deu força e o fez querer retornar a sua terra natal.
Por fim, no dia 1º de maio de 1945, Andor Stern foi resgatado por oficiais americanos. Retornou ao Brasil em dezembro de 1948, aos 20 anos. Sua história está documentada no livro “Uma Estrela na Escuridão – A Incrível História de Andor Stern, o Único Brasileiro Sobrevivente do Holocausto”, escrito pelo professor e historiador Gabriel Davi Pierin.
“O ser humano é uma coisa fantástica. Ele é capaz dos gestos mais lindos, mais altruístas, mas também dos mais ordinários.”George Legmann
- Andor Stern, em entrevista ao Aventuras na História, do Uol
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| George Legmann é hoje um dos mais jovens sobreviventes do Holocausto. (Foto: Iara Morselli/Glamurama) |
O engenheiro George Legmann, de 76 anos, possui uma particularidade em relação aos demais sobreviventes: ele nasceu em um campo de concentração.
Em abril de 1944, sua mãe, seu tio e seus avós maternos, naturais da Transilvânia, na Romênia, foram capturados e deportados para o campo de extermínio Auschwitz. Seu pai havia pulado do trem em movimento para poder buscar ajuda e salvar sua família, mas foi preso e levado a um campo de trabalhos forçados, na Hungria. Sua mãe, Elisabeta Török Legmann, estava no início da gestação.
Ao desembarcarem em Auschwitz, os guardas nazistas orientaram aos doentes, idosos, grávidas e aqueles que não estivessem em boas condições que subissem em um caminhão e os demais seguiriam a pé. O avô e o tio de George, que estava machucado, embarcaram, porém Elisabeta disse a sua mãe: “Você não é velha e eu não estou grávida” e foram caminhando como a maioria. Aqueles que entraram no caminhão foram encaminhados diretamente para as câmaras de gás.
Mãe e filha foram deportadas para campo de concentração Dachau, o primeiro a ser construído na Alemanha. Elisabeta conseguiu esconder sua gravidez até a última semana de gestação, quando foi descoberta. Além dela, encontraram mais sete grávidas. O médico residente entrou em contato com o chefe do campo de Auschwitz e perguntou o que deveria fazer com as mulheres.
Como as tropas soviéticas e americanas avançavam, e os crematórios de Auschwitz já estavam sendo demolidos, o médico recebeu permissão para fazer o que quisesse com elas. Decidiu salvá-las, pois, caso fosse julgado, poderia usar isso em sua defesa. Elisabeta foi a primeira a dar a luz.
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| Cinco dos sete bebês que nasceram no campo de concentração de Dachau. À direita está Elisabeta segurando George no colo, em maio de 1945. (Foto: Reprodução/Museu do Holocausto) |
“Acho importante a iniciativa de contar para as novas gerações o que aconteceu [...] para não se repetir [...], porque é inadmissível que no século XXI ainda tenha mandatários que negam a existência do Holocausto e que também negam os direitos humanos.”Relembrar para não esquecer
- George Legmann, em entrevista à TV Senado
Após 75 anos do genocídio que horrorizou a humanidade, as lembranças daqueles dias estão gravadas em fotografias, escritas em livros e eternizadas na memória dos que os viveram. Contudo, Hélder Viana explica que relembrar este período da história divide opiniões: “Alguns grupos defendem certo esquecimento da memória desses dias, não por compactuarem com o nazismo, mas por ser uma memória muito traumática e dolorosa para quem passou por aquilo. Para outros, deve, sim, haver essa lembrança, justamente para não ocorrerem os erros do passado”.
O professor conclui ressaltando: “É importante relembrar e refletir sobre isso, justamente para abominar as políticas desses estados autoritários, segregacionistas e genocidas, como foi o da Alemanha nazista. O Holocausto mostra bem o que o extremismo político é capaz de fazer: criar uma realidade tão tenebrosa como foi o Holocausto”.





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